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Ela emprestou seus cabelos ao vento.
Em desalinho, logo tornaram-se ninho
onde pássaros, desabrigados,
puderam habitar.
E não pediu retorno —
como quem entende
que há abrigos que nascem
do que em nós já não precisa ficar.
Fez de si pouso breve,
galho firme em meio à travessia,
silêncio que não cobra,
presença que não pesa.
Houve quem chegasse ferido,
com as asas descrentes do voo,
e ali, entre fios soltos e cuidado,
aprendesse, aos poucos, a ficar.
Porque há quem seja assim:
porto sem anúncio,
terra firme no meio da incerteza,
casa erguida no improviso do afeto.
E mesmo quando o vento retorna,
levando consigo o que nunca foi seu,
permanece nela
essa estranha grandeza:
a de quem se deixa desalinhar
para que o outro possa aninhar.
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