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| O Silêncio Entre Dois Segundos |
| Um encontro que não termina quando acaba — apenas continua acontecendo dentro da memória |
| Anderson Del Duque Jorge |
Resumo: “O Silêncio Entre Dois Segundos” é uma crônica poética que narra o encontro entre o narrador e uma mulher cuja presença transforma completamente sua percepção do tempo, das palavras e da realidade. Sem precisar de grandes acontecimentos, a história se constrói na sutileza dos gestos, nos olhares e principalmente no silêncio que se forma entre duas pessoas que se reconhecem sem explicação.
O encontro não segue a lógica comum das relações: não há início definido, nem despedida clara. Tudo acontece em um espaço sensorial onde o tempo perde autoridade e o que permanece é a intensidade da conexão.
À medida que a interação avança, o narrador percebe que algumas pessoas não entram na vida para ficar fisicamente, mas para permanecer como presença emocional permanente. Mesmo após a partida dela, algo continua existindo dentro dele — como memória viva, sensação recorrente e ausência que ainda comunica.
A crônica explora temas como destino, memória afetiva e a permanência do que não foi dito, revelando que certos encontros não terminam: apenas continuam existindo dentro de quem os viveu. |
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O SILÊNCIO ENTRE DOIS SEGUNDOS
Por Anderson Del Duque
Há um tipo de silêncio que não nasce da ausência de som.
Ele nasce da presença de tudo aquilo que não foi dito.
Foi nesse silêncio que eu a encontrei.
Não lembro exatamente o dia — e isso não é descuido da memória, mas defesa dela. Algumas lembranças não querem ser datadas, querem ser sentidas. E essa, em particular, ainda me atravessa como se estivesse acontecendo agora, em algum lugar entre o passado e o que eu insisto em chamar de presente.
Ela estava sentada como quem não esperava nada.
E talvez seja por isso que tudo aconteceu.
Porque há pessoas que entram na nossa vida como quem procura algo.
E há outras que entram como quem já encontrou.
Ela era desse segundo tipo.
Não perguntou meu nome.
Não precisou.
Há encontros em que o nome chega a ser um detalhe quase ofensivo — como se nomear fosse pequeno demais para o que está prestes a acontecer entre duas presenças que ainda não aprenderam a se explicar.
— Você sempre observa assim? — ela disse, sem olhar diretamente para mim.
E foi aí que eu percebi.
Ela não falava comigo.
Ela falava dentro de mim.
Respondi qualquer coisa.
Não importa o quê.
Porque naquele momento, as palavras já tinham perdido importância.
O que importava era o intervalo entre elas.
É nesse intervalo que o mundo verdadeiro acontece.
Ela se moveu levemente.
Um gesto simples.
Mas existem gestos que não são simples.
São declarações disfarçadas de acaso.
O perfume dela chegou antes dela.
Como se o ar tivesse desistido de resistir.
Eu deveria ter me afastado.
Isso seria o lógico.
Mas o corpo raramente consulta a lógica quando reconhece algo que não sabe nomear.
E eu reconheci.
Não nela.
Em mim.
A conversa não teve início.
Teve infiltração.
Como água encontrando pequenas rachaduras no concreto.
Ela falava pouco.
Mas cada palavra parecia escolhida não para comunicar — mas para permanecer.
E eu comecei a entender que algumas pessoas não dizem coisas.
Elas deixam coisas em você.
E depois vão embora como se nada tivesse acontecido.
O momento em que nossos dedos se tocaram não teve importância para o mundo.
Mas teve para mim.
Porque o mundo continua sem esforço.
O que não continua é o que acontece dentro de alguém quando percebe que não está mais inteiro.
Não houve choque.
Houve reconhecimento.
Como se aquele toque já tivesse acontecido antes, em algum lugar onde o tempo não sabe entrar.
Ela não se afastou.
Eu também não.
E, naquele pequeno espaço onde a distância deixou de existir, algo começou a se desfazer em mim.
Não de forma violenta.
Mas inevitável.
Como tudo o que é verdadeiro.
— Você parece alguém que está sempre indo embora — ela disse.
E eu ri.
Não porque era engraçado.
Mas porque era preciso admitir que ela estava certa.
Há pessoas que nunca chegam.
E há outras que chegam tarde demais dentro da gente.
O tempo deixou de ser importante naquela tarde.
Não porque parou.
Mas porque perdeu autoridade.
Ele ainda existia lá fora.
Nos relógios, nas ruas, nas pessoas que fingiam estar ocupadas.
Mas entre nós, ele não tinha permissão para entrar.
Quando ela se levantou, não houve despedida.
Porque despedidas exigem um tipo de posse que nós nunca tivemos.
Ela apenas olhou.
E naquele olhar havia algo perigoso.
Não era promessa.
Era permanência disfarçada de ausência.
— A gente se encontra por aí — ela disse.
Mas havia uma contradição nisso.
Porque eu tinha a sensação de que nunca tinha deixado de encontrá-la.
Hoje, quando penso naquele dia, não penso nela como alguém que passou.
Penso como alguém que ficou sem ficar.
Como certas músicas que a gente não ouve mais, mas continuam tocando em algum lugar dentro da gente, sem pedir permissão.
E entendo, enfim, que existem encontros que não acontecem no mundo.
Acontecem naquilo que o mundo não consegue apagar.
E talvez seja isso que chamam de destino.
Ou talvez seja apenas a forma mais sofisticada que o silêncio encontrou de nunca nos deixar sozinhos.
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Biografia: Anderson Del Duque Jorge, é um produtor de conteúdo audiovisual ativista e jornalista , nasceu em Sumaré no dia 28 de julho de 1978 na cidade de Sumaré SP, filho de Abadia Salete Piedade Del Duque Jorge (cozinheira) e de Felismino custódio Jorge (servente de obras) tem em seus trabalhos filmes como O TAXIDERMISTA |
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Publicações de número 1 até 10 de um total de 19.
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