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RÁPIDO DEMAIS
RÁPIDO DEMAIS
LLEAL

Resumo:
Ansiedade.

Tudo se desenrolara de uma forma mais rápida do que eu esperara.                                       
Naquela tarde chuvosa, eu estava a pensar, em mim, na familia, na fome no futuro, quando a voz invadiu meus pensamentos.
“Então o senhor precisa do empréstimo, correto?”
“Sim senhor, muito”
Ele olha para trás, como se alguém tivesse entrado e estivesse ouvindo a conversa, se endireita na cadeira, me olha de modo suspeito, mas não diz mais nada, nem para explicar, nem para continuar.
Era dificil dizer se ele tinha quarenta ou cinquenta anos, porque era todo careca, e os poucos fios que restavam, estavam penteados horizontalmente sobre a cabeça grande.
Fingi estar tranquilo, apesar do frio que sentia no coração e a comichão na parte central de meu corpo, e me mantive imóvel, controlando a respiração, qualquer movimento diferente poria um ponto final a tudo, num instante!
Ele fez um gesto afirmativo com a cabeça, parecendo concordar com o tratamento cerimonioso que eu estava lhe dispensando, e desviando os olhos, olhou para baixo, na direção dos papéis que mantinha firmemente preso nas mãos e sua testa que parecia dividida em duas metades redondas que se encontravam no meio, unidas por uma ruga profunda que descia até o nariz, desapareceu por alguns segundos.
Durante um longo tempo, enquanto a comichão devorava as entranhas de minha barriga, fez-se silêncio na sala pequena e mobiliada com modernidade.
No silêncio suspenso, ele manteve a cabeça grande demais, com lábios muito finos e barba preta, abaixada, examinando com proposital lentidão os papéis que tinha a sua frente, a mão direita a virar página após página, com proposital lentidão, enquanto a esquerda brincava com o lóbulo da orelha esquerda num ritmo angustiante.
Quando finalmente pareceu terminar a leitura daquilo que lhe interessava, levantou os olhos, arrumou os óculos quadrados, com aros de metal ornados com lentes espessas e sujas e os manteve presos a mim e, por um instante pensei ter visto um sinal de preocupação em seu olhar, mas calmamente ele retomou nossa conversa, como se não tivesse havido interrupção alguma.
“Bem, senhor Fernando, nosso banco possui um sistema muito rigido de normas quando se trata de empréstimos. Não acha que vai ter dificuldades em pagar as prestações?”
Encarando os dois olhos enormes que me observavam por trás das lentes, comecei a falar, mas hesitei, sentindo a comichão, perigosamente espalhar-se por toda a extensão de meu volumoso estômago.
Precisava fazer algo, mas não me atrevia a mover as mãos.
Ele alisou a barba, no rosto transformado em um gigantesco ponto de interrogação, aguardando por minha resposta e parecendo ter todo o tempo do mundo, ficou a olhar fixamente para algum ponto perdido no teto escuro, como se estivesse pondo em ordem os pensamentos, enquanto, em meio a agonia da coceira que atravessava minha garganta, dilacerando-me as cordas vocais, gaguejei algo como:
“Be..be..bem...na verdade...digo...na verdade... eu acho que posso pagar as prestações sem maiores dificuldades.”
Quase fora de mim, pois lutava contra o tempo e sabia que estava perdendo, em pleno desespero cruzei e descruzei as pernas e a seguir os braços, tentando impedir que o desastre acontecesse, percebendo que ele estava ficando cada vez mais impaciente com a minha falta de decisão.
“Sim. Posso pagar as prestações.”; respondi, mais uma vez a mesma pergunta, desta vez com voz decidida, tentando mostrar firmeza na voz, reprimindo a coceira que agora cerimoniosamente instalara-se em meu nariz, enquanto observava ele balançar a cabeça, enrugar o nariz, erguendo o lábio superior e revelando cinco largos dentes superiores, todos do mesmo tamanho, sem nada dizer.
Notei que seus olhos agora estavam pousados em minha camisa de dois bolsos, puída e manchada.
Então ele deu de ombros, girou um olhar nervoso em volta e com o espasmo facial mais violento que já vi, os olhos se abrindo e fechando, as sobrancelhas dançando e os lábios tremendo ele falou:
“Sinto muito, senhor Fernando, mas o senhor sabe...o banco...as regras...precisamos de garantias, ou seja, não podemos conceder-lhe o empréstimo apenas com estas informações.”
Abri a boca como se fosse reclamar, mas resolvi esperar.
Ele hesitou um pouco, riu timidamente, como se fosse a pessoa mais engraçada do mundo, deu de ombros novamente e disse:
“Sinto muito.”
Impressionado com sua franqueza, inclinei-me para que ele não pudesse me ver a desesperadamente coçar o a barriga, olhei para o relógio, gemi e saquei o revolver, apontando diretamente para seus olhos do tamanho de pires.
Como eu disse, precisava do empréstimo.
“Sinto muito, também, senhor.”; eu digo, antes que o cabeça de abobora, tivesse tempo de rosnar ou gemer
E assim, sem garantias, comecei minha carreira de assaltante.
“294, visita para você”; ouvi a voz chamar no silêncio de minha cela
“Estou indo”; respondi
E assim, enquanto caminho pelo labirinto de novas alas e anexos da penitenciária, penso no quanto fora rápida minha carreira de assaltante.
Rapida demais.


Este texto é administrado por: luis carlos binotto leal
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