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No fim da madrugada o senhor Calam passou pelo Caminho do Rio na esperança de encontrar a casa do amigo Vicente a fim de descansar, tomar um café gostoso, prosear e brincar com a menina Lira. Mas qual foi a sua surpresa, a casa estava fechada, portão amarrado, o quintal cheio de folhas secas à mercê do vento. Olhou... Olhou... Chamou. Jogou pedrinhas no telhado para ver se alguém atendia. Nada aconteceu. Tudo indicava que não havia ninguém morando mais naquela velha casa Seu Calam resolveu andar um pouco mais. Enquanto caminhava também pensava: Onde estaria morando a menina.Queria tanto implicar, chamá-la de Colosso só pra ver a cara que ela ia fazer depois de tanto tempo sem me ver. .Quando a vi pela última vez estava com sete anos, ainda encegueirada no peito da sua mãe. Agora deve ter o dobro da idade.Não ha de ser nada. Logo, logo, chegarei no armazém.Seu Vicente deve estar lá, e então ficarei sabendo as novidades de todos.
Ainda distante, no Largo da Madame, Calam avistou Seu Vicente varrendo a calçada do armazém. Aproximou-se gritando:
_ Olá velho! O que ouve? Vocês se mudaram ou estão se escondendo dos amigos?
_ Desculpe. Fomos morar no Carapiá, bem perto do meu filho Antônio.
_Eu que te peço desculpas por ter sumido tanto tempo, você sabe como são as minhas andanças...
O velho Vicente continuou explicando o motivo da mudança:
— A gente estava resistindo bem às investidas de desapropriação de nossas terras por Salomão Manella. Mas depois do assassinato do amigo Mário Vaz, a situação se complicou bastante.Logo tivemos que tomar uma decisão, ficar e brigar feio para matar ou morrer com o grileiro ou vender por pouco ou quase nada e tocar a vida em outro canto. Isabel deixou a família, e desta vez foi definitiva sua saída.
_ Que nada. Ela sempre volta...
_ Desta vez tenho minhas dúvidas, saiu por causa de religião. Acompanhou as irmãs da igreja Assembléia de Deus. _ É velho, não deve estar fácil! _ Amigo Calam, é como diz o ditado: miséria pouca é bobagem. Fiquei com Lira, menina virando moça naquela casa sem recursos e sem orientação de uma mulher mais experiente, a irmã com o dobro de sua idade poderia ajudar, mas vive na casa da irmã mais velha, você sabe bem que moça gosta de luxo e lá tem luz elétrica, asfalto nas ruas, bailes...Dessa maneira Lira foi obrigada a assumir a casa sozinha com menos de dez anos.Chorou muito por causa da mãe, no momento está mais conformada toda semana leva doces, leite e uns trocados para a mãe que faço questão de mandar... Vivemos juntos tantos anos, com enormes sacrifícios, quando chega à hora de sossegar o espírito a mulher acha de ir pra igreja salvar a alma.
_ Velho... Ter fé, sempre é muito bom! Apesar de não freqüentar nenhuma religião, acredito plenamente em Deus e nessas minhas andanças, converso com ele. E’ como se eu falasse e o meu pensamento respondesse.Não sei se você entende.
_Eu sei.Também penso e ajo dessa maneira.O que seria de mim se não conversasse com Deus? O que me entristece e o fanatismo, largar tudo que construiu e aceitar morar na casa de estranhos que possuem menos do que ela.
_ E’ um caso sério, meu velho! Mas, e a menina? Fale mais dela.
_ Lira chorou muito, principalmente ao entardecer. Sabe como é criança...Com medo do escuro, não alcançava fazer comida no fogão à lenha. Suas mãos, pequenas e franzinas não conseguiam lavar as pesadas roupas. Estava acostumada a ajudar a mãe na limpeza da casa, lavar as vasilhas, fazer mandados...
_Êta! Velho! Dessa maneira fica difícil meu Colosso assumir a casa sozinha.
_ E’ Calam, por esse motivo Antônio resolveu fazer nossa mudança para perto da casa dele. Lá é longe do armazém. Mas o que se há de fazer? Todo sacrifício é válido por uma causa justa e nesse caso foi mais do que justo. Além do mais estou com meu irmão doente, precisando ser operado. O coitado se urina dia e noite. Mas agora está tudo bem. Estamos instalados ao lado da casa do Antônio. A nora por perto dá um pouco de tranqüilidade à menina. A casa está em construção, tem luz elétrica, fogão a gás, o que facilita bastante a vida de Dondon.
_ Se foi para melhor, velho, fico satisfeito. Sabe como é a... O costume do cachimbo? Desta vez vim lá pelo caminho dos cajueiros para beber água fresca, tomar café, prosear e zoar a menina.
_ Menina? Vai nessa! Tá moça feita, namorando e tudo.
_ Não me diga, velho! Vou lá. Só pra ver meu Dondon. Dondon não! Eu sempre a chamei de Colosso. Quero ver ela ficar brava.
Quando chegou na casa de Lira não teve coragem de gritar como de costume. Limitou-se a bater palmas. Como demorou em ser atendido sentiu um impulso de gritar: Colosso! ...Colosso!... Não reconhece a voz do seu amigo? Não teve coragem, afinal ali não era o sítio do Caminho do Rio. O loteamento tinha casas muito próximas umas das outras separadas apenas por um muro baixo. Qualquer barulho poderia ser ouvido por todos.Pelo horário devia ter muita gente ainda dormindo. Havia algumas crianças sonolentas brincando nas calçadas, mas o silêncio da manhã ainda se fazia presente. Calam resolveu aguardar. Lira caminhou até o portão... Irreconhecível... Aquela menina com quem tantas vezes brincara, com barquinhos de papel no valão dos patos, já não era a mesma. Tinha crescido, agora uma jovem de estatura média, não mais jogava os braços para os lados ao andar, caminhava com elegância. Em lugar do antigo rabo-de-cavalo, um belo arco emoldurava seus cabelos longos que desciam até, os ombros.
_ Bom dia, Seu Calam!
_ Você demorou tanto para me atender que pensei que não quisesse mais me ver.
_ Nada disso. O senhor me desculpe, E que eu estava... Ah! Vamos! Entre! Os meninos já estão de pé.
_ Que bom, vou poder rever os dois.
_ Então entre de pressa.
Enquanto caminhavam a distancia entre o portão e a casa, Calam não a chamou de Colosso, mas teve vontade de gritar que ela estava colossal. Não faltaria oportunidade de declarar sua admiração diante de tanta beleza.
Lira sentou-se comedida, consciente de um bom comportamento à mesa.
_ Olá, lambões! Disse ela em tom de brincadeira, dirigindo-se aos irmãos _ Como vai essa bagunça?_ Logo que passou o olhar na desordem, pediu que Seu Calam se acomodasse e tomasse café com eles.
Na mesa de madeira estava a grande panela de ferro cheia de carne assada e o majestoso bule de ágata fumegante. Ao lado, sardinha portuguesa em conserva e pão cortado irregularmente com a mão. Pratos e talheres por toda parte.O cheiro do molho da carne assada, espalhado no ar misturava-se ao aroma de café recém coado. Calam ficou extasiado com a alegria juvenil dos irmãos. Norival enfiado num macacão de brim azul escuro, alpargatas nos pés, colocou na boca mais um pedaço da suculenta carne, comia com imensa satisfação, o maxilar movimentava-se com precisão, Elias estalando os lábios carnudos enquanto enxugava com miolo de pão o filete de molho que escorria pelo seu queixo.Lira que a tudo observava não pode conter a boca aguar, quando Norival parou de comer apontando a panela de carne, como se só então lhe ocorresse à idéia de oferecer...Não quer comer maninha? Lira sacudiu a cabeça, recusando sorriu. – Já comi o bastante. Entreolharam-se e um trio de risadas espalhou-se no ar daquela manhã. Norival desceu a soleira da porta, arrebatou o caixote pesado, colocou na bicicleta de carga e depois que tomou fôlego, perguntou:
_ Como vão as andanças seu Calam?
_ Agora estou cansado vou sossegar, perdi meus cavalos e minha charrete está quebrada.
_ É mano vamos embora que a gente não pode parar. Acenou com naturalidade. Montou na bicicleta. Elias saiu logo em seguida pedalando outra bicicleta de porte mais leve ultrapassando o irmão com elegantes pedaladas, ouvia-se ao longe os gritos e lamúria de Norival por estar com a bicicleta pesada. A algazarra se misturava ao ar, até a chegada no armazém para um novo dia de trabalho. Norival voltaria ainda várias vezes com a bicicleta pesada para abastecer o pequeno comércio que sustentava a família.
Seu Calam satisfeito e ver todos bem, apesar da vida corrida mediante o trabalho, mas a alegria reinava, despediu-se, dizendo: _Fica com Deus meu Colosso. Lira sorriu...
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