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A realidade do motorista das estradas vem se mostrando muito problemática. Além das dificuldades que o caminhoneiro enfrenta com endividamentos sem fim, decorrentes do financiamento de seus veículos, existe ainda a questão da qualidade de vida nesse setor de trabalho, também merecedora de muita atenção.
Exemplo disso é a paralisação que começou na última quarta-feira, dia 25. Na manifestação, que dura até agora, está em foco a Lei Federal 12.619, que obriga o descanso de 11 horas a cada duas jornadas e 1 hora a cada 4 horas de trabalho. A fiscalização é feita pela Polícia Rodoviária Federal e, caso haja desrespeito, o motorista será punido com multa. Os caminhoneiros alegam que as estradas não possuem infra-estrutura para o cumprimento da lei e pedem que a sua vigência seja adiada por um ano. Entre as reclamações, citam situações em que são obrigados a parar para descansar em acostamentos dentro das cabines, sem o mínimo de conforto ou segurança.
Nessas horas, porém, é necessário uma visão um pouquinho mais crítica e analítica. Nem tudo é o que parece: as Confederações Nacionais dos Trabalhadores em Transportes (CNTTs) afirmaram que essa manifestação tem participação direta de empresários, ou seja, trataria-se de uma greve patronal (um “locauto”). Donos de empresas de todo o país estariam apoiando ativamente a paralisação e, em algumas regiões, há denúncias de que empresários estariam até forçando os funcionários a aderir à greve. Para quem não sabe, a greve patronal é proibida pela Lei Federal 7.783. Tendo como base essa proibição, um dirigente de uma das confederações encoraja os caminhoneiros a denunciarem aos seus sindicatos os empregadores que estejam “pressionando”. De acordo com o dirigente, as empresas fazem com que os empregados rodem de 15 a 20 horas sem descanso e de forma abusiva! O intuito deles é sempre o de reduzir os custos da abertura de novos postos de trabalho.
Bom, a verdade deve ser investigada. O fato é que tendo ou não influência das empresas na manifestação, a vítima é, sem dúvidas, o caminhoneiro. É uma situação difícil: se por um lado os caminhoneiros necessitam de descanso (isso é inegável), por outro, realmente não há infra-estrutura alguma! Dormir dentro de cabines, além de desconfortável, pode ser perigoso, haja vista tantos assaltos que acontecem nas estradas. Não ter um local de higiene pessoal é também prejudicial à qualidade de vida do trabalhador. Mas também ser forçado a fazer greve e ter que manter-se desperto e alerta, custe o que custar (muitas vezes, até à base de drogas) é um risco de acidente sem igual, além de ser tarefa indigna ao motorista. Dirigir durante horas é muito cansativo!
Diante de tudo isso, o que percebemos é que o caminhoneiro vira um peão em um tabuleiro de xadrez na briga entre confederações e empresas. Lembremos, entretanto, que embora um peão aja de acordo com interesses de peças superiores, é de imensa importância, já que é quem protagoniza o alcance dos interesses. Dessa forma, o caminhoneiro, ao tomar ciência da sua importância, não deve se omitir. Uma vez ciente e indignado com o possível jogo de manipulação constante em que está inserido, o caminhoneiro deve sanar as suas dúvidas – nessas horas, é de suma importância buscar o conhecimento específico de um advogado – e, como qualquer trabalhador, defender com unhas, dentes e bastante “carga” de energia os seus direitos!
O que mais admira é que, diante toda essa problemática existente em torno da greve, os noticiários só falem de congestionamento e incômodos resultados dela. Mas deixa estar, afinal “pimenta nos olhos dos outros é refresco”.
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