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A história das sacolinhas plásticas já está se transformando em confusão. De tempo em tempo, mudanças, liminares e outros blablablas. No início, muita gente era pega de surpresa: se não levava a sua sacola de casa, tinha que pagar pelas sacolas biodegradáveis. Agora, a coisa fica indefinida e os consumidores, meio perdidos – “levo ou não a sacola de casa?”. Se hoje você vai ao supermercado e se depara com sacolas, biodegradáveis ou não, no outro dia pode ser pego desprevenido. Todo esse “vai-não-vai”reflete a briga das grandes redes de supermercados com o Procon e com institutos ambientais em geral.
Veja bem: no final de junho, as empresas em São Paulo receberam notificações para a volta da distribuição das sacolas plásticas e tinham 30 dias para iniciarem a distribuição das sacolas biodegradáveis. Esse prazo venceu ontem. Mas as redes de supermercados, muito estrategicamente, ignoraram a ordem judicial. Preferem aguardar a audiência de hoje, na 27.ª Câmara de Direito Privado, relativa a quatro recursos que tentam novamente banir a distribuição das sacolinhas plásticas. Como já se poderia imaginar, a Associação Paulista de Supermercados (Apas), o Grupo Pão de Açúcar, o Grupo Sonda e o Carrefour são responsáveis pelos recursos.
Já em Belo Horizonte, onde a distribuição das sacolas descartáveis já era proibida desde abril, os estabelecimentos passaram a vender as sacolas biodegradáveis a 19 centavos. Mas, de acordo com o Procon, não houve benefício ambiental com a mudança, já que não existem usinas de compostagem para as sacolas ecologicamente corretas. As embalagens, possivelmente, não seriam totalmente biodegradáveis. Além disso, a venda estaria afetando a livre concorrência e prejudicando os consumidores. Portanto, a venda das sacolas biodegradáveis será proibida partir de amanhã. Os comerciantes podem recorrer à decisão, claro. Por enquanto, os estabelecimentos poderão distribuir o material gratuitamente.
Para alguns governos, a melhor forma de combater a poluição é cobrar pelas sacolinhas. Quanto às redes de supermercados, não há dúvidas que a venda é o melhor. Em nota, a Apas contesta: ”O problema ambiental causado pelas sacolas descartáveis não está relacionado exclusivamente ao material utilizado para sua fabricação, mas também ao enorme volume de sacolas descartáveis distribuídas e ao seu descarte inadequado, entupindo bueiros e gerando enchentes”.
É fato que a preservação do meio-ambiente é indispensável e benéfico a todos. Não questionemos isso! É fato também que a distribuição gratuita de sacolas colabora bastante com o processo de poluição. Mas essa história das sacolinhas ainda tem muitas lacunas que podem dar no que falar! Tudo isso seria mesmo uma questão de educação ambiental? As grandes redes de supermercados não estariam se importando nem um pouquinho com redução de gastos e aumento de lucros? Depois que a proibição das sacolas descartáveis possibilitou o corte de gastos, para quê gastar dinheiro com a distribuição de sacolas biodegradáveis (a saber, mais caras que as descartáveis), se tem como faturar com elas? Não lhe ocorre, consumidor, que é assim que as empresas pensam?
É necessário enxergar as coisas de uma forma mais crítica: questão ambiental ou mercadológica? Muito me admira que as redes de supermercados estejam tão preocupadas com a “preservação da natureza”… na verdade, desconfio. Com um pouquinho mais de malícia, ainda me arrisco: dá para descartarmos um possível favorecimento de empresas por algumas governantes?… Acho que não, mas melhor deixar quieto. De qualquer forma, e não poderia ser diferente, o consumidor é sempre – e parece estar fadado a ser – o maior lesado.
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