Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Expulso do Jogo
Diego Bernardes

E ninguém é isento do aroma das flores, que quase sempre entorpece os pulmões
   Ninguém respeita alguém que permite ao acaso abrandar seu nome
   Eles são inquilinos da escuridão, paladinos da incerteza com suas cruzes debaixo da tempestade
   Por que buscar conforto na inércia?
   Eu sei que o coração é a dinamite da mente
   Eu sei que admiração é o sopro delicado que cria a bolha
   Eu sei que a decepção intervém na batalha entre o hábito e a novidade
   Mantenho as flores distantes e o ar extraí todo sedativo de seu aroma antes de me atingir
   Que sorte ter sido expulso do jogo...

   E ninguém discorda do uso da esperança, por um temeroso desrespeito ou deformidade no cotidiano
   Todos adaptam sua índole, cerram os dentes para eternas verdades
   Sobreviventes da infecção diária, trapaceados com o sonho de imunidade, antagonistas da realidade
   Eu sei que o desconhecido não se exibe mais
   Eu sei que não é mais seguro seguir um exemplo
   Eu sei que o destino é só um plano B
   Eu sei que as defesas do presente são as atrocidades do passado
   Eu discursei no idioma da violência para que a paz me desse ouvidos
   Mantenho o equilíbrio e não me engasgo com a fumaça da locomotiva
   Eu sei que uma opinião é apenas uma faísca que tenta debochar do sol
   Que sorte ter sido expulso do jogo...

   E ninguém pode ser normal sem possuir alguma ambição
   Velando os números com tanta lascívia, há quanto tempo o musgo selou sua decência?
   Eles desprezam a liberdade de ter em mãos o vazio, confundem torpor com nirvana
   Eu sei onde as mãos frias dos engravatados assediam
   Mas eu sei que não suporto os ecos de um castelo, eu sei que pés descalços acariciam melhor o mundo
   Eu sei que o dinheiro é tutor da paralisia da escolha
   Eu sei que acentuar o efêmero é banalizar a beleza
   Eu sei que essa é uma geração fantasma e eu sei que ela ocupa espaço demais
   Mantenho meu triunfo enquanto cultivo a miséria dos "heróis"
   Eu sei o quanto a ignorância se tornou uma divindade poderosa
   Que sorte ter sido expulso do jogo...

   E ninguém cultiva o respeito perante a vigilância de um Deus exausto e também decepcionado
   Porque acham que o respeito se descobre filho do medo e neto da descrença
   A gratidão deles está num baú abandonado nas profundezas do hipocampo
   Quando a hierarquia vale mais do que a aliança, quando genocídio é sinônimo de lealdade
   Eu ainda sei sorrir para o céu nublado
   Eu agradeço por compreender tão pouco, por isso não prezo pela ausência do inusitado
   E quando me sinto sozinho, o sol perfura as nuvens, os pássaros batem as asas e o vento faz as folhas aplaudirem
   Mantenho o mesmo refrão entre os versos das estações
   Eu sei o quanto tentam deturpar a melodia
   Que sorte ter sido expulso do jogo...

   E ninguém aceita ser ninguém, mas ninguém diz ser alguém
   Enquanto as grades existem, é vergonhoso ser pouco miserável e preservar a nobreza no semblante
   Modificam a bondade para ganhar em dobro aquilo que é compartilhado
   Modificam a maldade para que o talento se torne uma entidade leprosa
   Eu sinto a brisa do Armagedom se aproximando no horizonte
   Eu não me pergunto sobre esse estado de graça
   Agradeço pela aleatoriedade não me instruir excessivamente
   Mantive minha escolha e minha criança brincou do lado menos verde, porém, o mais vasto
   E quando a diversão se tornou uma pauta ideológica
   Que sorte ter sido expulso do jogo...


Biografia:
Diego Bernardes, carioca, indeciso, minimalista, instrumento do incompreensível e tradutor do mistério. Sigo a trilha da ortodoxia de maneira imprevisível e me encanto com detalhes minúsculos e momentos quase imperceptíveis, pois não quero ser limitado pela compreensão. A beleza da vida amadurece na metamorfose do silêncio.
Número de vezes que este texto foi lido: 65675


Outros títulos do mesmo autor

Poesias Expulso do Jogo Diego Bernardes


Publicações de número 1 até 1 de um total de 1.


escrita@komedi.com.br © 2026
 
  Textos mais lidos
Haikai AA-I - Antonio Ayrton Pereira da Silva 68039 Visitas
O Sábio - Deborah Valente Borba Douglas 67574 Visitas
O que e um poema Sinetrico? - 67173 Visitas
RESENHAS JORNAL 2 - paulo ricardo azmbuja fogaça 66967 Visitas
ENCONTROS E DESENCONTROS - katia leandra lima pereira 66951 Visitas
O LIVRO DE JASPER 3 - paulo ricardo azmbuja fogaça 66888 Visitas
ARPOS - Abacre Restaurant Point of Sale 5 - Juliano 66806 Visitas
A múmia indígena - J. Athayde Paula 66717 Visitas
O LIVRO DE JASPER 2 - paulo ricardo azmbuja fogaça 66568 Visitas
O alvo - Pedro Vieira Souza Santos 66489 Visitas

Páginas: Próxima Última