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Aquilo que Fica Quando Você Se Vai
As palavras que não foram ditas ainda podem salvar quem ficou
Anderson Del Duque Jorge

Resumo:
Após perder o pai de forma repentina, Lucas carrega um peso devastador: a última coisa que disse não foi “eu te amo”, mas uma promessa vazia de um “depois” que nunca chegou. Consumido pelo arrependimento, ele retorna à casa da infância para organizar os pertences do pai, acreditando que encontrará apenas silêncio e ausência. No entanto, dentro de uma simples caixa, descobre dezenas de cartas escritas ao longo dos anos — todas destinadas a ele, para momentos específicos da vida. Através dessas palavras, Lucas passa a conhecer um pai que nunca soube expressar seus sentimentos em vida, revelando um amor profundo, ainda que silencioso e imperfeito. À medida que lê cada carta, a dor da perda se transforma em compreensão. O luto deixa de ser apenas ausência e passa a ser também presença — nas lições, nos gestos e nas escolhas que ele decide fazer a partir dali. Diante disso, Lucas entende que não pode mudar o passado, mas pode transformar o que ainda resta: ele começa a dizer o que sente às pessoas que ama, quebrando o ciclo de silêncio que marcou sua história. É um romance profundamente emocional sobre arrependimento, reconciliação e permanência, mostrando que o amor não termina com a morte — ele continua vivendo nas atitudes de quem ficou.

AQUILO QUE FICA QUANDO VOCÊ SE VAI
Por Anderson Del Duque
Na última vez em que viu seu pai, Lucas não disse “eu te amo”.
Disse “depois a gente conversa”.
E existem frases que carregam uma crueldade silenciosa: elas parecem inofensivas no momento em que nascem, mas se transformam em eternidade quando não há mais tempo para corrigi-las.
O telefone tocou naquela noite como todos os telefones tocam antes de mudar uma vida: insistente demais para ser ignorado, frio demais para ser apenas acaso.
Hospital.
Urgente.
Agora.
Lucas chegou atrasado.
Sempre chegava.
Mas, daquela vez, o atraso não era sobre minutos.
Era sobre tudo.
O quarto estava silencioso demais.
O tipo de silêncio que não espera mais nada.
Seu pai estava ali, imóvel, com uma expressão que Lucas nunca tinha visto antes — não era dor, não era paz… era ausência.
— Ele se foi há pouco — disse a enfermeira, com a delicadeza de quem já disse aquilo muitas vezes.
Lucas não chorou.
Ainda não.
Porque o corpo, às vezes, precisa de tempo para entender o que a alma já sabe.
Ele apenas ficou ali.
Parado.
Olhando.
Como se, se permanecesse tempo suficiente, pudesse desfazer aquilo.
Mas a morte não negocia.
Dias depois, Lucas voltou para a casa onde cresceu.
Não por saudade.
Mas porque alguém precisava esvaziar as gavetas.
Encerrar a vida em caixas.
Transformar uma história inteira em objetos.
A casa tinha o cheiro do tempo.
Cada parede parecia guardar uma memória que ele não sabia se queria reviver.
Na cozinha, ainda havia duas xícaras.
Na sala, o sofá onde assistiam televisão em silêncio — um silêncio confortável, que agora doía mais do que qualquer discussão.
Lucas começou pelo quarto.
Era o mais difícil.
E, por isso mesmo, o primeiro.
Dentro da última gaveta, encontrou uma caixa.
Simples.
Sem nome.
Sem aviso.
Ele abriu.
Cartas.
Dezenas delas.
Todas com o mesmo começo.
“Para quando você precisar de mim.”
Lucas franziu a testa.
A primeira carta estava datada de anos atrás.
Ele nunca tinha visto aquilo.
Nunca tinha sabido.
As mãos começaram a tremer antes mesmo de abrir.
“Filho,
se você está lendo isso, é porque eu não consegui estar aí quando você precisou. E, se isso aconteceu, me desculpa.
A vida inteira eu tentei te ensinar a ser forte, mas talvez eu tenha esquecido de te ensinar que você não precisa ser forte o tempo todo.
Você pode cair.
Pode se perder.
Pode chorar.
Só não pode desistir de você.”
Lucas parou.
O ar ficou pesado.
Algo dentro dele começou a rachar.
Porque aquelas palavras… nunca tinham sido ditas em voz alta.
Nunca.
Ele pegou outra carta.
“Filho,
você sempre achou que eu era distante. Eu sei disso. E talvez eu tenha sido mesmo.
Mas não porque eu não te amava.
Eu só nunca aprendi a dizer.”
Lucas levou a mão ao rosto.
As lágrimas vieram sem pedir licença.
Silenciosas no começo.
Depois… impossíveis de conter.
Porque, de repente, ele estava conhecendo o pai pela primeira vez.
E já era tarde demais.
Nos dias seguintes, Lucas leu uma carta por dia.
Como se estivesse conversando com alguém que o tempo levou, mas as palavras insistiam em manter.
Havia cartas para tudo.
Para quando ele tivesse medo.
Para quando sentisse que falhou.
Para quando se apaixonasse.
Para quando perdesse alguém.
E, em cada uma delas, havia um pai que Lucas nunca tinha enxergado completamente.
Um homem cheio de falhas.
De silêncios.
De amor mal expressado.
Mas amor, ainda assim.
E isso mudava tudo.
Em uma das cartas, havia apenas uma frase.
“Se um dia você sentir que não disse tudo o que queria… diga agora, para quem ainda está.”
Lucas ficou olhando para aquilo por muito tempo.
Porque a dor não era mais só saudade.
Era arrependimento.
E arrependimento é uma forma de luto que não tem descanso.
Meses depois, Lucas estava em frente a outra porta.
Desta vez, não era tarde.
Sua mãe abriu.
Surpresa.
— Lucas?
Ele não esperou convite.
Abraçou.
Forte.
Desajeitado.
Necessário.
— Eu te amo — disse, com a voz quebrando no meio.
Ela demorou um segundo para responder.
Talvez por não estar acostumada.
Talvez por não acreditar completamente.
Mas respondeu.
— Eu também, meu filho.
E, naquele instante, algo que estava quebrado… começou a se reorganizar.
Na última carta, havia um pedido.
“Filho,
se você chegou até aqui… obrigado por me ouvir, mesmo depois de tudo.
Mas agora eu preciso te pedir uma coisa.
Pare de viver como se estivesse sempre atrasado.
A vida não é o que você perde.
É o que você ainda pode salvar.”
Lucas fechou os olhos.
E chorou.
Não de dor.
Mas de compreensão.
Porque, finalmente, ele entendeu.
O amor não termina quando alguém vai embora.
Ele muda de forma.
Se espalha.
Permanece nas coisas pequenas.
Nos gestos que você decide fazer diferente.
Nas palavras que você escolhe não guardar.
Anos depois, Lucas ainda volta àquela casa.
Não para lembrar da morte.
Mas para agradecer pela vida que veio depois.
As cartas estão guardadas.
Não como um símbolo de perda.
Mas como prova de que, mesmo quando o tempo falha…
o amor encontra um jeito de ficar.
E talvez seja isso.
Talvez o que mais importa não seja o que você diz antes de alguém partir.
Mas o que você decide fazer depois que entende que não há mais depois.
Porque algumas pessoas vão embora.
Mas deixam, em quem fica…
tudo o que é preciso para continuar.


Biografia:
Anderson Del Duque Jorge, é um produtor de conteúdo audiovisual ativista e jornalista , nasceu em Sumaré no dia 28 de julho de 1978 na cidade de Sumaré SP, filho de Abadia Salete Piedade Del Duque Jorge (cozinheira) e de Felismino custódio Jorge (servente de obras) tem em seus trabalhos filmes como O TAXIDERMISTA
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