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Pretérito mais-que-perfeito
Flora Fernweh

Não basta uma lembrança perfeita, o bom passado é a mais que perfeita recordação. Não se contenta em se trancar na jaula com o cadeado da resistência poética, não espera uma memória desocupada para subir à mente e dela se apoderar com a chave pesada de sua emoção ou de seu remorso. O mais legítimo representante da legião nostálgica, aquele que mergulha no mar sem espumas das horas vagas da noite sem fim e sem começo, não é aquele que remói cada fresta do que foi e que jamais voltará a ser, e que é facilmente identificado por qualquer outro como ele. A verdadeira nostalgia está impregnada pelos ares repentinos de um sonho futuro, o exercício de lembrar se inicia antes do momento que um dia ele migrará para a caverna do eterno ontem. Sim, o verdadeiro homem que se ocupa do passado e vive em função do que ele ensinou, não apenas o transporta de forma involuntária para o presente, que para ele, pode ser o pretérito de uma vida, mas idealiza seu futuro, desafiando a rima do tempo e a métrica de seu limite, personifica o que ainda será e o ornamenta com a perfeição intocada em que um dia se transformará. Eis a grande diferença, o homem comum olha para frente com as lentes da oportunidade de um bem-viver, enquanto que o horizonte do ser nostálgico não se estagna simplesmente no que foi, não se estabiliza, está além de qualquer linha, pois a única certeza que tem diante de um futuro tão inexato, é a de que logo tudo não passará da visão do mundo na perspectiva da serra que o vê de cima, o que resta é construir a história ansiosa do depois de amanhã com a lembrança querida do amanhã que se converterá em ontem. Por que somos tão afoitos em capturar momentos a fim de que se transformem em memória? a resposta é certeira e até rima: porque queremos ser história. Escrever amores, aventuras e batalhas, viver para contá-las, isso move o ser humano, bem sabe ele de suas limitações em se tornar eterno, os registros são a melhor lembrança que o mundo já caduco dispõe, e a melhor maneira de alcançar o posto da imortalidade de suas ideias. O passado ainda é o motor do mundo, e será até o dia em que esperança e lembrança rimarem e se fundirem como amantes. Os homens que se dedicam à história dos povos e dos tremores, devem entender do que falo, há peças vivas no que já foi, que se encaixam no hoje e no agora. Seguir em frente e ignorá-lo seria sinônimo de perda de uma vasta sabedoria remanescente. O futuro está aí, na ponta de um passado inacabado, precisamos de tudo aquilo que está em seu poder, ele é a lembrança pura de um dia que ainda não chegou, e não é, mas que simplesmente, já se foi, como tudo se vai, como tudo que fica.


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
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Poesias NORDESTE D'AMOUR Flora Fernweh

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