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Pão de Ló
Gladyston costa

O céu cinza pela manhã encobre o sol que se espreme entre as nuvens de chumbo, é possível ver de cima do viaduto. O cheiro do café fresco não é suficiente para trazer à memória os tempos de leveza da juventude. Os olhos dialogam com as luzes vermelhas dos carros em marcha lenta á frente, toneladas de ferro sobre o frio asfalto da cidade a conduzirem vidas solitárias. Atrás do volante o corpo ainda reclama a cama que ficou para trás e se intoxica com a rotina que se apresenta, tão repetitiva quanto às luzes das lanternas dos carros pela avenida. Vidas represadas e solitárias presas em uma bolha de aço. A face mascada pelo tempo e os fios brancos do cabelo decoram o espelho retrovisor, reflexo mudo de uma vida engolida pela razão contida nas linhas retas dos edifícios e calçadas, prêmios concebidos pela ganância do homem. O céu sem cor e o vento frio e sem graça nessa manhã de outono, em São Paulo, não trazem à mente o conforto da boa imaginação, onde os sonhos ganham vida, os bons sonhos de tempos do vigor juvenil. Os olhos de pouco brilho e o corpo pesado e sonolento, aprisionados na rotina apenas coexistem com sonhos abafados e distantes. A manhã é cinzenta na cidade, as pessoas em seus pequenos mundos particulares seguem pela avenida em ritmo lento, porém acelerado pela vida capital concedida pelo deus mercado com suas bolsas de valores. É congruente a solidão por trás do volante com a companhia muda das notícias que vem do rádio... Um travesti morto na madrugada, mais um caso de peste na malásia, o dólar subiu, o governo vai mal, trânsito na cidade. Na avenida o semáforo abre, as buzinas gritam, o fluxo segue lento, as pessoas surtam e a vida é engolida. Os lapsos de memória que vem com a pouca luz que brilha do quase sol que surge, transgride a rabugice da manhã cinza... Muito antes, os pés mal tocavam o chão naquela corrida pelo campo, o corpo leve parecia voar e o vento tocava o rosto com intensidade crescente. Os semblantes com sorrisos juvenis pululam e os bilhetes e beijos são doces como mel na memória. Um Oásis nesse mais um dia de rotina que começa na cidade. Um pão de ló com uma bela cobertura de chocolate ou outra guloseima qualquer, é assim que a vida por vezes se apresenta. Come-se primeiro o doce para mais tarde se chegar ao miolo de obrigações da vida de gente séria e responsável, com suas contas e impostos a pagar. A racionalidade matemática da vida, com seus céus cinza em manhãs cáusticas, é uma armadilha em meio aos sonhos juvenis. Tem que se transgredir a lógica da vida, como ela tem sido, e não perder de vista o vento livre que bate na cara e o sol por trás das nuvens de chumbo. Os dias escravizados pela rotina são uma opção cega e falsa, uma verdadeira armadilha entre os sonhos juvenis e o futuro de uma vida plena de felicidades. O bolo da vida com seu recheio na superfície deve ser colocado em um liquidificador, misturados o vento da juventude, dos beijos atrás do muro, das corridas pelo campo, e dos sonhos sem fim, devem ser comidos do início ao fim para que a vida realmente seja vivida.

Gladyston Costa


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