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Quando tropeçares na dor,
tomas, por equilíbrio, o amor —
não o que te vestiram às pressas,
nem o que coube, raso, nos dias,
mas o que germina em silêncio,
no escuro fértil do que és.
Caminhas entre presenças
como quem atravessa desertos.
Há em teus passos uma sede antiga,
e em tuas mãos,
o costume de não tocar.
Vestes ausências
como se fossem pele,
e esqueces:
há um idioma de afeto
insistindo em florir em ti.
O amor te ronda —
brisa que não cessa,
luz que se deita nas frestas —
mas teus olhos, por defesa,
aprendem a não ver
o que mais te chama.
Amar-te é regressar.
É desatar, um a um,
os nós herdados do silêncio.
É dizer teu nome
como quem acende uma casa
há muito apagada.
E então percebes:
nunca foi falta de amor —
foi vertigem de abismo,
foi medo de caber na própria luz.
E assim, ele permanece.
Inteiro.
À espera do instante em que,
tropeçando na dor,
te equilibres no amor.
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