Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Esporádica companhia
Gladyston costa

Os vidros da janela embaçados de vapor encobrem a imagem da rua lá fora, faz frio e choveu a noite toda. Desde a madrugada o barulho da chuva vem decorando o semblante desta sexta feira nesta meia estação conhecida por outono. O asfalto molhado faz ecoar o som dos pneus plagiando o barulho do mar, um pequeno rastro de lembrança, quando as ondas quebram, chuva fina e a praia deserta. Tempos atrás nessas noites, costumava descer a avenida no início da madrugada até o centrinho comercial, caminhadas solitárias são combustível para a memória e imaginação. Em São Paulo nas noites de frio e garoa, as ruas por vezes estão vazias de gente, apenas os automóveis passam monotonamente e se enquadram na paisagem. Em meio ao caminho casas antigas intercaladas por prédios novos com suas linhas retas e racionais são uma contenda entre o presente e o passado. Sempre tive uma preferência indisfarçável pelas construções antigas com suas paredes, portas e janelas velhas repletas de contos e histórias. No portão de uma dessas casas velhas, vez em quando, uma senhora costuma desejar boa noite. A casa branca de muro cinza com balaústres de concreto e portão com grades de ferro tinha um pequeno jardim com pé de romã, rosas e margaridas. A varanda com uma pequena mureta e as portas e janelas de madeira, estilo barroco, não deixam dúvida quanto ao tempo transcorrido. Aquela velha senhora, um tanto quanto rechonchuda, de rosto branco avermelhado, rugas pronunciadas, e lenço na cabeça, compunha um cenário equilibrado com a velha casa. Certamente pela aparência haveria de ter vindo da Áustria ou Alemanha, possivelmente chegado por aqui no tempo da segunda guerra mundial. Invariavelmente, naquelas noites frias e molhadas ela estava no portão, sempre oferecia uma boa noite e profetizava indagando: - Está indo à padaria? Como quem estivesse apenas buscando atenuar a solidão. Jamais procurei saber, mas sempre imaginei que a velha senhora fosse solitária naquela casa. Sempre tive uma inquietante vontade de parar e prosear, mas nunca o fiz. Algum tempo passou e seguindo a tendência vista pelos bairros antigos da cidade, onde as velhas casas são trocadas na paisagem por prédios novos, a presença de caminhões, retroescavadeira e operários na frente da casa anunciava a sua demolição. Por impulso e quase sem pensar fui até o local, queria saber sobre a moradora, última chance de saber um pouco sobre a esporádica companhia de início de madrugada. Os trabalhadores que já iniciavam a remoção das janelas não souberam informar sobre a senhora e apenas confirmaram que em breve ali haveria mais uma torre de apartamentos. Então procurei nas casas próximas igualmente antigas, encontrei um senhor que, para meu espanto, disse que aquela casa em demolição estava sem morador há décadas, e que uma senhora de origem alemã morrera ali em meados dos anos sessenta, há quarenta anos. O frio na barriga se espalhou para a coluna, as pernas tremeram e os olhos arregalaram. O tempo correu e hoje no local há mais um prédio a verticalizar a cidade.

Gladyston Costa


Biografia:
-
Número de vezes que este texto foi lido: 33770


Outros títulos do mesmo autor

Poesias Coisas e luz Gladyston costa
Crônicas Na janela, a floreira. Gladyston costa
Crônicas Como foi? Foi um sonho meio doido Gladyston costa
Poesias Quase Lua Gladyston costa
Poesias A curruira e o dente de leão Gladyston costa
Poesias O galo e a cidade Gladyston costa
Romance ''Desejo" Gladyston costa
Poesias Uma vida só Gladyston costa
Poesias Novamente o outono Gladyston costa
Poesias Olhos de Vapor Gladyston costa

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última

Publicações de número 21 até 30 de um total de 48.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2020
 
  Textos mais lidos
The crow - The Wiki World - The Crow 33897 Visitas
Amores! - 33890 Visitas
Faça alguém feliz - 33879 Visitas
camaro amarelo - 33870 Visitas
Jazz (ou Música e Tomates) - Sérgio Vale 33851 Visitas
Desabafo - 33850 Visitas
MENINA - 33836 Visitas
A menina e o desenho - 33836 Visitas
sei quem sou? - 33835 Visitas
IHV (IAHU) e ISV (IASHUA) - Gileno Correia dos Santos 33833 Visitas

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última