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  Texto selecionado
o silencio dos inocentes
alfredo jose dias

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Outras obras do autor
O dragão vermelho
Hannibal
Hannibal: a origem do mal


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THOMAS HARRIS

O silêncio dos
inocentes
Tradução de
ANTÔNIO GONÇALVES PENNA

12a EDIÇÃO


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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos
Editores de Livros, RJ.
Harris, Thomas, 1940-H26s O silêncio dos inocentes /
Thomas Harris; tradução 12 a ed. de Antônio Gonçalves
Penna. - 12 a ed. - Rio de Janeiro: Record, 2007.
Tradução de: The silence of the lambs
ISBN 978-85-01-03519-6
1. Ficção norte-americana. I. Penna, Antônio G. II. Título.
CDD - 813
99-0125 CDU - 820(73)-3
Título original norte-americano: THE SILENCE OF
THE LAMBS
Impresso no Brasil
ISBN 978-85-01-03519-6

EDITORA AFILIADA


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À memória de meu pai

Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, de que me
serve isso se os mortos não ressuscitam?
— 1 Coríntios
Preciso olhar para uma caveira num anel, se tenho uma no
rosto?
— John Donne, “Devotions”


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CAPÍTULO 1
Ciência do Comportamento, seção do FBI que trata
de assassinatos em série, fica no andar térreo do edifício
da Academia em Quântico, meio enterrada no solo. Clarice Starling chegou lá afogueada, depois de um rápido percurso desde o estande de tiro em Hogan’s Alley. Tinha
pedaços de capim no cabelo e seu blusão da Academia
do FBI estava manchado porque tivera que se atirar ao
chão sob fogo num exercício de aprisionamento em condições especiais.
Não havia ninguém na ante-sala, de modo que ela
ajeitou os cabelos olhando seu reflexo nas portas de vidro.
Sabia que podia exibir uma boa aparência sem muito esforço. Suas mãos cheiravam à fumaça das armas de fogo
pois não tivera tempo de lavá-las o chamado do Chefe de
Seção Crawford frisava imediatamente.
Encontrou Jack Crawford sozinho no superlotado
escritório. Ele estava de pé à mesa de alguém, falando ao
telefone e ela teve a chance de observá-lo pela primeira
vez após um ano. O que viu perturbou-a.
Normalmente Crawford tinha a aparência de um
engenheiro de meia-idade, com bom físico, que poderia
ter freqüentado a universidade participando no time
de beisebol — jogo em que era um eficiente apanhador,
duro de roer quando bloqueava a cancha. Agora estava
magro, o colarinho da camisa folgado demais e tinha
manchas escuras por baixo dos olhos avermelhados. Todo
mundo que lia os jornais sabia que a seção da Ciência do
Comportamento vinha sendo muito criticada. Starling es-


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perava que Crawford não tivesse bebido, o que, aliás, parecia muito improvável naquele lugar.
Crawford terminou a conversa telefônica com um
curto “não”. Tirou o dossiê dela debaixo do braço e abriuo.
— Starling, Clarice M., bom dia — disse.
— Alô. — O sorriso dela era apenas educado.
— Nada de ruim com você. Espero que minha
chamada não a tenha assustado.
— Não. — Não era inteiramente verdade, pensou
Starling.
— Seus instrutores informam que você vai indo
muito bem, no quartel superior da classe.
— Espero que sim; eles não divulgaram isso — ou
divulgaram?
— Eu os questiono de tempos em tempos.
Aquilo surpreendeu Starling; ela descartara Crawford como um filho da puta de um sargento recrutador de
duas caras.
Conhecera o Agente Especial Crawford quando ele
era conferencista convidado na Universidade de Virginia.
A qualidade dos seminários dele em criminologia fora um
fator de sua vinda para o Bureau. Ela lhe escrevera um
bilhete quando foi aprovada para a Academia, mas nunca
recebera resposta, e durante os três meses em que estava
em treinamento em Quântico, Crawford a ignorara.
Starling descendia de gente que não pedia favores
nem se esforçava para conseguir amizades, mas ficara intrigada e também ressentida com o comportamento de
Crawford. Agora, na presença dele, voltava a achá-lo simpático, o que registrou com pesar.


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Estava claro que algo andava errado com ele. Crawford tinha um talento peculiar, além da inteligência, e Starling observara isso pela primeira vez aprovando seu senso
de cores e a escolha dos tecidos de suas roupas, um problema difícil, dentro dos rígidos padrões FBI para a vestimenta estilo robô de um agente. Agora ele continuava
decente, mas um tanto desmazelado, como se estivesse
mudando de pêlo.
— Apareceu um serviço e pensei em você — disse
ele. — Não é propriamente um serviço, é mais um encargo interessante. Ponha no chão esse material de Berry que
está na cadeira e sente-se. Você declarou na sua ficha que
pretende vir diretamente para a Ciência do Comportamento quando terminar o curso na Academia.
— Correto.
— Você tem bastante prática forense, mas não tem
um passado de atividade policial. Nós exigimos em geral
seis anos, no mínimo.
— Meu pai era um agente de polícia. Eu conheço a
vida policial.
Crawford deu um ligeiro sorriso.
— O que você realmente tem são dois diplomas
superiores, em psicologia e criminologia, e quantos períodos de trabalho no verão num centro de sanidade mental...
dois?
— Dois.
— Sua licença de advogada está atualizada?
— Ainda é boa para mais dois anos. Eu a tirei antes
do seu seminário na Universidade de Virgínia... antes que
decidisse dedicar-me a isto.
— Você foi apanhada no congelamento de admissões.


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Starling fez que sim com a cabeça.
— No entanto, tive sorte; descobri-o a tempo de
me qualificar para uma bolsa forense. Dessa maneira pude
trabalhar no laboratório até que a Academia tivesse uma
vaga.
— Você me escreveu que queria vir para cá, não
foi? E eu não creio haver respondido... sei que não o fiz.
Deveria ter dado uma resposta.
— Certamente tinha muito mais que fazer.
— Você está informada acerca do PAC-VI?
— Sei que é o Programa de Avaliação de Criminosos Violentos. O Boletim da Polícia diz que vocês estão
trabalhando para atender a uma data básica, mas que o
programa ainda não pode entrar em operação.
Crawford concordou com a cabeça.
— Desenvolvemos um questionário. Aplica-se a
todos os assassinos em série conhecidos nos tempos modernos. — Passou-lhe um volumoso bloco de papéis numa encadernação de cartolina. Há uma seção para investigadores e outra para as raras vítimas sobreviventes. O
questionário azul é para o assassino responder se quiser, e
o rosa consta de uma série de perguntas que um examinador faz ao criminoso, observando suas reações e suas respostas. É uma papelada enorme.
Papelada. O interesse pessoal de Clarice Starling farejou qualquer coisa viável como um cãozinho esperto.
Pressentiu uma futura oferta de emprego — provavelmente o enfadonho trabalho de alimentar um computador
com dados insossos. Era tentador ingressar na Ciência do
Comportamento em qualquer função, mas ela sabia o que
acontece a uma mulher se um dia for rotulada como se-


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cretária — o estigma adere até o fim dos tempos. Se havia
uma escolha à vista, queria escolher bem.
Crawford parecia estar numa expectativa — por
certo lhe tinha feito uma pergunta. Starling teve que dar
tratos à bola para lembrar-se.
— Que testes você já empregou? Minnesota Multifásico? Rorschach?
— MMPI, sim; Rorschach nunca — respondeu ela.
— Já fiz Percepção Temática e apliquei em crianças o
Bender-Gestalt.
— Você se apavora cora facilidade, Starling?
— Até agora, não.
— Olhe aqui: nós tentamos fazer entrevistas e examinar os trinta e dois assassinos em série que temos em
custódia, a fim de construir um banco de dados para obter
o perfil psicológico dos casos ainda não solucionados. A
maioria deles concordou em cooperar conosco — penso
que uma grande parte gosta de se exibir. Vinte e sete estavam dispostos a cooperar. Quatro, que estão no “corredor
da morte” dependentes de apelação, negaram-se a falar, o
que compreensível. Daquele, porém, que mais nos interessa, ainda não conseguimos a menor colaboração. Quero
que você o procure amanhã no manicômio.
Clarice Starling sentiu um lampejo de alegria no peito, mas também alguma apreensão.
— Quem é o sujeito?
— O Dr. Hannibal Lecter, o psiquiatra — informou Crawford.
Um breve silêncio segue-se sempre a esse nome,
em qualquer reunião civilizada.
Starling fixou o olhar em Crawford, mas ainda parecia muito calma.


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— Hannibal, o canibal — disse ela.
— Sim.
— O.K., está certo. Fico contente pela oportunidade, mas você deve saber que estou admirada: por que eu?
— Principalmente porque você está disponível —
disse Crawford. — Não espero que ele coopere. Já se recusou antes, mas foi diante de um intermediário: o diretor
do hospital. Eu preciso estar em condições de dizer que
um examinador nosso, qualificado, o procurou e questionou pessoalmente. Existem razões para isso que não são
problema seu. Não me resta ninguém nesta seção para
fazê-lo.
— Você falou amanhã; está apressado. O assunto
tem algo a ver com algum caso corrente?
— Não. Seria melhor se tivesse.
— Você está encrencado: Buffalo Bill e as coisas
que acontecem em Nevada
— Acertou. É a velha história: não dispomos de
bastantes corpos ainda quentes
— Se ele se esquivar comigo, você ainda vai querer
uma avaliação psicológica?
— Não. Estou até as orelhas de avaliações considerando o Dr. Lecter um “paciente inacessível”, e todas elas
diferentes.
Crawford apanhou dois comprimidos de vitamina
C na palma da mão. Dissolveu um Alka-Seltzer num copo
de água gelada e depois os engoliu.
— É ridículo, saiba você; Lecter é um psiquiatra e
escreve para jornais de psiquiatria — artigos extraordinários — , mas nunca sobre suas próprias anomalias. Certa
vez, ele fingiu concordar com Chilton, o diretor do hospital, em se submeter a alguns testes — sentado, com uma


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almofada de tirar pressão no pênis e olhando para fotos
pornô. E foi Lecter quem publicou depois o que havia
descoberto acerca de Chilton, fazendo-o passar por palhaço. Ele responde é de a uma correspondência séria de estudantes de psiquiatria em campos que não têm relação
com o seu caso, e isso é tudo o que faz. Se ele não quiser
falar com você, limite-se a apenas um simples relatório:
qual é a aparência dele, qual o aspecto da sua cela, o
que ele está fazendo. A cor local, por assim dizer. Cuidado
com a imprensa quando entrar e quando sair. Não a imprensa legítima, a imprensa marrom. Eles adoram Lecter,
até mais do que ao Príncipe Andrew.
— Uma dessas revistas sujas não ofereceu a ele 50
mil dólares por algumas receitas? Tenho uma lembrança
disso — disse Starling.
Crawford anuiu com a cabeça.
Estou quase certo de que a National Tattler subornou alguém dentro do hospital, e eles poderão saber que
você está indo para lá assim que eu marcar o encontro.
— Ora, bem — Crawford inclinou-se para frente
até encará-la a uma distância de dois palmos. Ela observou
que seus óculos de meias-lentes disfarçavam as bolsas que
pendiam debaixo dos olhos. Sentiu que Crawford fizera
recentemente gargarejos com Listerine. Agora eu desejo
toda sua atenção, Starling. Você está me escutando?
— Sim, senhor. — disse Starling.
— Tenha muito cuidado com Hannibal Lecter. O
Dr. Chilton, — chefe do hospital de doentes mentais, irá
recapitular com você todo o procedimento físico que deve
adotar. Não se desvie dele. Não se desvie um s6 milímetro, seja qual for a razão. Quando Lecter falar com você,
lembre-se de que estará tentando descobrir algo sobre vo-


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cê. É a espécie de curiosidade que faz uma serpente fixar
os olhos num ninho de pássaro. Ambos sabemos que numa entrevista é preciso ouvir um pouco e falar um pouco,
mas não lhe diga nada de específico a seu respeito. Não
lhe convém que qualquer dos seus assuntos pessoais entre
na cabeça dele. Você sabe o que ele fez com Will Graham.
— Li quando aconteceu.
— Ele atacou com uma faca feita de linóleo quando Will se aproximou demais. Foi um milagre Will não ter
morrido. Lembra-se do Dragão Vermelho? Lecter atiçou
Francis Dolarhyde contra Will e sua família. O rosto de
Will ficou como se houvesse sido pintado pela porra do
Picasso, graças a Lecter. Ele trucidou uma enfermeira no
asilo. Faça seu trabalho, mas não se esqueça do que ele é.
— E o que é ele? Você sabe?
— Sei que é um monstro. Mais que isso, ninguém
pode dizer com certeza. Talvez você descubra, Starling; eu
não a escolhi por acaso. Você me fez algumas perguntas
interessantes quando estive na UVA. O diretor apreciará
seu relatório — se for claro, conciso e organizado. Eu é
que decido isso. E o terei nas mãos às 9:00 de domingo. O.K., Starling, quero um desempenho de acordo com
o figurino.
Crawford sorriu para ela, mas seus olhos estavam
mortos.


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CAPÍTULO 2
Dr. Frederick Chilton, 58 anos, administrador do
Hospital Estadual de Baltimore para Criminosos Alienados Mentais, tem uma comprida e larga mesa sobre a qual
jamais se vêem objetos duros ou pontudos. Alguns dos
membros da equipe chamam-na de “fosso”. Outros não
sabem o que fosso significa. O Dr. Chilton permaneceu
sentado atrás da mesa quando Clarice Starling entrou no
seu escritório.
— Já recebemos muitos detetives, mas não me recordo de nenhum tão atraente — disse Chilton, sem se
levantar.
Starling sabia instintivamente que o brilho na sua
mão estendida era devido à lanolina que ele usava para
fixar o cabelo. Soltou a mão do diretor antes que ele o fizesse.
— É a Srta. Sterling, estou certo?
— É Starling, doutor, com a. Obrigada por haverme recebido.
— Então o FBI está selecionando mulheres, como
todo mundo faz, hem? Ha, ha! — Empregou o sorriso de
fumante que lhe servia para separar as frases.
— O Bureau está melhorando, Dr. Chilton. Sem
dúvida.
— Vai ficar em Baltimore alguns dias? Saiba que
pode se divertir tanto aqui como em Nova York ou em
Washington, desde que conheça a cidade.
Ela desviou o olhar para esquivar-se ao sorriso dele
e percebeu imediatamente que o diretor sentira sua aversão.


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— Estou,certa de que é uma grande cidade, mas tenho instruções para ver o Dr. Lecter e apresentar-me de
volta esta tarde.
— Há algum número em Washington para onde eu
possa lhe telefonar mais tarde, para saber como correram
as coisas?
— Naturalmente. É muita bondade sua pensar nisso. O agente especial Jack Crawford é o encarregado deste
projeto e o senhor poderá entrar em contato comigo através dele.
— Entendo — disse Chilton. Seu rosto, repleto de
manchas rosadas, contrastava com o improvável marromavermelhado de sua cabeleira. — Mostre-me sua identidade, por favor. — Deixou-a ficar de pé durante um vagaroso exame no cartão de identidade. Então o devolveu e
levantou-se. — Bem, o caso não irá levar muito tempo.
Venha comigo.
— Eu supunha que o senhor teria instruções para
mim, Dr. Chilton -— disse Starling.
— Posso fazer isso enquanto caminhamos. — Deu
a volta em torno de sua mesa e consultou seu relógio: —
Tenho um compromisso para o almoço dentro de meia
hora.
Maldição! Deveria tê-lo compreendido melhor,
mais rapidamente. Talvez ele não fosse um completo cretino. Talvez soubesse algo que lhe seria útil. Nada perderia
se tivesse correspondido com um sorriso amável ao avanço dele, embora não fosse boa nisso.
— Dr. Chilton, tenho um encontro marcado com o
senhor, agora. Foi marcado de acordo com sua conveniência, quando pudesse dedicar-me algum tempo. Algo po-


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de surgir durante a entrevista... talvez eu precise discutir
algumas das respostas dele com o senhor.
— Na verdade, na verdade, eu duvido. Ah! e tenho
que dar um telefonema antes de irmos. Encontro-a na sala
de espera.
— Gostaria de deixar meu casaco e meu guardachuva aqui.
— Lá fora — determinou Chilton. — Entregue-os
a Alan na sala de espera. Ele os guardará.
Alan usava a roupa semelhante a um pijama que era
fornecida aos internos. Encontrou-o limpando os cinzeiros com a fralda da camisa.
Passou a língua dentro da boca enquanto pegava o
casaco de Starling.
— Obrigada — disse ela.
— Não tem de quê. Quantas vezes por dia você caga?
— O que foi que você disse?
— Seu cagalhão é muito comprido?
— Bem, eu mesma vou pendurar minhas coisas.
— Se você não tiver nada que a impeça, pode abaixar-se e observar quando ele sai e ver como muda de cor
quando o ar o atinge. Você faz isso? Não fica parecendo
que você tem um longo rabo marrom? — Alan não largava o casaco dela.
— O Dr. Chilton precisa de você no escritório agora mesmo.
— Não, não preciso — disse o Dr. Chilton. — Ponha o casaco no armário, Alan, e não o tire enquanto não
voltarmos. Faça-o. Eu tinha uma secretária em tempo integral, mas os cortes de despesa a levaram. Agora a pequena que introduziu você bate à máquina três horas por


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dia, e neste intervalo eu tenho Alan. Onde andam as garotas de escritório, Srta. Starling? — Seus óculos dispararam
raios em direção a ela. — Você está armada?
— Não. Não estou armada.
— Posso ver sua bolsa e sua pasta?
— O senhor viu minhas credenciais...
— E elas dizem que você é uma estudante. Deixeme ver sua coisas, por favor.
Clarice Starling encolheu-se quando a primeira das
pesadas portas metálicas se fechou com um estrondo.
Chilton caminhava um pouco à frente ao longo do convencional corredor verde numa atmosfera de lisol e distantes batidas de portas. Starling estava zangada consigo
mesma por haver deixado Chilton pôr as mãos na sua bolsa e pasta e, com raiva, pisava forte de forma a poder recuperar-se. Em instantes estava tudo bem. Sentia um controle sólido sob seu pés, como um bom chão de areia numa forte correnteza.
— Lecter nos dá um tremendo trabalho — disse
Chilton sem olhar para trás. — Um guarda leva pelo menos 10 minutos todo dia para remover os grampos das
publicações que ele recebe. Tentamos eliminá-las ou reduzir o número de assinaturas, mas ele fez uma reclamação e
a corte desautorizou-nos. O volume da sua correspondência pessoal costumava ser enorme. Graças a Deus diminuiu quando ele foi superado por outras criaturas nos noticiários. Durante um bom tempo parecia que todo estudantezinho fazendo tese para doutorado em psicologia desejava incluir nela qualquer coisa, vinda de Lecter. Os jornais
de medicina ainda o publicam, mas apenas pelo lado
monstruoso das suas opiniões.


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— Ele publicou um bom artigo, creio eu, sobre o
vício da cirurgia, no Jornal de Psiquiatria Clínica — disse
Starling.
— Você julgou-o bom, hein? Nós tentamos estudar
Lecter. Pensamos: “Aí está a oportunidade de realizar um
estudo que fará história” — é tão raro conseguir um exemplar vivo.
— Um o quê?
— Um sociopata puro, o que obviamente ele é.
Mas o homem é impenetrável, sofisticado em excesso para
os testes convencionais. E, por Deus! — ele nos odeia.
Pensa que eu sou a Nêmesis dele. Crawford foi muito esperto — não é? — usando-a no caso Lecter.
— O que quer dizer com isso, Dr. Chilton?
— Uma mulher jovem para “animá-lo”, creio que é
assim que se diz. Presumo que Lecter não vê uma mulher
há anos — quando muito, pode ter vislumbrado uma das
mulheres da limpeza. Em geral não aceitamos mulheres
aqui. Elas são um problema nas prisões Ora, vá se foder,
Chilton!
— Eu me formei na Universidade de Virginia com
louvores, doutor. Não é uma escola de coquetes.
— Então lembre-se das regras: não enfie as mãos
pelas barras, nem toque nelas. Não entregue nada a ele
exceto papel macio. Nada de caneta ou lápis. Ele tem sua
própria caneta com ponta de feltro. Os papéis que você
passar a ele devem estar isentos de grampos, clipes ou alfinetes. Qualquer coisa só pode chegar às mãos dele pelo
transportador deslizante de comida. E a devolução será
feita pelo mesmo transportador. Sem exceções! Não aceite
nada que ele tente lhe empurrar através das barras. Está
me compreendendo?


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— Compreendo.
Haviam transposto mais dois portões e deixado à
luz natural para trás. Agora estavam além das alas da prisão onde os prisioneiros podiam encontrar-se, num local
onde só havia celas solitárias, sem janelas. As luzes do corredor eram cobertas por grossas grades, como as das salas
de máquinas nos navios. O Dr. Chilton parou embaixo de
uma. Ao se deterem, Starling ainda pôde ouvir por trás da
parede fragmentos de gritos distantes.
— Lecter nunca sai da sua cela sem uma aparelhagem completa para restrição de movimentos e uma mordaça — explicou Chilton. — Vou dizer-lhe por quê. Ele
foi um modelo de cooperação durante o primeiro ano de
internamento. A segurança em torno dele foi ligeiramente
relaxada — isto aconteceu durante a administração anterior, compreenda. Na tarde do dia 8 de julho de 1976, ele
queixou-se de dores no peito e foi levado para o ambulatório. A restrição foi suspensa para tornar mais fácil um
eletrocardiograma. Quando a enfermeira se inclinou sobre
ele, aqui está o que Lecter fez com ela. — Chilton passou
a Clarice Starling uma fotografia com os cantos desgastados. — Os médicos conseguiram salvar um de seus olhos.
Lecter estava todo o tempo ligado aos monitores, mas
assim mesmo quebrou a mandíbula dela para arrancar-lhe
a língua. A pulsação dele nunca passou de 85, mesmo
quando ele a engoliu.
Starling não sabia o que era pior, a fotografia ou a
atenção de Chilton enquanto examinava seu rosto com
olhos curiosos. Ela pensou numa galinha sedenta procurando lágrimas no seu rosto.
— Eu o mantenho guardado aqui — disse Chilton,
e apertou um botão ao lado de pesadas portas duplas de


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vidro de segurança. Um guarda grandalhão deixou-os entrar.
Starling tomou uma dura decisão e parou assim que
passaram pelas portas.
— Dr. Chilton, nós realmente precisamos dos resultados desses testes. Se o Dr. Lecter sente que o senhor
é inimigo dele, e tem uma fixação nisso, exatamente como
o senhor disse, talvez tenhamos mais sorte se eu me aproximar sozinha. O que o senhor acha?
O rosto de Chilton teve um tremor.
— Concordo perfeitamente com isso. Você poderia
tê-lo sugerido no escritório. Eu mandaria um guarda acompanhá-la e não perderia meu tempo.
— Eu lhe proporia isso se o senhor me houvesse
instruído quando ainda estávamos lá.
— Não espero vê-la de novo, Senhorita Starling. —
E para o guarda: — Barney, quando ela terminar com
Lecter, chame alguém para acompanhá-la na saída.
Chilton afastou-se sem olhar para ela.
Agora havia apenas o grande e impassível guarda, o
relógio silencioso por trás dele, seu gabinete gradeado
com um porrete e uma camisa-de-força pendurados administrador, uma mordaça e a pistola de gás tranqüilizante
na mesa. Num suporte havia um aparelho feito um cano
em U para imobilizar os violentos de encontro à parede.
O guarda olhava para ela.
— O Dr. Chilton lhe avisou para não tocar nas barras? — A voz dele era ao mesmo tempo forte e rouca.
Fazia-a lembrar-se de Aldo Ray.
— Sim, ele me avisou.
— O.K. Bem, é a última cela, à direita. Ande no
centro do corredor e não ligue para nada. Você pode levar


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a correspondência dele, será um bom começo. — O guarda parecia particularmente divertido. — Mas ponha-a na
bandeja e deixe rolar. Se a bandeja estiver no lado de dentro, você pode puxá-la, com a corda, ou Lecter pode
mandá-la de volta. Ele não pode alcançar você no lugar
onde a bandeja pára no lado de fora. — O guarda entregou-lhe duas revistas com as folhas soltas, três jornais e
várias cartas abertas.
O corredor tinha uns 30 metros de comprimento,
com celas em ambos os lados. Algumas eram acolchoadas,
com uma janela longa e estreita como uma frecheira, no
centro da porta. Outras eram celas padronizadas de prisão, com uma grade de barras abrindo-se para o corredor.
Clarice Starling pressentia vultos no interior dos cubículos,
mas tentava não olhar para eles. Tinha percorrido mais
que a metade do caminho quando ouviu uma voz sibilante:
— Posso sentir o cheiro da sua boceta.
Ela não deu sinal que tinha ouvido e continuou andando.
As luzes estavam acesas na última cela. Clarice moveu-se para o lado esquerdo do corredor, tentando enxergar o que havia lá dentro, sabendo que os saltos dos sapatos já a haviam anunciado.


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CAPÍTULO 3
A cela do Dr. Lecter ficava bem separada das outras, de frente para um armário embutido, e era especial
também sob outros aspectos. A parte da frente era composta por barras, mas por trás das barras, a uma distância
maior que o alcance de um braço humano, havia uma segunda barreira, uma forte rede de náilon estendendo-se do
chão ao teto e de parede a parede. Por trás da rede, Starling pôde ver uma mesa aparafusada ao chão, em cima
dela uma grande pilha de livros em brochura e jornais, e
ao lado uma cadeira de espaldar reto, também aparafusada
ao chão.
O Dr. Hannibal Lecter estava reclinado na sua cama, folheando uma edição italiana da Vogue. Segurava as
páginas soltas com a mão direita e punha-as ao lado, uma
a uma, com a esquerda. Na mão esquerda o Dr. Lecter
tinha seis dedos.
Clarice Starling parou a uma pequena distância, deixando entre ela e as grades o espaço de um pequeno corredor.
— Dr. Lecter. — Sua voz pareceu adequada aos
ouvidos dela.
O psiquiatra levantou os olhos da leitura.
Por um rápido momento teve a impressão de que o
olhar dele produzia um zumbido, mas o que ela ouvia era
a pulsação do seu próprio sangue.
— Meu nome é Clarice Starling. Posso falar com o
senhor? A cortesia estava implícita na distância que ela
mantinha e no seu tom de voz.


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O Dr. Lecter pareceu pensar, um dedo encostado
nos lábios em bico. Depois se levantou devagar e veio para frente da sua jaula tranqüilo, detendo-se antes da rede
de náilon sem ligar para ela, como se escolhesse uma distância adequada.
Clarice pôde observar que ele era de estatura baixa
e franzina; em suas mãos e braços, a musculatura se destacava como nas dela mesma.
— Bom dia — disse ele, como se tivesse atendido à
porta. Sua voz revelava cultura, mas tinha um ligeiro timbre metálico, possivelmente pelo pouco uso.
Os olhos do Dr. Lecter eram castanhos e refletiam
a luz em diminutos pontos vermelhos. Às vezes esses
pontos luminosos pareciam voar como centelhas para o
centro dos olhos. Seu olhar percorreu Starling de cima a
baixo.
Ela avançou uma distância bem medida em direção
à grade. Os cabelos no seu antebraço se eriçaram e aderiram às mangas da blusa.
— Doutor, temos um sério problema no traçado de
um perfil psicológico. Venho pedir-lhe auxilio.
— “Temos” quer dizer a Ciência do Comportamento em Quântico. Você é parte da gente de Jack Crawford, certo?
— Certo.
— Posso ver suas credenciais?
Ela ficou surpresa. Não esperara por aquilo.
— Mostrei-as... no escritório.
— Quer dizer que as mostrou a Frederick Chilton,
Ph.D?
— Sim.
— Você viu as credenciais dele?


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— Não.
— As acadêmicas não se dedicam a uma leitura
muito extensa, asseguro-lhe. Você foi apresentada a Alan?
Ele não é encantador? Com qual dos dois você preferiria
conversar?
— Para ser sincera, eu diria que com Alan.
— Você pode ser uma repórter que o Chilton deixou entrar por dinheiro. Penso ter o direito de ver suas
credenciais.
— Muito bem. — Ela levantou na mão seu cartão
de identidade.
— Não posso ler a essa distância; mande-o para cá,
por favor.
— Não posso.
— Por que, não sabe se pode fazê-lo?
— Sim.
— Consulte Barney.
O guarda aproximou-se e avaliou a situação.
— Dr. Lecter, vou deixar esse cartão passar. Mas se
o senhor não o devolver quando eu pedir, se tivermos que
incomodar todo mundo e agarrá-lo para reaver o cartão,
vou ficar aborrecido. E se o senhor me aborrecer, ficará
numa camisa-de-força até eu me sentir melhor a seu respeito. Suspendo a comida através do tubo, as roupas de
baixo mudadas duas vezes por dia — tudo a que o senhor
tem direito. E vou reter sua correspondência por uma semana.
— Certamente, Barrey.
O cartão foi para dentro na bandeja e o Dr. Lecter
o expôs à luz.
— Uma estagiária? Aqui diz “em treinamento”.
Jack Crawford mandou uma estagiária entrevistar-me? —


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Bateu o cartão de encontro aos pequenos dentes brancos
e depois o cheirou.
— Dr. Lecter... — começou Barney.
— Sem dúvida. — Pôs o cartão de volta na bandeja
e Barney puxou-o para fora.
— Ainda estou treinando na Academia, é verdade
— disse Starling — , mas não estamos discutindo o FBI,
estamos falando de psicologia. O senhor pode decidir por
si mesmo se eu sou qualificada sobre o assunto de que
estamos falando?
— Humrnmm... — rosnou o Dr. Lecter. — Em
verdade... isso parece meio astucioso da sua parte. Barney,
você acha que a policial Starling pode usar uma cadeira?
— O Dr. Chilton não me falou em cadeira.
— O que lhe diz sua educação, Barney?
— A senhora quer uma cadeira? — perguntou Barney. — Podemos arranjar uma, mas ele nunca. Bem, em
geral ninguém necessita permanecer tanto tempo.
— Quero, obrigada.
Barney tirou uma cadeira dobrável do armário embutido fronteiriço à cela, abriu-a e retirou-se.
— Agora — disse Lecter, sentando-se de lado para
ficar de frente para ela — , o que foi que Miggs disse a
você?
— Quem? — O múltiplo Miggs, na cela ali adiante.
Ele sibilou qualquer coisa quando você passou. O que foi
que ele lhe disse?
— Disse: “Posso sentir o cheiro da sua boceta”.
— Entendo. Pois eu não posso. Você usa creme
para pele Evyaru e às vezes L’Air du Temps, mas não hoje. Hoje você está propositalmente sem perfume. Como
você se sentiu com o que Miggs disse?


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— Ele me hostilizou por razões que eu não conheço. Como uma perua! Presumi que seja hostil com as pessoas e as pessoas sejam hostis com ele. Um círculo vicioso.
— Você hostil em relação a ele?
— Lamento tê-lo perturbado. Mas ele foi descortês.
Como senhor soube sobre meu perfume?
— Um cheirinho da sua bolsa quando você a abriu
para tirar o cartão. Tem uma bonita bolsa.
— Obrigada.
— Você trouxe sua melhor bolsa, não foi?
— Acertou. — Era verdade. Ela economizara para
comprar uma elegante bolsa de passeio e era a melhor coisa que possuía.
— Tem muito mais classe que seus sapatos.
— Talvez também cheguem um dia a ter mais classe...
— Não duvido.
— Foi o senhor quem fez os desenhos nas paredes,
doutor?
— O que acha? Que chamei um decorador?
— Aquele acima da pia é uma cidade da Europa?
— Florença. Ali estão o Palazzo Vecchio e o Duomo, vistos do Belvedere.
— O senhor o fez de memória, com tantos detalhes?
— Memória, policial Starling, é o que tenho em vez
de uma vista.
— O outro é uma crucificação? A cruz do meio está vazia.
— É o Gólgota após a descida da cruz. Creiom e
pincel mágico sobre papel de açougue. Ali está o que o


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bom ladrão realmente ganhou quando levaram o cordeiro
pascoal.
— O que foi que ele ganhou?
— Duas pernas quebradas, naturalmente, da mesma forma que as do seu companheiro que zombou de
Cristo. Você não conhece nada do evangelho de São João?
Pois então olhe para Duccio ele pinta crucificações perfeitas. Como vai Will Graham? Qual é o aspecto dele?
— Eu não conheço Will Graham.
— Você sabe quem é. É um protegido de Jack
Crawford. Aquele que a antecedeu. Como é o rosto dele?
— Nunca o vi.
— Isto é o que se chama “relembrar velhas manhas”, policial Starling. Você não se incomoda, não é?
Alguns segundos de silêncio e ela mergulhou no assunto.
— Longe de me incomodar, poderíamos evocar algumas velhas manhas suas... Eu trouxe...
— Não. Não, isso é estúpido e errado. Nunca use
artimanhas em seqüência. Ouça: entender um dito espirituoso e replicar de imediato faz com que seu interlocutor
realize um exame imparcial e rápido da situação que é inimigo da boa vontade. E é numa base de boa vontade
que poderemos prosseguir. Você estava indo bem, tinha
sido cortês e sensível à cortesia, mostrou-se confiante ao
contar-me a embaraçosa verdade sobre Miggs, e agora me
vem com uma seqüência grosseira em favor do seu questionário. Assim não dá.
— Dr. Lecter, o senhor, um experiente psiquiatra,
acredita que sou tão estúpida para iludir-me acerca de como conquistar sua boa vontade? Dê-me um crédito. Eu


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lhe peço para responder ao questionário, e o senhor o fará
se quiser. Pode fazer-lhe algum mal olhar para ele?
— Policial Starling, você tem lido alguns dos artigos publicados recentemente pela Ciência do Comportamento?
— Sim.
— Pois eu também tenho. O FBI recusa-se estupidamente a enviar-me o Boletim da Polícia, mas eu o obtenho de negociantes de livros usados, assim como recebo o
News de John Jay e os jornais de psiquiatria. Eles estão
dividindo aqueles que praticam assassinatos em série em
dois grupos: o dos organizados e o dos desorganizados. O
que você acha disso?
— ...fundamental. Eles evidentemente...
— Simplista é a palavra que você está procurando.
De fato, a maior parte da psicologia é pueril, policial Starling, e aquela praticada na Ciência do Comportamento
nivela-se com a frenologia. A psicologia, para início de
conversa, não recebe material humano muito bom. Vá ao
departamento de psicologia de qualquer universidade e
observe os estudantes e o corpo docente: são radioamadores entusiasmados e personalidades de mentalidade precária. Dificilmente podem ser consideradas as melhores cabeças no campus. Organizados e desorganizados: realmente, um pensamento de nível muito baixo.
— E como o senhor mudaria a classificação?
— Eu não a mudaria.
— Por falar em publicações, li seus artigos sobre
vícios cirúrgicos e expressões da face direita e da face esquerda.
— Sim, foram trabalhos de primeira — assentiu o
Dr. Lecter.


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— Assim os julguei, da mesma forma que Jack
Crawford. Foi ele quem os recomendou para mim. Essa é
uma das razões pelas quais Crawford está ansioso que o
senhor...
— Crawford, o Estóico, está ansioso? Ele deve andar muito ocupado para agora recrutar auxílio no corpo
de estudantes.
— Ele está, e deseja...
— Está ocupado com Buffalo Bill.
— Assim parece.
— Não! Nada de “assim parece”, policial Starling.
Você sabe perfeitamente que é Buffalo Bill. Eu pensei que
Jack Crawford tivesse mandado você questionar-me acerca disso.
— Não.
— Então você não está fazendo rodeios para chegar a esse ponto?
— Não. Eu vim porque necessitamos da sua...
— O que sabe você sobre Buffalo Bill?
— Ninguém sabe muito a respeito.
— Os jornais têm publicado tudo?
— Penso que sim. Dr. Lecter, eu não vi nenhum
material confidencial sobre o assunto; meu serviço é...
— De quantas mulheres Buffalo Bill se serviu?
— A polícia encontrou cinco.
— Todas com a pele arrancada?
— Parcialmente, sim.
— Os jornais nunca explicaram o nome dele. Por
acaso sabe por que o chamam de Buffalo Bill?
— Sei.
— Diga-me.
— Eu digo se o senhor olhar o questionário.


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— Prometo olhar. Agora responda: por quê?
— Começou como uma piada infeliz na seção de
Homicídios de Kansas City.
— Sim...
— Chamam-no Buffalo Bill Ias nas quais monta...
Starling descobriu que havia trocado sentir-se assustada por sentir-se vulgar. Entre uma coisa e outra, preferiria estar assustada.
— Mande esses papéis para cá.
Starling passou o questionário azul para o outro lado pela bandeja. Ficou sentada, quieta, enquanto Lecter o
folheava.
O psiquiatra remeteu-o de volta no transportador.
— Ora, policial Starling, você pensa que poderá
dissecar-me com essa pequena ferramenta cega?
— Não, eu penso que o senhor pode fornecer uma
visão profunda do problema e adiantar seu estudo.
— E que possível razão teria eu para fazer isso.
— Curiosidade.
— Curiosidade em relação a quê?
— Em relação ao motivo pelo qual o senhor está
aqui. Em relação ao que lhe aconteceu.
— Nada aconteceu comigo, policial Starling. Eu
aconteci. Você não pode reduzir-me a um jogo de influências. Vocês trocaram o bem e o mal pelo behaviorismo,
policial Starling. Puseram todo mundo vestindo fraldas
morais — nada mais é culpa de ninguém. Olhe para mim,
policial Starling. Você pode afirmar que eu sou... mal? Por
que ele arranca a pele daquelas mulheres? Eu sou o mal,
policial Starling?
— Penso que o senhor foi destrutivo. Para mim é a
mesma coisa.


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— O mal é, portanto, destrutivo? Então as tempestades são o mal, se tudo é tão simples. E temos o fogo, e
temos o granizo. As companhias de seguro listam-nos todos como “Atos da Providência”.
— A deliberação...
— Eu coleciono desabamentos de igrejas, por distração. Você viu o último, na Sicília? Maravilhoso! A fachada caiu sobre sessenta e cinco avós numa missa especial. Isso foi um mal? Se foi, quem o cometeu? Se Ele esta lá
em cima, Ele adora isso, policial Starling. Febre tifóide e
cisnes, ambos têm a mesma origem.
— Eu não posso explicar-lhe, doutor, mas conheço
alguém que pode.
Lecter fê-la calar levantando a mão. A mão tinha
um belo formato e o dedo médio repetia-se de um modo
perfeito. Era a forma mais rara de polidactilia.
Quando ele voltou a falar, seu tom era suave e agradável.
— Você gostaria de me analisar, policial Starling.
Você é muito ambiciosa, não é? Sabe o que você me parece, com sua bela bolsa e seus sapatos baratos? Parece uma
caipira. Uma caipira melhorada, limpa, com um pouco de
bom gosto. Seus olhos são como pedras baratas do mês
— tudo é brilho superficial quando você consegue uma
pequena resposta. E por trás delas você é brilhante, não é?
Desespera-se para não ser como sua mãe. Uma boa nutrição deu-lhe ossos mais longos, mas você não está fora das
minas há mais de uma geração, policial Starling. Você é
dos Starlings de West Virgínia ou de Oklahoma? Houve
uma decisão de cara-ou-coroa entre a universidade e o
Corpo Feminino do Exército, não houve? Vou lhe dizer
algo específico sobre você mesma, estudante Starling. No


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seu quarto você tem um colar de ouro de contas soltas, e
sente um choquezinho desagradável quando vê como agora se tornaram sem graça, não é verdade? Tantos cansativos agradecimentos vida afora, tantas mesuras e hesitações, banalizando cada uma daquelas contas. Cansativo.
Cansativo. Te-e-edioso. Ser inteligente estraga uma porção
de coisas, não é verdade? E ter bom gosto não é bom.
Quando você pensar sobre esta conversa, vai se lembrar
do estúpido animal ferido no rosto quando você se livrou
dele. — E no mais suave dos tons, o Dr. Lecter acrescentou: — Se o colar de contas se tornou sem graça, o que
mais perderá a graça no curso da sua vida? Você cisma
com isso, não é, durante a noite?
Starling levantou a cabeça para encará-lo.
— O senhor enxerga longe, Dr. Lecter. Não nego
nada do que acabou de dizer. Mas eis uma pergunta que
está me respondendo agora mesmo, quer queira quer não:
O senhor tem energia suficiente para voltar essa sua percepção de alta potência em direção a si mesmo? É difícil
encarar isso, descobri nos poucos últimos minutos. O que
é que o senhor acha? Questione-se e revele a verdade.
Que assunto mais adequado ou mais complexo poderia
encontrar? Ou será que tem medo de si mesmo?
— Você é uma pessoa dura, não é, policial Starling?
— Razoavelmente, sim.
— E odiaria pensar que é uma criatura comum. Isso não iria feri-la? Por Deus! Bem, você está longe de ser
comum, policial Starling. Mas tem medo de sê-lo. De que
tamanho são as contas do seu colar, sete milímetros?
— Sete.
— Deixe-me fazer uma sugestão. Arranje algumas
contas olho-de-tigre avulsas e enfie-as alternadamente


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com as contas de ouro. Você poderá querer colocar duas
para três ou uma para duas, conforme lhe parecer melhor.
As contas olho-de-tigre vão refletir a cor dos seus olhos e
os reflexos de seu cabelo. Alguém já lhe mandou um presente de namorado?
— Claro.
— Estamos em junho. O Dia dos Namorados está
a apenas uma semana. Bem, você está esperando algum
presente?
— Nunca se sabe.
— Não. Nunca se sabe... Eu tenho pensado sobre
o Dia dos Namorados. Ele me lembra algo engraçado.
Agora que estou pensando nisso, ocorre-me que eu poderia torná-la muito feliz no Dia dos Namorados, Clarice
Starling.
— Como, Dr. Lecter?
— Mandando-lhe um maravilhoso presente. Terei
que pensar nisso. Agora, por favor, dê-me licença. Adeus,
policial Starling.
— E o estudo?
— Um recenseador tentou avaliar-me certa ocasião.
Comi o fígado dele com favas e um grande vinho. Volte à
escola, pequena Starling!
Hannibal Lecter, educado até o último momento,
não lhe voltou as costas. Foi recuando da barreira para
trás até chegar ao seu leito e, deitando-se, ficou tão alheio
a ela como um cruzado de pedra esticado em sua tumba.
Starling sentiu-se subitamente vazia, como se tivesse acabado de doar sangue. Levou mais tempo que o necessário para colocar os papéis de volta em sua pasta porque de imediato não confiava em suas pernas. Sentia-se
saturada com o fracasso, que detestava. Dobrou a cadeira


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e colocou-a de encontro à porta do armário embutido.
Teria que passar por Miggs de novo. À distância Barney
parecia estar lendo. Pensou em chamá-lo para vir buscá-la.
Maldito Miggs! Contudo, não era pior do que passar por
operários de construções ou serventes grosseiros, todos os
dias, na cidade. Começou a retirar-se pelo corredor.
Bem perto dela, a voz de Miggs soou como um silvo.
— Mordi meu pulso para morrer... vê como está
sangrando?
Ela devia ter chamado Barney, porém, assustada,
olhou para a cela; viu Miggs fazer um movimento rápido
com os dedos e sentiu algo quente atingi-la no rosto e no
ombro antes que pudesse esquivar-se.
Afastou-se dali, verificou que era esperma e não
sangue, e só então percebeu que o Dr. Lecter a chamava.
A voz do Dr. Lecter atrás dela, o tom áspero mais acentuado.
— Policial Starling!
Estava de pé, chamando-a, enquanto ela se afastava. Meteu a mão em sua bolsa, procurando um lenço de
papel.
Ouviu-o chamar de novo:
— Policial Starling!
Retornando aos frios trilhos do seu controle, andava com firmeza em direção à saída.
— Policial Starling! — Havia uma nova inflexão na
voz de Lecter.
Ela parou. Por que, em nome de Deus, eu desejo
tanto isso? Ao voltar, Miggs disse algo que ela não ouviu.
Deteve-se mais uma vez diante da cela de Lecter e
viu o raro espetáculo do doutor agitado. Agora sabia que


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ele era capaz de sentir o cheiro daquilo no corpo dela. Ele
farejava o cheiro de qualquer coisa.
— Eu jamais desejaria que isso acontecesse com
você. Considero a descortesia uma coisa intoleravelmente
feia.
Era como se cometer assassinatos o houvesse remido de rudezas menores. Ou talvez, pensou Starling, excitava-o vê-la maculada daquela forma invulgar. Sentia-se
atarantada. As faíscas nos olhos do Dr. Lecter brilhavam
naquela penumbra como vaga-lumes numa caverna.
— O que quer que seja, aproveite! Ela ergueu sua
pasta.
— Por favor, faça isso por mim!
— Talvez fosse tarde demais; ele recuperara a calma.
— Não. Mas vou deixá-la feliz por ter vindo. Vou
dar-lhe outra coisa. Vou dar-lhe o que você mais aprecia,
Clarice Starling.
— E o que é, Dr. Lecter?
— Um adiantamento, é claro. Ajusta-se muito bem
e fico contente! O Dia dos Namorados fez-me pensar nisso. — O sorriso sobre seus pequenos dentes brancos poderia ter surgido por qualquer motivo. Sua voz era tão suave que ela mal podia escutar. — Procure no carro de
Raspail por seu presente. Entendeu? Procure no carro de
Raspail por seus presentes. É melhor partir agora; não
creio que Miggs consiga de novo em tão pouco tempo,
mesmo louco como ele é, você não acha?


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CAPÍTULO 4
Clarice Starling estava excitada, esgotada, apelando
para sua força de vontade. Algumas das coisas que Lecter
dissera a respeito dela eram verdadeiras, outras apenas se
aproximavam da verdade. Por alguns segundos sentira
uma consciência estranha solta em sua cabeça, desarrumando as coisas em suas prateleiras como um urso numa
barraca de acampamento.
Odiara o que ele havia dito sobre sua mãe, e tinha
que livrar-se dessa raiva. Tudo agora era uma questão de
negócio.
Ficou sentada no velho carro, no outro lado da rua
do hospital e respirou profundamente. Quando as janelas
ficaram embaciadas, sentiu um pouco de privacidade em
relação à calçada.
Raspail. Ela se lembrava do nome. Raspail fora um
dos pacientes de Lecter e uma de suas vitimas. Ficara apenas uma noite com o material sobre Lecter; o registro era
enorme, e Raspail uma das muitas vítimas. Agora precisava ler os detalhes.
Queria fazê-lo com toda a pressa, mas sabia que a
urgência era inventada por ela mesma. O caso Raspail fora
encerrado há anos. Ninguém estava em perigo, portanto
dispunha de tempo. Era melhor ficar bem informada e
bem resolvida antes de prosseguir.
Crawford poderia afastá-la do caso, dando-o a outra pessoa. Era um risco a correr.
Tentou chamá-lo de um telefone público, mas foi
informada de que ele estava encaminhando uma apelação,


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em nome do Ministério da Justiça, ao Comitê de Orçamentos da Câmara dos Representantes.
Poderia obter detalhes do caso na Divisão de Homicídios do Departamento de Polícia de Baltimore, mas
assassinato não era um crime federal, e ela sabia que lhe
retirariam o caso imediatamente, sem nada perguntar.
Dirigiu-se novamente para Quântico, retornando à
sede da Ciência do Comportamento, com suas cortinas
caseiras de quadrados marrons e seus arquivos cinzentos
cheios de coisas infernais. Sentou-se ali até o anoitecer, até
sair a última secretária, acionando a manivela do microfilme de Lecter. O caprichoso e antigo projetor brilhava
como um fogo-fátuo na sala escurecida, as palavras e os
negativos das fotografias desfilando a frente do seu rosto
cheio de atenção.
Raspail, Benjamin René, branco, sexo masculino, 46
anos, primeiro-flautista da Orquestra Filarmônica de Baltimore, era um dos pacientes da clinica psiquiátrica do Dr.
Hannibal Lecter.
No dia 22 de março de 1975 ele deixou de se apresentar para um concerto em Baltimore. No dia 25 de março seu corpo foi descoberto. Estava sentado num banco,
numa pequena igreja rural perto de Falls Church, Virgínia,
vestindo apenas uma casaca e uma gravata branca. A autópsia revelou que o coração de Raspail fora perfurado e
que ao corpo faltavam o timo e o pâncreas.
Clarice Starling, que desde os primeiros anos de sua
vida sabia muito mais do que desejaria sobre o processamento da carne, reconhecia os órgãos faltantes como o
que nos açougues se denomina moteja.
A Divisão de Homicídios acreditava que esses órgãos apareceram no menu de um jantar que Lecter ofere-


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ceu ao presidente e ao maestro da Filarmônica de Baltimore na noite seguinte ao desaparecimento de Raspail.
O Dr. Hannibal Lecter declarou nada saber acerca
desse assunto. O presidente e o maestro da Filarmônica
de Baltimore não se puderam lembrar de todo o cardápio
do jantar do Dr. Lecter, embora este fosse conhecido pela
excelência de sua mesa, tendo contribuído com numerosos artigos para revistas especializadas em alimentação.
O presidente da Filarmônica foi mais tarde tratado
de anorexia e problemas relacionados com dependência
ao álcool num sanatório para pessoas nervosas na Basiléia.
Raspail fora a nona vítima conhecida de Lecter, segundo a polícia de Baltimore.
Raspail morrera sem deixar testamento, e as demandas legais por causa da herança foram seguidas pela
imprensa durante vários meses até que o interesse do público esfriou.
Os parentes de Raspail juntaram-se às famílias de
outras vítimas da clientela de Lecter numa ação legal bemsucedida, para que os arquivos e as fitas gravadas do psiquiatra criminoso fossem destruídos. Não era possível
saber sobre que embaraçosos segredos ele poderia tagarelar — assim raciocinavam — , e aqueles arquivos constituíam uma documentação indiscreta.
A corte havia designado o advogado de Raspail,
Everett Yow, executor testamentário da sua herança.
Starling teria que apelar a esse advogado para chegar ao carro. Talvez o advogado quisesse proteger a memória de Raspail e, se recebesse uma notificação, poderia
destruir provas para proteger seu antigo cliente.
Starling preferia agir sem aviso prévio e precisava
de conselhos e de autorização. Como se encontrava sozi-


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nha na Ciência do Comportamento, podia andar à vontade. Encontrou o número do telefone da casa de Crawford
no Rolodex.
Não chegou a ouvir o telefone tocar, e subitamente
a voz dele surgiu, muito tranqüila e uniforme.
— Jack Crawford.
— Aqui é Clarice Starling. Espero não ter interrompido seu jantar... — Não houve resposta, e ela continuou, apesar do silêncio no outro lado. — ... Lecter hoje
me disse algo sobre o caso Raspail. Fiquei no escritório,
pesquisando. Ele informou que existe algo interessante no
carro de Raspail. Para chegar até o carro tenho que me
comunicar com o advogado, e uma vez que amanhã é sábado, e não tenho aulas, eu queria perguntar-lhe se...
— Starling, você tem alguma lembrança do que eu
lhe disse para fazer com as informações sobre Lecter? —
A voz de Crawford era terrivelmente calma.
— Dar-lhe um relatório no domingo às 9:00.
— Faça isso, Starling. Faça exatamente isso.
— Sim, senhor.
O ruído do telefone ao ser desligado soou como
um estouro em seu ouvido. Uma onda de calor espalhouse no seu rosto e fez seus olhos queimarem.
— Porra, que merda! — esbravejou. — Seu velho
aleijado! Filho de uma puta... Deixe Miggs esporrar em
você, e quero ver como se sente depois.
Bem lavada e escovada, usando a camisola de dormir da Academia do FBI, Starling estava trabalhando na
segunda minuta do relatório quando chegou sua companheira de dormitório, Ardelia Mapp. Vinha da biblioteca.
O rosto largo, bronzeado e muito saudável de Mapp foi
uma das visões mais bem-vindas para ela naquele dia.


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Ardelia Mapp percebeu o cansaço no rosto da amiga.
— O que fez hoje o dia todo, garota? — Mapp
sempre formulava perguntas como se as respostas pouco
lhe interessassem.
— Consegui, com agradinhos, que um louco me
esporrasse toda.
— Eu gostaria de ter tempo para uma vida social
como a sua... Não sei como você consegue isso e ao
mesmo tempo freqüentar a escola.
Starling descobriu que estava rindo. Ardelia Mapp
ria junto com ela, tanto quanto a piadinha merecia. Starling não parou e ouvia-se rindo a uma grande distância,
rindo e rindo... Através das lágrimas em seus olhos, Mapp
parecia estranhamente velha e seu sorriso tinha um ar de
tristeza.


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CAPÍTULO 5
Jack Crawford, 53 anos, lê numa cadeira de braços,
sob a luz de um abajur baixo, no seu quarto de dormir. A
frente dele estão duas camas duplas, ambas apoiadas sobre
calços para atingirem a altura de camas de hospital. Uma é
a dele mesmo; na outra está Bella, sua mulher. Crawford
pode ouvi-la respirando pela boca. Faz dois dias que ela
pela última vez conseguiu mexer-se ou falar com ele.
Sua respiração sofre uma parada. Crawford levanta
os olhos da leitura e observa-a por cima de seus óculos de
meias-lentes. Descansa o livro. Bella respira de novo, primeiro uma aspiração curta, depois uma expiração completa. Levanta-se e vai palpá-la, testa sua pressão e seu pulso.
Durante aqueles meses ele se tornara um perito com o
aparelho de medir pressão.
Uma vez que não a deixava sozinha durante a noite,
mandou instalar um leito ao lado do dela. E como estende
a mão no escuro para avaliar como ela está, seu leito também fica alto, sobre calços.
Exceto pelos leitos elevados e pelas poucas tubulações para o conforto de Bella, Crawford conseguira fazer
com que aquele não parecesse um quarto de doente. Vêem-se flores, mas não em demasia. Não há frascos de remédios à vista. Crawford esvaziou um armário de roupas
de cama no corredor e encheu-o com remédios e aparelhos antes de a trazerem do hospital para casa. Era a segunda vez que ele a carregava no colo através do limiar da
porta e aquele pensamento quase o derrubou.


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Uma frente de calor chegara do sul. As janelas estão
abertas e o ar da Virgínia é suave e fresco. Rãzinhas piscam uma para as outras no escuro.
O quarto está impecavelmente limpo, mas o tapete
começa a mostrar pêlos avulsos; Crawford não passa o
barulhento aspirador no quarto, usa um limpador de tapetes manual que não é tão eficiente. Anda com passos silenciosos até o armário no corredor e acende a luz. Duas
pranchetas estão penduradas no lado interior da porta.
Numa delas, anota a pressão e o pulso da doente. Os números dele e os da enfermeira do dia alternam-se numa
coluna que se estende em muitas páginas amarelas, por
muitos dias e noites. Na outra prancheta a enfermeira registra a medicação dada a Bella.
Crawford está habilitado a ministrar qualquer medicação de que a mulher necessite durante a noite. Seguindo
as instruções da enfermeira, ele treinara dando injeções
num limão e depois nas próprias pernas antes de trazer a
mulher para casa.
Crawford fica parado diante dela por uns três minutos, observando seu rosto. Um bonito lenço de moiré de
seda cobre-lhe os cabelos como um turbante. Ela insistiu
naquela faceirice, enquanto podia insistir. Agora é ele
quem insiste em lhe cobrir a cabeça. Crawford umedece
os lábios dela com glicerina e remove um argueiro do canto de seu olho com o grosso polegar. Ela não se mexe. E
ainda não é hora de virá-la na cama.
Olhando-se no espelho, assegura que não está doente, que não vai segui-la para baixo da terra, que está
bem. Surpreende-se com esse pensamento, que o envergonha.


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De volta à sua cadeira, não pode lembrar-se do que
estava lendo. Passa a mão pelos livros a seu lado até descobrir um que ainda está morno.


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CAPÍTULO 6
Na segunda-feira de manhã, Clarice Starling achou
a mensagem de Crawford na caixa do correio:
CS:
Prossiga com o carro de Raspail. Nas suas horas de folga.
Meu escritório lhe fornecerá um número de cartão de crédito para
chamadas interurbanas. Entre em contato comigo antes de se comunicar com o espólio ou ir a qualquer lugar. Apresente-se quarta-feira
às 16:00.
O Diretor recebeu seu relatório sobre Lecter. Você saiu-se
muito bem.
JC SAIC/Seção 8
Starling sentiu-se muito contente. Ela sabia que
Crawford estava lhe fornecendo apenas um camundongo
exausto para praticar dando-lhe uns trambolhões. Mas ele
queria ensiná-la, e queria que ela se saísse bem. Para Starling, isso era melhor, de qualquer forma, que cortesias.
Havia oito anos que Raspail morrera. Que provas
poderiam restar num carro após todo esse tempo?
Ela sabia, por experiência familiar, que, uma vez
que os automóveis se depreciam tão rapidamente, uma
corte de apelação permitiria que o carro fosse vendido
antes da decisão sobre a herança, sendo o dinheiro incorporado ao espólio. Parecia-lhe improvável que mesmo um
inventário tão confuso e disputado como o de Raspail fosse manter um carro por todo esse período.
Havia também o problema da sua disponibilidade
de tempo. Contando a hora de almoço, Starling tinha 75


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minutos livres por dia para usar o telefone durante as horas de expediente. Tinha que reportar-se a Crawford na
quarta-feira à tarde. Assim, dispunha de um total de 3 horas e 45 minutos para seguir a pista do carro, dividido durante três dias, se usasse seus períodos de estudo e os
compensasse estudando à noite.
Alcançara boas notas em suas aulas de Procedimentos de Investigação e tivera a oportunidade de apresentar
perguntas de caráter geral a seus instrutores.
Durante a hora do almoço de segunda-feira, o pessoal do Tribunal de Justiça do condado de Baltimore
mandara Starling esperar ao telefone e se esquecera dela
por três vezes. No seu período de estudo, conseguiu falar
com um amável funcionário do tribunal, que procurou no
arquivo os autos do julgamento sobre o espólio de Raspail.
O funcionário confirmou que houvera permissão
para vender um carro e deu a Starling a marca e o número
de série, bem como o nome do proprietário seguinte, anotado à transferência do titulo.
Na terça-feira ela perdeu a metade da sua hora de
almoço tentando descobrir o dono daquele nome. Custoulhe o resto de seu período de almoço descobrir que o Departamento de Veículos Automotores de Maryland não
estava preparado para localizar um veiculo pelo número
de série; só podia fazê-lo pelo número de registro ou da
placa em uso.
Na terça-feira à tarde uma pesada chuva obrigou os
estagiários a abandonarem o estande de tiro. Numa sala de
conferências cheia de vapor de roupas molhadas e suor,
John Brigham, ex-fuzileiro e instrutor de armas de fogo,
decidiu testar a firmeza das mãos de Starling diante da


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classe, apurando quantas vezes ela podia acionar o gatilho
de um Smith & Wesson em 60 segundos.
Conseguiu 78 com a mão esquerda, soprou uma
mecha de cabelo que lhe caíra sobre os olhos e começou
de novo com a mão direita enquanto um outro estudante
contava. Ela estava na posição weaver, com as pernas bem
escoradas, o visor da frente da arma bem em foco, o de
trás e o alvo improvisado propositadamente fora de foco.
No meio do seu minuto ela deixou a mente divagar para
aliviar a tensão provocada pela rigidez da postura. O alvo
na parede entrou em foco. Era um certificado de reconhecimento da Divisão de Observância da Lei Interestadual
dirigido a seu instrutor, John Brigham.
Ela questionou Brigham com o canto da boca enquanto o outro estudante contava os estalidos da arma.
— Como é que você descobre o número de registro de um carro...
— ...65... 66... 67... 68... 69...
— ...dispondo apenas do número da série...
— ...78... 79... 80... 81...
— E da marca? Você não tem o número da chapa.
— ...89... 90. Tempo esgotado.
— O.K., minha gente — disse o instrutor. — Gostaria que vocês tomassem nota disso. A força da mão é
um importante fator para a firmeza do tiro de combate.
Alguns dos senhores cavalheiros estão preocupados que
eu os chame logo a seguir... Essa preocupação é justificada: Starling está muito acima da média com as duas mãos.
Isto acontece porque ela é dedicada. Ela pratica apertando
coisas elásticas às quais todo mundo tem acesso. A maior
parte de vocês não está acostumada a apertar qualquer
coisa mais dura do que... — sempre vigilante contra sua


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terminologia de quartel dos fuzileiros, esforçou-se para
encontrar um símile mais polido — ... as espinhas em seus
rostos — disse, afinal. — Falando sério, Starling, você
também ainda não está bastante boa. Quero ver essa mão
esquerda acima de 90 antes da sua formatura. Formem
pares e façam as contagens uns para os outros — chop!
chop!
Voltou-se para Clarice:
— Menos você, Starling; venha cá. O que mais você tem sobre o carro?
— Apenas o número de série de fabricação e a
marca, só isso. E um antigo proprietário, há cinco anos.
— Pois bem, escute aqui. Onde a maior parte das
pessoas se fo... se atrapalham é quando tentam pular através dos registros de um proprietário para o seguinte. Você
se confunde entre os estados. Quero dizer: até os policiais
às vezes fazem isso. E registro e número de placa é tudo o
que o computador tem. Estamos todos acostumados a
usar os números da placa ou o número do registro, não o
número de série do veiculo.
O barulho dos gatilhos dos revólveres com cabo
azul de exercício invadia toda a sala e ele tinha que falar
próximo ao ouvido dela.
— Há uma maneira, bem fácil. R. L. Polk & Cia.,
que publica guias de cidades, publica também uma lista do
registro corrente de carros por marca e por números de
série de fabricação consecutivos. É o único lugar onde
você encontra isso. Os negociantes de carros usados orientam seus anúncios por essa lista. Por que você decidiu
perguntar a mim?


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— Você trabalhou na divisão de carros roubados e
imaginei que tinha seguido a pista de muitos veículos. Obrigada.
— Tem que me pagar: treine essa sua esquerda até
onde ela pode ir e vamos envergonhar alguns desses caras
de mãozinhas delicadas.
De volta à cabine telefônica durante o período de
estudo, as mãos dela tremiam, de modo que suas notas
eram quase ilegíveis. O carro de Raspail era um Ford. Havia um representante Ford próximo à Universidade de
Virgínia que durante anos fizera pacientemente o que podia com seu Ford Pinto. Agora, com a mesma paciência, o
vendedor correu os olhos pela lista Polk para ela. Voltou
ao telefone com o nome e o endereço da pessoa que pela
última vez registrara o carro de Benjamin Raspail.
Clarice está na pista, Clarice está no controle. Deixe
de ser tola e telefone para o homem. Vejamos: Número 9
Ditch, Arkansas. Jack Crawford nunca me deixará ir até lá,
mas pelo menos poderei confirmar a quem fizer a viagem.
Sem resposta, e de novo sem resposta. A campainha soava estranha e muito afastada, um ruído como se
fosse uma linha partilhada por dois assinantes. Tentou à
noite e continuou sem resposta.
No período de almoço de quarta-feira, um homem
respondeu ao chamado de Starling.
— WPOQ Toca Músicas Antigas.
— Alô, estou telefonando para...
— Não estou interessado em revestimentos laterais
de alumínio e não quero viver em nenhum acampamento
de reboque na Flórida. O que mais você tem para me oferecer?


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Starling percebia muito bem o sotaque das montanhas de Arkansas na voz do homem. Ela podia imitar aquele sotaque quando desejava e não tinha tempo a perder.
— Sim, senhor, se o senhor puder ajudar-me eu lhe
agradeço muito. Estou tentando descobrir o Sr. Lomax
Bardwell. Meu nome é Clarice Starling.
— É uma pessoa chamada qualquer coisa Starling...
— gritou ele para dentro de casa. — O que a senhora deseja com Bardwell?
— Aqui é o escritório regional do Centro-Sul da
Divisão de Reparações da Ford. Ele tem direito a um serviço de garantia gratuito em seu LTD.
— Eu sou Bardwell. Pensava que você estivesse
tentando me vender qualquer coisa com aquela sua chamada interurbana. Agora é muito tarde para quaisquer reparações, preciso de uma reposição total. Eu e a patroa
estávamos em Little Rock, saindo do South land Mall, está
ouvindo?
— Sim, senhor.
— E aquela maldita haste do pistão furou o fundo
do cárter e o óleo espalhou-se por toda parte e aquele caminhão Orkin que tem uma enorme carroceria, conhece?
Derrapou em cima do óleo e atravessou na pista.
— Que barbaridade!...
— Bateu na cabine da Fotomat, arrancou-a da fundação e quebrou-lhe os vidros. O camarada da Fotomat
saiu de dentro da cabine meio tonto. Tivemos que impedilo de ir para o meio da estrada.
— Que coisa, hein? E o que aconteceu com ele depois?
— O que aconteceu com quem?


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— Com o carro.
— Eu disse a Buddy Sipper no ferro-velho que ele
podia fica: com o carro por 50 paus se viesse buscá-lo. E
acho que ele o desmontou.
— O senhor poderia me dizer qual é o número do
telefone dele, Sr. Bardwell?
— O que quer você com o Sipper? Se alguém tivesse que receber alguma compensação, ia ser eu.
— Compreendo, senhor. Eu apenas faço o que eles
me mandam até às cinco horas, e eles me disseram para
encontrar o carro. O senhor tem o número do telefone,
por favor?
— Não sei onde está meu caderno de telefones.
Desapareceu há uma porção de tempo. Você sabe como
são os netos... A Central deve ser capaz de informá-la: o
nome é Sipper Salvage.
— Muito obrigada, Sr. Bardwell.
O ferro-velho confirmou que tinha desmontado o
carro para aproveitar peças, e a carcaça fora enviada a uma
prensa para reciclagem como sucata. O encarregado deu a
Starling o número de série do veiculo que constava de seu
arquivo.
“Que grande bosta! — pensou Starling em voz alta,
ainda com um pouco do sotaque de Arkansas. Era o fim
da picada. Que belo presente!
Starling reclinou a cabeça de encontro à fria caixa
do aparelho telefônico dentro da cabine. Ardelia Mapp,
segurando os livros contra o quadril, deu uma batida na
porta e passou-lhe uma garrafa de Crush.
— Muito obrigada, Ardelia. Tenho que fazer mais
uma chama da. Se eu a terminar a tempo, me encontro
com você na cafeteria. O.K.


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— Eu estava tão esperançosa de que você perdesse
esse horroroso sotaque — disse Mapp. — Existem livros
que podem ajudá-la. Eu não uso mais o colorido patuá da
vizinhança de onde nasci. Continue falando com esse sotaque de matuto do interior e as pessoas vão dizer que
você é igual àqueles patetas, pequena... — Mapp fechou a
porta da cabine.
Starling sentia que precisava tentar extrair mais informações de Lecter. Se ela já houvesse marcado um encontro, talvez Crawford a deixasse voltar ao manicômio.
Discou o número do Dr. Chilton, mas não conseguiu passar da secretária dele.
— O Dr. Chilton está com o médico-legista e com
o assistente ao promotor público — disse a mulher. —
Ele já conversou com seu supervisor e nada tem para dizer a você. Até logo.


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CAPÍTULO 7
— Seu amigo Miggs morreu — disse Crawford. —
Você me contou tudo, Starling? — O rosto cansado de
Crawford era tão sensível a sinais quanto uma esfinge e
totalmente isento de compaixão.
— Como? — perguntou ela, e teve que ouvi-lo.
— Conseguiu engolir sua língua um pouco antes do
amanhecer. Lecter foi quem sugeriu isso a ele, presume
Chilton. O guarda da noite ouviu-o falando em voz baixa
com Miggs. Lecter sabia muita coisa sobre Miggs. Falou
com ele durante algum tempo, mas o guarda noturno não
conseguiu ouvir o que Lecter disse. Miggs chorou durante
algum tempo, depois parou. Você me contou tudo, Starling?
— Entre o relatório e meu memorando expus tudo,
quase palavra por palavra.
— Chilton telefonou para queixar-se de você... —
Crawford esperou um pouco e pareceu satisfeito quando
ela nada comentou. — Eu disse que julguei seu comportamento satisfatório. Chilton está tentando impedir uma
investigação sobre direitos civis.
— Vai haver uma?
— Certamente, se a família de Miggs desejar. A Divisão de Direitos Civis vai provavelmente completar oito
mil neste ano. Ficarão satisfeitos de incluir Miggs na lista.
— Crawford estudou-a com atenção. — Você está bem?
— Não sei como devo me sentir acerca disso.
— Você não tem que se sentir de nenhuma maneira
particular sobre isso. Lecter fê-lo para se divertir. Ele sabe
que realmente não podem imputá-lo, então... por que não?


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Chilton priva-o de seus livros e de seu assento no vaso
sanitário por algum tempo, e é tudo. Ele talvez não ganhe
mais o pudim de gelatina... — Crawford entrelaçou os dedos por cima do estômago e ficou comparando os polegares. — Lecter perguntou-lhe a meu respeito, não foi?
— Perguntou se você estava ocupado. Eu disse que
sim.
— Só isso? Você não deixou fora do relatório nada
pessoal, que pudesse me desagradar?
— Não. Ele disse que você era um estóico, mas isso eu incluí.
— Sim, você o fez. Mais nada?
— Bem, creio que não deixei nada de fora. Você
não está pensando que eu prometi a ele alguma fofoca, e
que só por isso ele falou comigo?
— Não.
— Não sei nada de pessoal a seu respeito, e se soubesse, não iria comentar. Se você tem alguma dificuldade
em acreditar nisso, vamos pôr tudo em pratos limpos agora mesmo.
— Estou satisfeito. Passemos a outro assunto.
— Você pensou em algo, ou...
— Passe para outro assunto, Starling.
— A dica de Lecter sobre o carro de Raspail é um
beco sem saída. O carro foi prensado num cubo há quatro
meses no ferro velho. Número 9 Ditch, em Arkansas, e
vendido para reciclagem. Talvez, se eu voltar ao manicômio e falar com Lecter, ele me diga mais alguma coisa.
— Você esgotou a pista?
— Sim.
— O que a leva a pensar que o carro que Raspail
dirigia era seu único carro?


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— Era o único registrado, ele era solteiro, eu saquei
a hipótese...
— Ah, ah! Pare por aí. — O dedo de Crawford apontou para algum princípio invisível no ar entre eles. —
Você sacou a hipótese... Você sacou a hipótese, Starling.
Olhe aqui. — Crawford escreveu hipótese num bloco de
anotações legais. Vários dos instrutores de Starling tinham
absorvido esse hábito de Crawford e usavam-no, mas
Starling não revelou que o havia visto antes.
Crawford começou a sublinhar.
— Se você saca a hipótese quando eu a mando
numa missão, Starling, pode fazer tanto você como eu
parecermos umas bestas. — Ele recostou-se na cadeira,
satisfeito. — Raspail colecionava carros, sabia disso?
— Não, os herdeiros dele ainda os têm?
— Não sei. Você acha que poderia dar um jeito de
descobrir isso?
— Sim, posso.
— Você começaria por onde?
— Pelo executor testamentário.
— Um advogado em Baltimore, um chinês, se bem
recordo indicou Crawford.
— Everett Yow — disse Starling. — Ele está na lista telefônica de Baltimore.
— Você já pensou na questão de um mandado para
inspecionar o carro de Raspail?
Às vezes o tom de Crawford lembrava a Starling a
lagarta que sabia tudo no livro de Lewis Carroll. Starling
não ousou retrucar com muita ênfase.
— Uma vez que Raspail está morto e não é suspeito de nada, se tivermos permissão do seu executor para
examinar o carro, o exame será válido e seus frutos admis-


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síveis em outros assuntos legais — disse ela, como recitando.
— Precisamente — disse Crawford. — Eis o que
farei: telefono ao nosso escritório de Baltimore avisando
que você vai para lá. Sábado, Starling, no seu tempo de
folga. Vá avaliar os frutos, se houver alguns.
Crawford fez um esforço para não acompanhá-la
com o olhar quando ela saiu. Da sua cesta de papéis usados tirou com as pontas dos dedos um pequeno maço de
papéis de notas cor de malva. Alisou um deles sobre a mesa. Era sobre sua esposa e dizia, numa caligrafia caprichosa:
Lamento muito acerca de Bella, Jack.
Hannibal Lecter


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CAPÍTULO 8
Everett Yow dirigia um Buick preto com um adesivo da Universidade De Paul no vidro da janela traseira. O
peso dele dava ao Buick uma ligeira inclinação para a esquerda quando Clarice Starling o seguia na chuva para fora de Baltimore. Escurecia; o dia de Starling como investigadora estava quase terminado e ela não tinha outro para
substituí-lo. Lutava com sua impaciência, batendo no volante na mesma cadência dos limpadores de pára-brisas. O
tráfego se arrastava ao longo da Estrada 301.
Yow era inteligente, gordo, e tinha um problema
respiratório. Starling avaliou sua idade em uns 60 anos.
Até agora ele fora compreensivo. O dia perdido não era
culpa dele; voltando muito tarde de uma viagem de negócios a Chicago, o advogado de Baltimore viera diretamente do aeroporto para seu escritório a fim de encontrar
Starling.
O Packard clássico de Raspail já estava num depósito muito tempo antes da sua morte, explicou Yow. Nunca
tivera licença e nunca fora dirigido. Yow vira-o uma vez,
coberto e bem guardado, a fim de confirmar sua existência
para o inventário dos bens que fizera logo após o assassinato de seu cliente. Se a investigadora Starling concordasse em “revelar imediata e francamente” qualquer descoberta que pudesse ser prejudicial ao interesse de seu falecido cliente, ele lhe mostraria o automóvel, prometeu. O
mandado e o trabalho que isso implicava seriam dispensáveis.
Starling estava desfrutando do uso por um dia de
um Plymouth da garagem do FBI, equipado com telefone,


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e tinha um novo cartão de identidade que lhe fora dado
por Crawford. Dizia simples mente INVESTIGADOR
FEDERAL e expirava dentro de uma semana ela observou.
O destino deles era a Split City Mini-Storage, que
ficava cerca de seis quilômetros fora dos limites da cidade.
Dirigindo vagarosamente, por causa do tráfego, Starling
usou o telefone para descobrir o que pudesse sobre o depósito Split City. Quando avistou o alto cartaz cor de laranja, SPLIT CITY MINI-STORAGE — VOCÊ FICA
COM A CHAVE, já conhecia alguns fatos.
Split City tinha uma licença como transportadora
de cargas de Comissão Interestadual do Comércio, em
nome de Bernard Gary Um grand jury federal quase havia
processado Gary por transporte interestadual de mercadorias roubadas há uns três anos e sua licença estava sendo
investigada para renovação.
Yow fez a volta por baixo do cartaz e mostrou suas
chaves um jovem sardento uniformizado que estava no
portão. O porteiro tomou nota das placas de seus carros,
abriu o portão e sinalizou lhes para entrarem, com certa
impaciência, como se tivesse coisas mais importantes a
fazer.
Split City era um lugar descampado, varrido pelo
vento. Como o chamado “vôo do divórcio” dos domingos do La Guardia para Juárez, é uma indústria de serviço
para o insensato movimento browniano da nossa população: a maior parte do seu negócio consistia em armazenar
os variados bens móveis que sobram de divórcios. Suas
unidades estão abarrotadas de jogos de salas de estar, conjuntos de copa, colchões manchados, brinquedos e fotografias de coisas que não deram certo. É crença muito es-


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palhada entre os policiais do xerife do condado de Baltimore que Split City também esconde boa e valiosas mercadorias das cortes de falência.
Parece uma instalação militar: 12 hectares de compridos edifícios divididos por paredes corta-fogo em unidades do tamanho do uma espaçosa garagem para um só
carro, cada uma delas com sua porta de enrolar. Os aluguéis são razoáveis e algumas das mercadorias estão ali há
anos. A segurança é boa. O lugar é envolvido por uma
dupla cerca alta, à prova de tufões, e cães patrulham entre
a cercas 24 horas por aia.
Um palmo de folhas murchas, misturadas com copos de papel e lixo miúdo, havia-se acumulado de encontro à parte de baixo da porta da unidade do depósito de
Raspail, de número 31. Um grande cadeado trancava cada
um dos lados da porta. O ferrolho do lado esquerdo exibia também um selo. Everett Yow curvou-se cor dificuldade sobre o selo. Starling segurava o guarda-chuva e uma
lanterna elétrica devido ao início das sombras do cair da
noite.
— Não parece ter sido aberto desde que estive aqui
há cinco anos — afirmou ele. — Pode ver a impressão do
meu selo de tabelião aqui no plástico. Não fazia a menor
idéia, na ocasião, de que os parentes iam brigar tanto, arrastando a solução do inventário por tão longos anos.
Yow segurou o guarda-chuva e a lanterna enquanto
Starling tirava uma foto do ferrolho e do selo.
— O Sr. Raspail tinha um estúdio-escritório na cidade; eu o fechei para evitar que o espólio tivesse que pagar aluguel — disse ele. — Trouxe os móveis para cá e os
depositei junto com o carro de Raspail e outras coisas que


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já se encontravam aqui. Trouxemos ainda um piano, livros, partituras, e uma cama, creio eu.
Yow experimentou uma chave.
— Os cadeados podem estar enferrujados. Este,
pelo menos, está muito duro. — Era difícil, para ele, encurvar-se e respirar ao mesmo tempo. Quando tentou ficar de cócoras, seus joelhos estalaram.
Starling ficou satisfeita de ver que os cadeados eram
de padrão americano, grandes e cromados. Pareciam muito seguros, mas ela sabia que podia estourar os cilindros
de latão facilmente usando uma chave de fenda e um martelo com unha — seu pai lhe havia mostrado como os
arrombadores faziam isso quando ela ainda era criança. O
problema imediato seria encontrar o martelo e a chave de
fenda; ela não tinha nem o benefício da variedade de ferramentas velhas que guardava no seu carro.
Procurou na bolsa e encontrou o spray lubrificante
que usava nas fechaduras das portas do Ford.
— Quer descansar um pouco no seu carro, Sr.
Yow? Por que não se aquece uns poucos minutos enquanto faço uma tentativa? Leve o guarda-chuva; o que temos
agora é só uma garoa.
Starling encostou o Plymouth do FBI perto da porta a fim de aproveitar a luz de seus faróis. Tirou a vareta
de sonda do óleo e deixou cair umas gotas no orifício da
chave; depois usou o spray lubrificante para afinar o óleo.
Do seu carro, o Sr. Yow sorriu e aprovou com a cabeça.
Starling estava satisfeita porque Yow era um homem inteligente; ela podia cumprir sua tarefa sem incomodá-lo.
Acabara de escurecer. Starling sentia-se exposta sob
o brilho dos faróis do Plymouth, e a correia do ventilador
chiava no seu ouvido com o motor em marcha lenta. Ela


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trancara o carro com o motor funcionando. O Sr. Yow
parecia inofensivo, mas não via razão para arriscar-se a ser
esmagada de encontro à porta.
O cadeado pulou como uma rã na sua mão e ali ficou aberto, pesado e cheio de óleo. O outro, depois de
oleado, foi mais fácil. A porta não queria subir. Starling
fez força, segurando a alça até que começou a ver pontinhos luminosos diante dos olhos. Yow veio auxiliar mas,
entre a pequena e adequada alça e a abertura da porta
pouca força acrescentou.
— Podemos voltar na semana que vem, com meu
filho ou com um ajudante — sugeriu o Sr. Yow. — Eu
gostaria muito de ir par casa cedo.
Starling não estava de forma alguma segura de que
voltaria àquele lugar; seria muito mais simples para Crawford pegar o telefone e pedir que o escritório de Baltimore
cuidasse do caso.
— Sr. Yow, serei rápida. O senhor tem um macaco
no se carro?
O macaco escorado debaixo da alça, Starling usou o
próprio peso sobre a chave de roda que servia como alavanca para o macaco. A porta rangeu horrivelmente e subiu uns dois centímetros. Parecia estar se dobrando no
centro. Subiu outros dois centímetros depois mais dois,
até que ela pôde enfiar o pneu sobressalente por baixo, a
fim de segurá-la, enquanto transferia o macaco dela e o do
Sr. Yow para os lados da porta, colocando-os por baixo da
parte inferior, perto dos trilhos onde a porta corria.
Acionando os macacos alternadamente, de um lado
e de outro, levantou a porta, pouco a pouco, até um meio
metro; ali ela emperrou definitivamente e todo o seu peso
sobre as alavancas dos macacos não adiantava mais.


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O Sr. Yow veio espiar por baixo da porta. Ele só
podia curvar se por pouco tempo de cada vez.
— Sinto um cheiro de rato — disse. — Me garantiram que haviam posto veneno contra ratos aí dentro. Acredito que isso está previsto no contrato. Ratos são quase
desconhecidos por aqui, eles me afirmaram. Mas posso até
ouvi-los, você não pode?
— Posso — afirmou Starling. Com sua lanterna elétrica ela pôde ver caixas de papelão e um grande pneu
com larga faixa branca debaixo de uma coberta de pano.
O pneu estava arriado.
Ela recuou o Plymouth até que parte da luz dos faróis iluminou embaixo da porta, e retirou do carro um dos
tapetes de borracha.
— Você vai entrar ali, policial Starling?
— Tenho que dar uma olhada, Sr. Yow.
— Posso sugerir — aventou ele, sacando do bolso
um lenço — que você amarre as pernas de suas calças
bem apertadas em volta dos tornozelos para evitar a invasão de camundongos?
— Obrigada, senhor, eis uma idéia muito boa. Se a
porta arriar, ah, ah!, ou acontecer qualquer outra coisa, o
senhor poderia fazer o favor de chamar este número? É
do nosso escritório regional de Baltimore. Eles sabem que
estou com o senhor neste momento e ficarão alarmados
se não tiverem notícias minhas dentro de algum tempo.
Está entendendo?
— Sim, naturalmente. Eu o farei, sem dúvida alguma. — Entregou a ela a chave do Packard.
Starling pôs o tapete de borracha no chão molhado
em frente da porta e deitou-se nele, sua mão segurando
um pacote de sacos plásticos de provas sobre as lentes da


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câmara e as pernas das calças fortemente apertadas com o
lenço de Yow e o dela mesma. Um borrifo de chuva caiu
no seu rosto e o cheiro de ratos e mofo invadiu com força
as suas narinas. Absurdamente, o que ocorreu a Starling
foi uma frase em latim.
Escrita no quadro-negro pelo seu instrutor de práticas forenses no seu primeiro dia de treinamento, era o
lema dos médicos romanos: Primum non nocere. Em
primeiro lugar não causar danos.
Ele não disse isso numa porra de uma garagem
cheia de camundongos.
E subitamente, ouviu a voz do pai, falando a ela
com a mão pousada no ombro de seu irmão:
— Se você não pode brincar sem chorar, vá para
casa, Clarice.
Starling abotoou a gola da sua blusa, levantou os
ombros em torno do pescoço e deslizou sob a porta.
Agora estava embaixo da traseira do Packard. O
carro fora estacionado no lado esquerdo do depósito, quase encostado na parede. Havia caixas de papelão empilhadas à direita, enchendo o vazio ao lado do carro. Starling
arrastou-se de costas até que sua cabeça ficou fora daquele
exíguo espaço. Iluminou com sua lanterna a parede vertical formada pelas caixas. Muitas aranhas haviam tecido as
teias cruzando o estreito vão. Na maioria eram da espécie
que fazem teias redondas para caçar insetos, cujos restos
secos apareciam solidamente presos.
Bem, uma aranha caranguejeira é a única espécie
com que eu me preocuparia, e elas não fazem teias ao ar
livre, pensou Starling consigo mesma. O resto não causa lá
muito dano.


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Havia espaço para ficar de pé junto ao pára-choque
traseiro. Ela continuou se arrastando até sair debaixo do
carro, o rosto muito perto do pneu com larga faixa branca.
Estava todo pintalgado de bolor e ela pôde ler nele as palavras GOODYEAR DOUBLE EAGLE. Tomando cuidado com a cabeça, pôs-se de pé no reduzido espaço, a
mão na frente do rosto para afastar as teias de aranha.
Não era assim que a gente se sentia quando usava um véu?
Do lado de fora ouviu a voz do Sr. Yow:
— Tudo bem, Srta. Starling?
— Tudo bem — confirmou. Ao som da sua voz
houve ligeiras corridinhas e algo dentro do piano correu
sobre algumas notas altas. As luzes do carro do lado de
fora lhe iluminavam as pernas até o meio da canela.
— Vejo que encontrou o piano, policial Starling —
comentou o Sr. Yow.
— Bem, mas não fui eu...
— Oh!
O carro era grande, alto e comprido. Uma limusine
Packarc 1938, de acordo com o inventário de Yow. Estava
coberto com um tapete, seu lado peludo para baixo. Starling jogou o feixe de luz da lanterna sobre ele.
— O senhor cobriu o carro com esse tapete, Sr.
Yow?
— Assim o encontrei, e nunca o descobri — disse
Yow por baixo da porta. — Não posso lidar com um tapete poeirento. Era assim que Raspail o mantinha. Apenas
me certifiquei de que o carro estava aí. Os homens que
fizeram a mudança colocaram o piano de encontro à parede, empilharam mais caixas ao lado do carro, e foram
embora. Eu os estava pagando por hora. A maioria das
caixas contém livros e partituras.


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O tapete era grosso e pesado, e quando ela o puxou, a poeira apareceu no feixe de luz da sua lanterna. Ela
espirrou duas vezes, Ficando na ponta dos pés conseguiu
dobrar o tapete ao meio no topo do carro antigo e alto. As
cortinas das janelas traseiras estavam abaixadas e a maçaneta da porta coberta de poeira. Ela teve que se debruçar
sobre as caixas de papelão para alcançá-la. Tocando apenas na ponta da maçaneta, tentou acioná-la. Estava trancada. Não havia orifício para chave na porta traseira. Teria
que deslocar uma porção de caixas para chegar à porta
dianteira e não havia quase nenhum espaço para mudá-las
de lugar. Ela pôde perceber uma pequena fresta entre a
cortina e a coluna da porta traseira.
Starling inclinou-se por cima das caixas, encostou
um olho no vidro e iluminou o interior com a lanterna. A
única coisa que podia ver era seu reflexo, até cobrir a luz
com a mão. Um raio luminoso, difundindo-se pelo vidro
empoeirado, deslocou-se sobre o banco. Sobre o banco
havia um álbum aberto. O colorido era pobre com a fraca
iluminação, mas ela pôde ver cartões do Dia dos Namorados colados em suas páginas. Cartões antigos, rendados,
em relevo sobre uma página.
— Muito, muito obrigada, Dr. Lecter. — Quando
ela falou, sua respiração agitou a camada de poeira na base
da janela e escureceu o vidro. Não se animou a limpá-lo e
esperou que a poeira assentasse. A luz movimentou-se
sobre um xale de cobrir os joelhos amarrotado no chão do
carro e a rápida visão de um par de sapatos de verniz usados com traje a rigor. Sobre os sapatos, meias pretas, e,
acima das meias, calças de smoking com pernas dentro
delas.


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Ninguém entrou por esta porta nos últimos cinco
anos — calma, calma, não se afobe, moça...
— Hei, Sr. Yow! Por favor, Sr. Yow!
— Diga, policial Starling!
— Sr. Yow, parece que alguém está sentado neste
carro.
— Oh, não! Acho melhor que saia já daí, Srta. Starling.
— Ainda não, Sr. Yow. Apenas espere-me aí, faça o
favor.
Agora é quando é importante pensar. Agora é mais
importante do que toda a merda que você fica conversando com seu travesseiro para o resto de sua vida. Engula e
faça isso direito. Eu não desejo destruir provas. Eu preciso de alguma ajuda. Mas principalmente não quero gritar
por socorro. Se eu acionar o escritório de Baltimore e os
policiais daqui por algo inexistente, estou liquidada. Estou
vendo uma coisa parecida com pernas. O Sr. Yow não
meteria trazido aqui se soubesse que havia um “presunto”
no carro. Conseguiu sorrir para si mesma. “Presunto” era
uma bravata. Ninguém esteve aqui depois da última visita
de Yow. Muito bem. Isto significa que todas as caixas foram introduzidas depois do que quer que seja aquilo no
carro. E significa ainda que posso movimentar as caixas
sem perder nada de importante.
— Tudo certo, Sr. Yow.
— Bem. Afinal, temos que chamar a polícia ou você será o bastante, policial Starling?
— Preciso destrinchar isso. Queira esperar um
pouco, por favor.
O problema das caixas era enlouquecedor como a
brincadeira dos cubos de Rubik. Ela tentou trabalhar com


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a lanterna embaixo do braço, deixou-a cair duas vezes e
finalmente ajeitou-a em cima do carro. Teve que colocar
algumas caixas atrás dela, e as caixas menores, de livros,
empurrou para baixo do carro. Sentiu uma espécie de
mordida ou picada de farpa na ponta do polegar.
Agora podia ver o assento do chofer, pelo vidro
empoeirado da janela fronteira no lado do passageiro.
Uma aranha tecera sua rede entre o volante e a alavanca
das marchas. A divisão entre o compartimento da frente e
o de trás estava fechada.
Gostaria de ter pensado em passar óleo na chave
do Packard antes de se infiltrar por baixo da porta, mas
quando enfiou a chave na fechadura, esta funcionou.
O espaço não permitia abrir mais que um terço da
porta na apertada passagem. A porta abriu-se de encontro
às caixas com barulho que espantou os camundongos e
fez soar mais algumas nota no piano. Um cheiro de podridão e produtos químicos vinha do carro; o cheiro levou
sua memória para outro local, mas ela não identificou qual
era.
Inclinou-se para o lado de dentro, abriu a separação
atrás do assento do chofer e iluminou com sua lanterna.
Uma camisa de traje a rigor com botões foi a coisa brilhante que a luz encontrou primeiro. Subiu então rapidamente da camisa para o rosto, mas não viu rosto nenhum.
Passou de novo a luz sobre os brilhantes botões da camisa
e as lapelas de cetim até uma braguilha com zíper aberto
Voltou para cima até a perfeita gravata-borboleta e o colarinho, de onde saia o vulto claro do pescoço de um manequim. Acima do pescoço, entretanto, havia alguma coisa
que refletia pouca luz, um pano, um capuz preto onde


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deveria estar à cabeça, grande como se cobrisse uma gaiola
de papagaio.
Aveludado, pensou Starling. Estava em cima de
uma prateleira que se estendia sobre o pescoço do manequim e se apoiava na parte traseira do carro, atrás dos
bancos.
Ela tirou diversas fotos do assento da frente, focando com flash e fechando os olhos ao estouro da lâmpada strobe. A segui esticou-se do lado de fora do carro.
De pé no escuro, molhada, coberta de teias de aranha, ficou pensando no que devia fazer.
O que não iria fazer era convocar o agente especial
do escritório regional de Baltimore para olhar um manequim com a braguilha aberta e um álbum de presentes.
Tão logo decidiu entrar no banco de trás e tirar o
capuz daquela coisa, resolveu que faria isso sem pensar
muito no que iria encontrar. Meteu a mão pelo compartimento do chofer, destravou a porta traseira e re-arrumou
algumas caixas para poder abri-la. Tudo pareceu-lhe levar
muito tempo. O cheiro do compartimento de trás tornouse mais forte quando ela abriu a porta. Meteu a mão dentro do carro e, levantando cuidadosamente o álbum de
presentes segurando-o pelos cantos, colocou-o num saco
de provas no topo do carro. Esticou outro saco aberto no
assento.
As molas do carro gemeram quando ela entrou e o
vulto mexeu se um pouco assim que ela se sentou a seu
lado. A mão direita com a luva branca escorregou de cima
da coxa e pousou sobre o assento Ela tocou a luva com
um dedo. A mão, no lado de dentro, era dura. Com cuidado, puxou a luva para baixo do pulso, que era de algum
material sintético branco. Nas calças havia uma protube-


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rância Por um instante, isso lembrou-lhe certos acontecimentos quando cursava o ginásio.
Ruídos de ratos correndo vinham de baixo do banco.
Gentilmente, como se o acariciasse, sua mão tocou
no capuz. O pano moveu-se facilmente sobre algo duro e
escorregadio por baixo dele. Quando apalpou o grande
botão redondo no topo, ela soube o que era. Percebeu um
grande boião de espécimes de laboratório e imaginou o
que estava dentro dele. Com temor, mas com poucas dúvidas, retirou a cobertura.
A cabeça no interior do boião fora cortada com perícia logo abaixo do maxilar. Estava de frente para ela, os
olhos há muito opacos e leitosos pelo álcool que os conservara. A boca estava aberta e a língua pendia ligeiramente para fora, muito cinzenta. Ao longo dos anos o álcool
evaporara em parte, até a cabeça descansar no fundo do
boião. O alto do crânio projetara-se através da superfície
do fluido e começava a apodrecer. Virada num ângulo parecido com o das cabeças de corujas em relação ao corpo,
olhava boquiaberta e estúpida para Starling. Mesmo com a
projeção da luz sobre seus traços, parecia sem expressão e
sem vida.
Naquele momento, Starling fez uma avaliação de si
mesma. Estava satisfeita. Sentia-se radiante. Ficou cismando por um instante se esses sentimentos tinham algum valor. Agora, sentada naquele carro, ao lado da cabeça, e de alguns ratinhos, conseguia pensar claramente e
por isso se sentia orgulhosa.
— Muito bem, garota — aplaudiu ela — , não estamos mais em Kansas! — Sempre desejara dizer isso no
caso de estar estressada; mas agora, fazendo-o, parecia-lhe


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falso e estava contente que ninguém a tivesse ouvido. Tinha trabalho a fazer.
Encostou-se com cuidado no banco e lançou o olhar em volta.
Aquele ambiente alguém escolhera e criara, a mil
anos-luz de distância na imaginação do tráfego que se arrastava ao longo da Estrada 301.
Flores secas pendiam dos vasinhos de cristal lapidado presos às colunas entre as portas. A mesa da limusine estava dobrada e coberta com uma toalha de linho. Sobre ela, um frasco brilhava destacando-se da poeira. Uma
aranha construíra sua teia entre o frasco e um pequeno
castiçal ao lado.
Tentou imaginar Lecter, ou alguém mais, sentado
com seu atual companheiro, tomando um drinque e tentando mostrar-lhe os presentes. E o que mais? Com muito
cuidado, mexendo no vulto o mínimo possível, revistou-o
à procura de uma identificação. Não havia nenhuma. Num
bolso do paletó encontrou as tiras de pano que haviam
sobrado do ajuste no comprimento das calças — o traje a
rigor era provavelmente novo ao ser colocado no manequim.
Starling apalpou a saliência nas calças. Duro demais,
mesmo para uma lembrança de ginásio... Abriu a braguilha
e iluminou o interior com a lanterna: era um pênis artificial de madeira trabalhada e polida. E também de bom tamanho... Ficou cismando se seria depravada.
Cuidadosamente fez girar o boião e examinou os
lados da cabeça e a nuca à procura de ferimentos. Nenhum que fosse visível. No vidro, em relevo, leu o nome
de uma companhia fornecedora de material de laboratório.


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Examinando novamente o rosto, admitiu ter aprendido algo que lhe iria ser muito valioso. Olhar atentamente aquele rosto, com a língua mudando de cor ao
encostar o vidro, não era tão terrível quanto ver, em seus
sonhos, Miggs engolindo a própria língua. Sentia-se capa
de olhar qualquer coisa se tivesse algo de positivo a fazer
com ela. Starling era jovem...
Nos dez segundos depois que a unidade móvel de
notícias da WPIK-TV freou e parou, Jonetta Johnson pôs
os brincos, passou pó-de-arroz no belo rosto moreno e
avaliou a situação. Ela e sua equipe jornalística, tendo monitorado o rádio da polícia do condado de Baltimore, chegaram a Split City na frente dos carros de patrulha.
Tudo o que a equipe de notícias viu à luz dos faróis
do carro foi Clarice Starling, de pé na frente da garagem,
com sua lanterna elétrica e seu pequeno cartão de identidade laminado. Tinha o cabelo escorrido, por causa da
garoa que caía.
Jonetta Johnson podia detectar um calouro toda
vez que o via. Ela pulou para baixo do carro levando a
equipe da câmara atrás dela e aproximou-se de Starling. As
luzes fortes da TV se iluminaram.
O Sr. Yow estava tão afundado no Buick que só
seu chapéu era visível sobre a borda da janela.
— Jonetta Johnson, da WPIK Notícias. Você reportou um homicídio?
Starling não tinha a típica aparência de uma autoridade policial, e sabia disso.
— Sou da polícia federal, e este é o cenário de um
crime. Tenho de manter tudo intacto até que as autoridades de Baltimore...


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O assistente do cameraman já tinha agarrado a base
do portão da garagem e estava tentando levantá-la.
— Pare aí! — gritou Starling. — Estou falando
com o senhor! Pare aí! Não estou brincando. E peço que
colaborem comigo. Sentia muito não dispor de um distintivo, um uniforme, qualquer coisa apropriada.
— O.K., Harry — instruiu a jornalista. — Veja, policial, nós desejamos cooperar no que for possível. Francamente, esta equipe custa dinheiro e só quero saber se
devo mantê-la aqui até as outras autoridades chegarem.
Afinal, há mesmo um cadáver aí dentro? Nada de câmara,
apenas entre nós. Diga-me isso, e esperamos. Nos comportaremos bem, prometo. Que tal?
— Eu esperaria, se fosse você — disse Starling.
— Obrigada, você não vai se arrepender — prometeu Jonetta Johnson. — Ouça: tenho algumas informações sobre a Mini-Storage de Split City que você possivelmente poderia usar. Quer iluminar a prancheta com sua
lanterna? Vamos ver se posso encontrá-las aqui.
— A unidade móvel de WEYE acaba de aparecer
no portão, Joney — avisou o homem chamado Harry.
— Vejamos se posso encontrar aqui, policial; ah, aí
está. Houve um escândalo há cerca de dois anos quando
tentaram provar que neste lugar estavam trazendo de caminhão e armazenando... o que era mesmo? Fogos de artifício? — Jonetta Johnson olhava com insistência por cima
do ombro de Starling.
Starling voltou-se e viu o cameraman deitado de
costas no chão, a cabeça e os ombros dentro da garagem.
Acocorado ao lado dele, o assistente, pronto para passarlhe a mini-câmara por baixo da porta.


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— Hei! — exclamou Starling. Agachou-se de joelhos no chão molhado e puxou-o pela camisa — Você
não pode entrar aí! Já lhe disse para não fazer isso!
Durante todo o tempo os homens falavam com ela,
repetindo com gentileza:
— Não vamos tocar em coisa alguma. Somos profissionais, você não precisa se preocupar. De qualquer
forma, a polícia nos deixará entrar. Não há problema, queridinha!
O tom meloso e insinuante deles perturbou-a.
Correu para um dos macacos no lado da porta e acionou a alavanca. A porta desceu uns cinco centímetros
guinchando. Acionou de novo a alavanca. Agora a porta
estava encostando-se no peito do homem. Como ele não
saía de baixo, puxou a alavanca do encaixe e trouxe-a até o
cameraman deitado. Havia agora outros refletores de televisão brilhando, ante a sua luz ela bateu com a alavanca na
porta, fazendo cair um chuveiro de poeira e ferrugem em
cima do homem.
— Preste atenção ao que vou lhe dizer. — Preveniu
ela. — Saia daí agora mesmo. Você está prestes a ser preso por obstrução à justiça.
— Vá com calma — apaziguou o assistente, colocando a mão no ombro dela. Starling virou-se para ele.
Ouviam-se exclamações e perguntas por trás das luzes, e
em seguida o som de sirenes.
— Tire as mãos de cima de mim e afaste-se, cara!
— Pôs o pé sobre o tornozelo do cameraman, mantendo
a alavanca suspensa a seu lado. Contudo, não a usou. Foi
melhor assim. Mesmo sem violência, tinha uma aparência
horrível na tela do vídeo.


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CAPÍTULO 9
Os cheiros da galeria dos presos violentos pareciam
mais intensos na semi-escuridão. Um aparelho de TV ligado sem som no corredor lançava a sombra de Starling,
nas barras da cela do Dr. Lecter.
Ela não podia enxergar no escuro além das barras,
mas não pediu ao guarda para ligar, de seu posto, as luzes.
Toda a galeria seria iluminada de uma só vez e ela sabia
que a polícia de Baltimore exigira as luzes totalmente acesas durante horas a fio enquanto gritavam perguntas a
Lecter. Ele se recusara a falar, mas reagi mostrando-lhes
uma galinha origami de papel dobrado que dava bicadas
quando se manipulava o rabo para cima e para baixo. O
policial mais antigo, furioso, amassara o brinquedo japonês no cinzeiro da entrada quando ele fez sinal a Starling
para entrar.
— Dr. Lecter? — Ela ouvia sua própria respiração
e também outras ao longo do corredor exceto da cela vazia de Miggs, agora enorme na sua vacuidade. Sentia aquele silêncio como uma corrente de ar.
Starling sabia que Lecter a observava da escuridão.
Dois minutos se passaram. As pernas e costas lhe doíam
após a luta com porta da garagem, e suas roupas estavam
úmidas. Sentou-se no chão sobre o casaco, bastante afastada das barras, os pés encolhidos de baixo das nádegas.
Levantou o cabelo úmido e embaraçado sobre a gola para
livrar o pescoço.
Por trás dela, na tela da TV, um evangelista agitava
os braços.


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— Dr. Lecter, ambos sabemos o que ocorre. Eles
acham que o senhor falará comigo.Silêncio. No fim do
corredor alguém assobiava: Over the Sea to Skye.Depois
de uns cinco minutos, ela disse:
— Foi uma coisa estranha entrar ali. Eu gostaria de
lhe falar sobre o que vi.
Starling teve um sobressalto quando o transportador de comida rolou vindo da cela de Lecter. Na bandeja
havia uma toalha limpa, dobrada. Ela não o havia percebido movimentar-se.
Fitou a bandeja e, com uma sensação de estar cometendo algo errado, agarrou a toalha e com ela secou o
cabelo.
— Obrigado — agradeceu.
— Por que você não me questiona sobre Buffalo
Bill? — A voz de Lecter soava próxima, no mesmo nível
dela. Parecia que também ele estava sentado no chão.
— O senhor sabe algo sobre ele?
— Poderia saber se estudasse o caso.
— Não faço parte daquele caso — disse Starling.
— E também não fará parte deste quando terminarem de usá-la.
— Sei disso.
— Você poderia conseguir o arquivo sobre Buffalo
Bill. Os relatórios e as fotografias. Gostaria de ver isso.
— Aposto que gostaria...
— Dr. Lecter, foi o senhor quem começou esta história. Agora, por favor, conte-me acerca da pessoa no
Packard.
— Você encontrou uma pessoa inteira? Curioso; vi
somente uma cabeça. De onde você supõe que veio o resto?


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— Está certo. De quem era aquela cabeça?
— Conte-me, o que você descobriu.
— Bem, eles fizeram apenas exames preliminares.
Sexo masculino, branco, uns 27 anos, trabalhos dentários
americanos e também europeus. Quem era ele?
— O amante de Raspail. Raspail, o da flauta melosa...
— Em que circunstância... como morreu ele?
— Circunlóquios, policial Starling?
— Não. Perguntarei mais tarde.
— Deixe-me poupar-lhe algum tempo. Não foi obra minha. Raspail gostava de marinheiros. Esse era um
escandinavo chamado Klaus Qualquer-coisa. Raspail nunca me informou o sobrenome.
A voz do Dr. Lecter pareceu mover-se para baixo.
Talvez se tivesse deitado no chão, pensou Starling.
— Klaus estava embarcado num navio sueco em
San Diego. Raspail estava lá ensinando no conservatório
durante o verão. Ficou alucinado pelo jovem. O sueco viu
vantagem na situação e desertou do navio. Os dois compraram uma espécie de trailer e começaram a vagar nus
como sílfides, pelos bosques. Raspail disse que o jovem
lhe fora infiel e estrangulou-o.
— Raspail contou-lhe isso?
— Ora, sim, sob o selo confidencial de sessões de
terapia. Penso que era mentira. Raspail sempre embelezava os fatos. Gostava de parecer perigoso e romântico. O
sueco provavelmente morreu asfixiado durante uma banal
transa erótica. Raspail era demasiado gorducho e fraco
para tê-lo estrangulado. Notou quão perto da mandíbula
Klaus foi cortado? Provavelmente para remover uma
marca alta nos ligamentos, resultado de enforcamento.


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— Entendo.
— O sonho de felicidade de Raspail estava arruinado. Ele pôs a cabeça de Klaus num saco de bolas boliche
e voltou para o Leste.
— E o que fez com o resto?
— Enterrou nas montanhas.
— Ele mostrou-lhe a cabeça no carro?
— Sim, no curso da terapia achou que podia abrirse comigo, ele ia lá com Klaus bastante repetidamente,
para mostrar-lhe os presentes.
— E então foi o próprio Raspail quem morreu...
Por quê?
— Francamente, fiquei enjoado, farto dos seus lamentos. Afinal, foi a melhor coisa para ele. A terapia não
levava a parte alguma. Creio que a maioria dos psiquiatras
tem um paciente ou dois que gostaria de encaminhar para
mim. Nunca discuti isso antes e agora estou ficando cansado de fazê-lo — E quanto ao seu jantar para os dirigentes da orquestra? — Nunca lhe aconteceu receber hóspedes para comer e você não ter tempo de fazer compras?
Aí tem que dar um jeito com c que há no congelador, Clarice. Posso chamá-la de Clarice?
— Certo. E acho que vou chamá-lo...
— Dr. Lecter. É o que parece mais próprio para
sua idade e posição — atalhou ele.
— Sim.
— Como se sentiu ao entrar na garagem?
— Assustada.
— Por quê?
— Camundongos e insetos.
— Você usa alguma coisa quando quer alertar seus
nervos? — perguntou o Dr. Lecter.


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— Nada que conheço funciona, exceto desejar aquilo que estou perseguindo.
— Memória ou quadros de coisas passadas lhe ocorrem então. Quer você as provoque ou não?
— Talvez. Nunca pensei sobre isso.
— Coisas da sua vida pregressa.
— Terei que observar para descobrir.
— Como se sentiu quando soube acerca de Miggs,
meu faleci do vizinho? Você não me perguntou sobre ele.
— Pretendia fazê-lo.
— Você não ficou contente quando soube?
— Não.
— Ficou triste?
— Não. Foi o senhor quem o levou àquele extremo?
O Dr. Lecter riu-se baixinho.
— Você me pergunta, policial Starling, se instiguei
a covardia do suicídio ao Sr. Miggs? Não seja tola. Tem
certa conotação agradável, no entanto, o fato de ele engolir aquela sua ofensiva língua, você não concorda?
— Não.
— Policial Starling, isso foi uma mentira. A primeira que você me prega. Uma ocasião triste, diria Truman.
— O presidente Truman?
— Esqueça... Por que acha que a ajudei?
— Não sei.
— Jack Crawford gosta de você, não gosta?
— Ignoro isso.
— O que diz provavelmente não é verdade. Gostaria que ele gostasse de você? Diga-me: você sente necessidade de agradar-lhe e isso a preocupa? Desconfia da sua
necessidade de agradar-lhe?


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— Todo mundo gosta de ser apreciado, Dr. Lecter.
— Nem todo mundo. Você acha que Jack Crawford a quer sexualmente? Sei que ele agora anda muito
frustrado. Você acha que ele imagina... cenários, transas...
enfim, foder com você?
— É um assunto que não me desperta curiosidade,
Dr. Lecter, é a espécie de coisa que Miggs perguntaria.
— Não pode mais perguntar...
— O senhor sugeriu a ele que engolisse a língua?
— Seu senso interrogativo inclui muitas vezes o
próprio subjuntivo. Com esse sotaque, cheira a lâmpada
de mineiro... Crawford sem dúvida gosta de você e acha-a
competente. Penso que a estranha confluência dos acontecimentos não lhe escapou, Clarice, pois tem tido a ajuda
de Crawford e tem tido a minha. Você diz que não sabe
por que Crawford a ajuda, sabe por que eu o faço?
— Não. Diga-me.
— Acha que é porque gosto de olhar para você e
pensar em comê-la, em qual seria o seu gostinho?
— É por isso?
— Não. Eu quero algo que Crawford me pode dar
e desejo negociar com ele. Mas ele não vem me ver. Não
pede minha ajuda sobre Buffalo Bill, embora saiba que
por isso mais mulheres jovens vão morrer.
— Não posso acreditar, Dr. Lecter.
— Quero algo muito simples e ele pode conseguilo para min — Lecter girou vagarosamente o reostato da
luz de sua cela. Seus livros e desenhos tinham desaparecido. O assento do toalete sumira. Chilton havia desnudado
a cela para puni-lo por causa de Miggs — Estou neste lugar há oito anos, Clarice. Sei que eles jamais me deixarão
sair vivo daqui. Só o que eu quero é um panorama para


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olhar. Uma janela por onde eu possa ver uma árvore ou
mesmo uma poça d’água.
— Seu advogado já fez uma petição...
— Chilton mandou pôr aquela televisão no corredor, sintonizada num canal religioso. Tão logo você se
retirar, o guarda irá novamente aumentar o som e meu
advogado não pode impedi-lo, pois a corte não está inclinada a ser benévola a meu respeito. Desejo ir para uma
instituição federal, desejo meus livros de volta, desejo umas visitas. Posso dar algo valioso em troca disso. Crawford pode conseguir. Pergunte-lhe.
— Posso relatar a ele o que o senhor me contou.
— Ele vai ignorar tudo isso. E Buffalo Bill irá continuar e continuar. Espere até ele escalpelar mais uma e
veja se você vai gostar... Hum... Eu lhe digo uma coisa
acerca de Buffalo Bill sem mesmo avaliar o caso. Daqui a
alguns anos, quando o apanharem, se o apanharem, você
verá que eu estava certo e que poderia ter ajudado. Poderia ter poupado vidas. Clarice?
— Sim?
— Buffalo Bill tem uma casa de dois andares —
anunciou o Dr. Lecter, e apagou a luz.
E não quis mais falar de novo.


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CAPÍTULO 10
Clarice Starling encostou-se numa mesa de roleta
no cassino do FBI e tentou prestar atenção a uma conferência sobre “lavagem” de dinheiro da jogatina. Haviam
decorrido 36 horas desde que a polícia do condado de
Baltimore tomara o seu depoimento (através de uma datilógrafa de dois dedos que fumava um cigarro atrás do outro: “Você pode abrir aquela janela se o cigarro a incomoda...”) e a dispensara da sua jurisdição não sem antes lembrar-lhe que assassinato não é crime federal.
As redes de notícias no domingo à noite mostraram
o entrevero de Starling com os cameraman da televisão, e
ela se sentia certa de estar enterrada até às orelhas em impopularidade. Durante todo esse tempo nada ouviu de
Crawford nem do escritório regional de Baltimore. Era
como se o relatório dela tivesse caído num vazio.
O cassino onde estava agora era pequeno, tinha operado no reboque de um caminhão até que o FBI o apreendera e instalara na escola como um instrumento auxiliar de ensino. O apertado espaço estava apinhado de
policiais de muitas jurisdições. Com agradecimentos, Starling recusara aceitar as cadeiras que lhe foram oferecidas
por dois guardas-florestais do Texas e um detetive da Scotland Yard.
O resto da sua classe estava no salão do edifício da
Academia, procurando cabelos no caríssimo carpete de
motel do “Quarto do Crime Passional” e aspergindo pó
no “Banco Anônimo” em busca de impressões digitais.
Starling tinha passado tantas horas à procura de cabelos e
à cata de impressões digitais como estudante de práticas


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forenses, que preferiram enviá-la àquela conferência, parte
de uma série destinada a autoridades policiais visitantes.
Imaginava se haveria alguma outra razão para ser
separada de sua classe: talvez costumassem isolar novatos
antes de lhes dar o bilhete azul...
Starling descansou os cotovelos na borda da mesa
de roleta e tentou concentrar-se no problema de “lavar”
dinheiro de jogo. Entretanto, ela se concentrava mais no
fato de quanto o FBI detestava ver seus agentes na televisão, fora de conferências oficiais no noticiário.
O Dr. Hannibal Lecter era um doce de coco para a
mídia, e a polícia de Baltimore tinha prazerosamente fornecido o nome de Starling aos repórteres. Reiteradamente
ela se via no noticiário da rede de domingo à noite. Lá estava “Starling, do FBI”, batendo com força a alavanca do
macaco contra a porta da garagem, enquanto o cameraman tentava esgueirar-se por baixo dela. E depois a “Agente Federal Starling” virando-se para o assistente, ainda
com a alavanca do macaco na mão.
Na estação rival, a WPIK, à falta de um filme próprio, anunciara-se uma ação legal por danos pessoais contra “Starling, do FBI” e contra o próprio Bureau porque o
cameraman recebera poeira e partículas de ferrugem nos
olhos quando Starling bateu com força na porta.
Jonetta Johnson, da WPIK, apareceu num programa costa a costa com a revelação de que Starling tinha
encontrado os macabros restos na garagem através de um
“laço sinistro com um homem que as autoridades tinham
estigmatizado como um monstro...!” Ficara claro que a
WPIK tinha uma fonte de informações no hospital.
NOIVA DE FRANKENSTEIN! ! ! — Vociferava
o Nacional Tattler de suas prateleiras nos supermercados.


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Não surgiu nenhum comentário público da parte
do FBI, mas houve muitos dentro do Bureau, disso Starling estava certa.
Durante o desjejum, um de seus colegas de classe,
um jovem que usava quantidade exagerada de colônia após barba Canoe, referira-se a Starling com o “Melvin
Pelvis”, um trocadilho estúpido com o nome de Melvin
Purvis, o G-man número um de Hoover na década de 30.
O que Ardelia Mapp disse ao garotão fê-lo empalidecer e
abandonar o desjejum na mesa sem sequer nele tocar.
Agora Starling encontrava-se num curioso estado
no qual já não podia ter surpresas. Durante um dia e uma
noite sentira-se envolvida num silêncio semelhante ao que
experimentam os mergulhadores. Tencionava defender-se,
se lhe dessem a oportunidade.
O conferencista fazia girar a roleta enquanto falava,
mas nunca deixava a bolinha cair. Olhando-o, Starling se
convencera de que ele nunca na vida deixara a bola cair...
Agora percebeu-o dizendo alguma coisa familiar: “Clarice
Starling.” Por que estaria dizendo Clarice Starling? Sou eu!
— Presente.
Com o queixo, o conferencista apontou para a porta atrás dela. Lá vinha porrada... O chão pareceu-lhe afundar quando voltou-se para ver. Mas era Brigham, o instrutor de tiro, que se inclinava para dentro da sala e apontava
para ela no meio do grupo. Quando Starling o viu, ele abriu-se num sorriso.
Por um segundo pensou que estava sendo expulsa,
mas esse não seria um serviço para Brigham.
— Prepare-se para viajar, Starling. Onde está seu
material de campanha? — perguntou ele no corredor.
— No meu quarto, na Ala C.


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Precisava caminhar depressa para acompanhá-lo.
Ele estava carregando o estojo grande de impressões digitais do quarto de suprimentos, o conjunto bom,
não o de dar aulas e um pequeno saco de lona.
— Você vai com Jack Crawford. Leve o que for
preciso para passar uma noite fora. Vocês poderão voltar
antes, mas é melhor levar.
— Onde?
— Uns caçadores de patos encontraram em West
Virgínia um corpo no rio Elk ao romper do dia. Numa
situação típica de Buffalo Bill. Policiais estão retirando-o.
É um lugar onde o diabo perdeu as botas e Jack não está
inclinado a esperar que aqueles caras lhe transmitam os
detalhes. — Brigham parou na entrada da porta da Ala C.
— Ele precisa de alguém para ajudá-lo, capaz de tirar as
impressões de um cadáver que flutuou, entre outras coisas. Você era O.K. no laboratório. Você pode fazer isso,
não?
— É fácil. Deixe-me verificar o material.
Brigham manteve o estojo de impressões aberto
enquanto Starling levantava as bandejas uma a uma. As
agulhas fininhas de injeção estavam lá, bem como os frascos, mas não havia uma máquina fotográfica.
— Preciso da máquina Polaroid 1x1, a CU-5, Sr.
Brigham. E filmes e baterias para ela.
— Do almoxarifado? Vou apanhar.
Entregou-lhe o pequeno saco de lona, e quando ela
sentiu o peso compreendeu por que tinham mandado Brigham buscá-la.
— Você ainda não tem arma de serviço, não é verdade?
— Não.


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— Pois precisa de um conjunto completo. Exatamente o que vem usando no estande de tiro. O revólver
que vai levar é o meu. É o Smith modelo K com o qual
você está treinada, mas de gatilho mais leve. Acione-o em
seco no quarto hoje à noite, quando tive uma chance. Estarei num carro atrás da Ala C dentro de 10 minutos com
a câmara. Olhe: no “Blue Canoe” não existe privada. Vá
ao banheiro enquanto você tem oportunidade, é o meu
conselho. Apresse-se, Starling.
Ela tentou fazer uma pergunta, mas ele já tinha ido
embora.
Tem que ser Buffalo Bill, se o próprio Crawford está indo. Que diabo será o “Blue Canoe”? Mas quando você está fazendo a mala, tem que pensar apenas em fazer a
mala. Starling a fez depressa e bem.
— Tudo bem — Brigham interrompeu-a quando
ela entrou no carro. — A coronha aparece um pouco sob
o casaco se alguém procura ver se você está armada, mas
por enquanto está tudo bem. Ela usava o revólver de cano
curto debaixo do blazer, num coldre tipo panqueca bem
encostado nas costelas, bem como um carregador rápido
preso ao cinto no outro lado.
Brigham dirigia precisamente no limite de velocidade em direção à pista de aviões de Quântico.
Puxou um pigarro e disse:
— No estande de tiro há uma boa coisa, Starling:
por lá não se faz política.
— Não.
— Você andou certa ao impedir a entrada naquela
garagem em Baltimore. Está preocupada com a televisão?
— Deveria estar?
— Esta é uma conversa só entre nós, certo?


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— Certo.
Brigham respondeu ao cumprimento de um fuzileiro que dirigia o tráfego.
— Levando-a hoje com ele, Jack está demonstrando sua confiança em você de uma forma que ninguém
poderá ignorar — frisou ele. — Na hipótese, digamos, de
alguém no Escritório de Responsabilidade Profissional
agitar seu caso na frente dele, e ele fica em cólicas... Compreende o que quero dizer?
— Hum...
— Crawford é um tipo que agüenta a mão. Ele esclareceu amplamente e até onde interessava que você tinha que fazer o que fez. Afirmou tê-la enviado nua — isto
é, despida de todos os símbolo visíveis de autoridade, declarou isso também. E o tempo que os policiais de Baltimore levaram para agir foi muito demorado. Hoje, também Crawford necessita de ajuda e teria que esperar uma
hora até Jimmy Price mandar alguém até aqui do laboratório. Então a coisa estava bem talhada para você, Starling.
Um cadáver boiando não é nenhuma brincadeira de praia... Também não é nenhuma punição contra você, mas se
alguém de fora precisasse interpretar a coisa dessa maneira, poderia. Veja: Crawford é um cara muito sutil, mas não
se sente inclinado a explicar as coisas, e é por isso que estou lhe contando... Se você vai trabalhar com Crawford,
deve saber como é o negócio com ele, entendeu?
— Na verdade, não entendi.
— Ele tem muitas preocupações além de Buffalo
Bill. A mulher dele, Bella, está muito doente. Está numa
situação... terminal. Ele a mantém em casa. Não fosse por
causa de Buffalo Bill, já teria tirado uma licença por motivo de doença na família.


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— Eu não sabia disso.
— É uma coisa que não se discute. Não lhe diga
que você sente muito ou qualquer coisa parecida; isso não
vai ajudar nada... Eles tiveram uma boa vida.
— Agradeço por ter me contado.
Brigham ficou mais animado quando chegaram ao
extremo do campo de pouso.
— Tenho uma porção de preleções importantes a
fazer no fim do curso sobre armas de fogo, Starling; tente
não perdê-las. — Cortou caminho entre dois hangares.
— Não perderei.
— Veja: o que ensino, você talvez nunca terá que
fazer. Espero que não tenha. Contudo, considero muito a
sua aptidão, Starling. Se tiver que atirar, você sabe atirar.
Continue fazendo seus exercícios.
— Certamente.
— Jamais ponha a arma dentro da bolsa.
— Certo.
— Leve-a ao seu quarto algumas vezes à noite. Coloque numa posição em que possa encontrá-la facilmente.
— Farei isso.
Um venerável bimotor Beechcraft estava na área de
taxiar da pista de Quântico com as luzes de navegação
girando e a porta aberta. Uma das hélices girava agitando
o capim ao lado do asfalto.
— Não me diga que isso aí é o Blue Canoe... 1 —
exclamou Starling.
— É ele mesmo.
— É pequeno e velho.
— É velho mesmo... — confirmou Brigham alegremente.


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— A Divisão de Repressão às Drogas pegou-o na
Flórida há muito tempo, quando ele caiu nos Everglades.
No entanto, hoje está mecanicamente em condições. Espero que Gramm e Rudman não descubram que o estamos usando, todos supõem que só andamos de ônibus. —
Encostou o carro no avião e tirou a bagagem de Starling
do banco traseiro. Com alguma confusão, conseguiu passar-lhe coisas e dar-lhe um aperto de mão.
E então, sem qualquer intenção especial, disse:
— Deus a abençoe, Starling! — Tais palavras pareciam estranhas na boca de um fuzileiro. Ele não sabia de
onde haviam vindo e seu rosto se ruborizou.
— Obrigada... muito obrigada, Sr. Brigham.
Crawford estava no assento do co-piloto, em mangas de camisa e com óculos de sol. Virou-se para Starling
quando ouviu o piloto bater a porta do avião.
Ela não podia distinguir-lhe os olhos atrás dos óculos escuros e teve a sensação de que não o conhecia.
Crawford tinha uma aparência pálida e tensa, como uma
raiz que um buld8zer arranca do chão.
— Escolha um assento e leia — foi tudo o que ele
disse.
Uma grossa pasta de arquivo estava no assento atrás dele. Na capa, em maiúsculas, estava escrito BUFFALO BILL. Starling agarrou-a com força contra o peito
quando o Blue Canoe roncou. Estremeceu e começou a
deslocar-se.


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CAPÍTULO 11
As margens da pista de decolagem tornaram-se indistintas e desapareceram logo. Do lado leste via-se uma
nesga do sol da manhã sobre a baia de Chesapeake quando o pequeno avião fez uma curva para afastar-se do tráfego.
Lá embaixo Clarice Starling podia ver a escola e a
base de Quântico do Corpo de Fuzileiros. Na pista de
treinamento de assalto, pequenos vultos de fuzileiros deslocavam-se e corriam.
Era assim que parecia visto de cima.
Certa vez, depois de um exercício de tiro noturno,
caminhando no escuro ao longo da deserta Hogan’s Alley
apenas para espairecer, ouvira aviões roncando por cima e
depois, no silêncio que se seguiu, vozes falando no céu
negro por cima dela — soldados aerotransportados num
salto noturno falando uns aos outros enquanto desciam na
escuridão. E ela ficou cismando como alguém deveria sentir-se na porta do avião esperando ordens para saltar, e
como se sentiria mergulhando naquela escuridão ameaçadora.
Talvez como se sentia agora.
Abriu a pasta.
Buffalo Bill o havia feito cinco vezes, pelo menos
que soubessem. Cinco vezes pelo menos, e provavelmente
mais, durante os últimos seis meses ele raptara uma mulher esfolando-a depois de assassinar. (Starling correu os
olhos pelos relatórios e autópsia até encontrar os testes de
histamina livre confirmando que ele as havia matado antes
de arrancar-lhes a pele).


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Jogara cada um dos corpos n′água depois de terminar seu lúgubre serviço. Todos foram encontrados em rios
diferentes, um curso d′água de um cruzamento de estradas
interestaduais, cada um num diferente estado. Todo mundo sabia que Buffalo Bill era um homem que viajava. Era
tudo que a polícia conhecia sobre ele, absolutamente tudo,
exceto que ele tinha pelo menos uma arma com seis ranhuras, girando para a esquerda — possivelmente um revólver Colt ou uma imitação de Colt. Marcas das estrias
em balas recuperadas indicavam que ele preferia usar o
calibre 38 nas câmaras mais longas de um 357.
Os rios não deixavam qualquer impressão digital,
nem sombra de cabelos ou de fibras que levassem a ele.
Tinha-se quase certeza de que era um homem
branco: branco, porque assassinos em série geralmente
matam dentro do seu próprio grupo étnico e todas as vitimas eram brancas; homem, porque assassinas em série
são quase desconhecidas em nossa época.
Dois colunistas de cidades grandes haviam descoberto um título no pequeno poema sobre a morte, de E.E.
Cummings, “Buffalo Bill”: ...como você gosta de seu menino de olhos azuis, Sr. Morte.
Alguém, talvez Crawford, havia colado a citação na
capa da pasta.
Não havia uma relação clara entre o lugar onde Bill
raptava as jovens mulheres e onde ele as jogava n′água.
Nos casos em que os corpos foram encontrados
cedo o bastante para uma determinação exata da hora da
morte, a polícia descobriu outra coisa sobre o assassino:
Bill as mantinha vivas por um certo tempo. Essas vítimas
só morreram entre uma semana e dez dias após o rapto.
Isto queria dizer que ele precisava ter um lugar para man-


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tê-las, um lugar onde pudesse agir discretamente. Isto queria dizer ainda que ele não era um vagabundo; era, enfim,
um sujeito que tinha sua própria teia de aranha, seu próprio alojamento Em algum lugar.
Esse fato horrorizou o público de maneira chocante — o fato de ele mantê-las presas por uma semana ou
mais, sempre sabendo que iria matá-las.
Duas foram enforcadas; três morreram por tiros.
Não havia evidência de estupro ou abuso físico antes da
morte, e os relatórios da autópsia não registravam qualquer evidência de desfiguração “especificamente genital”,
embora os patologistas notassem que seria quase impossível determinar tal coisa nos corpos mais deteriorados.
Todas foram encontradas nuas. Em dois casos, artigos das roupas externas das vítimas foram encontrados
ao lado da estrada próxima às suas casas, cortadas nas costas como roupas para defuntos.
Starling conseguiu examinar as fotografias sem
problemas. Corpos flutuantes são a pior espécie de mortos para se lidar. Eles são absolutamente patéticos, como
muitas vezes também acontece com vitimas de homicídios
ao ar livre. As indignidades que a vitima sofre, a exposição
aos elementos e aos olhos de estranhos, fazem o investigador ficar com raiva, se seu serviço lhe permite dar-se ao
luxo de ter raiva.
Em homicídios dentro de casa, testemunhas das
práticas pessoais desagradáveis da vítima, e as vítimas da
própria vitima — esposas espancadas, crianças que sofrem
abusos — , aproximam-se eventualmente para sussurrar
que o morto merecia o que lhe aconteceu, e muitas vezes
isso é verdade.


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Mas nenhuma das vítimas de Bill merecera o castigo. Elas já não tinham sequer as próprias peles quando
apareciam no lixo das barrancas dos rios, entre garrafas de
óleo para motor de popa, embrulhos de sanduíches e outras imundícies assim. As vitimas mortas durante a estação
fria, em grande parte ainda tinham seus rostos. Starling
não ignorou que seus dentes não estavam à mostra para
expressar a dor, mas que, ao se alimentarem, tartarugas e
peixes haviam criado aquela expressão dos cadáveres. Bill
arrancava a pele dos torsos e em geral deixava os membros intocados.
As fotografias não seriam tão horríveis de examinar, pensou Starling, se a cabine deste avião não fosse tão
quente e se o maldito avião não desse aquela guinada
constante para um lado porque uma das hélices pegava
mais vento que a outra, e se a porra daquele sol não varasse as arranhadas janelas de plástico para provocar-lhe uma
dor de cabeça.
Pode-se apanhá-lo! Starling agarrou-se ao pensamento para auxiliá-la a manter-se sentada naquela cabine
que parecia cada vez menor, com o colo cheio de informações horrorosas. Poderia ajudar a liquidar com ele. Depois recolocaria na gaveta essa pasta ligeiramente pegajosa
e nojenta, trancando-a a chave.
Pôs-se a contemplar a nuca de Crawford. Se queria
acabar com Buffalo Bill, estava na companhia certa. Crawford havia organizado caçadas bem-sucedidas de três assassinos em série. Mas não sem vitimas entre os caçadores. Will Graham, o cão de fila mais esperto que jamais
correra na matilha de Crawford, era uma legenda na Academia; era agora um beberrão na Flórida e tinha um rosto
para o qual era difícil olhar, segundo diziam.


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Talvez Crawford sentisse que ela o estava fitando
por trás, porque levantou-se da cadeira de co-piloto. O
piloto ajustou o balanceamento do avião quando ele veio
para o banco posterior e sentou-se ao lado dela. No momento em que ele dobrou seus óculos de sol e recolocou
os bifocais, ela sentiu que de novo o reconhecia.
Quando observou o rosto de Starling e olhou para
o relatório, e a seguir de novo para ela, algo se passou por
trás da sua face e rapidamente desapareceu. Um rosto
mais expansivo que o de Crawford teria denunciado pena
dela.
— Estou com calor, e você? — perguntou ele. —
Bobby, está um calor danado aqui — disse para o piloto.
Este fez um ajuste qualquer e lufadas de ar fresco penetraram na cabina. Alguns flocos de neve se formaram no ar
úmido e pousaram no cabelo de Starling.
Então teve início a caçada de Jack Crawford, seus
olhos brilhando como um claro dia de inverno.
Ele abriu a pasta num mapa da região central e leste
dos Estados Unidos. Os locais onde os corpos haviam
sido encontrados estavam marcados no mapa — uns pontos espalhados, tão mudos e irregulares quanto a constelação de Órion.
Crawford tirou uma caneta do bolso e marcou a localização mais recente, seu objetivo.
— O rio Elk, cerca de 10 quilômetros abaixo da
U.S. 79 — disse. — Tivemos sorte com este. O corpo foi
fisgado por um espinhei, uma linha de pescar atravessada
no rio. Eles não acreditam que a vítima esteja na água há
muito tempo. Estão levando-a para Potter, a sede do condado. Pretendo saber logo quem ela é, de forma que se
possa pesquisar testemunhas do rapto. Mandaremos as


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fotos por uma via rápida tão logo as tenhamos. — Crawford abaixou a cabeça para olhar Starling pela parte inferior de seus óculos. — Jimmy Price diz que você sabe tirar
as impressões de um cadáver que boiou.
— Na verdade, nunca tive um cadáver flutuante inteiro — observou Starling. — Eu tirava as impressões digitais das mãos que o Sr. Price recebia pelo correio todos
os dias. Muitas eram de cadáveres que, de fato, haviam
flutuado.
Aqueles que nunca trabalharam sob a supervisão de
Jimmy Price acreditam que ele seja um amável grosseirão.
Como a maior parte dos grosseirões, ele é realmente um
velho comum. Jimmy Price é um especialista em Impressões Latentes no laboratório de Washington. Starling serviu um tempo com ele como estagiária de Prática Forense.
— Aquele Jimmy — lembrou Crawford afetuosamente. — Como é mesmo que chamam àquele serviço...
— A posição é denominada “tirano do laboratório”, ou algumas pessoas preferem Igor... — é o que está
impresso no avental de borracha que lhe dão.
— É isso mesmo.
— Eles lhe dizem para você fingir que está dissecando uma rã.
— Entendo...
— Então eles lhe trazem um pacote da UPS. Eles
estão todos observando — alguns se apressam de volta do
café, todos esperando que você vá vomitar. Posso tirar as
impressões de um cadáver flutuando muito bem. De fato...
— Bem. Agora olhe para isto. A primeira vitima
dele que conhecemos foi achada no rio Blackwater, no
Missouri, nos arredores de Lone Jack, no mês de junho


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último. A moça, Bimmel, fora dada como desaparecida
em Belvedere, Ohio, no dia 15 de abril, dois meses atrás.
Não pudemos dizer muito a respeito — levou-nos mais
três meses só para estabelecer a identidade. A seguinte ele
pegou em Chicago, na terceira semana de abril. Ela foi
encontrada no rio Wabash, na parte central de Lafayette,
Indiana, apenas 10 dias depois de raptada, de forma que
pudemos apurar o que aconteceu com ela. A seguinte foi
uma mulher branca, de vinte e poucos anos, jogada no rio
Rolling Fork, próximo à estrada I-65, cerca de 60 quilômetros ao sul de Louisville, Kentucky. Nunca foi identificada. E a mulher chamada Varner, agarrada em Evansville, Indiana, e jogada no rio Embarras logo abaixo da interestadual I-70, na parte leste de Illinois.
“Depois ele viajou para o sul e jogou uma no Conasauga, abaixo de Damascus, na Georgia, ao sul da interestadual 75, que foi essa pequena Kittridge de Pittsburgh
— aqui está o retrato de formatura dela. A sorte dele é
inacreditável -— ninguém jamais o viu atacar uma mulher.
Exceto pelo fato de abandonar os cadáveres perto de uma
interestadual, não vemos nenhum outro padrão de comportamento.
— Se você seguir de volta as vias de tráfego mais
pesado desde o lugar onde ele jogou os corpos, elas convergem de qualquer modo?
— Não.
— Que tal se você... considerar como um postulado... que ele está fazendo um despejo e um novo rapto na
mesma viagem? — perguntou Starling evitando cuidadosamente a expressão proibida “fazer a hipótese”. — Ele
primeiro se descartaria do corpo — não seria lógico —
para o caso de ter dificuldade em apossar-se da próxima


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vitima? Então, se fosse apanhado raptando alguém, ele
poderia escapar alegando um atentado ao pudor, e nada
confessar se não tivesse um corpo em seu carro. Portanto,
que tal traçar vetores para trás de cada ponto de rapto
passando pelo lugar anterior de abandono do corpo? Você
já tentou isso, não?
— É uma boa idéia, mas ele também a teve. Se ele
está fazendo ambas as coisas numa mesma viagem, fica
andando em ziguezague. Já programamos simulações no
computador, primeiro com ele movimentando-se para
oeste nas interestaduais, depois para leste, depois várias
combinações com as melhores datas que podemos atribuir
aos abandonos de corpos e aos raptos. Você entra com
isso no computador e sai uma fumacinha. Ele vive no leste, diz-nos o computador. Ele não segue um ciclo lunar,
informa. Datas de convenções nas cidades em causa não
têm qualquer correlação. Nada a não ser coisas sem importância. Não, ele já viu que estamos na sua pista, Starling.
— Você pensa que ele é por demais cuidadoso para
ser um suicida — Crawford concordou com a cabeça:
— Definitivamente, cauteloso demais. Ele descobriu como ter uma relação significativa agora e ele deseja
repetir muito. Não estou colocando minhas esperanças
num suicida.
Crawford passou ao piloto um copo d’água de uma
garrafa térmica. Deu uma para Starling e misturou um Alka-Seltzer no seu.
O estômago dela reagiu quando o avião começou a
descer.
— Há um par de coisas que quero dizer-lhe, Starling. Espero de você uma prática forense de primeira clas-


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se, mas necessito mais que isso. Você não fala muito, e é
O.K.; eu também não. Mas não creia nunca que precisa
ter um novo fato para me contar antes de trazer qualquer
assunto pertinente. Não há nenhuma pergunta tola. Você
irá ver coisa que eu não vejo e eu quero saber delas. Talvez você tenha jeito para isso. De repente surge uma
chance para revelar se você tem esse jeito.
Escutando-o, o estômago aos pulos e a expressão
propriamente atenta, Starling cismava desde quando
Crawford teria sabido que iria usá-la naquele caso, como
desejara que ela ficasse sequiosa por uma oportunidade.
Ele era um líder, tinha a conversa fiada franca e aberta de
um líder, ora essa...
— Você pensa nele o tempo todo, você imagina
por onde esteve, você cria um sentimento por ele — continuou Crawford. — Você até que não desgosta dele continuamente, difícil como isso seja de acreditar. Então, se
tiver sorte, do meio de tudo o que você acumulou, uma
parte pula sobre você, tenta capturar sua atenção. Sempre
me diga quando algo pular pedindo sua atenção, Starling.
“Ouça-me: um crime já é uma coisa confusa sem
uma investigação para complicá-lo. Não deixe que um
monte de policiais a confundam. Viva de acordo com seus
olhos, escute a você mesma Mantenha o crime separado
do que está acontecendo em torno de si. Não tente impor
nenhum padrão ou simetria a esse cara. Mantenha-se receptiva e deixe que ele lhe mostre o caminho.
“Outra coisa: uma investigação como esta é como
um zoológico. Espalha-se por uma porção de jurisdições e
algumas delas são orientadas por tipos fracassados. Temos
que tolerá-los, de modo que eles não escondam nada de
nós. Vamos para Potter, West Virgínia. Nada sei sobre


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essas pessoas que vamos encontrar. Podem ser boa ou
podem pensar que somos cobradores de impostos.
O piloto tirou o fone dos ouvidos e falou, voltando-se para trás
— Aproximação final, Jack. Você vai ficar ai atrás?
— Sim — disse Crawford. — Acabou a aula, Starling...


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CAPÍTULO 12
Eis aqui a Casa de Funerais Potter, a maior casa
branca de madeira da Rua Potter, em Potter, West Virgínia, que serve como necrotério para o condado de Rankin.
O médico-legista é um clínico chamado Dr. Akin. Se ele
decide que uma morte é questionável, o corpo é encaminhado para o Centro Médico Regional de Claxton no
condado vizinho, onde eles têm um patologista experiente.
Clarice Starling, viajando do aeroporto para Potter
na parte de trás de um carro-patrulha do departamento do
xerife, tinha que encostar o rosto na tela que separava o
compartimento dos prisioneiros da frente do carro para
ouvir o delegado que dirigia o carro explicando tais coisas
para Jack Crawford.
Estava para começar um serviço fúnebre na capela
mortuária. As pessoas enlutadas, vestidas em suas melhores roupas dominicais, formavam uma fila na calçada entre
altos e baixos e acotovelavam-se nos degraus aguardando
sua vez de entrar. A casa, pintada de fresco, e os degraus,
cada um por seu lado, tinham saído um pouco de prumo.
No estacionamento particular atrás da casa, onde os
carros fúnebres esperavam, dois policiais jovens e um
mais velho estavam reunidos com dois guardas estaduais
debaixo de um olmo desfolhado. O frio não era suficiente
para condensar a respiração deles.
Starling observou esses homens quando o carropatrulha entrou no estacionamento, e imediatamente reconheceu-os. Sabia que provinham de lares que tinham
guarda-roupas em vez de closet e sabia muito bem o que


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havia dentro desses guarda-roupas. Sabia que o policial
mais velho crescera com uma bomba d’água na varanda da
casa e patinhara pela estrada durante a úmida primavera
para apanhar o ônibus escolar com seus sapatos pendurados ao pescoço por cordões, como o pai já fizera. Sabia
que haviam levado seus lanches para a escola em sacos de
papel com manchas de gordura por serem usados e reusados e que, depois do almoço, eles dobravam os sacos e os
enfiavam nos bolsos de trás de seus jeans.
Ela imaginava o quanto Crawford saberia acerca
deles.
Não havia maçanetas no lado de dentro das portas
traseiras do carro-patrulha, descobriu Starling quando o
motorista e Crawford desembarcaram e se dirigiram para
os fundos da casa funerária. Ela precisou bater no vidro
até que um dos policiais debaixo da árvore a viu e o motorista teve que voltar, encabulado, para deixá-la desembarcar.
Os policiais olharam-na de soslaio quando passava
por eles. Um deles cumprimentou-a, dizendo “Madame...”. Ela os premiou com um aceno de cabeça e um sorriso de proporções corretas quando foi juntar-se a Crawford na varanda atrás da casa.
Depois que ela se afastou bastante, um dos policiais
jovens, que era recém-casado, coçou o queixo e disse:
— Ela não parece tão gostosa quanto pensa que é...
— Bem, se ela pensa que parece uma gostosona,
creio que teria de concordar com ela — respondeu o outro policial jovem. Eu seria capaz de fazer um embrulho
dela e levá-la para casa...


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— Eu preferiria uma grande melancia, se estivesse
bem geladinha... — disse o policial mais velho com seus
botões.
Crawford já estava conversando com o sub-xerife,
um homem pequeno, empertigado, de óculos com aros de
aço e a espécie de botas com os lados de elástico que os
catálogos chamam de “Romeus”.
Ambos haviam se deslocado para o sombrio corredor dos fundos da casa funerária, onde uma máquina de
vender Coca-Cola zumbia e onde diversos objetos estranhos se acumulavam de encontro à parede: uma máquina
de costura com pedal, um triciclo e um rolo de grama artificial, bem como um toldo de lona listrada embrulhado
em volta de seus suportes. Na parede havia uma gravura
de cor sépia de Santa Cecília ao piano. O cabelo da santa
estava arrumado em tranças em volta da cabeça e rosas
caiam em cima do teclado, vindo do ar.
— Agradeço-lhe por haver-nos dado conhecimento
tão rápido, xerife — disse Crawford.
O sub-xerife não queria conversa.
— Foi alguém do escritório do promotor público
quem chamou vocês — informou ele. — Sei que o xerife
não os chamou; o xerife Perkins está fazendo presentemente uma excursão pelo Havaí com a Sra. Perkins. Falei
com ele pelo telefone esta manhã, as oito, ou seja, às três
da manhã, hora do Havaí. Ele vai me telefonar de volta
mais tarde ainda hoje, mas me disse que o Serviço Número Um é descobrir se esta é uma moça do lugar. Poderia
ser alguém que elementos de fora tivessem despejado em
nossa jurisdição. Vamos atender a isso antes de fazer
qualquer outra coisa. Já aconteceu trazerem corpos para cá
vindos de muito longe, de Phoenix City, Alabama.


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— Este é um ponto onde podemos ajudá-lo, xerife.
Se...
— Já me comuniquei pelo telefone com o comandante dos serviços de campo da polícia estadual em Charleston. Ele está mandando alguns homens da Seção de
Investigações Criminais, conhecida como SIC. Eles nos
darão todo o apoio que necessitarmos. — O corredor estava se enchendo, de subdelegados e policiais fardados; o
sub-xerife estava oferecendo uma audiência longa demais.
— Iremos procurá-los tão logo pudermos e corresponderemos à sua cortesia; trabalharemos em conjunto com vocês de toda forma possível, mas por enquanto...
— Xerife, essa espécie de crime sexual tem alguns
aspectos que eu preferiria discutir somente entre nós, homens, compreende o que quero dizer? — insistiu Crawford, indicando a presença de Starling com um pequeno
movimento da cabeça. Empurrou o colega baixinho para
dentro de um escritório cheio de móveis que dava para o
corredor e fechou a porta. Starling ficou sozinha, tendo
que disfarçar seu embaraço aos olhares dos policiais. Com
os dentes cerrados, ela olhou para Santa Cecília e retribuiu
o etéreo sorriso da imagem ao mesmo tempo em que procurava escutar o que se passava atrás da porta. Pôde ouvir
vozes exaltadas, depois uns trechos de conversas telefônicas. Em menos de quatro minutos todos estavam de volta
ao corredor.
O sub-xerife tinha os lábios cerrados.
— Oscar, vá em frente e chame o Dr. Akin. Ele
tem uma certa obrigação de assistir a esses funerais, mas
não creio que já começaram. Diga-lhe que temos Claxton
ao telefone.


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O legista Dr. Akin veio até o pequeno escritório.
Pôs o pé em cima de uma cadeira e ficou batendo nos
dentes com um leque do Bom Pastor, enquanto entretinha
breve conversa com o patologista em Claxton. A seguir
pareceu concordar com tudo.
A seguir no quarto de embalsamar forrado com papel de parede decorado com rosas e uma moldura de madeira por baixo do teto alto, numa casa de madeira branca
de um estilo que lhe era familiar, Clarice Starling teve seu
primeiro contato direto com uma obra de Buffalo Bill.
O lustroso saco verde, bem fechado com um zíper,
era a única coisa moderna no aposento. Estava em cima
de uma antiga mesa com tampo de porcelana, refletida
muitas vezes nos painéis de vidro dos armários que guardavam ferramentas de cirurgia e pacotes de fluidos da
marca Rock-Hard para encher cavidades.
Crawford foi até o carro pegar o transmissor de
impressões datiloscópicas enquanto Starling desembrulhava seu material na mesa com uma grande pia dupla encostada à parede.
Havia gente demais no quarto. Vários subdelegados, o sub-xerife, todos haviam entrado e não mostravam
nenhuma disposição para sair. Estava tudo errado. Por
que Crawford não se mexia E se livrava deles?
O papel de parede, que estava meio solto, voltou à
sua posição normal quando o doutor acionou o grande,
velho e poeirento ventilador, gerando uma corrente de ar.
De pé ao lado da pia, Clarice Starling necessitava
agora de um tipo de coragem mais adequado e potente do
que num salto de pára quedas dos fuzileiros. Veio-lhe à
cabeça uma imagem que a ajudou, mas perturbando-a ao
mesmo tempo:


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Sua mãe de pé junto a pia, lavando o sangue do capacete do pai; fazia correr água fria por cima dele, dizendo: “Vamos nos arrumar, Clarice. Diga a seus irmãos que
se lavem e venham à mesa. Precisamos conversar e depois
serviremos o jantar”.
Starling retirou o lenço do pescoço e amarrou-o
sobre os cabelos, como uma parteira do interior. Do estojo tirou um par de luvas: cirúrgicas. Quando abriu a boca
pela primeira vez em Potter, sua voz tinha mais que um
timbre normal, e sua energia levou Crawford até a porta
para escutá-la.
— Cavalheiros, cavalheiros! Senhores policiais e
cavalheiros. Peço sua atenção, por favor! Agora sou eu
quem vai tomar conta dela. — Levantou as duas mãos à
frente deles enquanto enfiava as luvas. — Tenho algumas
coisas a fazer com ela. Os senhores a trouxeram até aqui,
e sei que a família lhes agradeceria por isso. Agora por
favor, queiram sair e deixem-me tomar conta dela.
Crawford viu-os subitamente calados, depois falaram respeitosamente entre si, aos sussurros:
— Vamos, Jess. Esperaremos no pátio.
Observou que a atmosfera havia mudado: de onde
quer que aquela vítima tivesse vindo, quem quer que fosse, o rio a havia carregado para aquele lugar do interior, e
enquanto ela jazia inerte compreenderam que Clarice Starling tinha um relacionamento especial com ela. Crawford
viu que naquele lugar Clarice era a herdeira das mulheres
idosas, das experientes, das que sabem curar com ervas,
das duras velhotas do interior que sempre fazem o que é
preciso, velam os defuntos e, quando o velório termina,
lavam e vestem os mortos para o enterro.


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Logo só restaram Crawford, Starling e o legista, além da vítima. O Dr. Akin e Starling olharam um para o
outro com uma espécie de reconhecimento. Ambos estavam estranhamente contentes, ambos estranhamente envergonhados.
Crawford tirou uma latinha de Vick VapoRub do
bolso e ofereceu aos outros. Starling ficou observando, e
quando Crawford e o doutor esfregaram a pasta nas narinas ela os imitou.
Tirou as câmaras fotográficas de dentro da bolsa de
equipamento e as pôs na mesa da pia, de costas para o
quarto. Atrás dela, ouviu abrir-se o zíper do saco que continha o corpo.
Starling piscou os olhos para as rosas no papel de
parede, inspirou profundamente e esvaziou o peito. Voltou-se e olhou o corpo na mesa.
— Deveriam ter protegido as mãos dela com sacos
de papel disse. — Agora farei isso quando terminarmos.
Com todo o cuidado, posicionando a máquina automática para enquadrar as exposições, Starling fotografou
o corpo.
A vítima, uma mulher jovem de quadris largos, tinha 1,70m de altura segundo mostrava a fita de Starling. A
água havia acinzentado as partes em que a pele fora retirada, mas era claro que não estivera mergulhada por mais de
alguns dias. O corpo fora esfolado com perícia desde uma
linha precisa logo abaixo dos seios e até os joelhos, mais
ou menos a área que seria coberta pelos calções e faixa da
cintura de um toureiro.
Os seios eram pequenos e entre eles, por sobre o
esterno, via-se a causa aparente da morte, uma ferida pro-


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funda, com o feitio de uma estrela, e da largura de um
palmo.
A cabeça redonda estava raspada até o osso, desde
acima das sobrancelhas e orelhas até a nuca.
— O Dr. Lecter bem disse que ele iria começar a
escalpelar — comentou Starling.
Crawford estava de pé, os braços cruzados, enquanto ela tirava as fotografias.
— Fotografe as orelhas dela com a Polaroid — foi
só o que disse.
Limitou-se a franzir o cenho enquanto andava em
torno do corpo. Starling tirou uma luva para correr o dedo
ao longo da panturrilha da vítima. Um pedaço da linha de
pesca e os anzóis tipo garatéia que se haviam enrolado,
segurando o corpo no rio em movimento, ainda estavam
presos em torno da perna.
— Alguma coisa especial, Starling?
— Bem, vê-se que não é mulher destas redondezas,
tem as orelhas perfuradas três vezes e usa esmalte de unhas brilhante. Para mim, é gente da cidade. Tem pêlo nas
pernas de mais ou menos duas semanas. E vejam como
cresceu macio. Provavelmente usava cera para depilar.
Também nas axilas. Reparem como limpou a penugem do
lábio superior. Era cuidadosa consigo mesma, mas finalmente não foi capaz de cuidar-se...
— O que acha da ferida?
— Não sei — disse Starling. — Diria que a saída de
uma bala de arma de fogo, mas também parece parte de
um anel de abrasão e vê-se a marca do que seria um cano
aqui em cima.
— Bom, Starling. É uma ferida de contato com entrada acima do esterno. Os gases da explosão expandem-


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se entre o osso e a pele e formam uma estrela em volta do
buraco.
Do outro lado da parede ouviu-se um órgão de foles quando o serviço fúnebre começou na casa funerária.
— Morte infeliz! — lamentou o Dr. Akin, balançando a cabeça. — Tenho que ir lá fora pelo menos para
uma parte do serviço. A família sempre espera que eu acompanhe a última fase. Lamar virá ajudar vocês tão logo
termine a oferenda musical. Confio em que vocês preservarão as provas para o patologista em Claxton, Sr. Crawford.
— Ela tem duas unhas quebradas na mão esquerda
— indicou Starling quando o doutor saiu. — Estão quebradas até o sabugo e parece que há sujeiras ou algumas
partículas duras acumuladas. Podemos colher amostras?
— Colha amostras do material e umas escamas do
esmalte das unhas — pediu Crawford. — Informaremos a
eles depois de obter os resultados.
Lamar, o magro assistente da casa funerária com
um corado de uísque nas maçãs do rosto, entrou enquanto
ela ainda trabalhava
— Você deve ter sido manicure alguma vez na vida
— observou ele.
Ficaram contentes ao ver que a jovem vítima não
tinha marca: de unhas nas palmas das mãos uma indicação
de que, como as outras, morrera antes que qualquer outra
coisa fosse feita com ela.
— Você quer tirar-lhe as impressões estando ela em
decúbito ventral? — perguntou Crawford.
— Será mais fácil.


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— Vamos primeiro tirar-lhe uma foto dos dentes,
depois Lamar pode ajudar-nos a pô-la de barriga para baixo.
— Apenas fotos ou um mapeamento? — Starling
adaptou o jogo de fotos dentais na frente da câmara de
datiloscopia, aliviada ao verificar que todas as peças estavam na bolsa.
— Apenas fotos — preferiu Crawford. — Um mapeamento pode confundir sem os raios X. Com as fotos
poderemos eliminar algumas mulheres desaparecidas.
Lamar era muito delicado. Com suas mãos de organista foi abrindo a boca da moça sob a orientação de Starling e arregaçando seus lábios, enquanto a policial colocava a Polaroid 1x1 contra o rosto da mulher para obter os
detalhes de seus dentes da frente. Essa parte era fácil, mas
ela devia fotografar os molares com um refletor palatal,
observando de lado o brilho através da bochecha para ter
certeza de que o strobe em volta das lentes estava iluminando o interior da boca. Ela só havia visto fazer aquilo
em aulas.
Starling avaliou as primeiras fotos dos molares, ajustou os controles de iluminação e tentou repetir. A foto
saiu melhor. Ficou realmente muito boa.
— Ela tem qualquer coisa na garganta — observou
Starling.
Crawford olhou para a foto; mostrava um objeto
cilíndrico, escuro, logo atrás do véu palatino.
— Dê-me a lanterna elétrica.
— Quando um corpo é retirado da água, muitas
vezes aparecem folhas e outras coisas na boca — observou Lamar, olhando ao lado de Crawford.


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A policial tirou algumas pinças da sua bolsa. Olhou
para Crawford, que estava do outro lado do corpo. Ele
assentiu com a cabeça e Starling levou apenas um segundo
para retirar o objeto.
— O que é isto, alguma espécie de vagem com sementes? — perguntou Crawford.
— Não, senhor, é o casulo de um inseto — informou Lamar.
Starling colocou-o num frasco.
— Você poderia pedir ao agente do condado para
examiná-lo — disse Lamar.
De rosto para baixo, tornava-se mais fácil tirar as
impressões digitais. Starling estava preparada para o pior,
mas nenhum dos cansativos e delicados métodos de injeção ou aplicação de dedeiras seria necessário. Ela tomou
as impressões num cartão fino preso a um aparelho com a
forma de uma calçadeira. Obteve também um jogo de impressões das plantas dos pés, para o caso de que aparecessem tais impressões fornecidas para comparação por algum hospital-maternidade.
Dois pedaços triangulares de pele faltavam nos
ombros. Starling tirou mais fotografias.
— É bom medir também — aconselhou Crawford.
— O bandido cortou a moça de Akron quando lhe rasgou
a roupa nas costas, não muito mais que um arranhão, mas
conferia com o corte nas costas da blusa quando a encontraram à beira da estrada. Isto, no entanto, é algo novo.
Ainda não tinha visto.
— Parece uma queimadura por trás do calcanhar
— disse Starling.
— Gente velha é que costuma ter sinais assim... —
ponderou Lamar.


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— O quê? — berrou Crawford.
— EU DISSE QUE GENTE VELHA TEM SINAIS ASSIM.
— Ouvi muito bem, mas quero que você explique.
O que é que acontece com gente velha?
— Velhos perdem a consciência enquanto aquecem
os pés com uma almofada elétrica por baixo deles, e se
morrem ela os queima mesmo não sendo excessivamente
quente. As pessoas sofrem queimaduras por uma almofada de aquecimento quando estão mortas Não existe circulação embaixo dela.
— Vamos pedir ao patologista em Claxton para testá-la e vê se é post-mortem — disse Crawford a Starling.
— Cano de descarga de um carro é mais provável
— aventou Lamar.
— O quê?
— O CANO DE... silencioso. Uma vez Billy Petrie
foi morto a tiros e fecharam-no na mala do carro. A mulher dele dirigiu o carro dois ou três dias procurando o
marido. Quando o trouxeram para cá, estava assim; o silencioso havia esquentado por baixo da mala e queimara-o
dessa forma, só que foi na altura dos quadris — contou
Lamar. — Eu não posso colocar as compras do mercado
na mal do meu carro porque o calor estraga.
— Está aí uma boa observação, Lamar; gostaria que
você trabalhasse para mim — aprovou Crawford. — Você
conhece os caras que a encontraram no rio?
— Jabbo Franklin e seu irmão, Bubba.
— O que fazem eles?
— Brigam lá no Moose, divertem-se com as pessoas que não estão incomodando. Alguém entra no Moose
apenas atrás de um drinque, cansado de olhar para gente


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de luto todo dia, e eles dizem “Sente-se ali, Lamar, e toque
Filipino Baby.” Fazem uma pessoa tocar Filipino Baby
várias vezes naquele maldito velho piano. É disso que
Jabbo gosta. “Bem, invente alguns versos se você não os
sabe” diz ele, “e desta vez faça a coisa rimar.” Ele recebe
um cheque mensal dos Veteranos e vai visitar a Veterans
Administration durante o Natal. Estou esperando por ele
nesta mesa há quinze anos...
— Precisamos de testes de serotonina dos Anzóis
— observou Crawford. — Estou mandando um recado
ao patologista.
— Aqueles anzóis estão muito próximos um do outro — notou Lamar.
— O que é que você disse?
— Os Franklins estavam usando um espinhel com
os anzóis próximos demais, o que é proibido. Esta é provavelmente a razão pela qual só telefonaram esta manhã
— O xerife disse que eram caçadores de patos.
— Acredito que lhe tenham dito isto — concordou
Lamar. Eles são também capazes de lhe dizer que uma vez
lutaram com Duke Keomuka em Honolulu, ou que jogaram no mesmo time de Satélite Monroe. Você pode acreditar nisso, se quiser.
— O que você acha que aconteceu, Lamar?
— Os Franklins estavam usando esse espinhel — o
espinhel deles com esses anzóis ilegais — e o recolhiam
para ver se tinham algum peixe.
— Por que você acha isso?
— A moça aí não estava nem perto da condição de
boiar.
— Não.


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— Portanto, se não estivessem recolhendo a linha,
nunca a teriam encontrado. Provavelmente fugiram assustados, mas acabaram telefonando. Espero que você queira
ouvir o guarda-caça sobre isso.
— Espero ouvi-lo — disse Crawford.
— Muitas vezes eles levam um telefone de manivela embaixo do assento do carro, e isso já acarreta uma
grande multa — se você não acabar indo para a cadeia.
Crawford levantou as sobrancelhas, sem entender.
— Isso é conhecido como telefonar para os peixes
— esclareceu Starling. — Tonteia o peixe com a corrente
elétrica da bateria quando se metem os fios dentro d′água
e se aciona a alavanca. Eles flutuam e então é só recolher
com o puçá.
— Confere — aprovou Lamar. — Você é destas
bandas?
— Fazem isso em muitos lugares — justificou Starling.
Starling sentiu vontade de dizer alguma coisa antes
que fechassem o saco com o zíper, fazer um gesto ou expressar algum comentário. Contudo, apenas sacudiu a,
cabeça e ocupou-se em colocar as amostras na bolsa.
Tudo parecia diferente com o corpo e seu problema longe dos olhos. Nesse momento de alívio, sentiu-se
oprimida pelo que acabara de fazer. Arrancou as luvas e
abriu a torneira na pia. De costas para o aposento, deixou
a água correr sobre os pulsos. A água da tubulação não
estava muito fresca. Lamar, que a observava, desapareceu
no corredor. Voltou da máquina de Coca-Cola com uma
lata gelada de refrigerante e a ofereceu.
— Não, obrigada — disse Starling. — Acho que
não quero.


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— Não é para beber, segure-a embaixo da nuca —
ensinou Lamar — encostada naquela pequena saliência
atrás da sua cabeça. O frio vai fazer você sentir-se melhor.
Sempre me faz bem.
Quando Starling acabou de fechar o memorando
para o patologista, colocando-o sobre o zíper do saco, o
transmissor de impressões digitais de Crawford já estava
funcionando na mesa do escritório.
Encontrar aquela vítima logo após o crime fora um
golpe de sorte. Crawford estava determinado a identificála rapidamente e começar uma varredura em torno da casa
dela á procura de testemunhas do rapto. Seu método dava
muito trabalho a todo mundo, mas era rápido.
Crawford carregava com ele um transmissor de impressões digitais Litton Policefax. Ao contrário das máquinas de fac-símile de uso federal, o Policefax é compatível com a maioria dos sistemas dos departamentos policiais das cidades grandes. O cartão de impressões que Starling havia coletado ainda não estava bem seco.
— Carregue-o, Starling, você tem os dedos mais
delicados.
Não vá borrá-las — era o que ele queria dizer, e
Starling não o fez. Era duro enrolar o cartão composto de
impressões colada em torno do pequeno tambor, enquanto seis salas de receptores esperavam no país inteiro.
Crawford estava ao aparelho falando com a central
telefônico, do FBI e com a sala de receptores em Washington.
— Dorothy, todo mundo está na linha? O.K., cavalheiros, vamos reduzir a recepção para um ponto vinte a
fim de mantê-la boa e bem definida — verifiquem um e


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vinte; todo mundo. Atlanta, que tal? O.K., dêem-me a linha de imagem... agora.
A seguir o tambor estava rolando a baixa velocidade para maio clareza, enviando as impressões da mulher
morta simultaneamente para as salas de recepção do FBI e
dos principais departamentos da polícia no leste. Se Chicago, Detroit, Atlanta ou qualquer um do outros aceitassem as impressões, uma busca começaria imediatamente.
A seguir Crawford enviou fotos dos dentes da vítima e do seu rosto, o crânio coberto por Starling com uma
toalha para o caso de a imprensa de escândalos verem as
fotografias.
Três policiais da Seção de Investigações Criminais
da Polícia Estadual da West Virgínia chegaram de Charleston quando eles já iam embora. Crawford deu muitos apertos de mão e distribuiu cartões com o número reservado do Centro Nacional de Informações Criminais. Starling
estava interessada em ver quanto tempo ele levaria para
criar uma atmosfera de solidariedade masculina. Certamente iriam colaborar da melhor forma, sobre isso não
havia a menor dúvida.
— Você pode apostar, e muito obrigado. Talvez
não fosse solidariedade masculina; aquela atitude afetava
também a ela.
Lamar deu um adeusinho da varanda com as pontas
dos dedos quando Crawford e Starling se afastaram no
carro com o delegado em direção ao rio Elk. A Coca-Cola
ainda estava bem fresquinha. Lamar levou-a para dentro
do depósito e preparou uma bebida refrescante com ela.


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CAPÍTULO 13
Deixe-me no laboratório, Jeff ordenou Crawford ao
motorista — Depois quero que você espera a policial Starling no Smithsonian. Dali ela irá para Quântico.
— Sim, senhor.
Estavam cruzando o rio Potomac em sentido contrário ao tráfego noturno, vindo do Aeroporto Nacional
em direção ao centro de Washington.
O jovem que dirigia o carro parecia assustado com
Crawford e usava de extrema cautela na direção, pensava
Starling. Não o culpava por isso; era artigo de fé na Academia que o último agente que se metera numa encrenca
sob o comando de Crawford estava agora investigando
roubos em linhas telegráficas nos confins do Círculo Ártico.
Crawford não estava de bom humor. Nove horas
haviam passado desde que ele transmitira as impressões
digitais e fotos da vítima, que permanecia sem ser identificada. Auxiliados por patrulheiro de West Virgínia, ele e
Starling tinham vasculhado os arredores da ponte e as barrancas do rio, sem resultados.
Starling o ouvira falar pelo telefone do avião, requisitando a ida de uma enfermeira para sua casa à noite.
O sedã sem chapa oficial do FBI parecia maravilhosamente sossegado após o Blue Canoe, e era fácil conversar.
— Vou usar a linha reservada e o Latent Descriptor
Index quando levar as impressões que você tirou para o
Departamento de Identificações — disse Crawford. —


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Me faça uma minuta de uma entrada para o arquivo. Uma
entrada, não um relatório você sabe como fazer.
— Sei.
— Imagine que eu sou o Index, e me diga o que
encontrou.
Levou alguns segundos para reunir as palavras. E
ficou aliviada porque Crawford parecia interessado nos
andaimes do Jefferson Memorial quando passaram por ali.
O Latent Descriptor Index no computador da seção de identificação compara as características de um crime sob investigação com as tendências conhecidas dos
criminosos que constam do arquivo. Quando encontra
semelhanças acentuadas, revela quais são os suspeitos e
fornece suas fichas datiloscópicas. Então um operador
humano compara as impressões do arquivo com as encontradas na cena do crime. Ainda não havia impressões
digitais de Buffalo Bill, mas Crawford queria estar preparado.
O sistema requer dados breves e concisos. Starling
tentou apresentar alguns.
— Mulher branca, idade próxima aos 20 anos para
mais ou para menos, morta a tiros, parte inferior do torso
e coxas esfoladas...
— Starling, o Index já sabe que ele mata mulheres
jovens e que lhes tira a pele do torso — use “arrancar a
pele”, incidentalmente, em vez de “esfolar”, pois esse é
um termo pouco comum que outro policial nem sempre
usa e você não pode ter certeza de que o maldito termo
seja interpretado como um sinônimo. Ele já sabe que as
vitimas são jogadas num rio. Ele não sabe o que é novo
neste caso. O que é novo aqui, Starling?


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— Esta é a sexta vitima, a primeira que ele escalpelou, a primeira com pedaços triangulares arrancados dos
ombros, a primeira com um casulo na garganta.
— Você esqueceu das unhas quebradas.
— Não, senhor, ela é a segunda com unhas quebradas.
— Certo. Ouça, na entrada para o arquivo observe
que o casulo é confidencial. Nós o utilizaremos para eliminar confissões falsas.
— Fico imaginando se ele já o fez antes: colocar
um casulo ou um inseto — ponderou Starling. — Seria
fácil passar despercebido numa autópsia, especialmente no
caso de um cadáver que boiou. Sabe, o médico examinador vê uma causa óbvia para a morte, na sala de autópsias
faz calor, e ele quer terminar logo... Será que podemos
checar isso?
— Se for necessário. Pode contar que os patologistas dirão que a eles nada escapou, naturalmente. A moça
Jane Doe, de Cincinnati ainda está no congelador. Pedirei
a eles que dêem uma olhada, mas as outras quatro estão
embaixo da terra. Ordens de exumação desagradam muito
às pessoas. Tivemos que fazê-lo com quatro pacientes que
morreram sob os cuidados do Dr. Lecter, só para termos
certeza de que ele mesmo os matou. Deixe-me dizer-lhe:
exumar dá um trabalho danado e perturba os parentes. Eu
o farei se for necessário, mas vamos ver o que você descobre no Smithsonian antes que eu decida.
— Escalpelar... isso é raro, não?
— Pouco comum — confirmou Crawford.
— Mas o Dr. Lecter disse que Buffalo Bill o faria.
Como podia saber disso?
— Ele não sabia.


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— Contudo, ele o disse.
— E isso não é muito surpreendente, Starling. Não
fiquei surpreso ao saber. Eu considerava raro até o caso
Mengel, lembra-se. O que escalpelou a mulher? Houve
dois ou três imitadores depois disso. Os jornais, quando
estavam se ocupando do caso Buffalo Bill enfatizaram
mais de uma vez que esse matador não arrancava couros
cabeludos. Não foi surpresa depois disso. Buffalo provavelmente lê os jornais que falam dele. Lecter estava dando
um palpite. Ele não disse quando iria acontecer, de forma
que nunca poderia estar errado. Se pegássemos Bill e não
tivesse havido nenhum escalpelamento, Lecter iria alegar
que o pegamos antes de ele o fazer...
— O Dr. Lecter também disse que Buffalo Bill vive
numa casa de dois andares. Nunca discutimos isso. Por
que diria ele uma coisa dessas?
— Isso não é um palpite. Ele provavelmente está
muito certo e poderia ter-lhe dito por quê, mas preferiu
brincar com você. É a única fraqueza que já notei nele, ele
gosta de parecer esperto, mais esperto que qualquer outra
pessoa. Vem fazendo isso há anos.
— Você me disse para perguntar o que não soubesse. Bem, devo pedir-lhe que me explique isso.
— O.K. Duas das suas vítimas foram enforcadas,
certo? Marcas altas de ligaduras, deslocamento cervical,
enforcamento sem menor dúvida. Como o Dr. Lecter sabe por experiência pessoal, Starling, é muito difícil uma
pessoa enforcar a outra contra a vontade dessa outra. Pessoas se enforcam todos os dias em maçanetas de portas.
Enforcam-se até sentadas, é fácil. Mas é difícil enforcar
outra pessoa; mesmo quando amarradas, elas conseguem
sustentar-se se encontrarem qualquer suporte para os pés.


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Uma escada aberta torna-se ameaçadora. As vítimas não a
sobem quando vendadas e certamente não o farão se virem um laço de forca. A maneira de fazê-lo é usar um poço de escadaria. Os degraus de escadarias são familiares.
Pode-se dizer às vítimas que estão sendo levadas ao banheiro cobri-las com um capuz, enfiar rapidamente o laço
pela cabeça é empurrá-las do último degrau com a corda
amarrada no corrimão É a única maneira adequada dentro
de uma casa. Um camarada na Califórnia popularizou isso.
Se Bill não tivesse um poço de escada, ele as mataria de
outra forma. Agora me dê aqueles nomes: o subdelegado
de Potter e o cara da polícia estadual, o mais graduado
deles.
Starling encontrou os nomes no seu caderninho,
lendo-os à luz de uma lanterna elétrica com feitio de caneta presa em seus dentes.
— Bem — concluiu Crawford. — Quando você
estiver fazendo uma comunicação por linha reservada,
Starling, sempre cite os policiais pelo nome. Ouvindo os
próprios nomes, ficam mais predispostos ante a comunicação reservada. O prestigio ajuda-os a lembrar-se de nos
telefonar se descobrirem alguma coisa. O que significa
para você aquela queimadura na perna?
— Depende de se foi feita antes ou após a morte.
— E se foi feita após?
— Fico sabendo que ele dispõe de um caminhão
fechado, um furgão, uma caminhonete, um veículo qualquer comprido.
— Por quê?
— Porque a queimadura é transversal à panturrilha.
Eles estavam no cruzamento da Rua 10 com a Pensilvânia, em frente ao novo quartel-general do FBI, ao


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qual ninguém jamais se refere como o Edifício J. Edgar
Hoover.
— Jeff, se você puder deixar-me aqui... — apelou
Crawford. — Aqui mesmo, antes da passagem subterrânea. Fique no carro, Jeff, apenas abra à traseira. Venha
mostrar-me, Starling.
Ela saltou fora do carro com Crawford, que retirou
seu datafax e a pasta do porta-malas.
— Ele transportou o corpo em algo comprido o
bastante para poder deitá-lo ao comprido de costas —
observou Starling. — É a única maneira de a panturrilha
ficar encostada por cima do cano de descarga. Na mala de
um carro como este, ela estaria toda enrodilhada e...
— Sim, entendo o que você diz — concordou
Crawford.
Só então ela compreendeu que ele a fizera sair do
carro de forma a poder falar-lhe em particular.
— Quando eu disse àquele delegado que ele e eu
não devíamos falar diante de uma mulher, você ficou
queimada, não foi?
— Por certo.
— Foi apenas uma cortina de fumaça. O que eu
queria era vê-lo sozinho.
— Sei disso.
— O.K. Não dê importância. — Crawford bateu a
porta traseira e virou-se para ir embora.
Starling não podia deixar aquilo passar.
— Dou importância, sim, Sr. Crawford.
O policial fechou a meia-volta que iniciara, carregando seu fax e a pasta, e Starling sentiu que ele era toda
atenção.


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— Aqueles policiais sabem quem o senhor é —
disse ela. Eles o observam bem, para ver como o senhor
age. — A jovem mantinha-se ereta; encolheu os ombros,
espalmou as mãos. Era isso, a pura verdade.
Crawford fez um esforço para manter-se frio.
— Devidamente anotado, Starling. Agora vá estudar o inseto.
— Sim, senhor.
Ficou observando enquanto ele se afastava: um
homem de meia-idade carregado de volumes, a roupa amassada durante o vôo, a bainhas das calças enlameadas
pelo rio, dirigindo-se para o que esperava em casa...
Seria capaz de qualquer coisa por ele. Esse era um
dos grandes talentos de Crawford.


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CAPÍTULO 14
O Smithsonian’s National Museum of Natural History estava fechado há horas, mas Crawford telefonara
antecipadamente e um guarda esperava Clarice Starling no
portão da Constitution Avenue.
As luzes estavam reduzidas e não havia ventilação
no museu fechado. Apenas a colossal figura de um chefe
de tribo dos mares do sul diante da entrada era alta o bastante para que a fraca claridade no teto iluminasse seu rosto.
O guia de Starling era um enorme negro da bela coleção dos guardas do Smithsonian. Considerou-o parecido
com o chefe tribal ao levantar os olhos para as luzes do
elevador. Houve um momento de alívio em sua vã fantasia, como quando se esfrega a mão para aliviar uma dormência.
O segundo andar, por cima do grande elefante empalhado, um enorme recinto vedado ao público, é compartilhado pelos departamentos de Antropologia e Entomologia. Os antropologistas chamam-no de quarto andar.
Os entomologistas insistem em que é o terceiro. Alguns
cientistas do Departamento de Agricultura dizem ter provas de que é o sexto. Cada facção tem um escritório no
velho edifício com seus acréscimos e subdivisões.
Starling seguiu o guarda até um labirinto escuro de
corredores cheios até o teto com caixas de madeira contendo espécimes antropológicos. Pequenas etiquetas revelavam seu conteúdo.
— Milhares de criaturinhas nessas caixas — informou o guarda. — Quarenta mil espécimes.


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Ele conferia o número dos escritórios com sua lanterna elétrica passando o feixe de luz sobre as tabuletas à
medida que andavam. Mochilas para carregar bebês, caiaques e caveiras cerimoniais cederam lugar para afídios e
eles deixaram para trás o homem caminhando para o
mundo mais antigo e mais ordenado dos insetos. Agora o
corredor tinha paredes formadas por grandes caixas metálicas pintadas de um verde pálido.
— Trinta milhões de insetos, e além disso as aranhas. Não confunda as aranhas com insetos — recomendou o guarda. — O povo das aranhas ficaria indignado.
Você vai para ali, o escritório que está iluminado. Não
tente retirar-se sozinha. Se eles não se oferecerem para
acompanhá-la até embaixo, chame-me por esta extensão
telefônica: é do escritório dos guardas. Virei buscá-la. —
Entregou um cartão a Starling e deixou-a.
Ela estava agora no coração da Entomologia, numa
galeria redonda, muito alta, acima do grande elefante empalhado. Lá estava o escritório com as luzes acesas e a
porta aberta.
— Olhe o tempo, Pilch! — Era uma voz de homem estridente de excitação. — Vamos, homem! Olhe o
tempo.
Starling parou no limiar da porta. Dois homens,
sentados ante uma mesa de laboratório, jogavam xadrez.
Ambos tinham cerca de 30 anos; um magro de cabelos
pretos, o outro gorducho com cabelos ruivos espetados.
Pareciam estar absorvidos no tabuleiro; se viram Starling,
não deram o menor sinal disso. Se notaram um enorme
besouro-rinoceronte que cruzava vagarosamente o tabuleiro, desviando-se das peças do jogo, também não deram
sinal.


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Nesse instante o besouro cruzou a borda do tabuleiro.
— Tempo, Roden — avisou o magro na mesma
hora.
O gorducho movimentou o bispo e com a outra
mão deu meia volta no besouro, que recomeçou a andar
vagarosamente na direção contrária.
— E se o besouro cortar o caminho e sair pelo lado, o tempo se esgota? — perguntou Starling.
— É claro que o tempo se esgota — disse em voz
alta o gorducho, sem levantar os olhos do tabuleiro. —
Naturalmente que o tempo se esgota. Como é que você
joga? Você o faz cruzar sempre todo o tabuleiro? E contra
quem você joga? Uma preguiça?
— Trago comigo o espécime sobre o qual o agente
especial Crawford telefonou.
— Não posso imaginar por que não ouvimos sua
sirene — criticou o gorducho. — Estamos aqui a noite
inteira esperando para identificar um besouro para o FBI.
Besouros são o nosso negócio... Ninguém nos adiantou
nada acerca do espécime do agente especial Crawford. Ele
deveria mostrar o espécime em particular a seu médico de
família.
— Tempo, Pilch!
— Eu gostaria de apreciar a rotina de vocês dois
numa outra ocasião — reclamou Starling. — Meu assunto
é urgente, portanto vamos tratar dele agora. Tempo, Pilch!
O camarada de cabelos pretos ergueu os olhos para
ela, viu-a encostada no umbral da porta com sua pasta.
Colocou o besouro rinoceronte numa caixa de madeira
podre e cobriu-o com uma folha de alface.
Quando se levantou, viu-se que era bem alto.


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— Meu nome é Noble Pilcher — apresentou-se.
Este é Albertte Roden. Você precisa identificar um inseto?
Teremos muito prazer em ajudá-la. — Pilcher tinha um
rosto comprido e simpático, e seus olhos negros eram fascinantes e muito juntos. Um deles tinha um modo de fitar
que o fazia refletir a luz independentemente do outro.
Não se ofereceu para um aperto de mãos. — Você é? —
perguntou.
— Clarice Starling.
— Vejamos o que trouxe aí.
Pilcher levantou o pequeno frasco contra a luz. Roden veio observar.
— Onde encontrou? Você o matou com seu revólver? Acaso viu a mamãe dele?
Starling ficou imaginando como seria inútil para
Roden receber um bom soco na ponta do queixo.
— Psiu — fez Pilcher. — Diga-nos onde o encontrou. Estava preso a alguma coisa, um graveto, uma folha,
ou estava no chão?
— Pelo que vejo ninguém informou nada a vocês
— disse Starling
— O chefe nos pediu para ficar esperando e identificar um inseto para o FBI — esclareceu Pilcher.
— Nos mandou — corrigiu Roden. — Nos mandou ficar até mais tarde.
— Costumamos fazer isso para a Alfândega e para
o Ministério da Agricultura — adiantou Pilcher
— Mas não esperando no meio da noite — comentou Roden.
— Preciso dizer-lhes um par de coisas que se relacionam a um crime — disse Starling. — Tenho permissão
para falar se vocês mantiverem segredo até o caso estar


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resolvido. É importante. Trata de algumas vidas e não estou brincando. Dr. Roden, o senhor pode assegurar-me
seriamente que respeitará minha confiança?
— Não sou doutor. Além disso, devo assinar alguma coisa?
— Não, se sua palavra tem valor. Terá apenas que
me dar recibo do espécime se precisarem ficar com ele,
nada mais.
— Dr. Pilcher?
— Naturalmente que a ajudarei. Não sou irresponsável.
— Posso confirmar. Ele não é irresponsável.
— Conto com a sua discrição?
— Não tocarei no assunto.
— Pilch também não é doutor — avançou Roden.
— Quanto à educação profissional, estamos em pé de igualdade. Contudo, ele permitiu que você lhe conferisse o
título. — Roden apoiou a ponte do indicador contra o
queixo, como se destacasse sua judiciosa expressão.
— Dê-nos todos os detalhes. O que pode parecer
irrelevante para você talvez seja uma informação vital para
o perito.
— Este inseto foi encontrado atrás do véu palatino
de uma vítima de assassinato. Não sei como foi parar ali.
O corpo da vítima foi encontrado no rio Elk, em West
Virgínia, e ela não estava morta há mais do que uns poucos dias.
— É Buffalo Bill, escutei no rádio — disse Roden.
— Você não ouviu sobre o inseto no rádio, ouviu?
— indagou Starling.
— Não, mas eles falaram sobre o rio Elk. Você
veio de lá, e é por isso que está chegando tão tarde?


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— É isso — confirmou Starling.
— Você deve estar cansada, quer um pouco de café? — ofereceu Roden.
— Não, obrigada.
— Água?
— Não.
— Uma Coca?
— Acho que não. O que desejamos saber é onde
essa mulher foi mantida cativa e onde foi assassinada.
Temos a esperança de que esse inseto tenha algum habitat
especial, que viva numa região limitada, entendem? Ou
que só durma em alguma espécie de árvore. Queremos
saber de onde ele veio. Estou pedindo sua discrição porque se o criminoso introduziu o inseto deliberadamente,
então só ele saberia do fato e poderíamos utilizá-lo para
eliminar falsas confissões e ganhar tempo. Ele já matou
pelo menos seis pessoas. Para nós, o tempo é crítico,
— Você acha que ele mantém cativa outra mulher
enquanto ficamos olhando para este inseto? — perguntou
Roden inopinadamente. Tinha os olhos arregalados e a
boca aberta, e por um momento ela pensou noutra coisa.
— Eu não sei — respondeu meio brusca. — Não
sei mesmo — repetiu, tentando atenuar a agressividade da
resposta. — Mas o fará de novo tão logo puder.
— Então trataremos disto tão cedo quanto for possível — prometeu Pilcher. — Não se preocupe. Somos
peritos nisso. Você não poderia estar em melhores mãos.
— Extraiu o objeto marrom do frasco com um delicado
par de pinças e colocou-o em cima de uma folha de papel
branco sob a luz. Aproximou um vidro de aumento montado num braço flexível para cima do inseto.


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Este era comprido e parecia uma múmia. Estava
envolto numa cobertura semitransparente que acompanhava suas linhas como um sarcófago. Seus apêndices estavam colados, tão justos contra o corpo que poderiam
parecer esculpidos em baixo-relevo. A pequena cabeça
parecia viva.
— Em primeiro lugar não é nada que normalmente
pudesse infestar um corpo ao ar livre, e não estaria na água a não ser por acidente — disse Pilcher. — Não sei
quão familiarizada você está com insetos ou quanto está
disposta a escutar.
— Digamos que não sei nadinha. Quero que você
me conte tudo.
— O.K. Aqui está uma ninfa, um inseto imaturo,
numa crisálida; este é o casulo que o envolve enquanto ele
se transforma de larva num adulto — disse Pilcher.
— Uma ninfa obtéctea, Pilch? — perguntou Roden
enrugando o nariz para manter os óculos no lugar.
Bem, penso que sim. Quer pegar o livro de Chu
sobre insetos imaturos? O.K. É este é o estágio ninfal de
um inseto grande. A maioria dos insetos mais avançados
tem um estágio ninfal. Grande parte deles passa o inverno
desse modo.
— Quer o livro ou prefere examinar, Pilch? — indagou Roden.
— Vou dar uma olhada. — Pilcher transferiu o inseto para a mesa de um microscópio e debruçou-se sobre
ela com uma ferramenta de exploração especial. — Vamos lá. Não tem órgãos respiratórios distintos na região
dorso cefálica, mas vejo espiráculos no mesotórax e alguns
abdominais. Comecemos com isto.


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— Hum. Hum... — Fungou Roden, virando as páginas de um pequeno manual. — Mandíbulas funcionais?
— Neca.
— Gálias de maxilas pareadas no mesônio ventral?
— Sim, sim.
— Onde ficam as antenas?
— Adjacentes à margem mesal das asas. Dois pares
de asas, o par de dentro totalmente coberto. Apenas os
três segmentos abdominais debaixo estão livres. Pequenos
cremasteres pontudos. Eu diria que é um lepidóptero.
— É o que diz aqui — confirmou Roden.
— É a família que inclui borboletas e mariposas.
Abrange um enorme território... — salientou Pilcher.
— Vai ser difícil se as asas estão encharcadas. Vou
buscar as referências — disse Roden. — Penso que não
há jeito de impedir que vocês falem sobre mim enquanto
eu estiver ausente.
— Penso que não — disse Pilcher. — Roden é boa
pessoa acrescentou, tão logo o outro saiu da sala.
— Não duvido que seja.
— Será mesmo? — raciocinou Pilcher, parecendo
divertido. Formamo-nos juntos, pleiteando e nos queixando de qualquer espécie de estágio que arranjávamos.
Ele conseguiu um no qual tinha de ficar sentado dentro de
uma mina de carvão aguardando a decadência de prótons.
Ficou no escuro tempo demais. Ele é O.K. Apenas não
fale na sua presença sobre a decadência de prótons...
— Procurarei evitar.
— É uma família enorme, a dos lepidópteros —
ponderou Pilcher afastando-se da luz brilhante. — Talvez
umas 30 mil borboletas e 130 mil mariposas. Gostaria de


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tirar esta da crisálida... serei obrigado a isso se quisermos
identificá-la.
— O.K. Pode fazê-lo sem a dividir?
— Penso que sim. Veja, esta começou a libertar-se
por conta própria antes de morrer. Ela iniciou uma fratura
irregular na crisálida bem aqui. Acabar de tirá-la levará
pouco tempo.
Pilcher alargou a fissura natural no casulo e retirou
o inseto. As asas enfeixadas estavam encharcadas. Abri-las
foi como trabalhar com um lenço de papel úmido e amassado. Não se percebia nenhum desenho.
Roden chegou de volta com os livros.
— Pronto? — perguntou Pilcher. — O.K. o fêmur
protorácico está oculto.
— E quanto a pilíferos?
— Nada de pilíferos — respondeu Pilcher. —
Quer apagar as luzes, policial Starling?
Ela esperou junto ao interruptor na parede até que
a lanterna elétrica de Pilcher se acendesse. Depois ela afastou-se da mesa e fez a luz incidir sobre o inseto. Seus olhos brilharam no escuro, refletindo o estreito feixe de luz.
— Corujinha — disse Roden.
— Provavelmente, mas qual delas? — indagou Pilcher. Acenda a luz, por favor. É uma noctuídia, policial
Starling, uma mariposa noturna. Quantas noctuídias existem, Roden?
— Duas mil e seiscentas e... cerca de duas mil e
seiscentas foram descritas.
— Entretanto, não muitas deste tamanho. O.K.,
vejamos você fazer bonito, camarada.
A cabeça de cabelos ruivos e duros de Roden cobriu o microscópio.


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— Agora temos que apelar para a chaetaxia estudar
a pele do inseto para descobrir sua espécie — ensinou Pilcher. — Roden é um craque nisso.
Starling teve a sensação de que uma espécie de paz
se havia derramado sobre a sala.
Roden respondeu começando uma feroz discussão
com Pilcher sobre se as marcas larvais do espécime estavam dispostas em círculos ou não. A discussão continuou
agora sobre a disposição dos cabelos no abdome.
— Erebus odora — exclamou finalmente Roden.
— Vamos dar uma olhada — disse Pilcher.
Levaram o espécime com eles, descendo no elevador até o andar logo acima do elefante empalhado. Chegaram a um enorme quadrilátero cheio de caixas pintadas de
verde-claro. O que havia sido anteriormente um grande
saguão fora convertido em dois níveis, com andares para
prover mais espaço de depósito para os insetos do Smithsonian. Eles estavam agora na seção de neotropicais, andando para noctuídios. Pilcher consultou o caderno de
notas e parou numa caixa à altura de seu peito na grande
pilha da parede.
— A gente tem que tomar cuidado com essas coisas — ponderou ele, abrindo a pesada porta metálica da
caixa e depositando-a no chão. — Se deixar que caia uma
destas no seu pé, vai andar capengando durante semanas.
Correu os dedos pelas gavetas superpostas da caixa,
escolheu uma e puxou-a para fora.
Na bandeja, Starling viu os minúsculos ovos conservados, a lagarta num tubo de álcool, o casulo retirado
de um espécime muito semelhante ao dela, e o adulto:
uma grande mariposa marrom e preta com envergadura de


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asas de uns 15 centímetros, o corpo peludo e delicadas
antenas.
— Erebus odora — confirmou Pilcher. — A mariposa conhecida como Feiticeira Negra.
Roden já estava virando as páginas de um livro.
— Uma espécie tropical que às vezes chega até o
Canadá no outono — leu ele. — As larvas comem acácia,
unha-de-gato e plantas semelhantes. Habitam o sul dos
Estados Unidos, as índias Ocidentais, e no Havaí são consideradas uma praga.
Que droga!, pensou Starling.
— Droga — repetiu ela em voz alta. — Estão por
toda parte!
— Mas não estão por toda parte ao mesmo tempo.
— Pilcher mantinha a cabeça abaixada e coçava o queixo.
— Elas se reproduzem duas vezes, Roden?
— Quando?
— Espere um momento... Sim, no extremo sul da
Flórida e no sul do Texas.
— Em maio e agosto.
— Eu estava justamente pensando — disse Pilcher.
— Seu espécime é um pouco mais bem desenvolvido do
que o que temos, e é novo. Estava começando a romper o
casulo para sair. Nas índias Ocidentais ou no Havaí, eu
talvez pudesse entender, mas aqui estamos no inverno.
Neste país ele teria que esperar uns três meses para sair. A
não ser que acontecesse acidentalmente numa estufa, ou
que alguém o criasse.
— Criasse?
— Numa gaiola, num lugar quente, com algumas
folhas de acácia para as larvas se alimentarem até que esti-


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vessem aptas a sair de seus casulos. Não é difícil fazer isso.
— Será esse um hobby popular? Além de estudantes e profissionais, alguém mais faz isso?
— Não, quem o faz são principalmente entomologistas tentando obter um espécime perfeito, talvez alguns
colecionadores. Existe também a indústria da seda, que
cria algumas mariposas, mas não desta espécie.
— Entomologistas devem receber publicações periódicas e jornais especializados, e conhecer pessoas que
vendem equipamento observou Starling.
— Por certo, e muitas das publicações vêm para cá.
— Vou oferecer-lhe um pacote delas — disse Roden. — Alguns camaradas aqui são assinantes particulares
de boletins profissionais menores. Eles os mantêm reservados e cobram 25 centavos para deixar você dar uma olhada naquelas estúpidas coisas. Terei que consegui-los
amanhã de manhã.
— Providenciarei para que sejam apanhados. Obrigada, Sr. Roden.
Pilcher tirou fotocópias das referências sobre Erebus odora e as entregou a Starling, junto com o inseto.
— Vou levá-la até lá embaixo — ofereceu-se.
— A maioria das pessoas gosta de borboletas e detesta mariposas — frisou Pilcher enquanto aguardavam o
elevador. — Mas as mariposas são mais interessantes,
mais misteriosas.
— Elas são destruidoras.
— Algumas sim, uma porção delas, mas veja que
vivem toda espécie de vidas. Da mesma forma que nós.
Desceram em silêncio.


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— Existe uma mariposa, aliás, mais do que uma,
que se alimenta só de lágrimas — explicou. — É só o que
comem ou bebem.
— Que espécie de lágrimas? Lágrimas de quem?
— As de grandes mamíferos terrestres, mais ou
menos do nosso tamanho. A velha definição das mariposas dizia que eram “qualquer coisa que gradualmente e em
silêncio come, consome ou destrói qualquer outra coisa”.
Havia um verbo que significava também destruição... É
isso o que você faz todo o seu tempo — caçar Buffalo
Bill?
— Eu faço tudo o que posso.
Pilcher passou a língua sobre os dentes, movendo-a
por trás dos lábios, como fazem os gatos.
— Você alguma vez sai para comer uns cheesburgers com uma cerveja ou tomar um copo de vinho para se
distrair?
— Ultimamente não...
— Aceitaria agora comer qualquer coisa comigo?
Não é longe...
— Não, mas aceitaria quando o caso terminar... e o
Sr. Roden poderá ir também, naturalmente.
— Não há nada de natural em incluí-lo... — Comentou Pilcher. E quando chegaram à porta: — Espero
que acabe com isso em breve, policial Starling.
Correu apressada para o carro que a esperava.
Ardelia Mapp deixara a correspondência e a metade
de uma barra de chocolate Mounds em cima da cama de
Starling. Ardelia dormia.
Starling levou sua máquina de escrever portátil para
o quarto da lavanderia no subsolo, colocou-a em cima da
mesa de passar e enfiou na máquina duas folhas com car-


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bono. Tinha organizado em sua cabeça as notas sobre Erebus odora durante a viagem de volta para Quântico e
redigiu-as rapidamente.
A seguir comeu o chocolate Mounds e escreveu um
memorando para Crawford sugerindo que fizessem uma
investigação cruzada entre as listas de endereços computadorizados das publicações de entomologia e as listas dos
criminosos conhecidos pelo FBI, consultando os arquivos
das cidades mais próximas aos raptos, bem como aqueles
sobre os criminosos sexuais de Metro Dade, San Antonio
e Houston, as áreas onde aquelas mariposas eram mais
comuns.
Havia outra coisa que ela tinha de trazer à tona pela
segunda vez: Vamos perguntar ao Dr. Lecter por que ele
achava que o criminoso iria começar a retirar escalpos.
Entregou os papéis ao funcionário de serviço noturno e caiu no seu leito acolhedor, as vozes do dia ainda
sussurrando, mais suavemente do que Mapp a respirar no
outro lado do quarto. Na envolvente escuridão pensou ver
a cara esperta da mariposa. Aqueles olhos brilhantes tinham visto Buffalo Bill.
Após a cósmica ressaca que o Smithsonian lhe deixara veio-lhe um último pensamento e a coda para o dia:
Sobre este estranho mundo, esta metade do mundo agora
imersa no escuro, tenho que caçar uma coisa que vive de
lágrimas.


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CAPÍTULO 15
Em East Memphis, Tennessee, Catherine Baker
Martin e seu namorado preferido estavam vendo um filme
tarde da noite na televisão no apartamento dele e dando
umas tragadas num cachimbo bong carregado com haxixe.
Os intervalos comerciais começaram a tornar-se mais longos e freqüentes.
— Estou com vontade de mastigar alguma coisa.
Você quer umas pipocas? — perguntou ela.
— Vou buscá-las, dê-me suas chaves.
— Fique quieto aqui. De qualquer modo, preciso
ver se mamãe telefonou.
Ela levantou-se do divã. Era uma jovem alta, de ossos grandes e bem carnudos, quase pesadona, com um
belo rosto e uma basta cabeleira. Encontrou os sapatos
embaixo do divã, calçou-os e saiu.
A noite de fevereiro estava mais úmida do que fria.
Uma ligeira cerração vinda do Mississipi pairava à altura
do tórax das pessoas sobre a grande área de estacionamento. Bem acima dela, podia ver a lua em quarto minguante,
pálida e fina como um anzol feito de osso. Levantar os
olhos e a cabeça tonteou-a um pouco. Começou a atravessar o estacionamento, dirigindo-se em linha reta para o
lugar onde vivia, a uns 100 metros de distância.
O caminhão marrom de carroceria aberta estava estacionado próximo ao apartamento dela, no meio de algumas casas sobre rodas e barcos sobre carretas. Ela notou-o particularmente porque ele se parecia com os caminhões de entrega de encomendas que muitas vezes traziam presentes de sua mãe.


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Ao passar perto do veículo, um abajur apareceu no
meio da neblina. Era uma lâmpada de pedestal colocada
no chão, com seu abajur em cima, no asfalto por trás do
caminhão. Ao lado havia uma grande poltrona estofada,
coberta por um tecido de chintz estampado com flores
vermelhas e grandes surgindo do meio da névoa. As duas
peças pareciam um conjunto de móveis expostos numa
mobiliária.
Catherine Baker Martin piscou os olhos várias vezes e continuou andando. Pensou na palavra surrealista e
atribuiu a lembrança ao bong. Contudo, não estava delirando. Alguém se mudava para cá ou para fora. Chegando;
partindo: alguém estava sempre de mudança na Stonehinge Villas. A cortina do seu apartamento ondulou e ela viu
o gato no peitoril da janela, empinando as costas e roçando o corpo de encontro ao vidro.
Tinha a chave pronta na mão e antes de usá-la olhou para trás. Um homem pulara da traseira do caminhão. Podia ver à luz do poste que ele tinha a mão engessada e o braço numa tipóia. Ela entrou na casa e fechou a
porta.
Catherine Baker Martin espiou para fora afastando
um pouco a cortina e viu que o homem tentava colocar a
poltrona pela traseira do caminhão. Agarrou-a com a mão
boa e tentou ajudar com o joelho. A poltrona caiu. Ele
endireitou-a, lambeu o dedo e esfregou-o num ponto que
a sujeira do chão manchara o chintz.
Ela resolveu sair para ajudar.
— Posso ajudá-lo, quer? — Usou um tom adequado, apenas de cooperação.
— Você me ajudaria? Muito obrigado. — Uma voz
estranha, tensa. Não era o sotaque da gente do local.


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O abajur iluminou-lhe o rosto de baixo para cima,
distorcendo suas feições, mas ela pôde ver-lhe claramente
o corpo. Ele usava calça cáqui passada a ferro e uma espécie de camisa de camurça, desabotoada e mostrando um
peito sardento. O queixo e o rosto eram glabros, lisos como os de uma mulher, e os olhos apenas pontinhos de luz
sobre os malares à sombra da lâmpada.
Ele também a contemplou e ela se ressentiu com isso. Os homens muitas vezes ficavam surpresos com seu
tamanho quando ela chegava perto deles, e alguns escondiam a reação melhor do que outros.
— Bom — comentou ele.
O homem exalava um cheiro desagradável e ela notou com repugnância que a camisa de camurça tinha pêlos,
pêlos crespos nos ombros e embaixo dos braços.
Foi fácil levantar a poltrona até o piso abaixo do
caminhão.
— Vamos empurrá-la para frente, você se incomoda? — Ele pulou para dentro e movimentou algo no piso
— uma daquelas grandes bandejas chatas que servem para
drenar o óleo e um pequeno guincho manual.
Empurraram a poltrona para frente até que ela ficasse logo atrás dos assentos da cabine.
— Você é mais ou menos número 14?
— O quê?
— Pode me passar aquela corda? Está bem a seus
pés.
Quando a mulher se abaixou para olhar, ele deixou
cair o gesso da mão com força na sua nuca. Ela pensou ter
batido com a cabeça numa trave e tentou segurá-la, mas a
mão engessada golpeou de novo, batendo com o punho
contra seu crânio; e de novo, desta vez atrás da orelha,


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numa sucessão de golpes muito bem calculados, até ela
cair em cima da poltrona. Dai ela escorregou para o piso
do caminhão e ficou imóvel, deitada de lado.
O homem observou-a por um momento, depois retirou o gesso e a tipóia do braço. Rapidamente trouxe o
abajur para dentro do carro, fechando as portas traseiras.
Puxou a gola da blusa da mulher para trás e, com
uma lanterna elétrica, observou o tamanho daquela peça
de roupa na etiqueta.
— Bom — resmungou.
Com uma tesoura cortou a blusa nas costas e, tirando-a, com ela amarrou-lhe os pulsos por trás. Esticou
uma lona de cobrir mudanças no piso do caminhão e fê-la
deitar em cima, de costas.
Ela não usava sutiã. O homem apalpou-lhe os
grandes seios com os dedos, sentindo o peso e a resistência.
— Bom — repetiu.
Havia uma marca rosada de um chupão no seio esquerdo. Ele lambeu o dedo para esfregá-lo como fizera
com o chintz e balançou a cabeça quando a mancha desapareceu após uma ligeira pressão. Em seguida rolou-a de
barriga para baixo e avaliou seu couro cabeludo, separando o cabelo com os dedos. O gesso não havia causado
cortes.
Verificou a pulsação dela com dois dedos ao lado
de seu pescoço e constatou que estava forte.
— Booom... — disse.
Ele tinha muito caminho pela frente até chegar à
sua casa de dois andares e preferia não prepará-la ali.


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O gato de Catherine Baker Martin observava da janela quando o caminhão se afastou, as luzes da traseira se
tornando cada vez mais juntas.
Por trás do gato o telefone tocava. A secretária eletrônica que ficava no quarto respondeu, sua lâmpada vermelha piscando no escuro.
Quem chamava era a mãe de Catherine, a mais jovem senadora dos Estados Unidos — pelo estado do
Tennessee.


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CAPÍTULO 16
Na década de 80, a Idade de Ouro do terrorismo,
havia procedimentos em vigor para cuidar de raptos que
afetassem membros do Congresso.
Às 2:45 da manhã o agente especial encarregado do
escritório do FBI em Memphis comunicou ao quartelgeneral em Washington que a filha única da senadora Ruth Martin desaparecera.
Às 3:00 dois furgões sem marcas saíram da úmida
garagem no subsolo do escritório regional de Washington,
em Buzzard’s Point. Um furgão foi para o Edifício de Escritórios do Senado, onde técnicos colocaram aparelhagem de monitoração e gravação nos telefones do escritório da senadora Martin e instalaram uma Escuta Título 3
nos telefones públicos mais próximos ao escritório da senadora. O Ministério da Justiça acordou o membro mais
jovem do Comitê de Inteligência Especial do Senado para
fazer-lhe a obrigatória notificação da instalação de escuta.
O outro veículo, um “furgão de vigilância” com vidro unidirecional e equipamento próprio para sua função,
estacionou na Virgínia Avenue para cobrir a frente de Watergate West, a residência da senadora Martin em Washington. Dois dos homens ocupantes do furgão entraram
no edifício para instalar equipamentos de monitoração nos
telefones da casa da senadora.
A Bell Atlantic estimava em 70 segundos o tempo
médio para traçar um telefonema para qualquer chamada
de resgate num sistema telefônico digital doméstico.


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A Esquadra de Reação de Buzzard’s Point entrou
em turnos dobrados para a eventualidade do pagamento
de um resgate na área de
Washington. Seu procedimento por rádio mudou
para uma inscrição mandatória a fim de proteger qualquer
notificação de resgate contra a intrusão de helicópteros de
noticiários — essa espécie de irresponsabilidade por parte
das empresas de notícias era rara, mas tinha acontecido.
O Grupo de Resgate de Reféns entrou em estado
de alerta, e a apenas um passo de embarque aéreo.
Todo mundo esperava que o desaparecimento de
Catherine Baker Martin fosse um rapto profissional para
cobrança de resgate; essa hipótese oferecia a melhor chance para sua sobrevivência.
Ninguém mencionou a pior possibilidade.
Então, um pouco antes do romper do dia em
Memphis, um patrulheiro da cidade, investigando uma
queixa de invasão de domicílio na Winchester Avenue,
interpelou um velho que coletava latas de alumínio e restos ao longo do acostamento da estrada Em seu carro o
patrulheiro encontrou uma blusa de mulher, ainda abotoada na frente. A blusa estava cortada nas costas, como
uma roupa de funeral. A marca da lavanderia citava Catherine Baker Martin.
Jack Crawford dirigia para o sul vindo de sua casa
em Arlington às 6:30 quando o telefone do carro chamou
pela segunda vez em dois minutos.
— Nove vinte-e-dois, quarenta.
— Quarenta na escuta para Alfa 4.
Crawford descobriu uma área de acostamento, deteve-se ali, parando o carro para prestar maior atenção ao
telefone — Alfa 4 era o diretor do FBI.


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— Jack, você está ciente de Catherine Martin?
— O oficial de serviço noturno acaba de me telefonar.
— Então você sabe sobre a blusa. Informe qualquer coisa.
— Buzzard’s Point entrou em alerta de rapto —
disse Crawford. — Eu preferiria que não se retirassem por
enquanto. Quando o fizerem, gostaria de manter vigilância
telefônica. Sem a blusa cortada ou não, não temos certeza
de que é Bill. Se for um imitador, poderá pedir um resgate.
Quem é que está fiscalizando telefones e seguindo pistas
em Tennessee, nós ou eles?
— Eles. A polícia estadual. São muito bons. Phil
Adler telefonou da Casa Branca para me comunicar o
“grande interesse” do presidente. Poderíamos marcar um
tento neste caso Jack.
— Isso já me ocorreu. Onde está a senadora?
— A caminho de Memphis. Ligou para minha casa
há um minuto. Você pode imaginar...
— Sim. — Crawford conhecia a senadora das audiências sobre orçamento.
Ela vai agir com todo o peso de que dispõe.
— Não a censuro por isso.
— Nem eu — completou o diretor. — Assegurei a
ela que vamos empenhar-nos de corpo e alma, como vimos fazendo até agora. Ela está... está ciente da sua situação pessoal e ofereceu-lhe um Lear da companhia dela.
Use-o. Venha para casa à noite, se desejar.
— Bom. A senadora é dureza, Tommy. Se ela tentar interferir nós vamos nos digladiar.


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— Sei disso. Descarregue qualquer coisa em cima
de mim se tiver que fazê-lo. Qual é a melhor perspectiva,
Jack? Seis ou sete dias?
— Não sei. Se ele entrar em pânico quando souber,
quem ela é, poderá liquidá-la e despejá-la em algum lugar.
— Onde você está?
— A três quilômetros de Quântico.
— A pista de Quântico recebe um Lear Jet?
— Sim.
— Em 20 minutos.
— Sim, senhor. Crawford digitou alguns números
no seu telefone e voltou com o carro para o tráfego da
estrada.


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CAPÍTULO 17
Cansada de uma noite agitada, Clarice Starling estava de roupão (chinelos de banho, a toalha no ombro, esperando para entrar no banheiro que ela e Mapp compartilhavam com as estudantes do quarto ao lado. As notícias
de Memphis no rádio interromperam-lhe a respiração.
— Oh, meu Deus! — Suspirou. — Que coisa!
MUITO BEM, VOCÊ AÍ DENTRO! ESTE BANHEIRO ESTÁ OCUPADO. SAIA COM AS CALÇAS ENFIADAS. ISTO NÃO É UM EXERCÍCIO! — Pulou
para dentro do chuveiro com uma espantada colega do
quarto ao lado. — Chega para lá, Gracie, e faça o favor de
me passar aquele sabonete.
Com o ouvido pregado no telefone, fez uma maleta
para a noite e depositou seu estojo de datiloscopia perto
da porta. Certificou se de que a telefonista sabia que ela
estava no seu quarto e desistir do desjejum para ficar grudada no telefone. Quando faltavam 11 minutos para o
início das aulas, sem receber nenhum recado, correu até a
Ciência do Comportamento com seu equipamento.
— O Sr. Crawford viajou para Memphis há 45 minutos — informou a secretária delicadamente. — Burroughs foi com ele e Stafford, do laboratório, partiu para lá,
do Aeroporto National.
— Deixei um relatório para ele na noite passada.
Ele não deixou nenhuma mensagem para mim? Meu nome é Clarice Starling.
— Sei quem você é. Tenho três números de telefones seus e há mais alguns na mesa dele, acredito. Não, ele
não deixou nada para você, Clarice. — A moça olhou para


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a mala de Clarice. — Gostaria que eu informasse qualquer
coisa a ele quando telefonar?
— Ele deixou algum número de telefone em Memphis?
— Não, mas ficou de telefonar. Você tem aulas hoje, Clarice? Você ainda está na escola, não está?
— Sim, sim. Estou.
A entrada de Starling, atrasada, na aula, não foi facilitada por Gracie Pitman, a pequena que ela tinha deslocado no chuveiro. Gracie Pitman sentava-se logo atrás de
Starling O caminho até seu lugar pareceu-lhe longo. A
língua de Gracie Pitman teve tempo de fazer duas voltas
completas na sua bochecha macia antes que Starling pudesse absorver-se na classe.
Sem desjejum, teve que assistir a duas horas de “A
Exceção do Mandado de Boa-Fé nas Regras Exclusivas de
Pesquisa e Captura”, antes de se dirigir à máquina automática e tomar uma coca-cola.
Verificou sua caixa de correspondência ao meiodia, não havia nada. Ocorreu-lhe então, como já havia ocorrido em umas poucas outras ocasiões na sua vida, que
uma intensa frustração tem o gosto muito parecido com
um medicamento chamado Fleet que ela tivera de tomar
quando era criança.
Certos dias a gente acorda diferente; este era um
deles para Starling. O que ela vira na véspera na Casa Funerária de Potter causara-lhe um pequeno deslocamento
tectônico.
Starling estudara psicologia e criminologia numa
boa escola. Durante a vida pudera observar algumas das
horríveis e precipitadas formas com que o mundo destrói
as coisas. Mas realmente não tinha jamais imaginado que


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às vezes os seres humanos produzem, atrás de um rosto
com aparência humana, uma mente cujo prazer era aquilo
que jazia na mesa de porcelana em Potter, West Virgínia,
na sala forrada de papel decorado com rosas. Seu primeiro
encontro com uma mente daquele tipo chocou-a mais do
que qualquer coisa que pudesse ver em mesas de autópsia.
Tal conhecimento ficaria entranhado na sua pele para
sempre, e ela sabia que tinha de criar uma crosta ou aquilo
a penetraria.
A rotina da escola não a ajudou. Durante todo o dia, manteve a impressão de que as coisas estavam acontecendo além do horizonte. Parecia-lhe escutar um surdo
rumor de eventos, como o som vindo de um estádio distante, sugestões de movimento, grupos passando pelos
corredores, a sombra das nuvens correndo no solo, o ronco de um avião — tudo a perturbava.
Depois das aulas Starling deu muitas voltas correndo e a seguir mergulhou na piscina. Nadou até imaginar
que o fazia sobre cadáveres flutuantes e então não quis
mais sentir a água em volta do seu corpo.
Na sala de recreação, assistiu ao noticiário das sete
com Mapp e mais uma dúzia de outras estudantes. O rapto da filha da senadora Martin não era a notícia mais importante, mas foi a primeira após a conferência sobre desarmamento em Genebra.
Apareceu um filme de Memphis, começando com o
cartaz dos Stonehinge Villas fotografado à luz giratória de
um carro-patrulha. A mídia estava dando importância à
história e, com poucas novidades a noticiar, os repórteres
entrevistaram uns aos outros nos estacionamentos de Stonehinge. As autoridades de Memphis e do condado de
Shelby procuravam evitar a grande quantidade de micro-


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fones, com os quais não estavam acostumadas. Naquela
confusão, de reflexos das lentes e de sons de áudio, relatavam os dados e expunham suas dúvidas. Fotógrafos movimentavam-se para um lado e outro, esbarrando nas minicâmaras de TV toda vez que os investigadores entravam
ou saíam do apartamento de Catherine Baker Martin.
Um breve e irônico aplauso ecoou na sala de recreios da Academia quando o rosto de Crawford apareceu
brevemente na janela do apartamento. Starling esboçou
um meio sorriso.
Pensou se Buffalo Bill estaria assistindo à TV. Cismava o que ele acharia do rosto de Crawford ou até mesmo se ele sabia quem era Crawford.
Outras pessoas também pareciam pensar que Buffalo Bill estava assistindo.
Uma era a senadora Martin, num programa ao vivo
na televisão, com Peter Jennings. Aparecia sozinha no
quarto da filha, com uma pequena bandeira da Universidade do Sudoeste e pôsteres promovendo Wile E. Coyote
e a Emenda de Direitos Iguais na parede por trás dela.
Uma mulher alta, rosto enérgico e franco.
— Estou me dirigindo agora à pessoa que mantém
minha filha em seu poder — disse. Aproximou-se mais da
câmara, provocando uma desfocalização imprevista e falou como nunca falaria sequer a um terrorista. — Você
tem o poder de livrar minha filha sem lhe causar danos. O
nome dela é Catherine. Ela é muito gentil e compreensiva.
Por favor, solte minha filha, por favor liberte-a sem machucá-la. Você tem o controle da situação. Você tem o
poder. Você domina. Eu sei que você pode sentir amor e
compaixão. Você é capaz de protegê-la contra qualquer
coisa que possa causar-lhe dano. Você agora tem uma ma-


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ravilhosa oportunidade de mostrar a todo mundo que é
capaz de muita bondade, que é suficientemente grande
para tratar outra pessoa melhor do que o mundo a tratou.
O nome dela é Catherine.
Os olhos da senadora Martin afastaram-se da câmara quando a imagem mudou para uma cena de filme doméstico mostrando uma criança que aprendia a andar agarrando-se aos pêlos do pescoço de um grande collie.
— O filme que você está vendo agora é de Catherine quando ainda era uma criancinha. Liberte Catherine.
Liberte-a sem lhe fazer mal em qualquer lugar deste país e
você terá minha ajuda e minha amizade — continuou a
voz da senadora.
Seguiu-se uma série de fotografias — Catherine
Martin aos oito anos segurando o leme de um barco a vela; este estava em seco, sobre calços, e o pai dela pintava o
casco. Duas fotos recentes da jovem, uma de corpo inteiro e um close do seu rosto.
Agora a câmara voltou para a senadora em close:
— Prometo-lhe, tendo como testemunha todo este
país, que você contará com meu apoio sem restrições
sempre que necessitar. Estou em boas condições para ajudá-lo. Sou uma senadora dos Estados Unidos. Sirvo no
Comitê das Forças Armadas. Estou envolvida na Iniciativa
de Defesa Estratégica, o sistema de armas espaciais que
todos chamam de Guerra nas Estrelas. Se você tem inimigos, lutarei contra eles. Se alguém o perseguir, eu impedirei. Pode telefonar-me a qualquer hora, dia ou noite. Catherine é o nome de minha filha. Por favor, mostre-nos
sua força — acrescentou a senadora Martin, encerrando
seu apelo — , liberte Catherine sem fazer-lhe mal.


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— Puxa, uma atitude muito esperta — comentou
Starling. Tremia de nervosa, como um cachorrinho. —
Puxa, ela foi muito esperta!
— O quê? A Guerra nas Estrelas? — disse Mapp.
— Se os alienígenas estão tentando controlar os pensamentos de Buffalo Bill de outro planeta, a senadora Martin pode protegê-lo; é essa a idéia?
Starling balançou a cabeça afirmativamente.
— Uma porção de paranóicos esquizofrênicos tem
essa alucinação especial — controle alienígena. Se Bill
funciona dessa forma, talvez a promessa possa fazê-lo expor-se. É uma porra duma idéia muito boa, e ela ficou ali
de pé e a disparou, não foi? Pelo menos poderá conseguir
mais alguns dias para Catherine. Haverá mais tempo para
investigar Bill. Ou talvez não; Crawford pensa que o período dele está se tornando mais curto. Mas pode-se tentar
isso, pode-se tentar outras coisas.
— Não há nada que eu não tentaria se se tratasse
de gente minha. Por que ela ficou repetindo “Catherine”,
por que repetir esse nome tantas vezes?
— Ela tenta fazer Buffalo Bill ver Catherine como
uma pessoa. Acredita-se que Bill terá que despersonalizála, terá que vê-la como um objeto antes de destruí-la. Alguns assassinos em série dão a entender isso em entrevistas na prisão. Dizem que é como trabalhar com uma boneca.
— Você está enxergando Crawford atrás das declarações da senadora?
— Talvez, ou talvez o Dr. Bloom; aí está ele — apontou Starling Na tela apareceu uma entrevista gravada
havia várias semanas com o Dr. Alan Bloom, da Universidade de Chicago, sobre assassinatos em série. O Dr. Blo-


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om recusou-se a comparar Buffalo Bill com Francis, Dolarhyde ou Garrett Hobbs ou qualquer um dos outros da
sua experiência. Recusou-se a utilizar o nome Buffalo Bill.
De fato ele falou pouco, mas era conhecido como um perito, talvez o perito no assunto, e a rede desejava mostrar
sua imagem.
Usaram sua última declaração como o ponto alto
no fim da entrevista:
— Nada com que possamos ameaçá-lo será mais
terrível que o que ele enfrenta a cada dia. Só podemos pedir-lhe que venha a nós. E prometer-lhe um tratamento
bondoso e ajuda. Podemos fazer isso de modo absoluto e
sincero.
— Nós todos não podemos ajudar um pouco? —
indagou Mapp. — Que eu me dane se não posso dar um
pouco de ajuda eu mesma. Muita confusão e muita conversa fiada. Adorei! Ele não disse nada de especial na TV,
e provavelmente o Bill não deve ter-se emocionado muito.
— Só consigo parar de pensar naquela garota de
West Virginia durante algum tempo — disse Starling. —
A imagem dela desaparece, digamos, por uma meia hora, e
depois me afoga de novo Esmalte brilhante nas unhas...
não quero pensar nisso de novo.
Mapp, abordando as muitas coisas que a entusiasmavam, aliviou a tristeza de Starling durante o jantar e
fascinou os que a ouviam, comparando os ritmos entre os
trabalhos de Stevie Wonde e Emily Dickinson.
Ao voltar para seu quarto, Starling encontrou uma
mensagem em sua caixa e leu: Por favor chame Albert
Roden — e a seguir um número de telefone.
— Isto prova exatamente minha teoria — disse ela
a Mapp quando se estenderam nas camas com seus livros.


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— Qual é ela?
— Você conhece dois caras, certo? E o cara errado
é o que sempre telefona para você.
— Sim, já notei isso...
O telefone soou.
Mapp tocou com o lápis na ponta do nariz.
— Se for aquele esquentado do Bobby Lowrance,
quer dizer lhe que eu estou na biblioteca? — instruiu
Mapp. — Diga-lhe que telefono amanhã.
Era Crawford telefonando de um avião, a voz arranhada pelo microfone.
— Starling, faça uma maleta para duas noites e me
encontre dentro de uma hora.
Ela pensou que ele tinha saído do ar, porque havia
apenas um zumbido no telefone, mas a voz voltou abruptamente:
— ...Não precisa levar seu estojo, apenas roupas.
— Encontro-o onde?
— No Smithsonian. — E Crawford começou a falar com alguém antes de desligar.
— Jack Crawford — revelou Starling, abrindo sua
maleta na cama.
A cabeça de Mapp apareceu por cima do seu Código Federal de Procedimento Criminal. Ficou espiando
Starling arrumar a mala, as pálpebras caindo sobre os
grandes olhos negros.
— Não pretendo pôr minhocas na sua cabeça —
disse ela.
— Você pretende, sim — refutou Starling. Ela sabia o que estava por acontecer.
Mapp cursara Revisão de Direito na Universidade
de Maryland enquanto trabalhava à noite. Era a segunda


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aluna na classe, sua atitude com relação aos livros um puro banzai.
— Você deverá fazer seu exame de Código Criminal amanhã e o teste PE dentro de dois dias. Certifique-se
de que Sua Majestade Crawford sabe que você terá que
repetir o ano se ele não tiver cuidado. Tão logo ele diga:
“Bom trabalho, treinanda Starling!” você não deve dizer:
“O prazer foi todo meu!” Deve encarar aquele rosto de
estátua da Ilha da Páscoa e dizer: “Espero que o senhor
mesmo providencie que eu não seja reprovada por faltar
às aulas.” Entende o que estou querendo dizer?
— Posso conseguir uma segunda época no Código
— garantiu Starling, abrindo um grampo de cabelos com
os dentes.
— Ora, se for reprovada por falta de tempo para
estudar, você pensa que eles não vão fazê-la repetir? Está
brincando comigo? Bobinha! Eles a jogam pelas escadas
do fundo como se fosse uma galinha morta. A gratidão
tem uma meia-vida curta, Clarice. Faça com que ele prometa: “Nada de reprovação.” Você tem boas notas — faça-o dizer isso. Nunca encontrarei outra companheira de
quarto que passe a ferro tão rápido como você quando
falta um minuto para a aula...
Starling conduzia seu carro pela estrada de quatro
pistas numa marcha firme, uma milha por hora abaixo da
velocidade em que o shimmy aparecia. Os cheiros de óleo
queimado e mofo, os grilos embaixo do carro, o ronco da
transmissão evocavam fracamente as lembranças da caminhonete do pai, suas memórias de andar ao lado dele com
seus inquietos irmãos e irmã.
Agora quem dirigia era ela, à noite, os traços brancos no asfalto passando por baixo do carro blip, blip, blip.


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Tinha tempo para pensar. Seus temores sopravam muito
próximo à nuca; outras lembranças mais recentes, agitavam-se a seu lado.
Starling receava muito que o corpo de Catherine
Baker Martin já tivesse sido encontrado. Quando Buffalo
Bill descobrira quem ela era, teria entrado em pânico. Talvez a tivesse matado, atirando fora o corpo com um inseto na garganta.
Talvez Crawford estivesse trazendo o inseto para
ser identificado. Por que outro motivo a quereria no Smithsonian? Contudo, qualquer agente poderia trazer um
inseto para o Smithsonian, até mesmo um mensageiro do
FBI. E ele lhe dissera que levasse roupa para dois dias.
Podia entender que Crawford nada lhe explicasse
através de uma ligação de rádio insegura, mas era de enlouquecer ficar cismando.
Encontrou no rádio uma estação só de notícias e
esperou que terminasse o boletim do tempo. Quando vieram, as notícias em nada a ajudaram. A história sobre
Memphis foi uma repetição do noticiário das sete. A filha
da senadora Martin desaparecera. Sua fina blusa fora encontrada cortada nas costas ao estilo de Buffalo Bill. Nada
de testemunhas. A vítima encontrada em West Virginia
permanecia não identificada.
West Virginia. Entre as lembranças de Clarice Starling da Casa Funerária de Potter havia algo sólido e valioso. Um elemento durável, brilhando a parte das tenebrosas revelações. Algo para guardar. Ela agora o recordava
deliberadamente e via que podia apertá-lo como um talismã. Na Casa Funerária de Potter, de pé ao lado da pia,
descobrira energia de uma fonte que a surpreendera e agradara: a memória de sua mãe. Starling sobrevivera a a-


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grados de segunda mão desde seu falecido pai até seus
irmãos; e ficou surpresa e comovida pela recompensa que
encontrara.
Estacionou o carro diante do quartel-general do
FBI na Rua 10 com Pensilvânia. Duas equipes de televisão
estavam na calçada, os repórteres parecendo exageradamente elegantes sob as luzes, Realizavam reportagens
mostrando o Edifício J. Edgard Hoovei como cenário de
fundo. Starling desviou-se das luzes e caminhou dois quarteirões até o National Smithsonian Museum of Natura
History.
Podia distinguir no alto do edifício algumas janelas
iluminadas. Uma caminhonete da polícia do condado de
Baltimore estava na entrada semicircular. Jeff, o chofer de
Crawford, aguardava ao volante de uma caminhonete de
vigilância nova estacionada atrás da outra. Quando viu
Starling chegando, falou qualquer coisa ao microfone de
um rádio portátil.


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CAPÍTULO 18
O guarda levou Clarice Starling ao segundo andar
acima do grande elefante empalhado do Smithsonian. A
porta do elevador abriu-se naquele vasto e obscuro patamar e lá estava Crawford esperando, sozinho, as mãos
enfiadas no. bolsos de seu impermeável.
— Boa noite, Starling.
— Alô — cumprimentou ela.
Voltando-se para o guarda, sobre o ombro dela,
Crawford disse:
— Daqui podemos seguir sozinhos, guarda. Obrigado.
Crawford e Starling caminharam ao longo do corredor cheio de bandejas e caixas empilhadas contendo espécimes antropológicos. Algumas luzes do teto estavam
acesas, não muitas. Quando acertou o passo com ele, na
atitude discreta e reflexiva de uma caminhada no campus,
Starling teve a impressão de que Crawford queria passar o
braço por seus ombros, que o teria feito se lhe fosse possível tocá-la.
Esperou que o homem dissesse alguma coisa. Finalmente ele parou, meteu por sua vez as mãos nos bolsos, e ficaram ambos s encarando no corredor, naquele
silêncio entre ossadas.
Crawford encostou a cabeça para trás, de encontro
as caixa e aspirou fundo.
— Catherine Martin provavelmente ainda está viva
— disse afinal.
Starling balançou a cabeça e fitou o chão. Talvez ele
achasse mais fácil falar-lhe se ela não o encarasse. Ele es-


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tava sério, algo preocupava. Por um segundo Starling
ponderou se a mulher de Crawford teria morrido. Ou talvez passar um dia inteiro com a aflita mãe de Catherine
fosse à causa.
— Memphis foi uma brincadeira para ele — disse
Crawford. — Agarrou-a no estacionamento, parece. Ninguém viu. Ela entrou no apartamento e logo saiu de novo,
por alguma razão. Não pretendia ficar fora muito tempo
— deixou a porta escancarada e prendeu a tranca de forma que a porta não poderia fechar estando ela fora. Pusera as chaves em cima da televisão. Nada foi mexido do
lado de dentro. Não creio que ela permaneceu no apartamento muito tempo. Nem chegou até a secretária eletrônica no seu quarto. A luz acusando mensagem ainda piscava quando o pateta do namorado dela chamou a polícia.
Sem querer, Crawford pousou a mão dentro de
uma caixa de ossos e rapidamente a retirou.
— Portanto agora ele a retém, Starling. As redes de
notícias concordam em não destacar o assunto no noticiário da noite. O Dr. Bloom teme que isso pode encorajá-lo
a tomar uma atitude. Alguns dos tablóides, no entanto,
talvez o façam.
Num rapto anterior, a roupa cortada nas costas fora
encontrada cedo o bastante para identificar uma vitima de
Buffalo Bill enquanto ele ainda a mantinha viva. Starling
lembrava-se do noticiário tarjado de preto nas primeiras
páginas da imprensa marrom. Começara 18 dias antes que
o corpo aparecesse boiando.
— Então Catherine Baker Martin está esperando
no quarto verde de Bill, Starling, e talvez tenhamos uma
semana pela frente. Isso é o máximo... Bloom acha que os
períodos dele estão encurtando.


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Crawford considerou que a conversa se alongava
muito. O teatral “quarto verde” era uma referência que
cheirava a conversa fiada. Starling esperou que ele chegasse ao que interessava, e ele chegou.
— Desta vez, no entanto, Starling, desta vez temos
uma pequena chance.
Ela o encarou com a cabeça baixa, fitando-o sob as
sobrancelhas, esperançosa e ao mesmo tempo aflita.
— Temos um outro inseto. Seus amigos, Pilcher e...
aquele outro...
— Roden.
— ...estão trabalhando nele.
— Onde estava, em Cincinnati? Na gaveta do congelador?
— Não. Venha cá e eu lhe mostro. Vejamos o que
você pensa sobre isso.
— A seção de Entomologia fica do outro lado, Sr.
Crawford.
— Eu sei — concordou ele.
Dobraram a esquina para chegar à porta da Antropologia. Luz e vozes filtravam-se através do vidro fosco.
Ela entrou.
Três homens com jaquetas de laboratório trabalhavam numa mesa no centro da sala, debaixo de uma luz
brilhante. Starling não conseguia ver o que estavam fazendo. Jerry Burroughs, da Ciência do Comportamento, olhava por sobre os ombros deles e tomava notas numa
prancheta. Havia na sala um cheiro familiar.
Então um dos homens de branco afastou-se para
pôr algo na pia e aí ela pôde ver bem.


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Numa bandeja de aço inox, sobre a mesa de trabalho, estava “Klaus”, a cabeça que ela encontrara na Split
City Mini-Storage.
— “Klaus” tinha o inseto na sua garganta — disse
Crawford. Espere um momento, Starling. Jerry, você está
entrando em contato com a sala de comunicações?
Burroughs estava lendo de sua prancheta para o telefone. Colocou a mão sobre o microfone.
— Sim, Jack, o retrato “Klaus” de está na secagem.
Crawford pegou o fone da mão dele.
— Bobby, não espere pela Interpol. Arranje um
transmissor de telefotos e mande as fotos gráficas agora
mesmo, junto com o relatório médico. Países escandinavos, Alemanha Ocidental, Holanda. Não se esqueça de
dizer que “Klaus” poderia ser um marujo da marinha
mercante que desertou. Mencione que a Saúde Pública
pode achar uma pista com base na fratura da mandíbula.
Chame-a de arco zigomático. Certifique-se de que seguirão ambas as cartas dentais, a universal e a da Federation
Dentaire. Eles vão indicar uma idade, mas enfatize que
essa é uma estimativa grosseira — não se pode depender
de suturas cranianas para esse fim. — Devolveu o telefone
para Burroughs. — Onde está seu equipamento, Starling?
— No escritório dos guardas, lá embaixo.
— A Universidade Johns Hopkins encontrou o inseto — revelou Crawford enquanto esperavam pelo elevador. — Eles estudaram a cabeça para a polícia do condado de Baltimore. O inseto estava na garganta, exatamente como o da pequena em West Virginia.
— Exatamente como em West Virginia.
— Não fique me repetindo. A Johns Hopkins encontrou-o mais ou menos às sete desta noite. O promotor


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público de Baltimore chamou-me ao telefone do avião.
Eles enviaram tudo para cá, “Klaus” e tudo, de forma que
pudéssemos vê-lo ‘in situ’. Também queriam uma opinião
do Dr. Angel sobre a idade de “Klaus”, e sobre que idade
teria quando fraturou o maxilar. Eles consultam o Smithsonian, da mesma forma que nós.
— Dê-me uns segundos para digerir isso. Você está
dizendo que Buffalo Bill tenha matado Klaus? Anos atrás?
— Parece muito improvável, uma coincidência exagerada?
— Neste momento, parece.
— Deixe que a idéia assente por um momento.
— O Dr. Lecter indicou-me onde encontrar Klaus
— lembrou Starling.
— Sim, foi ele.
— O Dr. Lecter contou-me que seu paciente, Benjamin Raspail, afirmava ter matado Klaus. Mas Lecter opinou que teria sido provavelmente uma asfixia erótica acidental.
— Isso foi o que ele lhe contou.
— Você pensa que o Dr. Lecter talvez saiba exatamente como Klaus morreu, e que não foi Raspail, e que
não foi também asfixia erótica?
— Klaus tinha um inseto na garganta, a pequena de
West Virginia tinha um inseto na garganta. Nunca li nada
assim, nunca ouvi falar em coisa assim. O que pensa você?
— Penso na sua instrução de fazer uma mala para
dois dias. Deseja que eu vá perguntar ao Dr. Lecter, certo?
— Você é a pessoa com quem ele fala. — Crawford parecia bem triste ao dizer isso. — Acho que você
lhe agrada.
Ela anuiu com a cabeça.


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— Falaremos a caminho do hospício — acrescentou Crawford.


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CAPÍTULO 19
— Durante anos o Dr. Lecter teve uma grande clientela psiquiátrica antes de o pegarmos pelos assassinatos
que cometeu — disse Crawford. — Ele fez muitas avaliações psiquiátricas para as cortes de Maryland e Virginia e
para algumas outras ao longo da costa leste, aqui e ali. Examinou uma porção de criminosos insanos. Quem sabe
quantos ele liberou, só por desfastio? Está aí uma coisa
que ele podia fazer. Ele também conheceu Raspail socialmente e Raspail lhe contou sabe-se lá o quê durante a terapia. Talvez Raspail lhe tenha dito quem matou Klaus.
Crawford e Starling estavam frente a frente em cadeiras giratórias na traseira do furgão de vigilância, que
rapidamente se dirigia para o norte, na estrada US 95, em
direção a Baltimore, a 60 quilômetros de distância. Jeff, no
compartimento do motorista tinha ordem de pisar na tábua.
— Lecter ofereceu-se para ajudar, mas eu recusei.
Já tivera a ajuda dele antes, mas nada resultou de útil, e
Will Graham recebeu uma facada no rosto da última vez
que o usara. Para divertir-se, alegou Lecter.
“Não posso, porém, ignorar um inseto na garganta
de Klaus, um inseto na garganta da moça de West Virginia; não posso ignorar isso. Alan Bloom nunca ouviu falar
de semelhante coisa antes, e eu tampouco. Você já teve
notícia de um caso assim, Starling? Você, que tem lido
muito sobre crimes depois de mim.
— Nunca. Inserir objetos, sim, mas nunca um inseto.


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— Duas coisas para começar. Primeiro partimos da
premissa que o Dr. Lecter sabe realmente algo concreto.
Segundo, não vamos esquecer que Lecter gosta de se divertir. É a sua natureza. Ele tem que desejar que Buffalo
Bill seja apanhado enquanto Catherine Martin ainda está
viva. Toda a sua diversão mais os benefícios têm que ser
encaminhados nessa direção. Não temos meios de ameaçá-lo — ele já perdeu o assento do vaso sanitário e os livros.
— Que aconteceria se apenas lhe expuséssemos a
situação e lhe oferecêssemos um benefício: uma janela
com vista para fora. Foi o que ele pediu quando se ofereceu para ajudar.
— Ele se ofereceu para ajudar, Starling, mas não
para denunciar. Uma delação não daria a ele uma boa oportunidade para se mostrar. Você está indecisa e prefere
a verdade. Pois ouça: Lecter não tem pressa. Ele está acompanhando tudo como se fosse um jogo de beisebol.
Nós lhe pedimos para denunciar, ele preferirá esperar.
Não o fará facilmente.
— Nem mesmo por uma recompensa? Algo que
não obterá se Catherine morrer?
— Suponha que nós lhe digamos que sabemos que
ele possui informações e queremos que ele se abra. Lecter
se divertiria muito protelando e agindo, semana após semana, como se estivesse tentando lembrar-se, animando
as esperanças da senadora Martin, mas deixando Catherine
morrer. Depois faria o mesmo com a próxima mãe e ainda
a próxima, reanimando esperanças, sempre quase a lembrar-se — agradaria mais a ele do que uma janela com vista para fora. É dessa espécie de coisa que ele vive; é o seu
alimento.


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“Não sei se a gente fica mais esperta com a idade,
Starling, mas aprende-se a driblar uma certa porção de
ruindade. Talvez aqui possamos driblar alguma.
— Então o Dr. Lecter deve pensar que lhe estamos
apelando apenas por uma teoria e por um insight — arriscou Starling.
— Correto.
— Por que não me disse? Por que não me mandou
interroga-lo dessa maneira?
— Eu me ponho no mesmo nível que você. E você
fará o mesmo quando tiver um comando. Nenhuma outra
forma de agir dura muito tempo.
— Então não tenho que mencionar o inseto na
garganta de Klaus, nenhuma conexão entre Klaus e Buffalo Bill.
— Não. Você estará voltando porque ficou muito
impressionada por ele prever que Buffalo Bill começaria a
escalpelar. Já deixei claro que não vou me interessar por
ele, da mesma forma que Alan Bloom. Mas estou deixando que você fale com ele. Você lhe oferece alguns privilégios — coisas que somente uma pessoa tão poderosa como a senadora Martin poderia obter. Lecter tem que acreditar que deve apressar-se porque a oferta será cancelada
se Catherine morrer. A senadora perderá o interesse por
ele se isso acontecer. E se ele falhar, será porque não é
inteligente e não tem a capacidade para fazer o que disse
que podia fazer, e não porque está se esquivando para
zombar de nós.
— A senadora perderá mesmo o interesse?
— Se fosse prestar juramento, você diria que nunca
soube a resposta para essa questão.
— Entendo.


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Concluiu que não haviam contado à senadora Martin, o que demandava muita coragem. Estava claro que
Crawford não queria interferência, receoso de que a senadora cometesse o erro de apelar diretamente para o Dr.
Lecter.
— Você está entendendo mesmo?
— Sim. Como poderá ele ser suficientemente especifico para levar-nos até Buffalo Bill sem mostrar que sabe
de alguma coisa especial? Como poderá fazer isso só com
teoria e insight?
— Não sei, Starling. Ele já teve muito tempo para
pensar sobre o assunto. Ela esperou o extermínio de seis
vítimas.
O telefone no furgão tilintou e piscou com a primeira de uma série de telefonemas que Crawford tinha
combinado com o centro do FBI.
Durante os próximos vinte minutos, falou com policiais conhecidos da Polícia de Estado Holandesa e da
Royal Marechaussee, com um Overstelojtnant na Polícia
Técnica Sueca que estudara em Quântico, um amigo que
era assistente do Rigspolitichef da polícia dinamarquesa, e
surpreendeu Starling falando em francês com o escritório
de comando noturno da Polícia Criminal Belga. Em todos
os diálogos enfatizou a necessidade de apressar a identificação de Klaus e seus companheiros. Cada uma dessas
jurisdições já tinha o pedido por telex da Interpol, mas,
com a rede de conhecimentos íntimos em atividade, o pedido não ficaria na máquina durante horas.
Starling podia ver por que Crawford havia escolhido o furgão para suas comunicações — ele dispunha do
novo sistema de Privacidade de Voz — mas a tarefa certamente seria mais fácil de seu escritório. Aqui ele tinha de


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manusear seu livro de notas numa mesa pequena com luz
deficiente, e os passageiros eram sacudidos toda vez que
os pneus passavam sobre uma emenda no asfalto. A experiência de campo de Starling era pequena, mas ela sabia
não ser comum um chefe de seção usar um furgão numa
missão como essa. Crawford poderia tê-la instruído pela
radiotelefonia, mas ela gostou que não o tivesse feito.
Starling sentia que a privacidade e a calma no furgão, e o tempo dedicado ordenadamente àquele trabalho,
tinham um alto custo. Escutando Crawford ao telefone,
confirmou isso.
— Como está a senadora?
— Controlada, mas ferida. É uma mulher esperta e
dura, tem um bocado de bom senso, Starling. Você provavelmente gostará dela.
— O pessoal da Johns Hopkins e a Divisão de
Homicídios do condado de Baltimore vão manter segredo
acerca do inseto na garganta de Klaus? Poderemos manter
o assunto fora dos jornais?
— Por uns três dias, sim.
— Deve ter dado muito trabalho conseguir isso.
— Não podemos confiar em Frederick Chilton
nem qualquer outra pessoa no hospital — disse Crawford.
— Se Chilton souber, o mundo todo saberá. Ele vai saber
que você está lá apenas como um favor que faz à Divisão
de Homicídios de Baltimore, tentando encerrar o caso
Maus — nada a ver com Buffalo Bill.
— E vou fazer isso tarde, esta noite?
— É o único tempo que eu lhe daria. Devo avisá-la
que a história sobre o inseto em West Virgínia estará nos
jornais amanhã. O escritório do legista em Cincinnati deu
com a língua nos dentes, de modo que não é mais segre-


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do. É um detalhe que Lecter pode obter de você; isso realmente não tem importância, desde que ele não saiba que
encontramos um também em Maus.
Ele agora falava com o diretor do FBI que estava
em casa.
— Não, senhor. Eles insistiram muito nisso?... Por
quanto tempo? Não, senhor. Não. Nada de aparelhagem
de gravação, Tommy, recomendo e insisto. Não quero
que ela leve um gravador escondido. O Dr. Bloom diz a
mesma coisa. Ele está retido pela cerração em O’Hare.
Virá tão logo ela permita. Certo.
Depois Crawford teve uma misteriosa conversa
com a enfermeira da noite em sua casa. Ao terminar, olhou pela janela com vidro espelhado por fora durante
talvez um minuto, os óculos descansando sobre o joelho,
presos por um dedo. Seu rosto parecia lívido quando as
luzes o iluminavam de tempo em tempo. Depois recolocou os óculos e virou-se para Starling.
— Lecter é nosso por três dias. Se não conseguirmos resultado, Baltimore irá fazê-lo suar até que a justiça
os faça largá-lo.
— Interrogá-lo exaustivamente não funcionou da
última vez. O Dr. Lecter não transpira muito...
— O que foi que ele ofereceu ao pessoal depois da
sessão, uma galinha de papel?
— Uma galinha, sim.
A galinha de papel dobrado, amassada, ainda estava
na bolsa de Starling. Ela alisou-a na pequena mesa e fê-la
dar uma bicada.
— Não culpo os policiais de Baltimore. Ele é um
prisioneiro. Se o corpo de Catherine aparecer boiando,


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deverão estar em condições de dizer à senadora Martin
que tentaram tudo.
— O que temos para trocar com ele?
— É no que estou trabalhando — disse Crawford,
e voltou para seus telefones.


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CAPÍTULO 20
Um grande banheiro forrado de azulejos brancos,
com clarabóias e elegantes metais italianos se destacando
de encontro a antigos tijolos aparentes. Um enfeitado armário de toucador flanqueado por grandes plantas e carregado de cosméticos, o espelho velado pelo vapor que a
água quente fazia. Do chuveiro uma voz cantava num tom
alto demais. A canção era Cash for Your Trash (Pago à
vista por seu lixo) de Fats Waller, do musical Ain’t Misbehavin. Às vezes a voz escondia as palavras:
“Guarde todos seus velhos JORNAIS, Guarde e
empilhe-os como um ARRANHA-CÉU DAH DAHDAHDAH DAH DAH DAHDAHDAH DAH...”
Sempre que ocorriam palavras, uma cachorrinha arranhava a porta do banheiro.
Embaixo do chuveiro estava Jarne Gumb, branco,
34 anos, 1,83m, 95 quilos, cabelos castanhos, olhos azuis,
sem marcas características. Pronuncia seu primeiro nome
como o James, porém sem o s — Jame. Insiste nisso.
Depois de se enxaguar pela primeira vez, Gumb aplicou Friction des Bains, esfregando-a no peito e nas nádegas e usando uma esponja nas partes que não gostava
de tocar. Suas pernas estavam cobertas dê pêlos, mas ele
decidiu deixá-las assim mesmo.
Gumb esfregou-se até ficar rosado e aplicou um
bom emoliente para amaciar a pele. Seu espelho de corpo
inteiro tinha uma cortina para protegê-lo, estendida em
uma barra à sua frente.
Gumb usou a esponja para ajeitar o pênis e os testículos entre as pernas. Afastou a cortina para um lado e


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ficou de pé em frente ao espelho, assumindo uma pose
com um quadril mais alto que o outro, a despeito do desconforto que isso causava em suas partes íntimas.
“Faça algo por mim, doçura. Faça algo por mim
LOGO.” Usava o registro mais alto de sua voz naturalmente profunda, e acreditava estar melhorando. Os hormônios que tomara — Premarin durante algum tempo e
depois dietilestilbestrol, via oral — nada puderam fazer
por sua voz, mas tinham tornado esparsos os cabelos em
volta de suas marnas ligeiramente cheias. Muita eletrólise
lhe removera a barba e dera à linha fronteira do seu cabelo
um formato de bico de viúva, mas apesar disso ele não se
parecia com uma mulher. Parecia-se com um homem inclinado a lutar com as unhas, mas também com os punhos
e os pés.
Se o seu comportamento era uma séria, mas inepta
tentativa para parecer homossexual ou apenas uma odiosa
imitação, seria difícil dizer após um rápido conhecimento,
e rápidos conhecimentos era tudo o que ele fazia.
“O que vai fazer por mim?”
O animal arranhou a porta ao som da voz dele.
Gumb vestiu o roupão e deixou-o entrar. Agarrou a pequena poodle cor de champanha e beijou-a no gordo traseiro.
— Sim. Você está esfomeada, Preciosa? Eu também estou.
Passou a cadelinha de um braço para o outro ao abrir a porta do quarto. Ela agitou-se, querendo voltar para
o chão.
— Espere um momento, queridinha. — Com a
mão livre ele apanhou uma carabina mini-14 ao lado da
cama e colocou-a sobre os travesseiros. — Agora. Agora,


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vamos. Vamos jantar num minuto. — Colocou a cadelinha no chão e vestiu um pijama e o robe. O animal seguiu-o alegremente escadas abaixo em direção à cozinha.
Jame Gumb tirou três refeições TV do seu forno de
microondas. Eram duas refeições Homem Esfomeado
para ele e uma Cozinha Magra para a cachorrinha.
O animal comeu gulosamente o prato principal e a
sobremesa, deixando os vegetais, Jame Gumb deixou apenas os ossos em seus dois pratos.
Fez a cadelinha sair pela porta de trás e, chegando
seu robe bem de encontro ao corpo por causa da friagem,
observou quando ela se agachava na estreita faixa de luz
que passava pela porta.
— Você não fez o número dois... Muito bem. Não
vou olhar... — Mas deu uma espiada por entre os dedos
da mão em frente ao rosto. — Oh! Que beleza! Sua safadinha, você é uma perfeita senhorita! Vamos, vamos para
a cama.
O Sr. Gumb gostava de ir para a cama. Fazia-o várias vezes durante a noite. Gostava também de se levantar
e sentar-se em um ou outro de seus muitos quartos sem
acender a luz, ou trabalhar um pouco durante a noite
quando ficava entusiasmado com algo criativo.
Ia apagar a luz da cozinha mas fez uma pausa, seus
lábios formando um bico quando ele olhou para os restos
do jantar. Pegou as três bandejas e limpou a mesa.
Um interruptor em cima da escada iluminou o porão. Jame Gumb começou a descer, levando as bandejas.
O animal ganiu na cozinha e com o focinho abriu a porta
atrás dele.
— Muito bem, sua bobinha. — Agarrou a cadelinha no chão e carregou-a para baixo. Ela agitou-se e me-


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teu o focinho nas bandejas. — Nada disso! Você já comeu
bastante. — Depositou-a no chão e ela seguiu-o bem de
perto ao longo do piso irregular e de vários níveis do subsolo.
Num quarto do porão, bem embaixo da cozinha,
havia um poço seco. Suas bordas de pedra, reforçadas
com modernos anéis de cimento, elevavam-se uns 60 centímetros acima do chão arenoso. A tampa de segurança
original, de madeira, pesada demais para uma criança levantar, estava em posição. Havia nela uma abertura suficiente para passar um balde. Jame Gumb despejou as bandejas por essa abertura.
Os ossos e os vegetais desapareceram na escuridão
absoluta do poço. A cadelinha sentou-se, com um jeito de
estar pedindo algo.
— Nada disso, tudo foi-se embora — repreendeu
Gumb. Você está gordinha demais.
Subiu as escadas do porão repetindo baixo: “Gorduchinha, gorduchinha” para o cão. Não deu sinal de ter
ouvido o grito, bastante forte mas controlado, que ecoou
do fundo daquele buraco negro.
— POR FAVOR!


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CAPÍTULO 21
Clarice Starling entrou no Baltimore State Hospital
for the Criminally Insane pouco depois das 10 horas da
noite. Viera sozinha. Esperava que o Dr. Chilton não estivesse lá, mas encontrou-o esperando por ela em seu escritório.
Chilton usava um casaco esporte axadrezado, de
corte inglês. As duplas pregas nas costas e as abas soltas
davam ao casaco uma aparência de saia curta, pensou Starling. Tinha esperança de que não o houvesse vestido por
causa dela...
Diante da mesa, a sala estava vazia exceto por uma
cadeira de espaldar reto aparafusada no chão. Starling ficou de pé a seu lado enquanto o cumprimento dela pairava no ar sem resposta. Ela podia sentir o cheiro dos cachimbos frios e fedorentos num suporte ao lado da bolsa
de tabaco.
Chilton terminou de examinar sua coleção de locomotivas da Franldin Mint e virou-se para ela.
— Gostaria de uma xícara de café?
— Não, obrigada. Desculpe por perturbá-lo à noite.
— Você ainda está tentando descobrir algo sobre
aquela história da cabeça? — perguntou o Dr. Chilton.
— Sim. O escritório do Promotor Público de Baltimore disse-me que havia feito os arranjos com o senhor,
doutor.
— Oh, sim. Eu trabalho muito ligado às autoridades daqui, Srta. Starling. Por falar nisso, está escrevendo
um artigo ou uma tese?


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— Nem uma coisa nem outra.
— Já publicou alguma vez em órgãos profissionais?
— Não, nunca. Esta é apenas uma tarefa que o escritório do Promotor me pediu que realizasse para a Divisão de Homicídios de Baltimore. Nós os deixamos com
um caso aberto e os estamos ajudando a acertar as pontas.
— Starling descobriu que sua antipatia por Chilton tornava-lhe mais fácil mentir.
— Está ligada, Srta. Starling?
— Estou o quê...?
— Está usando um dispositivo eletrônico para registrar o que o Dr. Lecter diz? O termo policial é “ligada”;
estou certo de que já o ouviu.
— Não.
O Dr. Chilton pegou um pequeno Pearlcorder na
sua mesa e colocou nele um cassete.
— Então ponha isto na sua bolsa. Depois lhe mandarei uma cópia. Pode usá-lo para ampliar suas notas.
— Não. Não posso fazer isso, Dr. Chilton.
— Por que não? As autoridades de Baltimore me
pedem sempre uma análise sobre tudo o que Lecter diz
acerca desse caso de Klaus.
Evite Chilton, se puder, dissera-lhe Crawford. Podemos forçá-lo com uma ordem judicial. Ademais, Lecter
irá descolar. Ele sabe o que se passa com Chilton como se
lesse um livro aberto.
— O Promotor Público pensou que deveríamos
tentar primeiro uma aproximação informal. Se eu gravasse
o Dr. Lecter sem seu conhecimento, e ele descobrisse,
seria... realmente seria o fim da boa atmosfera de trabalho
que mantemos. Estou certa que o senhor concorda com
isso.


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— Como iria ele descobrir?
Ele saberia pelos jornais que você está a par de tudo, seu calhorda! Conteve-se.
— Se isto chegar a algum resultado e ele tiver que
depor, o senhor seria o primeiro a ver o material e eu estou certo que seria convidado a servir como testemunha
importante. Nós agora estamos apenas tentando obter
uma pista dele.
— Sabe por que ele concorda em lhe falar, Srta.
Starling?
— Não, Dr. Chilton.
O homem voltou-se de costas e ficou a examinar o
sortimento de certificados e diplomas que estavam na parede atrás da mesa, como se estivesse fazendo um levantamento. Em seguida virou-se devagar para Starling.
— A senhorita realmente sabe o que está fazendo?
— Claro que sei. — As pernas de Starling tremiam
de tanta raiva. Mas não desejava brigar com Chilton; tinha
que sobrar-lhe alguma energia para enfrentar Lecter.
— O que está fazendo é vir ao meu hospital para
obter uma entrevista, porém sem compartilhar a informação comigo.
— Estou agindo de acordo com as instruções que
recebi, Dr. Chilton. Tenho aqui o número do telefone particular do Promotor Público. E agora, por favor, ou discuta o assunto com ele, ou deixe-me trabalhar.
— Eu não sou o porteiro daqui, Srta. Starling. Não
venho para cá à noite apenas para deixar as pessoas entrarem e saírem. Eu tinha um bilhete para o Holiday on Ice.
Ele percebeu que tinha dito um bilhete. Naquele
instante Starling avaliou a vida dele, e Chilton o sentiu.


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Ela viu o refrigerador maltratado, as migalhas do
jantar na bandeja onde ele comia sozinho, as pilhas de coisas que permaneciam fixas no lugar durante meses até que
ele as arrumasse — e sentiu pena da sua vida solitária, mas
rapidamente concluiu que não devia poupá-lo, que não
devia continuar a falar ou a evitar o olhar dele. Encarou-o
nos olhos e com uma inclinação mínima da cabeça fitouo, sobranceira. Fê-lo sentir que percebera quem ele era e
como vivia, sabendo que ele já não teria coragem para estender aquela conversa.
Chilton mandou um guarda chamado Alonzo acompanhá-la.


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CAPÍTULO 22
Andando com Alonzo em direção às últimas celas,
Starling conseguiu não dar ouvidos às batidas de portas e
aos gritos, embora os sentisse agitando o ar de encontro à
sua pele. Sentia crescer nela uma pressão como se estivesse afundando n’água, cada vez mais baixo.
A proximidade dos loucos, a lembrança de Catherine Baker Martin amarrada e sozinha, um deles estrangulando-a e procurando ferramentas em sua maleta, tudo
isso dava coragem a Starling para continuar seu serviço.
Mas ela precisava mais do que coragem. Precisava também permanecer calma, não se alterar, ser um instrumento
muito afiado. Tinha que ser paciente apesar da terrível
necessidade de apressar-se. Se o Dr. Lecter soubesse a
resposta, ela teria que desencavá-la no emaranhado dos
pensamentos dele.
Starling pensava em Catherine Baker Martin como
a criança que vira no filme-noticiário, uma menininha num
barco a vela.
Alonzo apertou o botão da campainha da última
porta.
Ensina-nos como preocupar-nos e como não preocupar-nos, ensina-nos a permanecer calmos.
— Perdão? — fez Alonzo, e Starling compreendeu
que pensara em voz alta.
Ele deixou-a com o guarda corpulento que abrira a
porta. Quando Alonzo deu meia-volta para ir embora, notou que ele se persignava.
— Prazer em vê-la de novo — cumprimentou o
guarda enquanto passava os ferrolhos na porta atrás dela.


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— Alô, Barney.
Barney mantinha preso entre o polegar e o maciço
indicador um volume em brochura. Era o Sense and Sensibility, de Jane Austen; Starling estava disposta a registrar
tudo.
— Como quer as luzes? — perguntou ele.
O corredor entre as celas estava em meia escuridão.
Próximo ao seu extremo ela podia notar uma luz brilhante
vindo da última cela, a iluminar o chão do corredor.
— O Dr. Lecter está acordado.
— A noite, sempre, mesmo quando sua luz fica apagada.
— Deixe-as como estão.
— Fique no meio do corredor ao passar para lá, e
não toque nas barras, certo?
— Quero aquela TV desligada.
O aparelho de televisão fora mudado de lugar. Estava ao fundo do corredor, de frente para o centro. Alguns prisioneiros podiam vê-lo encostando a cabeça nas
barras.
— Elimine o som, mas deixe a imagem, se não se
importar. Alguns deles gostam de ficar olhando. A cadeira
está lá, se quiser utilizar-se dela.
Starling avançou sozinha pelo corredor na penumbra. Não olhou para as celas de nenhum dos dois lados.
Suas pisadas lhe pareciam meio barulhentas. Os únicos
outros ruídos eram o ressonar vindo de uma cela, talvez
de duas, é um risinho baixo soando em outra.
A cela do falecido Miggs tinha um novo ocupante.
Ela podia ver compridas pernas esticadas no solo, a cabeça apoiada nas grades. Um homem permanecia sentado no
chão da sua cela no meio de uma porção de papel rasgado.


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Seu rosto era inexpressivo. A televisão refletia-se em seus
olhos e um brilhante fio de baba ligava o canto da sua boca ao ombro.
Ela não quis olhar para a cela do Dr. Lecter até estar segura de que ele a vira. Passou por ela sentindo um
arrepio na espinha, foi até a televisão e cortou o som.
O Dr. Lecter usava o branco pijama do asilo em
sua branca cela. As únicas coisas coloridas, ali, eram seus
cabelos e olhos, e sua boca vermelha, num rosto há tanto
tempo longe do sol que se diluía na brancura envolvente;
suas feições pareciam flutuar acima da gola da camisa. Estava sentado à mesa, atrás da rede de náilon que o mantinha afastado das barras. Fazia um esboço em papel de
embrulho, usando a própria mão como modelo. Enquanto ela observava, virou a mão e, flexionando os dedos para
distender a musculatura, desenhou a parte interna do antebraço. Usou o dedo mínimo como esfuminho para modificar uma linha de carvão.
Starling aproximou-se das barras e ele levantou os
olhos. Para Starling, todas as sombras da cela se juntaram
nos olhos dele e no bico-de-viúva dos seus cabelos.
— Boa noite, Dr. Lecter.
A ponta da língua dele apareceu, vermelha como
seus lábios. Tocou o lábio superior exatamente no centro
e recolheu-se de novo.
— Clarice.
Ela percebeu o arranhado ligeiramente metálico daquela voz e ficou pensando há quanto tempo ele falara
pela última vez.
— Você está atrasada para sua aula noturna — repreendeu ele. — Esta é a minha classe noturna — disse


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ela, desejando que sua voz fosse mais forte. — Ontem
estive em West Virginia...
— Você se machucou?
— Não, eu...
— Está com um Band-Aid novo, Clarice.
Então ela lembrou.
— Arranhei-me hoje na borda da piscina. — O
Band-Aid estava na sua perna, escondido, por baixo da
calça. Ele devia ter sentido o cheiro.
— Estive em West Virginia ontem. Encontraram lá
um corpo, o último de Buffalo Bill.
— Não exatamente o último, Clarice.
— O penúltimo.
— Pois é.
— Ela foi escalpelada. Exatamente como o senhor
disse que aconteceria.
— Incomoda-se se eu continuar a desenhar enquanto falamos?
— Não. Continue, por favor.
— Você examinou o corpo?
— Sim.
— Tinha visto serviços anteriores dele?
— Não; apenas fotografias.
— Como se sentiu?
— Apreensiva. Depois atenta.
— Depois? Abalada. Você conseguiu trabalhar direito? — O Dr. Lecter esfregou seu carvão na beira do
papel para refazer-lhe a ponta.
— Muito bem. Trabalhei muito bem.
— Para Jack Crawford? Ele ainda lhe telefona para
casa?
— Ele estava lá.


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— Seja boazinha para mim um momento, Clarice.
Deixe sua cabeça pender para a frente, como se estivesse
dormindo. Mais um segundo. Obrigado, agora já peguei a
pose. Sente-se, se quiser. Você tinha contado a Jack Crawford o que eu disse antes de eles a encontrarem?
— Sim. E ele zombou muito da idéia.
— E depois que ele viu o corpo em West Virgínia?
— Bem, ele falou com a principal autoridade no assunto, na Universidade de...
— Alan Bloom.
— Isso mesmo. O Dr. Bloom disse que Buffalo
Bill estava personificando um tipo criado pelos jornais:
essa história de Buffalo Bill escalpelar que os tablóides
andaram explorando. O Dr. Bloom opinou que qualquer
pessoa podia ver que isso iria acontecer.
— O Dr. Bloom viu que isso estava para acontecer?
— Ele afirmou que sim.
— Afirmou, mas guardou a previsão para si mesmo. Entendo. O que acha você, Clarice?
— Não estou certa.
— Você estudou psicologia e prática forense. Onde
as duas coisas confluem, você pesca, não é, Clarice? Já
fisgou alguma coisa?
— Até agora tudo tem andado muito devagar.
— O que as suas duas disciplinas lhe dizem sobre
Buffalo Bill?
— Segundo os livros, ele é um sádico.
— A vida é escorregadia demais para os livros, Clarice; a raiva parece luxúria, o lúpus apresenta-se como
uma urticária.


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O Dr. Lecter terminou o esboço da sua mão esquerda com a direita; trocou o carvão de mão e começou
a desenhar a mão direita com a esquerda, com a mesma
facilidade.
— O senhor se refere ao livro do Dr. Bloom?
— Sim. Você me procurou nele, não foi?
— Sim.
— Como foi que ele me descreveu?
— Um sociopata puro.
— Você diria que o Dr. Bloom está sempre certo?
— Continuo esperando pela futilidade do afeto...
O sorriso do Dr. Lecter revelou seus pequenos
dentes brancos.
— Temos peritos em todos os assuntos, Clarice. O
Dr. Chilton diz que Sammie, ali atrás de você, é um esquizóide hebefrênico e irremediavelmente perdido. Ele pés
Sammie na antiga cela de Miggs porque pensa que Sammie
já disse adeus. Você sabe como os hebefrênicos geralmente se vão? Não se preocupe; ele não ouvirá.
— São os mais difíceis de tratar — respondeu ela.
— Usualmente caem num retiro terminal e se desintegram.
O Dr. Lecter tirou algo dentre suas folhas de papel
de embrulho e colocou na bandeja deslizante. Starling puxou-a.
— Ontem mesmo Sammie mandou-me isto com a
minha comida — disse ele.
Era um pedaço de papel marrom com a escrita em
creiom.
Starling leu:
I WAN TOO GO TO JESA
I WAN TOO GO WIV CRIEZ


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I CAN GO WIV JESA
EF I AC RELL NIZE
SAMMIE
Starling olhou para trás, sobre o ombro direito.
Sammie estava sentado, o rosto inexpressivo de encontro
à parede da cela, a cabeça encostada nas barras.
— Quer ler em voz alta? Ele não pode escutá-la.
Starling começou:
— Eu desejo ir para Jesus. Eu quero ir com Cristo.
Eu posso ir com Jesus. Se eu me comportar bem.
— Não, não. Imprima urna qualidade mais agressiva de “pudim de ervilhas quente” nos versos. A métrica
varia, mas a intensidade é a mesma. — Lecter batia o
compasso suavemente: “Pudim de ervilhas na panela há
nove dias.” Com fervor: “I wan to go Jesa, I wan to go
wiv Crieiz”.
— Entendo — disse Starling, colocando o papel de
volta no carregador.
— Não, você não está entendendo nada — repreendeu o Dr. Lecter, pondo-se de pé; o corpo magro subitamente grotesco, dobrado em dois como um gnomo, ele
pulava marcando o compasso, a voz reverberando como
um sonar, “I wan to go to Jesa...”.
De repente a voz de Samtnie ecoou atrás dela como
a tosse de um leopardo, mais alto do que o grito de um
macaco urrador, de pé e batendo com seu rosto nas grades, lívido e fazendo um violento esforço, os tendões do
pescoço salientando-se:
“I WAN TOO GO TO JESA I WAN TOO GO
WIV CRIEZ I CAN GO WIV JESA EF I AC RELL NIIIZE.”


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Silêncio. Starling viu que se pusera de pé e que sua
cadeira de dobrar estava virada atrás dela. Os papéis haviam escorregado do seu colo.
— Por favor — pediu o Dr. Lecter, novamente
ereto e gracioso como um bailarino, convidando-a a sentar-se. Deixou-se cair em sua cadeira e descansou o queixo
na mão. — Você não entende coisa alguma — repetiu. —
Sammie é profundamente religioso. Ele simplesmente revela sua decepção porque Jesus está tão atrasado. Posso
dizer a Clarice por que você está aqui, Sammie?
Sammie coçou o queixo e ficou estático.
— Por favor? — insistiu o Dr. Lecter.
— Sim... — concedeu Sammie por entre os dedos.
— Sammie pôs a cabeça da mãe dele na bandeja de
espórtulas na igreja batista da estrada em Trune. Estavam
cantando. Dê o melhor que você tem ao Senhor e era a
melhor coisa que ele tinha. Lecter voltou-se para o lado e
falou sobre seu ombro. — Obrigado, Sammie. Está tudo
muito bem. Olhe a televisão.
O homem alto deixou-se cair no chão, a cabeça
contra as barras, como antes, as imagens da televisão se
refletiam em suas pupilas, agora três riscos prateados no
seu rosto: cuspe e lágrimas.
— Muito bem: veja se você pode aplicar-se ao problema dele e talvez eu me aplique ao seu. — Quid pro
quo. Ele não está escutando.
Starling teve que se concentrar.
— Os versos mudam de “ir para Jesus” para “ir
com Cristo” — observou ela. — Há uma seqüência racional: ir para, chegar a, ir com.
— Sim. É uma progressão linear. Estou particularmente satisfeito que ele saiba que “Jesa” e “Criei” são o


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mesmo. Isto é um progresso. A idéia de um simples Deuspadre ser também uma Trindade é difícil de aceitar, especialmente para Sammie, que não está seguro de quantas
pessoas ele mesmo é formado. Eldridge Cleaver dá-nos a
parábola do Óleo Três-em-Um e nós achamos que é útil.
— Ele vê uma relação casual entre o próprio comportamento e seus objetivos e isso é um raciocínio estrutural — assuntou Starling. — Assim é também a construção de um ritmo. Ele não está obtuso, pois chora. O senhor acredita que é um catatônico esquizóide?
— Sim. Você pode sentir o cheiro do suor dele?
Aquele cheiro de bode é ácido trens3-metil2 -hexenóico.
Lembre-se: é o cheiro da esquizofrenia.
— E o senhor acredita que ele é tratável?
— Particularmente agora, quando está saindo de
uma fase de estupor. Como brilham as faces dele!
— Dr. Lecter, por que o senhor diz que Buffalo
Bill não é um sádico?
— Porque os jornais declaram que os corpos tinham marcas de ligaduras nos pulsos, mas não nos tornozelos. Você viu algumas marca nos tornozelos da pessoa
em West Virgínia?
— Não.
— Clarice: esfolamentos como recreação são sempre executados com a vitima invertida, de forma que a
pressão sangüínea se mantenha normal mais tempo na
cabeça e no peito e a vítima permaneça consciente. Você
sabia disso?
— Não.
— Quando estiver de novo em Washington, vá até
a Galeria Nacional e veja O esfolamento de Marsias, de
Ticiano, antes que o mandem de volta para a Tchecoslo-


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váquia. Ticiano era maravilhoso nos detalhes; repare no
prestativo Pã trazendo o balde de água fria.
— Não estou interessada na sua pior invenção.
— Bem, eu acredito em você. Mas há mais coisas
que não sabe, além de como se procede com propriedade
a um esfolamento, sobre o comportamento humano. Você não acharia que, para um senador dos Estados Unidos,
é uma estranha escolha como mensageiro?
— Eu fui sua escolha, Dr. Lecter. O senhor me escolheu para falar-lhe. Preferiria agora outra pessoa? Ou
talvez o senhor não ache que poderá ajudar.
— Isso é ao mesmo tempo imprudente e falso, Clarice. Não creio que Jack Crawford jamais permita que me
dêem alguma compensação. Possivelmente eu lhe darei
alguma coisa para dizer à senadora, mas opero estritamente na base do toma-lá-dá-cá. Talvez eu troque essa coisa
por uma certa informação a seu respeito. Sim ou não?
— Vejamos qual é a questão.
— Sim ou não? Catherine está esperando, não está?
Ouvindo o barulho da pedra de afiar? O que pensa você
que ela lhe pediria para fazer?
Starling respirou profundamente.
— Apresse-se — urgiu o Dr. Lecter.
— Dr. Lecter, temos aqui algumas circunstâncias
extraordinárias e algumas oportunidades incomuns.
— Para quem?
— Para o senhor, se salvarmos essa moça. O senhor viu a senadora Martin na televisão?
— Sim, escutei as notícias.
— O que achou das declarações dela?
— Mal-orientada e inócua. Ela está malassessorada.


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— A senadora Martin tem muita influência. E é
uma pessoa decidida.
— Vejamos o que você tem a dizer.
— Creio que o senhor tem um extraordinário insight, uma perfeita introvisão. A senadora Martin prometeu
que se o senhor nos ajudar a trazer Catherine Baker Martin de volta viva e incólume, ela ajudará a transferi-lo para
uma instituição federal, e se houver uma janela com vista,
o senhor a terá. Além disso, poderá também ser solicitado
a rever avaliações psiquiátricas escritas de pacientes admitidos. Em outras palavras, um trabalho. Não haverá relaxamento das restrições de segurança.
— Não acredito nisso, Clarice.
— Pois devia acreditar.
— Quid pro quo.
— Vejamos qual é a questão.
— Qual é a pior lembrança da sua infância?
— A morte de meu pai — disse Starling.
— Conte-me.
— Ele era o delegado da cidade. Uma noite surpreendeu dois gatunos, viciados em drogas, saindo dos fundos da farmácia. Quando ia saindo da caminhonete, sua
espingarda de bombear enjambrou e eles atiraram primeiro.
— Enjambrou?
— Ele não acionou o pistão como devia. Era uma
velha espingarda de pressão, uma Remington 870, e o cartucho ficou preso no carregador. Quando isso acontece a
arma não atira e é preciso desmontá-la para corrigir o defeito.
— Penso que bateu com o pistão na porta quando
saía.


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— Ele morreu logo?
— Não. Era um homem forte. Durou um mês.
— Você o viu no hospital?
— Sim, Dr. Lecter.
— Diga-me um detalhe que você se lembre do
hospital.
Starling fechou os olhos e disse:
— Apareceu uma vizinha, uma mulher idosa, solteirona, que recitou o final de “Thanatopsis” 1 para ele. Creio
que era a única coisa que ela sabia recitar. Foi isso.
— Bem, já cumpri minha parte na troca.
— Sim, cumpriu. Você foi muito franca, Clarice.
Reconheço isso. Penso que seria algo muito interessante
conhecer você na vida particular.
— Você acha que, quando viva, a pequena de West
Virgínia era muito atrativa fisicamente?
— Ela parecia bem-cuidada.
— Não me faça perder tempo com elogios...
— Ela era gorducha.
— Grande?
— Sim.
— Foi atingida no peito pelos tiros.
— Sim.
— Tinha os seios pequenos, suponho.
— Sim, para o tamanho dela.
— Mas era cadeiruda. Confortável?
— Era, sim.
— O que mais?
— Ela teve um inseto deliberadamente inserido na
garganta, detalhe que não foi divulgado.
1

Tiranatopsis: Poema de meditação sobre a morte. (N. do T.)


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— Uma borboleta?
A respiração de Starling ficou suspensa por um
momento. Gostaria que ele não tivesse percebido.
— Uma mariposa — disse finalmente. — Por favor, diga-me como adivinhou isso.
— Clarice: vou dizer-lhe para o que Buffalo Bill
quer Catherine Baker Martin e depois será “boa noite”.
Esta é minha última palavra por enquanto. Você pode dizer à senadora o que ele deseja de Catherine e ela pode
aparecer com uma oferta melhor para mim... ou pode esperar até que Catherine venha à tona e ver que eu estava
certo.
— O que é que ele deseja, Dr. Lecter?
— Deseja fazer um colete com seios — afirmou o
Dr. Lecter.


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CAPÍTULO 23
Catherine Baker Martin estava cinco metros abaixo
do porão. As trevas só eram perturbadas por sua respiração e pelas batidas cardíacas. Às vezes o medo lhe oprimia
o coração da forma como o caçador mata uma raposa. Às
vezes ela conseguia pensar: sabia que fora raptada, mas
não sabia por quem. Sabia que não estava sonhando; naquela escuridão e silêncio absolutos podia até ouvir o barulhinho de suas pálpebras quando piscava.
Sentia-se melhor agora do que logo depois de recuperar a consciência. Grande parte da horrível vertigem
desaparecera e sabia que tinha ar suficiente. Ela podia distinguir o lado de baixo do lado de cima e tinha uma idéia
da posição de seu corpo.
O ombro, o quadril e o joelho doíam por estarem
pressionados contra o piso de cimento onde permanecia
deitada. Aquele lado era embaixo. Em cima sentia o áspero cobertor com que se cobrira durante o último intervalo
de terrível luz brilhante. O latejar na sua cabeça desaparecera, mas doíam-lhe também os dedos da mão esquerda.
O anular estava quebrado, ela sabia.
Sua roupa era um abrigo acolchoado e lhe parecia
estranha. Estava limpa e cheirava a sachê. O chão também
parecia limpo, exceto pelos ossos de galinha e pedaços de
verduras que seu raptor despejara pelo buraco no alto. Os
únicos outros objetos no local eram o cobertor e um balde
sanitário de plástico com uma corda fina amarrada na alça.
Parecia um cordão de uso na cozinha e subia pela penumbra até onde ela podia alcançar com a mão.


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Catherine Martin tinha liberdade de se movimentar,
mas não havia aonde ir. O piso sob os seus pés era oval,
com cerca de 2,5 por 3 metros, com um pequeno dreno
no centro. Sabia que era o fundo de um poço seco. As
lisas paredes de cimento inclinavam-se ligeiramente para
dentro à medida que se elevavam.
Estaria ouvindo alguns sons, ou era seu coração batendo? Os sons vinham claramente lá de cima. A masmorra onde estava presa ficava na parte do porão diretamente
abaixo da cozinha. Ouvia agora passos no chão da cozinha e o marulhar de água correndo. As patas de um cão
arranhavam o linóleo. Nada mais, até que um fraco disco
de luz amarela penetrou pelo alçapão aberto; a seguir as
luzes do porão se acenderam. Então surgiu de cima uma
claridade cegante, e dessa vez ela se situou sentada, com o
cobertor em cima das pernas, tentando olhar em volta,
tentando ver por entre os dedos enquanto seus olhos se
ajustavam à luz. Uma sombra girou em torno dela quando
um refletor foi arriado no poço, pendurado e balançando
numa corda.
Encolheu-se toda quando o balde que lhe servia de
toalete se moveu, oscilando ao subir preso pela cordinha,
rodando vagarosamente à medida que se elevava em direção à luz. Tentou respirar fundo para engolir o medo, aspirou ar demais, mas conseguiu falar:
— Minha família lhe pagará — soprou ela. — Em
dinheiro vivo. Minha mãe pagará imediatamente, sem fazer perguntas. Vou lhe dar o número de... Oh! — Uma
sombra, parecendo um par de asas, caiu sobre ela, mas era
apenas uma toalha. — O número do telefone dela é 202...
— Lave-se.


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A mesma voz estranha que ela tinha ouvido falando
com o cão.
Outro balde descia agora. Sentiu o cheiro de água
quente com sabão.
— Tire o balde daí e lave-se, ou terei que lavá-la
com a mangueira. — Depois, dirigindo-se ao cachorro, a
voz diminuiu de intensidade. — Ora, ela vai experimentar
a mangueira, não é queridinha. Sim, ela vai...
Catherine Martin ouviu o raspar das unhas do cão
no piso do porão. A dupla visão que ela tivera na primeira
vez que as luzes se acenderam tinha sumido. Agora podia
ver bem. Qual seria a altura do poço? Estaria o refletor
preso numa corda forte? Poderia agarra-la com o abrigo,
talvez com a toalha? Fazer alguma coisa, que diabo! As
paredes eram tão lisas, um tubo liso e vertical.
A uns 30 centímetros acima de onde ela podia alcançar havia uma depressão no cimento, a única falha que
conseguia perceber. Enrolou o cobertor tão apertado
quanto podia e prendeu-o com a toalha. Ficou de pé balançando um pouco, esticou-se para alcançar a fresta, enfiou nela as unhas para equilibrar-se e olhou para cima,
contra a luz, apertando os olhos para enxergar. Era um
refletor com um abajur, pendurado apenas uns 30 centímetros dentro do coço, cerca de três metros acima do seu
braço esticado. Podia muito bem ser a lua... Algo estava
caindo dentro do poço, o cobertor se soltava, ela procurou um apoio na parede para equilibrar-se, e aquilo caiu,
passando como uma sombra rente ao seu rosto.
Era uma mangueira, que a respingou de água gelada. Uma ameaça.
— Lave-se. O corpo todo.


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No balde havia um pano para esfregar e, flutuando
na água, uma garrafa de plástico com um caro emoliente
importado.
Ela fez o que a voz mandara, os braços e pernas arrepiados, os bicos dos seios doloridos pelo ar frio; ficou
de cócoras ao lado do balde com água morna, tão perto da
parede quanto possível, e lavou-se.
— Agora, enxugue-se e esfregue o corpo com o
creme. Esfregue-o por todo o corpo.
O creme estava morno da água do banho. A umidade fez com que o abrigo aderisse à sua pele.
— Agora junte o lixo e lave o chão.
Ela fez isso também, juntando os ossos de galinha e
recolhendo as ervilhas. Colocou-os no balde e limpou as
pequenas manchas de gordura no cimento. Havia algo
mais ali, junto à parede. Os restos de cimento que tinham
caído da fresta acima, mais uma unha humana coberta
com esmalte brilhante e quebrada junto à raiz.
O balde foi puxado para cima.
— Minha mãe lhe pagará — berrou Catherine Martin. — Sem fazer perguntas. Pagará o bastante para deixálos todos ricos. Se for por uma causa — o Irã, a Palestina,
a Liberação Negra — , ela dará o dinheiro que pedirem.
Tudo o que tem a fazer é...
A luz se extinguiu. Súbita e total escuridão.
Ela encolheu-se, com um grito assustado, quando o
balde pousou ao lado dela em sua cordinha. Sentou-se
sobre o cobertor, a cabeça atordoada. Supunha agora que
seu raptor estava sozinho, que era americano e branco.
Tentara dar a impressão de que não tinha idéia do que ele
era, da sua cor, ou de quantos seriam, que sua lembrança
do estacionamento fora apagada pelos golpes na cabeça.


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Tinha a esperança de que ele acreditasse que podia libertála sem se arriscar. A mente dela estava trabalhando, trabalhando e afinal trabalhou bem demais.
A unha! Alguém mais havia estado ali! Uma mulher,
por certo, uma moça. Onde estaria agora? O que fora feito com ela?
Não fora o choque e a desorientação, não teria demorado tanto a ocorrer-lhe isso. Nas condições em que se
encontrava, o emoliente para a pele a fez lembrar-se. Pelei
Acabava de descobrir em poder de quem se encontrava.
Aquela consciência abateu-se sobre ela como um terror
incomparável e ela começou a gritar, a gritar, tentando
subir pelo poço, arranhando as paredes com as unhas, gritando e gritando até sentir algo quente e salgado na boca;
levou os dedos ao rosto, o líquido pegajoso secou no dorso de suas mãos e ela ficou estendida, rígida, em cima do
cobertor, fazendo um arco com o corpo da cabeça aos
pés, as mãos enterradas agora no meio dos cabelos.


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CAPÍTULO 24
A moeda de 25 centavos de Clarice Starling tiniu
dentro da caixa do telefone na desleixada sala dos guardas.
Ela discou o número do furgão de vigilância.
— Crawford — respondeu a voz no aparelho.
— Estou num telefone público na enfermaria de
segurança informou Starling. — O Dr. Lecter me perguntou se o inseto de West Virgínia era uma borboleta, mas
não me deu qualquer explicação. Disse que Buffalo Bill
precisa de Catherine Martin por que — estou citando as
palavras de Lecter: “Ele quer ter um colete com seios.” O
Dr. Lecter concorda em negociar. Mas pretende uma oferta “mais interessante” da senadora.
— Ele interrompeu a entrevista com você?
— Sim.
— Você acha que ele lhe falará de novo?
— Penso que ele gostaria de fazer isso nos próximos dias, mas eu preferiria atacá-lo de novo agora, se conseguir qualquer oferta urgente por parte da senadora.
— Urgente é a palavra certa. Obtivemos novos dados para a pequena de West Virgínia. As impressões digitais de uma pessoa desaparecida fez soar a campainha na
seção de identificação há uma meia hora. Kimberly Jane
Emberg, 22 anos, sumiu em Detroit desde o dia 7 de fevereiro. Estamos vasculhando a vizinhança para testemunhas. O médico legista de Charlottesville disse que ela
morreu no máximo no dia 11 de fevereiro, possivelmente
no dia anterior, 10.
— Só a manteve viva três dias — concluiu Starling.


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— O período dele está encurtando. Acho que ninguém se surpreende com isso. — A voz de Crawford era
tranqüila. — Ele levou Catherine Martin há arca de 26
horas. Se Lecter pode informar algo, é melhor que o faça
em sua próxima entrevista. Estou instalado no escritório
regional de Baltimore; o furgão transmitiu-me sua chamada. Tenho um quarto para você no Howard Johnson a
dois quarteirões do hospital se quiser tirar uma soneca
mais tarde.
— Ele está desconfiado, Sr. Crawford; e não tem
confiança em que o senhor o deixará obter qualquer benefício. O que ele disse sobre Buffalo Bill, trocou por uma
informação pessoal a meu respeito. Não acho que haja
qualquer relação textual entre as perguntas dele e o caso...
Quer saber quais foram as perguntas?
— Não.
— Por isso é que não me permitiu levar um aparelho de gravação, certo? Pensou que seria mais fácil para
mim. Eu estaria disposta a contar-lhe coisas e agradar-lhe
mais se ninguém pudesse escutar jamais nossa conversa.
— Eis outra possibilidade para você, Starling. Que
tal se eu confiasse no seu julgamento? Que tal se eu pensasse que você era minha melhor arma e deseje aliviar uma
porção de hipóteses das suas costas? Iria fazer você usar
um gravador nesse caso?
— Não, senhor. O senhor é famoso pelo modo
como manipula os agentes, Sr. Crawford, não é? O que
poderemos oferecer ao Dr. Lecter?
— Um par de coisas que estou mandando para lá.
Chegarão em cinco minutos, a não ser que você queira
antes repousar um pouco.


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— Eu preferia faz-lo logo — atalhou Starling. —
Diga-lhes para pedirem o Alonzo que me conduza. Diga a
Alonzo que eu o encontro no corredor externo da Seção
8.
— Em cinco minutos — prometeu Crawford.
Starling andava para um lado e para outro sobre o
linóleo da modesta sala de espera. Ela era a única coisa
viva na sala.
Raramente nos preparamos em pradarias ou em
caminhos ensaibrados. Fazemo-la quando avisados às
pressas em lugares sem janelas, em corredores de hospitais, em salas como esta com seu sofá forrado de plástico
rachado, cinzeiros Cinzano de reclame, onde as cortinas
cor de café cobrem paredes cegas de cimento. Em cômodos como este, com tão pouco tempo, preparamos nossos
gestos e os decoramos para poder repeti-los quando estivermos assustados ao enfrentar o Mal. Starling tinha idade
bastante para saber disso; não deixou a sala de espera afetá-la.
Starling andava para lá e para cá. Gesticulava para o
ar.
— Agüente a mão, pequena! — animou em voz alta. Dizia-a para Catherine Martin e para si mesma. — Nós
somos melhores da que esta sala. Somos melhores do que
a porra deste lugar! — prosseguiu em voz alta. — Somos
melhores do que qualquer espécie de lugar onde ele a
mantém. Ajude-me. Ajude-me. Ajude-me. — Pensou um
instante em seus pais mortos. Perguntou-se se teriam vergonha dela agora — apenas essa pergunta, nada sobre sua
pertinência, suas qualificações — , do modo como sempre
perguntamos. A resposta foi não; não teriam vergonha
dela.


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Lavou o rosto e saiu para o corredor.
O guarda Alonzo ali estava, com um pacote selado
de Crawford. Continha um mapa e instruções. Ela as leu
rapidamente à luz do corredor e apertou o botão para
Barney deixá-la entrar.


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CAPÍTULO 25
O Dr. Lecter estava à sua mesa, examinando a correspondência. Starling achou mais fácil aproximar-se de
sua jaula quando não estivesse olhando para ela.
— Doutor!
Ele levantou um dedo pedindo silêncio. Acabou de
ler uma carta e ficou sentado, pensando, o polegar da mão
que tinha seis dedos em baixo do queixo, o indicador ao
lado do nariz.
— O que acha disso? — perguntou, colocando o
documento no transportador de comida.
Era uma carta do Escritório de Patentes dos Estados Unidos.
— É sobre o meu relógio com a cruficicação —
explicou o Dr. Lecter. — Não me concedem uma patente,
mas me aconselham a obter direitos autorais sobre o mostrador. Veja isto. — Colocou um desenho do tamanho de
um guardanapo no transportador, que Starling puxou. —
Você deve ter notado que na maior parte das crucificações
as mãos apontam, digamos, um quarto para as três ou, no
mínimo, dez para as duas, enquanto os pés ficam nas seis
horas. No mostrador deste relógio Jesus está na cruz, como você vê, e os braços indicam a hora, como os dos populares relógios de Disney. Os pés permanecem nas seis e
no topo um pequeno ponteiro dos segundos gira no halo.
O que é que você acha?
A qualidade do desenho anatômico era muito boa.
A cabeça era a dela.
— Vai perder muito dos detalhes quando reduzido
ao tamanho de um relógio — notou Starling.


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— Infelizmente é verdade, mas pense nos relógios
maiores.
— Você acha que a propriedade está segura sem
uma patente?
— Terá que colocar uma máquina a quartzo nos relógios, e isso já está patenteado. Não tenho certeza, mas
penso que patente! Só se aplicam a dispositivos mecânicos
especiais e copyrights se aplicam a desenhos.
— Mas você não é uma advogada, é? Eles já não
exigem isso no FBI.
— Trago uma proposta para o senhor — disse
Starling abrindo sua pasta.
Barney aproximava-se. Ela fechou a pasta de novo.
Invejava a enorme calma de Barney. Seus olhos não indicavam o uso de tóxicos e por trás deles havia uma considerável inteligência.
— Desculpe-me — disse Barney. — Se a senhora
tem uma porção de papéis para manusear, há uma carteira
escolar no armário de parede que os psicólogos usam.
Quer usá-la?
Aquilo criaria uma imagem de escola. Sim ou não?
— Podemos conversar agora, Dr. Lecter?
O doutor levantou a mão aberta.
— Sim, Barney, obrigado.
Agora sentada, e com Barney a uma distância segura, ela disse — A senadora tem uma oferta notável.
— Eu decidirei sobre isso. Você falou com ela tão
depressa?
— Falei. Ela não está escondendo nada. Isto é tudo
o que pode oferecer, portanto não é assunto para barganhar. Está tudo aí uma única oferta. — Afastou os olhos
da sua pasta.


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O Dr. Lecter, assassino de nove pessoas, tinha os
dedos agrupados embaixo do nariz e a observava. Atrás de
seus olhos havia uma noite infindável.
— Se o senhor nos ajudar a encontrar Buffalo Bill a
tempo de salvar Catherine ilesa, obterá o seguinte: transferência para o Hospital da Administração de Veteranos, no
Oneida Park, Nova York terá uma cela com vista para os
bosques em torno do hospital. Segurança máxima ainda
vigorará. Será convidado a ajudar na avaliação de testes
psicológicos por escrito de alguns prisioneiros federais,
embora não necessariamente daqueles que compartilhem
de sua própria instituição. Fará as avaliações às cegas; nada
de identificações. Terá razoável acesso a livros. — Ela levantou os olhos.
O silêncio podia ser zombeteiro.
— A coisa melhor, a coisa mais notável: durante
uma semana por ano o senhor sairá do hospital e virá para
cá. — Colocou o mapa no transportador de comida. O
Dr. Lecter não o puxou. — Ilha Plum — continuou ela.
— Cada tarde, durante aquela semana, senhor poderá passear na praia ou nadar no mar sem nenhuma vigilância a
menos de 75 metros, mas terá segurança da SWAT. É tudo!
— E se eu não aceitar?
— Talvez possa pendurar umas cortinas cor de café
nessa parede... Não temos nada com que ameaçá-lo, Dr.
Lecter. O que consegui é uma forma de o senhor ver a luz
do dia.
Ela não o fitou. Não queria um duelo de olhares
agora; não era uma confrontação.


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— Catherine Martin virá aqui e falará comigo —
apenas sobre o seu raptor — se eu decidir publicar algo?
Falar exclusivamente comigo?
— Sim. Pode considerar isso concedido.
— Como é que você sabe? Concedido por quem?
— Eu mesma a trarei aqui.
— Se ela não quiser vir.
— Bem, primeiro temos que perguntar a ela, não é?
Ela puxou o transportador para o seu lado.
— Ilha Plum.
Olhe para o extremo norte de Long Island. Aquele
dedo ao norte.
— Plum Island. Aqui diz: Centro de Doenças Animais (Pesquisas Federais da Febre Aftosa). Parece encantador...
— Essa é apenas uma parte da ilha, que tem uma
bela praia e bons alojamentos. Ali, as andorinhas-do-mar
fazem seus ninhos na primavera.
— Andorinhas-do-mar — suspirou o Dr. Lecter.
Inclinou ligeiramente a cabeça e tocou o centro do rubro
lábio superior com a ponta da língua. — Se falarmos sobre isso, Clarice, tenho que receber qualquer coisa por
conta. Quid pro quo. Eu lhe digo coisas e você me diz
coisas.
— Comece — concordou Starling.
Teve que esperar um minuto antes de ele falar.
— Uma lagarta transforma-se em popa dentro de
uma crisálida. Então emerge, sai de dentro de seu aposento secreto de mudança como uma bela imago. Você sabe
o que é uma imago, Clarice?
— Um inseto adulto, provido de asas.
— E o que mais?


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Ela sacudiu a cabeça negativamente.
— É um termo da falecida religião da psicanálise.
Imago é uma imagem dos pais enterrada no inconsciente
desde a infância e cercada de infantil afeto. A palavra vem
das imagens de seus ancestrais feitas de cera que os romanos antigos carregavam em procissões fúnebres... Até o
fleumático Crawford deve ver alguma significação na crisálida do inseto.
— Nada para se afundar demais exceto verificar os
assinantes de jornais de entomologia versos agressores
sexuais criminosos no índice do computador.
— Primeiro, vamos parar com esse nome de Buffalo Bill. É um nome suposto e nada tem a ver com a pessoa que vocês procuram. Por conveniência chamemo-lo
Billy. Vou dar-lhe um resumo do que penso. Pronta?
— Pronta.
— O significado da crisálida é mudança: verme em
borboleta ou mariposa, Billy pensa que deseja transformar-se. Está fazendo um traje de moça usando moças de
verdade. Daí as vítimas terem que ser corpulentas — ele
precisa de coisas que caibam nele. O número de vitimas
sugere que ele pode ver a coisa como uma série de mudas.
E está fazendo isso numa casa de dois andares, você sabe
por que dois andares?
— Durante algum tempo ele as enforcava na escada.
— Correto.
— Dr. Lecter, não há correlação que eu tenha observado entre transexualismo e violência — em geral,
transexuais são tipos passivos.
— É verdade, Clarice. Às vezes há uma tendência
para viciar-se em cirurgia — plasticamente, transexuais


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são difíceis de satisfazer — , mas a coisa termina por aí.
Billy não é realmente um transexual. Você está muito perto, Clarice, do modo pelo qual irá apanhá-lo, sabe disso?
— Não, Dr. Lecter.
— Bom. Então você não vai se incomodar de contar-me o que aconteceu com você depois da morte de seu
pai.
Starling baixou os olhos para a superfície arranhada
da carteira escolar.
— Não creio que a resposta esteja nos seus papéis,
Clarice.
— Minha mãe nos manteve juntas por mais de dois
anos.
— Fazendo o quê?
— Trabalhando como arrumadeira de um motel
durante o dia e cozinhando num café à noite.
— E depois?
— Fui morar com a prima de minha mãe e o marido dela em Montana.
— Apenas você?
— Eu era a mais velha.
— A cidade nada fez por sua família?
— Um cheque de 500 dólares.
— É curioso não haver seguro. Clarice, você disse
que seu pai bateu com a espingarda na porta da caminhonete.
— Sim.
— Ele não dispunha de um carro-patrulha?
— Não.
— Aconteceu à noite?
— Sim.
— Ele não tinha uma pistola?


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— Não.
— Clarice, ele estava trabalhando à noite, numa
caminhonete, armado apenas com uma espingarda... Digame: ele por acaso usava um relógio de ponto na cintura?
Uma daquelas coisas em que existem chaves fixadas a postes por toda a cidade, de forma que você tem que se dirigir
até eles e dar corda no relógio? Para que os cidadãos da
cidade saibam que você não estava dormindo. Diga-me se
ele usava isso, Clarice.
— Usava.
— Então ele era um guarda-noturno, não um delegado, certo, Clarice? Eu saberei, se você mentir.
— O registro na carteira dizia “delegado noturno”.
— Que aconteceu a ele?
— Que aconteceu ao quê?
— Ao relógio de ponto. Que aconteceu a ele depois que atiraram em seu pai?
— Não me lembro.
— Caso se lembrar, você me dirá?
— Sim. Espere um momento... o prefeito foi ao
hospital e pediu à minha mãe o relógio e o distintivo. —
Ela nem lembrava que tinha conhecimento daquilo. O
prefeito, com sua roupa esporte e seus sapatos de excedente de Marinha. O filho da puta...
— Quid pro quo, Dr. Lecter.
— Você pensou por um momento pelo menos, que
estava inventando aquilo? Não, se o tivesse inventado, não
lhe doeria. Estávamos falando sobre transexuais. Você
disse que violência e um comportamento destruidor não
são dados estatísticos do transexualismo. É verdade.
Lembra-se do que dissemos sobre a raiva ser expressada
como luxúria e o lúpus pressentido como urticária? Billy


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não é um transexual, mas pensa que é e tenta ser. Ele já
tentou ser uma porção de coisas, acredito.
— O senhor disse que eu estava próxima do modo
para apanhá-lo.
— Há três centros principais de cirurgia transexual:
a Johns Hopkins, a Universidade de Minnesota e o Columbus Medicai Center. Eu não ficaria surpreso se ele tivesse procurado um destes centros para mudança de sexo
e lhe tivessem recusado.
— Em que base o rejeitariam, o que constaria do
registro?
— Você é muito arguta, Clarice. A primeira razão
seria um antecedente criminal, que desqualifica o requerente, a não ser que o crime fosse de caráter relativamente
leve e ligado ao problema da identidade de gênero. Prática
de travesti em público, algo dessa natureza. Se ele mentisse repetidamente sobre um registro criminoso sério, os
inventários de personalidade o trairiam.
— Como?
— Você tem que saber como, a fim de peneirá-los,
não é?
— Correto.
— Por que você não pergunta ao Dr. Bloom?
— Prefiro perguntar ao senhor.
— O que vai ganhar com isso, Clarice, uma promoção e aumento de salário? O que é você, uma G-9?
Quanto ganham agora as pequenas G-9?
-— Uma chave da porta da frente, entre outras coisas. Como apareceria ele num diagnóstico?
— Você gostou de Montana, Clarice? Montana é
ótima. Você gostou do marido da prima de sua mãe?
— Éramos diferentes.


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— Como eram eles?
— Cansados de tanto trabalhar.
— Havia outros filhos?
— Não.
— Onde você vivia?
— Num rancho de criação.
— Criação de carneiros?
— Carneiros e cavalos.
— Quanto tempo viveu lá?
— Sete meses.
— Que idade você tinha?
— Dez anos.
— De lá, para onde foi?
— Para o Lar Luterano em Bozeman.
— Diga-me a verdade.
— Estou dizendo a verdade.
— Você está evitando a verdade.
— Se está cansada, podemos conversar lá pelo fim
da semana. Eu estou me aborrecendo. Ou você preferiria
conversar agora?
— Agora, Dr. Lecter.
— Muito bem. Uma criança é mandada por sua
mãe para um rancho em Montana. Um rancho de criação
de carneiros e cavalos.
— Sentindo falta da mãe, excitada pelos animais...
— O Dr. Lecter fez um gesto com as mãos convidando
Starling a continuar.
— Era formidável. Tinha meu próprio quarto com
um tapete índio no assoalho. Deixavam-me montar um
cavalo que não podia ver muito bem. Havia algo errado
com os cavalos. Ou eram aleijados ou doentes. Alguns


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deles tinham sido criados com crianças e relinchavam para
mim de manhã quando eu ia pegar o ônibus da escola.
— E então?
— Descobri algo estranho no celeiro. Eles tinham
ali um pequeno quarto de depósito. Pensei que aquela coisa fosse uma espécie de velho elmo. Quando o coloquei
no chão, vi uma gravação: “Aparelho Humanitário para
Matar Cavalos W.W. Grasnar.” Era uma espécie de chapéu em forma de sino e tinha um lugar no topo para alojar
um cartucho. Parecia de calibre 32.
— Eles forneciam cavalos mortos nesse rancho,
Clarice?
— Sim, faziam isso.
— E os matavam no rancho?
— Os que eram usados para cola e para fertilizantes, matavam lá mesmo. Pode-se acomodar seis num caminhão, se estão mortos. Os que eram usados para comida de cães eles levavam vivos.
— E aquele que você costumava montar?
— Fugimos juntos.
— Até onde você chegou?
— Mais ou menos até onde vou quando o senhor
me explica os diagnósticos.
— Conhece o procedimento para testar candidatos
a cirurgia transexual?
— Não.
— Ajudaria se você me trouxesse uma cópia do regime de qualquer um dos centros, mas, para começar: a
bateria de testes usualmente inclui a escala Wechsler de
Inteligência em Adultos, House-Tree-Person, Rorschach,
Desenho de Autoconceito, Percepção Temática, MMPI,
naturalmente, e alguns outros — o Jenkins, penso, desen-


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volvido pela NYU. Você precisa de algo que possa avaliar
rapidamente, não é, Clarice?
— Seria o melhor, algo rápido.
— Vejamos... Nossa hipótese é que estamos procurando alguém do sexo masculino cujo teste diferirá do de
um verdadeiro transexual. Muito bem; no teste HouseTree-Person procure alguém que não desenhou primeiro a
figura feminina. Transexuais masculinos quase sempre
desenham a figura feminina em primeiro lugar, e tipicamente prestam atenção aos adornos nas fêmeas que desenham.
— Suas figuras masculinas são simples estereótipos
— há algumas exceções quando desenham Mr. América
—, mas não há muita coisa entre os dois casos.
“Procure o desenho de uma casa sem os enfeites de
um futuro rosada nenhum carrinho de criança do lado de
fora, nada de cortinas, nada de flores no jardim da frente.
“Com os verdadeiros transexuais você tem duas espécies de árvores: grandes chorões e temas de castração.
As árvores cortadas pelo canto do desenho ou pela borda
do papel — imagens da castração — são cheias de vida
nos desenhos dos transexuais. Flores e troncos repletos de
frutos. Esta é uma importante distinção. Elas são muito
diferentes das árvores assustadas, mortas, mutiladas, que
você vê nos desenhos feitos por pessoas com distúrbios
mentais. Este é um bom ponto: a árvore de Billy será horrorosa! Estou indo depressa demais?
— Não, Dr. Lecter.
— Num desenho dele mesmo, um transexual quase
nunca se mostrará nu. Não se desoriente por certa quantidade de ideação paranóica nas cartas TAT — isso é muito
comum entre transexuais que se vestem freqüentemente


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como travestis; na maior parte das vezes já tiveram dificuldades com as autoridades. Devo fazer um resumo?
— Sim, gostaria de um resumo.
— Você deveria tentar obter uma lista de gente rejeitada em todos os três centros de alterações de gênero.
Confira primeiro os rejeitados por antecedentes criminais
— e entre estes observe com mais atenção os ladrões arrombadores. Entre os que tentaram esconder antecedentes criminais, procure severos distúrbios na infância associados com violência. Possivelmente internamentos na
infância. Então examine os testes. Você está procurando
um homem branco, provavelmente com menos de 35 anos, corpulento. Não é um transexual, Clarice. Apenas
pensa que é, e está intrigado e zangado porque não querem ajudá-lo. Isso é tudo o que pretendo dizer, penso, até
que tenha estudado o caso. Você vai deixá-lo comigo,
não?
— Claro.
— E as fotos.
— Estão incluídas na pasta.
— Então é melhor você se apressar com o que tem,
Clarice, e veremos o que consegue.
— Preciso saber como o senhor...
— Não. Não seja gulosa ou discutiremos na semana que vem. Venha quando tiver feito algum progresso.
Ou não... E... Clarice?
— Estou ouvindo.
— Na próxima vez diga-me duas coisas. O que aconteceu com o cavalo é uma. A outra é... como você
controla sua raiva?
Alonzo veio buscá-la. Ela segurava suas notas contra o peito, andando com a cabeça baixa, tentando juntar


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tudo na memória. Ansiosa pelo ar da rua, nem olhou para
o escritório do Dr. Chilton quando saiu às pressas do
hospital.
A luz do Dr. Chilton estava acesa. Podia-se vê-la
fluindo por baixo da porta.


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CAPÍTULO 26
Muito antes da enferrujada madrugada de Baltimore, ouvia-se movimento na enfermaria de alta segurança.
Lá embaixo, onde nunca escurece, os atormentados sentem o início do dia como as ostras num barril se abrem
quando sua perdida maré sobe. Criaturas de Deus que foram dormir chorando se voltam para chorar de novo e
aqueles que esbravejam clareiam suas gargantas.
O Dr. Hannibal Lecter estava de pé, empertigado,
no fim do corredor, o rosto a 30 centímetros da parede.
Pesadas tiras de lona prendiam-no a um carrinho de mudanças como se ele fosse um relógio de pé. Por baixo das
tiras de lona, usava uma camisa-de-força e presilhas nas
pernas. Uma máscara de jogador de hóquei sobre seu rosto impedia-o de morder; era tão eficaz como uma mordaça e não tão úmida que impedisse os guardas de a manusearem.
Atrás do Dr. Lecter um guarda baixinho, de ombros redondos, passava um pano molhado na jaula dele.
Barney supervisionava essa limpeza três vezes por semana
e ao mesmo tempo procurava algum contrabando. Os faxineiros tendiam a apressar-se, considerando as acomodações do Dr. Lecter mal-assombradas. Barney conferia
quando eles terminavam. Ele observava tudo e nunca negligenciava coisa alguma.
Apenas Barney conferia o manuseio do Dr. Lecter,
porque nunca se esquecia com quem estava lidando. Seus
dois assistentes viam teipes de jogos de hóquei na televisão.


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O Dr. Lecter se divertia — tinha vastos recursos internos e podia entreter-se por anos a fio. Seus pensamentos não eram mais tolhidos por medo ou por bondade do
que os de Milton eram pela física. Em sua mente ele era
livre.
Seu mundo interior tem intensas cores e cheiros e
não muitos sons. De fato ele devia esfoçar-se para ouvir a
voz do falecido Benjamin Raspail. O Dr. Lecter estava
meditando como iria entregar Jame Gumb a Clarice Starling, e era útil lembrar-se de Raspail. Cá estava o gordo
flautista no último dia de sua vida, deitado no sofá de terapia de Lecter, contando-lhe acerca de Jame Gumb:
“Jame tinha o mais atroz quarto imaginável naquela
casa de cômodos em San Francisco. As paredes eram pintadas aqui e ali com uma espécie de cor rosa com manchas
de Day-Glo psicodélico de seus tempos de hippie, tudo
terrivelmente manchado.
“Jame — você sabe, é de fato grafado assim na sua
certidão de nascimento, foi daí que ele o tirou e você tem
que pronunciar ‘Jame’ como ‘narre’, ou ele fica pálido de
raiva, embora tenha sido um erro no hospital — já então
eles estavam contratando auxiliares baratos que nem sabiam escrever um nome direito. Hoje ainda é pior, arrisca-se
a vida quando se entra num hospital. De qualquer maneira, lá estava Jame sentado na sua cama, a cabeça entre as
mãos, naquele quarto horroroso; fora despedido do emprego na loja de curiosidades e cometera nova barbaridade.
“Eu lhe disse apenas que não podia tolerar seu
comportamento, e Klaus acabara de entrar na minha vida,
naturalmente. Jame não é de fato uma bicha, você sabe,
isso é justamente algo que ele pegou na cadeia. Ele na rea-


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lidade não é nada, apenas uma completa falta de personalidade que quer preencher, o que o torna tão zangado.
Você sempre tinha a sensação de que o quarto ficava um
pouco mais vazio quando ele entrava. Quero dizer: ele
matou seus avós quando tinha 12 anos, e você pensaria
que uma pessoa tão irresponsável devia ter alguma personalidade, não pensaria?
“E aí estava ele mais uma vez sem emprego, e cometera de novo a barbaridade com algum infeliz sem sorte. Eu fui-me embora. Ele tinha ido ao correio, apanhando
a correspondência de seu antigo empregador, na expectativa de que nela houvesse algo que pudesse vender. E havia um pacote da Malásia ou de algum lugar por aquelas
bandas. Ansioso abriu o pacote e era uma maleta cheia de
borboletas mortas, e ninguém sabia por que tinham chegado para ele.
“Seu patrão mandava dinheiro para os funcionários
do correio de todas aquelas ilhas, e eles lhe mandavam
caixas e caixas de borboletas mortas. Ele as colocava em
bandejas de lucile e fazia os mais horríveis ornamentos
imagináveis — e tinha a coragem de chamá-los de objetos
d’arte. As borboletas eram inúteis para Jame, e ele enfiou a
mão dentro delas pensando que pudesse haver jóias por
baixo — às vezes recebiam braceletes de Bali — , e só
retirou a mão cheia de pó de borboletas. Nada. Ficou sentado na cama com a cabeça nas mãos coloridas de borboletas e encontrava-se no fundo do poço, como todos nós
já estivemos, e chorava. Ouviu um pequeno ruído, e era
uma borboleta na mala aberta. Lutava para sair de um casulo que fora misturado às borboletas, e conseguiu. Havia
poeira no ar das borboletas e poeira no sol que penetrava
pela janela você sabe como tudo é terrivelmente vívido


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quando descritos por alguém que se embriagou. Viu
quando ela bateu as asas. Era uma borboleta enorme.
Verde. Abriu a janela e ela voou para fora. Sentiu-se tão
leve, afirmou ele, e sabia agora o que fazer.
“Jame descobriu a pequena casa de praia que Klaus
e eu está vamos usando e quando vim para casa voltando
do ensaio lá estava ele, mas não vi Klaus. Klaus não estava
lá. Perguntei onde fora, e ele disse que fora nadar. Sabia
que era uma mentira; Klaus nunca nadava, o Pacífico era
por demais agitado. E quando abri o refrigerador, você
sabe o que encontrei: a cabeça de Klaus olhando por trás
do suco de laranja. Jame também fizera para ele, como
você sabe, um avental da pele de Klaus, e o pusera, perguntando se eu gostava dele agora. Sei que você deve ficar
espantado que eu jamais tivesse algo a ver com Jame —
ele ainda era mais instável quando você o encontrou, e
penso que ficou apenas admirado que você não tivesse
medo dele.
E então, as últimas palavras que Raspail jamais
pronunciou: — “Eu me admiro por que meus pais não
me mataram antes que eu tivesse idade bastante para enganá-los”.
A fina lâmina do estilete tremia quando o coração
de Raspail transpassado por ela tentava continuar batendo,
e o Dr. Lecter disse: ‘Parece uma palhinha enfiada num
buraco de formiga, não parece?’, mas era tarde demais para Raspail responder.
O Dr. Lecter podia lembrar-se de cada palavra, e de
muito mais. Pensamentos agradáveis para passar o tempo
enquanto eles limpam sua cela.
Clarice Starling era astuta, refletia o doutor. Poderia
pegar Jame Gumb com o que ele lhe dissera, mas era uma


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probabilidade remota. Para apanhá-lo a tempo, precisaria
de coisas mais específicas.
O Dr. Lecter sentia-se seguro de que, quando lesse
detalhes dos crimes, surgiriam indicações possivelmente
ligadas ao treinamento profissional de Gumb na instituição de correção juvenil depois que ele matara seus avós.
Entregaria Jame Gumb a ela amanhã, e o faria com clareza, de forma que nem Jack Crawford poderia enganar-se.
Amanhã a coisa seria liquidada.
O Dr. Lecter ouviu passos atrás dele, e a televisão
foi desligada. Sentiu quando o carrinho foi inclinado para
trás. Agora iria começar o longo e cansativo processo de
liberá-lo dentro da cela. Era sempre feito da mesma maneira: primeiro Barney e seus assistentes o deitavam cuidadosamente na cama, a cara para baixo; a seguir Barney
amarrava com toalhas seus tornozelos à barra que ficava
no pé da cama, retirando as tiras que lhe prendiam as pernas e, com a cobertura de seus dois assistentes armados
como Maces e cassetetes de motim, soltava os fechos nas
costas da camisa-de-força e saía da cela andando de costas,
prendendo a rede em posição e trancando a porta de grades, deixando o Dr. Lecter ocupado em libertar-se das
demais amarras. A seguir o doutor trocava o equipamento
por seu desjejum. Esse modo de proceder estava em uso
desde que o Dr. Lecter atacara ferozmente o enfermeiro, e
funcionava muito bem para todo mundo.
Naquele dia o processo foi interrompido.


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CAPÍTULO 27
O carrinho manual que carregava o Dr. Lecter deu
um ligeiro solavanco quando ultrapassou a soleira da porta
da jaula. E lá estava o Dr. Chilton, sentado na cama, examinando a correspondência particular do Dr. Lecter. Chilton tirara o casaco e a gravata. O Dr. Lecter podia distinguir uma espécie de medalha pendurada no seu pescoço.
— Fique de pé ao lado do toalete, Barney — disse
o Dr. Chilton sem levantar os olhos. — Você e os outros
esperem em seus postos.
O Dr. Chilton acabou de ler a mais recente comunicação do Dr. Lecter para os Arquivos Gerais de Psiquiatria. Jogou as cartas em cima da cama e saiu da cela. Houve um lampejo por trás da máscara de hóquei quando o
Dr. Lecter o seguiu com os olhos sem que sua cabeça se
movesse.
Chilton foi até a carteira escolar no corredor e, curvando-se com dificuldade, removeu um pequeno dispositivo de escuta que estava embaixo do assento.
Agitou-o na frente dos orifícios oculares na máscara do Dr. Lecter e sentou-se de novo na cama.
— Achei que ela poderia estar procurando uma
violação dos direitos civis no caso da morte de Miggs e
por isso resolvi ficar à escuta — disse Chilton. — Há anos
não ouvia sua voz. Suponho que a última vez foi quando
você deu aquelas respostas enganadoras em minhas entrevistas e depois me ridicularizou em seus artigos no Journol. É difícil acreditar que a opinião de um prisioneiro
pudesse valer alguma coisa no meio da comunidade profissional, não é? Mas eu ainda estou aqui. E você também.


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O Dr. Lecter nada disse.
— Anos de silêncio e então Jack Crawford manda
sua pequena e você se derrete todo, não é? O que foi que
deu em você, Hannibal? Foram aqueles belos, fortes tornozelos? O modo como o cabelo dela brilha? Ela é estupenda, não? Remota e estupenda. Uma pequena que é um
entardecer de inverno, essa é a forma como penso nela.
Sei que faz muito tempo que você não vê um pôr-do-sol
de inverno, mas acredite na minha palavra.
“Você só tem mais um dia com ela. Depois a Divisão de Homicídios de Baltimore assume o interrogatório.
Eles estão aparafusando uma cadeira no chão para você
na sala de terapia de eletrochoque. A cadeira tem um assento de privada para sua conveniência, e para a conveniência deles quando ligarem os fios. Eu de nada tomarei
conhecimento.
“Você já entendeu? Eles sabem Hannibal. Eles sabem que você sabe exatamente quem é Buffalo Bill. Eles
pensam que você provavelmente tratou dele. Quando ouvi
a Srta. Starling perguntar acerca de Buffalo Bill, fiquei intrigado. Telefonei para um amigo na Divisão de Homicídios de Baltimore. Eles encontraram um inseto na garganta de Klaus, Hannibal. Eles sabem que Buffalo Bill o matou. Crawford está fazendo você pensar que é esperto.
Não creio que você saiba quanto Crawford o odeia por ter
mutilado seu protegido. Agora ele pegou você. Você ainda
se sente esperto?
O Dr. Lecter observou os olhos de Chilton correndo sobre as tiras que mantinham a máscara em posição.
Estava claro que Chilton desejava removê-la para poder
observar o rosto de Lecter. Lecter ficou imaginando se
Chilton o faria da forma segura, por trás. Se o fizesse pela


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frente,teria que passar o braço diante da cabeça de Lecter,
com as veias azuis da parte interna de seus antebraços
próximas ao rosto dele. Venha, doutor. Chegue mais perto. Não, ele decidiu-se em contrário.
— Você está pensando que vai para algum lugar
com uma janela? Acredita que vai passear na praia, ver as
aves? Eu acho que não. Telefonei para a senadora Ruth
Martin e ela nunca ouviu falar em nenhum acordo com
você. Tive que fazê-la relembrar quem você era. Ela nunca
ouviu falar em Clarice Starling. É uma arapuca. Pequenas
desonestidades são de esperar numa mulher, mas esta é de
arromba, não acha?
“Quando acabarem de ordenhá-lo, Hannibal, Crawford vai acusá-lo de esconder um crime. Você tentará descarregar a culpa em Mc’Naghten, doidamente, mas o juiz
não vai gostar. Você já foi julgado por seis mortes. O juiz
não irá mostrar nenhum interesse pelo seu bem-estar.
“Nada de janela, Hannibal. Você passará o resto
dos seus dias sentado no chão de uma instituição do estado vendo passar na sua frente o carrinho de fraldas. Seus
dentes vão cair, assim como a sua força, e ninguém mais
terá medo de você, e você ficará inerte dentro da enfermaria em algum lugar como Flendauer. Os mais jovens abusarão de você e o usarão para fazer sexo quando tiverem
vontade. Tudo o que você irá ler é o que escrever na parede. Está pensando que a justiça vai ligar para isso? Você
já viu os velhos; eles choram quando não gostam do doce
de abricó.
“Jack Crawford e sua gostosona. Eles vão se juntar
abertamente quando a mulher dele morrer. Ele vai rejuvenescer e os dois adotarão algum esporte que possam fazer
juntos. Eles são íntimos desde que Bella Crawford ficou


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doente, e já não estão enganando ninguém com isso. Ganharão suas promoções e não pensarão em você nem uma
vez por ano. Crawford deve vir pessoalmente, no fim, para lhe dizer o que você vai ganhar. Um pau no rabo! Estou
certo que ele tem o discurso preparadinho.
“Hannibal: ele não conhece você tão bem quanto
eu. Ele pensava que se lhe pedisse a informação, você iria
apenas atormentar a mãe da moça por isso.
“Muito certo, isso — refletiu o Dr. Lecter. — Muito esperto da parte de Jack; aquela cara obtusa caledônioirlandesa é para enganar. O rosto dele é cheio de cicatrizes
se você souber olhá-lo. Bem, possivelmente há espaço
para algumas mais...
— Sei do que você tem medo. Não é da dor nem
da solidão. O que você não pode suportar é a indignidade,
Hannibal, a esse respeito você é como um gato. Cuidar de
você é uma questão de honra para mim, Hannibal, e eu o
faço. Nenhuma consideração pessoal jamais entrou em
nosso relacionamento, de minha parte. E agora estou cuidando de você.
“Nunca houve um acordo entre você e a senadora
Martin, mas agora há um. Ou poderá haver. Estive ao telefone horas a fio em seu nome e para o bem daquela pequena. Vou dizer-lhe qual é a primeira condição: você só
fala por meu intermédio. Eu, somente eu, publico um relato profissional sobre isso, minha bem-sucedida entrevista com você. Você não publica nada. Tenho acesso exclusivo a qualquer material provindo de Catherine Martin, se
ela for salva.
“Essa condição é inegociável. Você irá responderme agora. Aceita essa condição?
O Dr. Lecter sorriu para si mesmo.


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— É melhor você me responder agora ou irá responder à Divisão de Homicídios de Baltimore. Eis o que
você ganhará: se identificar Buffalo Bill e a pequena for
encontrada a tempo, a senadora Martin — e ela confirmará isso por telefone — o mandará para a Prisão Estadual
de Brushy Mountain, no Tennessee, fora do alcance das
autoridades de Maryland. Você estará sob a jurisdição dela, afastado de Jack Crawford. Ficará numa cela de máxima segurança com vista para os bosques. Terá livros.
Quanto a qualquer exercício externo os detalhes serão acertados, mas tudo lhe será favorável. Diga o nome dele e
você poderá partir imediatamente. A Polícia Estadual do
Tennessee assumirá sua custódia no aeroporto, o governador concordou.
Por fim o Dr. Chilton disse algo interessante e ele
nem sabe o que foi... O Dr. Lecter fez um bico com os
lábios vermelhos por trás da máscara. A custódia da polícia. Os policiais não são tão espertos como Barney; estão
acostumados a lidar com criminosos. Sentem-se inclinados
a usar ferros nas pernas e algemas. Ferros nas pernas e
algemas abrem-se com uma chave. Como a minha.
— O nome dele é Billy — disse o Dr. Lecter. —
Direi o resto à senadora. No Tennessee.


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CAPÍTULO 28
Jack Crawford agradeceu o café que o Dr. Danielson lhe ofereceu, mas usou o copo para desfazer um AlkaSeltzer sobre a pia de aço inoxidável por trás do posto de
enfermagem. Tudo era de aço inoxidável, o porta-copo, o
balcão de lixo, os aros dos óculos do Dr. Danielson. O
metal brilhante sugeria o brilho de instrumentos e produzia em Crawford uma ferroada característica na área inguinal.
Ele e o médico estavam sozinhos na pequena copa.
— Não, sem uma ordem judicial você não o fará —
repetiu o Dr. Danielson. Dessa vez ele foi brusco, para
compensar a hospitalidade que mostrara com o café.
Danielson era o Chefe da Clínica de Identificação
de Sexos na Johns Hopkins e havia concordado em se
encontrar com Crawford antes da primeira luz da manhã,
antes da visita matinal.
— Você terá que me mostrar uma ordem judicial
para cada caso especifico e nós vamos discutir cada um
deles. O que Columbus e Minnesota lhe disseram? A
mesma coisa, estou certo disso.
— O Ministério da Justiça está se dirigindo a eles
neste momento. Temos que andar rápido, doutor. Se a
moça ainda não está morta, ele a matará em breve, esta
noite ou amanhã. Depois agarrará a próxima — disse
Crawford.
— O fato de você mencionar Buffalo Bill juntamente com os problemas de que tratamos aqui é uma ignorância injusta e perigosa, Sr. Crawford. Fico com os
cabelos em pé ao pensar nisso. Levamos anos, e ainda não


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acabamos nosso trabalho, para mostrar ao público que
transexuais não são loucos, que não são pervertidos, que
não são excêntricos — o que quer que isto signifique...
— Concordo com o senhor...
— Espere um pouco! A incidência de violência entre os transexuais é bem menor do que na população em
geral. Eles são pessoas decentes com um problema real,
um problema tremendamente difícil. Merecem ajuda e nós
podemos dispensá-la. Não permitirei uma caça às bruxas.
Nunca violamos a confiança de um paciente e nunca o
faremos. É melhor que o senhor aja lembrando isso, Sr.
Crawford.
Havia meses, na sua vida privada, que Crawford vinha tratando com os médicos e as enfermeiras de sua mulher, tentando com a maior esperteza conseguir pequenas
vantagens para ela. Estava farto de médicos. Agora, porém, não se tratava da sua vida particular. Era Baltimore e
era serviço. Mantenha-se calmo agora.
— Acho que não me fiz entender bem, doutor.
Culpa minha. É madrugada e não sou um bom madrugador. O resumo de tudo é que o homem que procuramos
não é seu paciente. Seria alguém que os senhores recusaram depois de reconhecer que ele não era um transexual.
Não estamos aqui voando às cegas. Eu lhe mostrarei algumas formas específicas pelas quais ele se desvia dos padrões tipicamente transexuais em seu inventário de personalidades. Aqui está uma curta lista de coisas que sua equipe poderia procurar entre aqueles que foram rejeitados.
O Dr. Danielson esfregava um lado do nariz com o
dedo enquanto lia. Devolveu o papel.
— Isso é original, Sr. Crawford; de fato, é extremamente bizarro, uma palavra que não uso muito amiúde.


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Posso perguntar quem lhe forneceu esse conjunto de...
conjeturas?
Não acho que o senhor vá gostar disso, Dr. Danielson...
— A equipe da Ciência do Comportamento — esclareceu Crawford — , depois de consultar o Dr. Alan
Bloom, da Universidade de Chicago.
— Alan Bloom endossou isso?
— E nós não dependemos apenas dos testes. Há
uma outra maneira pela qual Buffalo Bill possivelmente se
destacará em seus registros: provavelmente ele tentou esconder um registro de violência criminal ou falsificou outro material envolvendo seu passado. Mostre-me os casos
que o senhor rejeitou, doutor.
Danielson estava o tempo todo sacudindo a cabeça.
— Exames e material de entrevistas são confidenciais.
— Dr. Danielson, como podem fraude e informações falsas ser confidenciais? Como pode o nome real de
um criminoso e seu passado real inserir-se numa relação
paciente-médico quando ele nunca lhe disse a verdade, o
senhor tendo que descobri-la por si mesmo? Sei quão rígida a Johns Hopkins é. O senhor deve ter vários casos como este, estou certo. Viciados em cirurgia apelam a todo
lugar em que se pratica cirurgia. Isso não afeta a instituição ou os pacientes legítimos. O senhor pensa que loucos
também não procuram o FBI? Nós os temos a toda hora.
Um homem com uma cabeleira à Moe Ritz apareceu em
St. Louis na semana passada; tinha uma bazuca, dois foguetes e uma barretina militar de pele de urso no seu saco
de golfe.
— Os senhores o admitiram no FBI...?


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— Ajude-me, Dr. Danielson. O tempo está se esgotando. Enquanto ficamos aqui a discutir, Buffalo Bill
pode estar transformando Catherine Martin numa coisa
como esta — e Crawford pôs uma fotografia sobre a mesa
brilhante.
— Não faça isso — disse o Dr. Danielson. — É
uma criancice você forçar a barra comigo. Fui cirurgião de
combate, Sr. Crawford. Ponha sua foto de volta no bolso.
— Certamente um cirurgião pode suportar a visão
de um corpo mutilado — prosseguiu Crawford, amassando seu copo de papel e pisando no pedal da lata de lixo.
— Mas não acho que um médico possa admitir a perda de
uma vida. — Deixou cair o copo e a tampa da lata fechoua com um barulho exagerado. — Aqui está minha melhor
oferta: não pedirei informações sobre pacientes, apenas
informações sobre pedidos de cirurgias, com base em certas referências. O senhor e sua equipe de revisão psiquiátrica podem manusear os pedidos rejeitados muito mais
depressa do que eu. Se encontrarmos Buffalo Bill por informação sua, ocultarei o fato. Para fins de registro, encontrarei outra maneira pela qual poderíamos tê-lo feito.
— A Johns Hopkins poderia ser uma testemunha
protegida, Sr. Crawford? Poderíamos ter uma nova identidade? Ficar com o apelido de Colégio Bob Jones, digamos? Duvido muito que o FBI ou qualquer outra agência
do governo possa manter tal segredo por muito tempo.
— O senhor ficaria surpreso se soubesse...
— Duvido. Tentar escapar de uma inepta mentira
burocrática poderia ser mais danoso do que dizer a verdade. Por favor, jamais nos proteja desta maneira, muito obrigado...


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— Muito obrigado ao senhor, Dr. Danielson, por
suas observações humorísticas. São muito úteis para mim,
como vou mostrar-lhe num minuto. O senhor gosta da
verdade — pois ouça esta: o bandido rapta mulheres jovens e arranca-lhes a pele. Veste essas peles e se diverte
metido nelas. Não desejamos que ele continue fazendo
isso. Se o senhor não me ajudar tão rápido quanto lhe for
possível, eis o que farei: Nesta manhã mesmo o Ministério
da Justiça expedirá publicamente uma ordem legal, alegando que o senhor se recusou a ajudar. Faremos isso duas vezes por dia, com tempo suficiente para alcançar os
jornais da manhã e da tarde. Toda notícia liberada pelo
Ministério sobre este caso dirá como estamos nos arranjando com o Dr. Danielson da Johns Hopkins, tentando
fazer com que ele colabore. Toda vez que houver notícia
sobre o caso Buffalo Bill — quando Catherine aparecer
boiando, quando a próxima aparecer boiando, e quando
mais uma aparecer boiando — , imediatamente liberaremos uma notícia para os jornais sobre como vamos indo
com o Dr. Danielson da Johns Hopkins, inclusive seus
comentários humorísticos sobre o Colégio Bob Jones.
Mais uma coisa, doutor. O senhor sabe que o Serviço de
Saúde Humana fica exatamente aqui em Baltimore. Meus
pensamentos estão se dirigindo para o Escritório de Política de Elegibilidade, e espero que os seus pensamentos
cheguem lá primeiro, está bem? Que tal se a senadora
Martin, algum tempo após o funeral da filha, fizesse aos
camaradas da Elegibilidade a seguinte pergunta: As operações de mudança de sexo que os senhores fazem aqui não
deveriam ser consideradas cirurgias plásticas? Talvez eles
cocem a cabeça e decidam: “Ora, sabem de uma coisa? A
senadora Martin está certa. Sim. Consideramos que é ci-


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rurgia plástica.” Então o seu programa não se qualificará
para uma ajuda federal mais do que uma clínica de cirurgia
plástica do nariz.
— Isso é um insulto!
— Não; é apenas a verdade.
— O senhor não me assusta, o senhor não me intimida...
— Muito bem. Eu não desejo fazer nenhuma das
duas coisas, doutor. Só desejo fazê-lo saber que estou falando sério. Ajude-me, doutor. Por favor.
— Você afirmou que está trabalhando com o Dr.
Alan Bloom. — Sim. Na Universidade de Chicago.
— Conheço Alan Bloom e preferiria discutir o caso
num nível profissional. Avise-o que entrarei em contato
com ele esta manhã. Eu lhe direi o que decidi antes do
meio-dia. Eu me preocupo com a jovem, Sr. Crawford. E
com as outras. Mas aqui entra muita coisa em jogo e não
acho que deva ser tão importante para o senhor quanto
é... Sr. Crawford, o senhor testou sua pressão arterial recentemente?
— Eu mesmo o faço.
— E o senhor também se medica sozinho?
— Isso é contra a lei, Dr. Danielson.
— Portanto o senhor tem um médico.
— Sim.
— Participe-lhe os seus resultados, Sr. Crawford.
Que perda para todos nós se de repente o senhor caísse
morto. Entrarei em contato com o senhor mais tarde, hoje
mesmo.
— Dentro de quanto tempo, doutor? Que tal uma
hora?
— Uma hora.


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O beeper de Crawford soou quando ele saia do elevador. Jeff, seu motorista, estava acenando para ele enquanto Crawford corria apressado em direção ao furgão.
Ela está morta, acharam-na, pensou Crawford quando
agarrou o fone. A chamada era do diretor. As notícias não
foram tão ruins quanto poderiam ser, mas também não
eram boas! Chilton interferira no caso e agora a senadora
Martin estava se metendo. O promotor público do Estado
de Maryland, mediante instruções do governador, tinha
autorizado a transferência para o Tennessee do Dr. Hannibal Lecter. Seria necessário todo o prestigio da Corte
Federal do Distrito de Maryland para impedir ou protelar
a remoção. O diretor queria uma opinião de Crawford e a
queria agora mesmo.
— Espere um pouco — reagiu Crawford. Descansou o fone sobre a perna e olhou pela janela do furgão.
Não havia muita cor em fevereiro para a primeira luz do
dia. Tudo cinza, tudo frio.
Jeff começou a resmungar e Crawford mandou que
se calasse com um gesto da mão.
O monstruoso ego de Lecter. A ambição de Chilton. O terror da senadora Martin por sua filha. A vida de
Catherine. Tudo bem!
— Deixe que prossigam — falou ao telefone.


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CAPÍTULO 29
O Dr. Chilton e três soldados da milícia do Tennessee com o uniforme bem passado estavam de pé, bem
juntos, na pista de asfalto varrida pelo vento ao raiar do
dia. Erguiam suas vozes acima do barulho do pesado tráfego de rádio que vinha da porta aberta do Grumman
Gulfstream e de uma ambulância com o motor ligado ao
lado do avião.
O capitão encarregado do grupo passou uma caneta
ao Dr. Chilton. Os papéis se agitaram na ponta da prancheta e o policial teve que segurá-los.
— Não podemos fazer isso no ar? — perguntou
Chilton.
— Senhor, é preciso complementar a documentação no momento da transferência. Estas são as minhas
instruções.
O co-piloto acabou de fixar a rampa nos degraus da
escada do avião.
— O.K. — aprovou ele.
Os soldados reuniram-se com o Dr. Chilton atrás
da ambulância. Quando ele abriu a porta, ficaram tensos
como se estivessem esperando que algo estranho fosse
saltar de dentro.
Viram o Dr. Lecter de pé, envolto em faixas de lona e usando sua máscara de hóquei. Estava esvaziando a
bexiga enquanto Barney segurava o urinol.
Um dos soldados ensaiou um risinho; os outros
desviaram os olhos.
— Desculpe — disse Barney ao Dr. Lecter, e fechou a porta por mim.


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— Deixe estar, Barney — apaziguou o Dr. Lecter.
— Eu já terminei. Obrigado.
Barney arrumou a roupa de Lecter e rolou o carrinho para a traseira da ambulância.
— Barney?
— Diga, Dr. Lecter.
— Você foi decente comigo por muito tempo. Obrigado.
— Não há de quê.
— Da próxima vez que o Sammie estiver calmo,
diga-lhe adeus.
— Por certo.
— Adeus, Barney.
O guarda corpulento reabriu as portas e disse aos
policiais:
— Peguem por baixo, camaradas. Agarrem dos
dois lados. Coloquem-no no chão. Devagar!
Barney empurrou o carrinho com o Dr. Lecter
rampa acima e para dentro do avião. Três assentos tinham
sido retirados no lado direito do aparelho. O co-piloto
prendeu o carrinho às presilhas soltas dos assentos.
— Ele vai voar deitado? — perguntou um dos milicianos. Tem fraldas de borracha?
— Você terá que se agüentar sem urinar até Memphis, camarada — disse o outro soldado.
— Dr. Chilton, eu poderia dar-lhe uma palavrinha?
— perguntou Barney.
Estavam fora do avião e o vento levantava pequenos torvelinhos de poeira e lixo em volta deles.
— Esses camaradas não têm a menor prática —
comentou Barney.


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— Terei alguma ajuda do outro lado. Guardas psiquiátricos experientes. Agora o Dr. Lecter está sob a responsabilidade deles.
— O senhor pensa que vão tratá-lo bem? O senhor
sabe como ele é... tem-se que ameaçá-lo com uma solidão
absoluta. É só o que ele teme. Bater nele não adianta nada.
— Eu nunca permitiria isso, Barney.
— O senhor vai estar lá quando o interrogarem?
— Sim. — E você não estará... acrescentou Chilton
para si mesmo.
— Eu poderia instalá-lo no outro lado, e estaria de
volta apenas umas duas horas atrasado para o meu turno
— sugeriu Barney.
— Ele não está mais sob a sua responsabilidade,
Barney. E eu estarei lá. Explicarei a eles como devem tratá-lo, passo a passo.
— É melhor que fiquem atentos — disse Barney.
— Ele ficará...


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CAPÍTULO 30
Clarice Starling, sentada na beira de sua cama no
motel, ficou olhando para o telefone negro por quase um
minuto depois que Crawford desligou. Tinha o cabelo
despenteado e enrolara a camisola da Academia em torno
do corpo ao agitar-se durante o curto sono. Sentia-se como se tivesse levado um soco no estômago.
Fazia apenas três horas que ela tinha deixado o Dr.
Lecter e duas desde que ela e Crawford tinham acabado
de trabalhar na folha de características para checar os pedidos de internação no centro médico. Naquele curto intervalo, enquanto ela dormia, o Dr. Frederick Chilton
conseguira estragar tudo.
Crawford vinha buscá-la. Precisava aprontar-se, tinha que pensar em preparar-se.
Que porra! Que PORRA! QUE PORRA! O senhor
a matou, Dr. Chilton. O senhor a matou, doutor de merda! Lecter sabia mais alguma coisa e eu poderia tê-la arrancado dele. Tudo perdido, tudo perdido!
Quando Catherine boiar, vou fazê-lo dar uma olhada nela, juro que vou! Você a roubou de mim. Agora preciso fazer alguma coisa útil. Agora mesmo. O que posso
fazer agora, neste minuto? Preparar-me.
No banheiro, um cestinho com sabonetes, vidros
de xampu e loção, um pequeno jogo para costurar, os obséquios que se recebem num bom motel.
Ao entrar debaixo do chuveiro, Starling teve uma
rápida visão dela mesma aos oito anos, trazendo toalhas,
xampu e sabonete para sua mãe que limpava os quartos
do motel. Quando tinha oito anos havia um corvo — um


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de um bando naquela ventosa e amarga cidade — , e esse
corvo gostava de roubar coisas do carro de limpeza de
quartos do motel. Ele roubava qualquer coisa brilhante. O
corvo esperava uma oportunidade e então remexia entre
as muitas coisas que havia no carro. Às vezes, tendo que
levantar vôo numa emergência, defecava na roupa de cama limpa. Uma das outras mulheres da limpeza jogou detergente nele. O único efeito foi manchar suas penas com
marcas brancas como neve. O corvo branco e preto estava
sempre vigiando Clarice, esperando que ela se afastasse do
carro para levar coisas à mãe que limpava os banheiros. A
mãe estava de pé na porta de um banheiro do motel
quando lhe disse que ela devia partir para viver em Montana. A mãe arriou as toalhas que tinha na mão, sentou-se
na beirada da cama do motel e abraçou-a. Starling ainda
sonhava com o corvo e via-o agora, sem tempo sequer
para pensar por quê. Sua mão subiu num movimento de
carícia e então, como se necessitasse de uma desculpa para
o gesto, elevou-a até a testa e afastou para trás o cabelo
úmido.
Vestiu-se rapidamente: slacks, uma blusa, um suéter
leve sem mangas, a pistola de cano curto contra as costelas no coldre chato, o carregador rápido debaixo do cinto,
no outro lado. Seu blazer precisava de um pouco de atenção. Uma costura do forro em cima do carregador rápido
estava se descosturando. Ela se dispôs a ficar ocupada,
bem ocupada, até se acalmar. Pegou o pequeno estojo de
costura do motel e consertou o forro. Alguns agentes costuravam arruelas nas bordas dos casacos, de maneira que
caíssem normalmente; ela teria que fazer isso.
Crawford estava batendo à porta.


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CAPÍTULO 31
Na experiência de Crawford a raiva fazia as mulheres parecerem relaxadas. A raiva arrepiava seu cabelo atrás, pintava o diabo com sua cor e fazia-as esquecer de
fecharem seus zíperes. Qualquer traço menos atraente era
exagerado. Starling parecia exatamente ela mesma quando
abriu a porta do quarto do motel, mas estava com uma
raiva danada.
Crawford sabia que talvez agora conhecesse uma
grande e nova verdade acerca de Starling.
Uma fragrância de perfume e de vapor invadiu-o
quando ela apareceu no limiar da porta. As cobertas do
leito atrás haviam sido puxadas sobre o travesseiro.
— O que você acha da situação, Starling?
— Eu acho que tudo se danou, Sr. Crawford; e o
senhor, o que acha?
Ele assentiu com a cabeça.
— A lanchonete na esquina já está aberta. Vamos
tomar um café.
Era uma manhã amena para fevereiro. O sol, ainda
baixo a leste, lançava um reflexo vermelho na fachada do
asilo quando por ele passaram. Jeff seguia-os vagarosamente no furgão, os rádios fazendo barulho. A certa altura
passou o fone pela janela aberta, e Crawford teve uma
breve conversa pelo rádio.
— Podemos abrir um processo contra Chilton, por
obstrução à justiça?
Starling caminhava um pouco à frente dele, mas
Crawford pôde ver que os músculos do seu maxilar se
retesaram quando ela fez a pergunta.


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— Não, não daria resultado.
— Que tal se ele a desgraçar, se Catherine morrer
por causa do Chilton? Eu desejo realmente jogar isso na
cara dele... Deixe-me continuar com este caso, Sr. Crawford. Não me mande de volta para a escola.
— Ocorrem duas coisas. Se eu mantiver você, não
será para jogar a verdade na cara do Chilton, isso poderá
ficar para mais tarde. Segundo: se eu a retiver por muito
mais tempo, você terá que repetir parte do curso, o que
vai lhe custar alguns meses. A Academia não dá folga a
ninguém. Eu posso garantir que você voltará, mas isso é
tudo... Haverá um lugar reservado parra você, é só o que
posso lhe garantir.
Ela inclinou a cabeça bem para trás e depois abaixou-a de novo enquanto andava.
— Talvez essa não seja uma pergunta delicada para
fazer ao chefe, mas o senhor está metido em alguma encrenca? A senadora Martin pode fazer algo contra o senhor?
— Starling, devo me aposentar dentro de dois anos.
Se eu descobrir Jimmy Hoffaman e o assassino do Tylenol, ainda assim tenho que pendurar as chuteiras. Não me
preocupo com isso.
Crawford, sempre cauteloso em demonstrar qualquer sentimento, sabia quanto precisava ser prudente. Sabia que um homem de meia-idade pode desejar com tal
desespero ser prudente que é capaz de inventar alguma
coisa, e que isso pode ser fatal para uma jovem que acredita nele. Assim, falou muito cuidadosamente e apenas de
coisas que sabia.
O que transmitiu a ela naquela feia Rua de Baltimore, aprendera numa sucessão de madrugadas geladas na


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Coréia, numa guerra que acontecera antes mesmo de ela
nascer. Evitou a parte da Coréia, achando que não necessitava disso para emprestar autoridade ao que dizia.
— Este é o período mais duro, Starling. Aproveiteo bem e ele irá endurecê-la. Agora vem o teste mais difícil:
não deixar que a raiva e a frustração a impeçam de pensar.
Isso é o essencial para sabe se você pode comandar ou
não. O desperdício e a estupidez são os que mais pode
afetar você. Chilton é um maldito estúpido e pode ter causado a morte de Catherine Martin. Mas talvez não... Nós
somos a chance dela. Starling, qual é a temperatura do nitrogênio líquido no laboratório?
— Hem? Ah, nitrogênio líquido... cerca de 200
graus centígrados negativos; ferve um pouco acima disso.
— Você alguma vez congelou alguma coisa com ele?
— Por certo.
— Chega... está bem? — Ele sorriu, mostrando
dentes pequenos como os de uma criança.
Starling riu para ele, apesar de toda sua preocupação. Quando correu para o furgão, deu-lhe um adeus com
a mão sem se voltar.
Crawford ficou satisfeito com aquilo.


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CAPÍTULO 32
O Grumman Gulfstream que levava o Dr. Hannibal Lecter pousou em Memphis soltando duas nuvenzinhas de fumaça azul dos pneus. Seguindo instruções da
torre, ele taxiou em direção aos hangares da Guarda Nacional Aérea, longe dos terminais de passageiros. Uma
ambulância do Serviço de Emergência e uma limusine aguardavam dentro do primeiro hangar.
A senadora Ruth Martin observava através do vidro
esfumaçado da limusine quando os milicianos estaduais
rolaram o carrinho do Dr. Lecter para fora do avião. Teve
vontade de correr para a figura amarrada e mascarada e
arrancar-lhe a informação, mas era inteligente bastante
para conter-se.
O telefone da senadora Martin tocou. Seu assistente, Brian Gossage, apanhou-o do assento extra.
— É o FBI... Jack Crawford — informou Gossage.
A senadora Martin estendeu a mão para o fone sem
tirar os olhos do Dr. Lecter.
— Por que não me informou sobre o Dr. Lecter,
Sr. Crawford.
— Tive receio que a senhora fizesse exatamente o
que está fazendo, senadora.
— Não quero brigar com o senhor, Sr. Crawford.
Se o senhor me hostilizar, vai se arrepender.
— Onde está agora o Dr. Lecter?
— Estou olhando para ele.
— Ele pode ouvi-la?
— Não.


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— Senadora Martin, escute-me. A senhora deseja
dar garantias pessoais ao Lecter... muito bem! muito bem!
Mas faça uma coisa por mim: deixe o Dr. Bloom instruí-la
antes que a senhora enfrente Lecter. Bloom pode ajudá-la,
acredite.
— Eu já tenho um conselheiro profissional.
— Espero que seja melhor do que Chilton.
O Dr. Chilton estava batendo com os dedos na janela da limusine. A senadora Martin mandou Gossage atendê-lo fora do carro.
— Uma luta interna é desperdício de tempo, Sr.
Crawford. O senhor mandou uma recruta inexperiente a
Lecter com uma oferta falsa. Eu posso agir melhor do que
isso. O Dr. Chilton diz que Lecter é capaz de responder a
uma oferta legítima e estou lhe apresentando uma, sem
burocracia, sem testemunhas, sem questões de credibilidade. Se tivermos Catherine de volta ilesa, todo mundo
vai se sentir bem, inclusive o senhor. Se ela... morrer, eu
não darei porra de importância nenhuma a desculpas!
— Use-nos, então, senadora Martin.
Ela não notou raiva na voz dele, apenas uma frieza
profissional que reconheceu logo. Respondeu-lhe:
— Prossiga.
— Se a senhora conseguir alguma coisa, deixe-nos
agir com base no que obtiver. Certifique-se de que nos
transmitiu tudo. Certifique-se de que a polícia local coopera. Não os deixe pensar que lhe agradarão se nos excluírem.
— Paul Krendler, do Ministério da Justiça, está
vindo para cá. Ele cuidará disso.
— Qual é o seu policial mais graduado aí?


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— O major Bachman, do Tennessee Bureau of Investigation.
— Bom. Se já não for muito tarde, tente um blecaute da mídia. Será melhor se ameaçar Chilton a esse respeito. Ele adora chamar atenção. Não queremos que Buffalo Bill saiba qualquer coisa. Quando o encontrarmos,
vamos usar o Grupo de Resgate de Reféns. Devemos atingi-lo rapidamente e evitar um impasse. A senhora tenciona questionar Lecter pessoalmente?
— Sim.
— Gostaria de falar com Clarice Starling primeiro?
Ela está a caminho.
— Com que finalidade? O Dr. Chilton fez um sumário daquele material para mim. Nós já perdemos muito
tempo...
Chilton estava de novo batendo na janela, pronunciando palavras através do vidro. Brian Gossage pegou no
seu pulso enquanto sacudia a cabeça.
— Preciso ter acesso ao Dr. Lecter depois que a
senhora falar com ele.
— Sr. Crawford: ele prometeu que revelará o nome
de Buffalo Bill em troca de privilégios, realmente, comodidades. Se não fizer isso, o senhor pode ficar com ele
para sempre.
— Senadora Martin, vou dizer-lhe uma coisa delicada, mas tenho que dizê-la à senhora: o que quer que faça, nunca lhe implore!
— Certo, Sr. Crawford. Mas agora não posso continuar a falar-lhe. — E desligou o telefone. — “Se eu estiver errada, ela não estará mais morta que as últimas seis de
que o senhor cuidou...” — disse para si mesma, e mandou
Gossage e Chilton entrarem no carro.


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O Dr. Chilton tinha pedido um escritório em
Memphis para a entrevista da senadora Martin com Hannibal Lecter. Para economizar tempo, uma sala de reuniões da Guarda Nacional Aérea no hangar fora rearrumada
rapidamente para o encontro.
A senadora Martin teve que esperar do lado de fora
do hangar enquanto Chilton instalava Lecter na sala improvisada. Ela não agüentara ficar dentro do carro. Andava em volta de um pequeno círculo embaixo do alto teto
do hangar, olhando lá em cima as altas vigas cruzadas e
depois baixando os olhos para as tiras pintadas no piso.
Uma vez parou ao lado de um velho Phantom F-4 e descansou a cabeça de encontro àquele corpo frio onde estava escrito em estêncil NÃO PISE. Este aviso deve ser
mais velho do que Catherine. Meu bom Jesus, me acuda!
— Senadora Martin — o major Bachman estava a
chamá-la.
Chilton, da porta, convidava-a a entrar.
Na sala havia uma mesa para Chilton e cadeiras para a senadora Martin, seu assistente e o major Bachman.
Um cameraman estava a postos para registrar o encontro.
Chilton informara que era uma das condições de Lecter.
A senadora Martin entrou, parecendo bemdisposta. Seu conjunto azul-marinho recendia a poder. Ela
também incutira uma boa aparência em Gossage.
O Dr. Hannibal Lecter estava sentado no meio da
sala, numa pesada poltrona de carvalho aparafusada no
chão. Um cobertor cobria sua camisa-de-força e as presilhas nas pernas, escondendo o fato de ele estar acorrentado na cadeira. Além disso, ainda usava a máscara de hóquei que o impedia de morder.


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“Por quê? — pensou a senadora Martins a idéia inicial fora permitir ao Dr. Lecter alguma dignidade num
ambiente de escritório. A senadora Martin deu uma olhada para Chilton e virou-se para Gossage, pedindo os papéis.
Chilton dirigiu-se para trás do Dr. Lecter e, fitando
diretamente a câmara, desfez as amarras e retirou a máscara com um floreio.
— Senadora Martin, apresento-lhe o Dr. Hannibal
Lecter.
Ver o que o Dr. Chilton fizera a título de exibicionismo assustou a senadora Martin mais do que qualquer
coisa desde que sua filha desaparecera. Qualquer confiança que ela tivesse tido no bom senso de Chilton desapareceu ante a fria evidência de que ele era um idiota.
Mas tinha que tocar para a frente.
Uma madeixa do cabelo do Dr. Lecter caiu entre
seus olhos castanhos. Ele estava tão pálido quanto a máscara. A senadora Martin e o Dr. Lecter encararam um ao
outro — ela extremamente brilhante, ele impossível de
avaliar por qualquer meio conhecido pelo homem.
O Dr. Chilton voltou à sua mesa, correu os olhos
em volta dos presentes e começou:
— O Dr. Lecter fez-me saber, senadora, que ele
deseja contribuir para a investigação com alguns conhecimentos especiais, em troca de certas regalias ligadas às
condições da sua prisão.
A senadora Martin segurou na mão um documento:
— Dr. Lecter, este é um compromisso que assinarei
agora. Diz que eu o ajudarei. Deseja lê-lo?
Ela pensava que Lecter não ia responder e já se voltava para a mesa a fim de assinar, quando ele disse:


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— Não vou fazê-la perder seu tempo e o de Catherine barganhando por privilégios mesquinhos. Gente carreirista já desperdiçou bastante tempo. Deixe que eu a ajude agora e confio em que a senhora me ajudará quando
isto terminar.
— Pode contar com isso. — Voltou-se para o assistente: Brian?
Gossage levantou sua prancheta.
— O nome de Buffalo Bill é William Rubin. Conhecido como Billy Rubro. Foi-me apresentado em abril
ou maio de 1975 por meu paciente Benjamin Raspail. Disse que vivia em Filadélfia, não posso lembrar-me do endereço, mas estava na ocasião morando com Raspail em Baltimore.
— Onde estão seus registros? — interrompeu o
major Bachman.
— Meus registros foram destruídos por ordem da
Justiça pouco depois...
— Qual era a aparência dele? — perguntou o major
Bachman.
— Me dá licença, major? Senadora Martin, a única...
— Dê-me sua idade e uma descrição física, qualquer outra coisa de que possa se lembrar — insistiu o major Bachman.
O Dr. Lecter simplesmente apagou. Pensou em outra coisa: nos estudos anatômicos de Géricault para A jangada da Medusa, e se ouviu as perguntas que se seguiram
não o demonstrou.
Quando a senadora Martin recuperou a atenção dele, estavam sozinhos na sala. Ela tinha nas mãos a prancheta de Gossage.


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Os olhos de Lecter focalizaram-se nos dela.
— Aquela bandeira cheira a charutos — disse ele.
Você alimentou Catherine ao peito?
— Perdão? Eu fiz o quê?
— Alimentou Catherine ao seio?
— Sim.
— São uns bichinhos sedentos, não?
Quando as pupilas dela sombrearam, o Dr. Lecter
provou uma única amostra da dor que ela sentiu e achou-a
esquisita. Considerou que era o bastante para aquele dia.
— William Rubin tem um metro e oitenta e três e
deve estar hoje com 35 anos. É muito forte, cerca de 86
quilos quando eu conheci e aumentou de peso desde então, creio. Tem o cabelo castanho e olhos azuis, pálidos.
Dê isso a eles e então prosseguiremos.
— Sim, eu o farei — disse a senadora Martin. Passou as nota para fora da porta.
— Só o vi uma vez. Ele marcou outra consulta,
mas não voltou.
— Por que o senhor pensa que ele é Buffalo Bill?
— Já naquele tempo ele assassinava moças e fazia
coisas assim com elas, anatomicamente. Disse que precisava de alguma ajuda para parar, mas na verdade só queria
conversar fiado sobre os seus feitos. Apenas prosear-se.
— E o senhor não... ele estava certo de que o senhor não iria denunciá-lo?
— Ele não estava certo, mas gostava de arriscar-se.
Eu honro a confiança do seu amigo Raspail.
— Raspail sabia que ele andava fazendo isso?
— Os apetites de Raspail eram os mais estranhos,
ele estava coberto de cicatrizes.


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“Billy Rubin disse-me que tinha um prontuário
criminal, porém sem detalhes. Fiz uma curta ficha médica.
Nada tinha de excepcional, exceto por uma coisa: Rubro
me disse que certa vez sofreu de um antraz. Isto é tudo do
que me lembro, senadora Martin creio que a senhora está
ansiosa para sair. Se qualquer outra coisa me ocorrer, eu
lhe mandarei um recado.
— Bill Rubin matou a pessoa cuja cabeça estava no
carro?
— Acredito que sim.
— O senhor sabe quem é essa pessoa?
— Não. Mas Raspail chamava-o de Klaus.
— As outras coisas que o senhor disse ao FBI eram
verdadeiras
— Pelo menos tão verdadeiras quanto as que o FBI
me disse, senadora.
— Fiz alguns arranjos temporários para o senhor
aqui em Memphis. Conversaremos sobre sua situação e o
senhor irá para Brushy Mouniain quando isto... quando
tivermos resolvido isto.
— Obrigado. Gostaria de um telefone, se eu lembrar de alguma coisa.
— O senhor o terá.
— E música. Glenn Gould, as Variações Goldberg.
Será que é pedir demais?
— Está bem.
— Senadora Martins não confie nenhuma pista exclusivamente ao FBI. Jack Crawford nunca joga limpo
com as outras agências. É um jogo complicado o dessa
gente... Ele está decidido a realizar a prisão ele mesmo.
Um “fominha” é como o chamam.


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— Muito obrigada, Dr. Lecter.— Gostei muito do
seu conjunto — acrescentou quando ela se dirigia para a
porta.


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CAPÍTULO 33
Jame Gumb percorre quarto após quarto, o porão,
como um labirinto que nos atormenta e aos nossos sonhos. Quando ele ainda era encabulado, séculos e séculos
atrás, o Sr. Gumb gostava dos quartos mais afastados,
longe das escadas.
Existem quartos nos cantos mais remotos, quartos
de outras vidas, que Gumb não abre há anos. Alguns deles
ainda estavam ocupados, por assim dizer, embora os sons
por trás das portas tenham atingido um auge e descambado para o silêncio há muito tempo.
Os níveis do chão variam de quarto para quarto, as
diferença chegando até a 30 centímetros. Há soleiras a
subir, topos de porta onde é preciso curvar-se. Cargas são
impossíveis de rolar e penosa de arrastar. Fazer marchar
qualquer coisa à sua frente — aos tropeções e chorando,
implorando, batendo com a cabeça às tontas é difícil, até
mesmo perigoso.
Quando ficou mais esperto e confiante, o Sr. Gumb
não acha mais que devia satisfazer suas necessidades nas
partes ocultas do porão. Ele agora usa um conjunto de
quartos em volta da escada quartos espaçosos, providos
de água corrente e eletricidade.
O porão permanece em total pretume.
Abaixo do chão arenoso, na masmorra, Catherine
Martin permanece quieta.
O Sr. Gumb está aqui no porão, mas não nesta câmara.
O quarto que fica atrás da escada é negro para a
vista humana, mas cheio de pequenos sons. Água escorre


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e pinga, e pequenas borbas zumbem. Com mal audíveis
ecos, o quarto parece grande.
O ar é úmido e fresco; tem um cheiro de verdura.
Uma batida de asas contra o rosto, uns poucos estalidos
no ar. Um baixo som nasal de prazer, um som humano.
O quarto não reflete nenhum dos comprimentos de
onda acessíveis ao olho humano, mas o Sr. Gumb está
aqui e pode ver muito bem, embora veja tudo em sombras
e tons de verde. Ele está usando um excelente par de óculos infravermelho (excedente militar de Israel, menos do
que 400 dólares) e dirige o feixe de uma lanterna infravermelha para a gaiola de arame à sua frente. Está sentado
na borda de uma cadeira reta, absorvido, observando um
inseto que trepa numa planta na gaiola de arame. A jovem
imago acaba de sair de uma crisálida rachada na terra úmida do chão da gaiola. Ela trepa cautelosamente num galho
de dulcamara, procurando um espaço para desdobrar suas
novas asas úmidas, ainda presas às suas costas. Escolhe
um galho horizontal.
O Sr. Gumb precisa entortar a cabeça para ver.
Pouco a pouco as asas se enchem de sangue e de ar. Elas
ainda estão presas umas às outras nas costas do inseto.
Passam-se duas horas. O Sr. Gumb quase não se
mexeu. Ele acende e apaga a lâmpada infravermelha para
surpreender-se com o progresso que o inseto faz. Para
passar o tempo, projeta a luz pelo resto do quarto — sobre os grandes aquários cheios de solução vegetal de taurino. Em cima de pranchas e padiolas, dentro dos tanques,
suas recentes aquisições destacam-se como pedaços de
estatuária clássica quebrada e verde no fundo do mar. Sua
luz movimenta-se sobre a grande mesa de trabalho galvanizada com seu eixo horizontal de metal, anteparas e dre-


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nos, e toca no guincho que lhe fica por cima. De encontro
à parede, compridas pias industriais. Tudo em imagens
verdes de infravermelho filtrado. Bater de asas, riscos de
fosforescência cruzam-lhe a visão, pequenas caudas como
cometas de mariposas soltas no quarto.
Dirige a lanterna para a gaiola exatamente a tempo.
O grande inseto distendeu as asas sobre as costas, escondendo e distorcendo suas marcas. Agora traz as asas para
baixo, para vestir seu corpo e o famoso desenho aparece
nítido. Uma caveira humana, maravilhosamente executada
nas escamas que parecem pêlos, encara-nos das costas da
mariposa. Debaixo da sombreada abóbada do crânio vêem-se os negros buracos dos olhos e as proeminentes maçãs do rosto. Por baixo delas uma mancha escura semelha
uma mordaça acima do maxilar A caveira descansa numa
marca com o topo de um osso pélvico.
Um crânio colocado sobre a pelve, tudo desenhado
sobre as asas de uma mariposa por um acidente da natureza.
O Sr. Gumb sente-se bem e leve no seu intimo. Inclina-se para frente e sopra delicadamente sobre a mariposa. Esta levanta a tromba e demonstra com um ruído sua
zanga.
Ele caminha em silêncio com sua luz até o quarto
da masmorra. Abre a boca para silenciar a respiração. Não
quer estragar seu humor com qualquer barulho vindo do
poço. As lentes de seus óculos, nos pequenos aros que se
projetam ligeiramente, parecem olhos de caranguejos. O
Sr. Gumb sabe que os óculos não são nada atraentes, mas
ele já se divertiu muito com eles no porão negro, fazenda
aqueles jogos de porão.
Inclina-se e lança sua luz invisível dentro do poço.


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O material está deitado de lado, dobrado como um
camarão, parece estar dormindo. O balde para servir-se
está ao lado dele. Ela não rebentou de novo, tolamente, a
cordinha, tentando içar-se pelas paredes a pino. Em seu
sono ele segura o canto do cobertor contra o rosto e chupa o polegar.
Observando Catherine, passando com o feixe infravermelho para cima e para baixo no seu corpo, o Sr.
Gumb se prepara para os problemas muito reais que aparecem à sua frente.
Lidar com a pele humana é monstruosamente difícil
se os padrões de qualidade do serviço não são tão altos
quanto os do Sr. Gumb. Há decisões estruturais básicas a
tomar e a primeira é onde colocar o zíper.
Ele corre o feixe luminoso pelas costas de Catherine. Normalmente faria o fecho nas costas, mas nesse caso
como poderia vesti-lo sozinho? Não era a espécie de coisa
que pudesse pedir a alguém para ajudá-lo, embora tal
perspectiva fosse muito excitante. Ele conhece lugares,
círculos, onde seus esforços seriam muito admirado —
existem certos iates onde ele poderia exibir-se — , mas
isso terá que esperar. Por enquanto deve ter coisas que
possa vestir sozinho. Cortar a frente pelo centro seria um
sacrilégio — e expulsa isso logo da sua mente.
O Sr. Gumb nada pode dizer sobre a cor de Catherine com luz infravermelha, mas ela parece mais magra.
Acredita que talvez estivesse fazendo regime quando ele a
agarrou.
A experiência ensinou-lhe a esperar de quatro dias a
uma semana antes de recolher a pele. Uma súbita perda de
peso faz a pele ficar mais solta e mais fácil de retirar. Além
disso, a fome tira muito da força das pessoas e faz com


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que sejam mais fáceis de manusear. Mais dóceis. Um estupor de resignação acomete algumas delas. Contudo, é necessário prover algumas rações para impedir o desespero e
alguma ação destrutiva que possa danificar pele.
Ela definitivamente perdeu peso. É tão especial, tão
central para aquilo que ele está fazendo, que já não pode
esperar muito, e nem precisa. Amanhã à tarde poderá fazê-lo, ou amanhã à noite. O mais tardar no dia seguinte.
Em breve.


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CAPÍTULO 34
Clarice Starling reconheceu o painel das Stonehinge
Villas das nas notícias na televisão. O complexo habitacional de Memphis Leste, uma mistura de apartamentos e
casas residenciais, formava um grande U em volta de uma
área de estacionamento.
Starling parou seu Chevrolet Celebrity alugado no
grande estacionamento. Trabalhadores de colarinho azul
bem pagos e executivos de classe média viviam aqui: os
carros Trans-Ams e Camar IROC-Z revelavam isso. Casas
rebocadas para fins de semana e lanchas para esqui aquático com pintura brilhante estavam estaciona das na seção
própria do parque.
As Stonehinge Villas — o nome ficava atravessado
na garganta de Starling cada vez que olhava para ele. Provavelmente os apartamentos seriam cheios de vime branco e nogueira cor de pêssego Fotos debaixo do vidro das
mesinhas de café — O Livro de cozinha para dois e Fondue no cardápio. Starling, cuja única residência era um
quarto no dormitório da Academia do FBI, era uma severa crítica dessas coisas.
Precisava conhecer Catherine Martin e aquele parecia um lugar estranho para uma filha de senadora viver.
Starling lera o breve material biográfico que o FBI reunira,
o qual mostrava que Catherine Martin era uma brilhante
fracassada. Fora reprovada em Farmington e passara dois
anos infelizes em Middlebury. Agora era estudante em
Southwestern e praticante de professora.
Starling poderia facilmente tê-la imaginado como
uma garota de internato, absorvida em si mesma, tapada,


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uma dessas pessoa que nunca ouvem. Starling sabia que
nisso precisava ser cuidadosa porque tinha seus próprios
ressentimentos e preconceitos. Ela mesma passara algum
tempo em internatos, vivendo de bolsas de estudos, suas
notas muito melhores que suas roupas. Conviver com
uma porção de garotas de famílias ricas e cheias de problemas, passando tempo demais em internatos. Pouco
ligava para algumas delas, mas ao crescer descobrira que a
indiferença pode ser um estratagema para evitar o sofrimento, e que isso, muitas vezes, é interpretado como indiferença e futilidade.
Era melhor pensar em Catherine como uma criança
navegando num barco a vela com seu pai, como aparecia
na televisão, no filme que mostraram com o apelo da senadora Martin. Imaginou se Catherine tentava agradar o
pai quando era pequena; pensou no que Catherine estaria
fazendo quando lhe vieram contar que o pai falecera de
um ataque cardíaco, aos 42 anos. Starling não tinha dúvidas de que Catherine sentia falta do pai. Sentir falta do pai,
uma ferida comum, fazia Starling sentir-se ligada àquela
moça.
Também achava essencial gostar de Catherine Martin porque isso a ajudava a esforçar-se mais.
Starling parou ver o apartamento onde Catherine
vivia — dois carros da Patrulha de Estradas do Tennessee
estavam estacionados na frente do edifício. Havia marcas
de pó branco no estacionamento na área mais próxima do
prédio. O Tennessee Bureau of Investigation devia ter
estado a levantar manchas de óleo com pedra-pomes ou
outro pó inerte. Crawford garantira que o FBI era muito
bom.


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Starling andou até onde estavam os veículos de recreio e os barcos na área especial de estacionamento em
frente ao edifício. Fora ali que Buffalo Bill a apanhara.
Bastante perto da sua porta, pois ela a deixara destrancada
ao sair. Algo a havia tentado, a situação lhe teria parecido
aparentemente isenta de perigo.
Starling sabia que a polícia de Memphis fizera exaustivas entrevistas de porta em porta e que ninguém vira
nada, portanto talvez tivesse acontecido entre as altas casas rebocadas. Ele deveria tê-la observado dali. Sentado
em alguma espécie de veiculo, com certeza. Mas Buffalo
Bill sabia que Catherine vivia ali. Teria localizado a moça
em algum lugar e a seguira, aguardando uma chance. Pequenas do tamanho de Catherine não são comuns. Ele
não devia ter ficado esperando em vários lugares até que
uma mulher do tamanho conveniente aparecesse. Poderia
esperar dias e nenhuma aparecer.
Todas as suas vitimas eram grandes. Todas. Algumas podiam ser também gordas, mas todas eram grandes.
“De forma que ele possa conseguir algo que lhe sirva.”
Lembrando-se das palavras do Dr. Lecter, Starling teve
um arrepio. Dr. Lecter, o novo habitante de Memphis.
Aspirou profundamente, encheu o peito de ar e
deixou-o escapar vagarosamente. Vejamos o que é possível descobrir sobre Catherine.
Um miliciano da polícia do Tennessee, com seu
chapéu Smokey the Bear atendeu à porta no apartamento
de Catherine Martin. Quando Starling mostrou suas credenciais, deixou-a entrar.
— Policial, preciso dar uma olhada neste local. —
‘Local’ parecia-lhe uma boa palavra a empregar para um
homem que andava de chapéu na cabeça dentro de casa.


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Ele assentiu com um sinal de cabeça.
— Se o telefone tocar, deixe que eu atendo.
No balcão da cozinha Starling pôde ver um gravador de fite ligado ao telefone. Ao lado dele havia dois novos telefones. Um não tinha disco — era uma linha direta
para a Segurança da companhia telefônica encarregada de
traçar chamadas no Centro-Sul.
— Alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-la?
— indago o jovem policial.
— A polícia já terminou por aqui?
— O apartamento foi liberado para a família. Estou
aqui apenas por causa do telefone. Você pode tocar nas
coisas, se é isso que quer saber.
— Bem, então vou dar uma olhadela.
— O.K. — O jovem policial apanhou o jornal que
havia enfiado embaixo do sofá e sentou-se.
Starling queria concentrar-se. Preferiria estar sozinha no apartamento, mas sabia que tivera sorte em não o
encontrar cheio de tiras.
Começou pela cozinha. Não estava equipada para
uma boa cozinheira. Catherine viera buscar pipocas, o
namorado informara polícia. Starling abriu o congelador.
Encontrou duas caixas de pipocas para forno de microondas. Da cozinha não se podia avistar o estacionamento.
— De onde você é?
Starling não deu atenção à pergunta da primeira
vez.
— De onde você é?
O miliciano estava a observá-la do sofá, por cima
do jornal.
— Washington — foi a resposta.


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Debaixo da pia — sim, arranhões na junta do cano,
eles tinham tirado o sifão para examinar. Parabéns para o
FBI. As facas não eram afiadas. O lavador de pratos funcionava, mas não fora esvaziado. O refrigerador continha
apenas requeijão e salada de fruta do tipo delicatessen.
Catherine Martin abastecia-se de gêneros para refeições
rápidas, provavelmente tinha um lugar certo, um drive-in
próximo. Talvez alguém andasse circulando pela loja. Valia a pena investigar.
— Trabalha para o Promotor Público?
— Não; para o FBI.
— O Promotor Público está vindo para cá. Ouvi
isso na mudança de turno. Há quanto tempo está no FBI?
Havia um repolho de borracha na gaveta de vegetais. Starling abriu-o; dentro encontrou uma caixa de jóias,
absolutamente vazia.
— Há quanto tempo está no FBI?
Starling encarou o jovem policial.
— Olhe aqui, policial. Provavelmente precisarei fazer-lhe algumas perguntas depois que terminar de dar uma
olhada por aqui. Talvez então você possa me ajudar.
— Está bem. Se eu puder...
— O.K. Vamos esperar e depois conversaremos.
Por enquanto tenho que pensar no que estou fazendo.
— Problema nenhum...
O quarto de dormir era claro, tinha uma qualidade
ensolarada de que Starling gostava. Era decorado com tecidos melhores e móveis melhores do que a maioria das
moças podia ter. Havia um biombo de Coromandel, duas
peças em cloisonné nas prateleiras e uma boa secretária de
nogueira cheia de nós. Camas gêmeas. Starling levantou as
cobertas pelas bordas. As rodinhas estavam travadas na


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cama da esquerda, mas não na da direita. Catherine deve
juntá-las quando lhe convém. Talvez tenha um amante do
qual o namorado não sabe. Ou talvez eles fiquem por aqui
de vez em quando. Não há um beeper remoto na secretária eletrônica. Ela talvez precise estar aqui quando a mamãe chamar.
A secretária eletrônica era como a dela, uma PhoneMate básica. Abriu o painel superior: tanto a fita de entrada quanto a de saída tinham sido removidas. No lugar delas havia uma nota: FITAS PROPRIEDADE FBI N° 6.
O quarto estava razoavelmente limpo, mas com a
aparência deixada pelos que o haviam revistado com mãos
grosseiras, homens que tentam recolocar as coisas no
mesmo lugar, mas sempre erram um pouquinho... Starling
teria sabido que o lugar fora revistado mesmo sem os vestígios do pó para impressões digitais em todas as superfícies polidas.
Concluiu que nenhuma parte do crime ocorrera no
quarto de dormir. Crawford provavelmente estava certo,
Catherine fora agarrada no estacionamento. Contudo,
Starling queria conhecê-la e aquele era o lugar onde ela
vivera. Vive. Starling corrigiu-se. Ela vivia aqui.
No armarinho do criado-mudo havia um catálogo
telefônico, lenços Kleenex, uma caixa de artigos de toalete, e, atrás da caixa, uma máquina Polaroid SX-70 com um
disparador de cabo e um curto tripa dobrado ao lado dela.
Hummm... Atenta como um lagarto, Starling olhou para a
câmara. Piscou como um lagarto pisca e não a tocou. O
closet interessou-a mais que qualquer outra coisa. Catherine Baker Martin — marca de lavanderia CBM — tinha
muita roupa e algumas eram muito boas. Starling reconheceu várias das etiquetas, incluindo Garfinkel, e Britches, de


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Washington. Presente da mamãe, disse para si mesma.
Catherine tinha roupa fina e clássicas em dois tamanhos,
próprios para lhe servirem com 65 e 75 quilos avaliou
Starling, e havia alguns pares de calças para reduzir peso
bem como pulôver da Statuesque Shop. Numa prateleira
própria contou 23 pares de sapatos. Sete eram Ferragamos
n° 10 e havia alguns Reeboks e mocassins bastante usados. Uma pequena mochila e uma raquete de tênis na prateleira superior.
Os pertences de uma garota privilegiada, estudante
e praticante de professora, que vivia melhor que a maioria.
Uma porção de cartas na secretária. Notas ligeiras
de antiga companheiras de classe no Leste. Selos, etiquetas
de endereçar. Papel para embrulho de presentes na gaveta
de baixo, um maço de diversos feitios e cores. Os dedos
de Starling correram por eles. Ela pensava em interrogar
os empregados do mercado drive-in próxima quando seus
dedos encontraram na pilha de papel de presentes uma
folha demasiado grossa e dura. Seus dedos deslizaram por
ela e voltaram. Starling fora treinada para registrar anomalias e já a retirara pela metade quando olhou para a folha.
Era azul, de um material semelhante a mata-borrão, e a
figura nele gravada era uma crua imitação do cão Pluto
dos desenhos animados. As pequenas fiadas de cães pareciam-se com Pluto, tinham a cor amarela adequada, ma
suas proporções não eram exatamente corretas.
— Catherine, Catherine! — resmungou Starling.
Apanhou um par de pinças na sua bolsa e usou-as para
enfiar a folha de papel colorido num envelope plástico
que deixou provisoriamente em cima da cama.
A caixa de jóias sobre a penteadeira era de couro
lavrado, do tipo que se vê em todo dormitório de moças.


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As duas gavetas em frente e a tampa articulada continham
jóias de fantasia, nenhum peça de valor. Starling ficou
pensando se as coisas melhores teriam estado alguma vez
no repolho de borracha do refrigerador e, se assim fosse,
quem as levara.
Enfiou um dedo debaixo da tampa e soltou a gaveta secreta na parte de trás da caixa de jóias. A gaveta secreta estava vazia. Ficou pensando se havia alguém para
quem essas gavetas fossem mesmo um segredo — certamente não para os ladrões. Estava recolocando a peça na
parte traseira da caixa quando seus dedos tocaram num
envelope preso com fita adesiva debaixo da gaveta secreta.
Starling enfiou um par de luvas de algodão e virou a
caixa de jóias; puxou a gaveta vazia e a inverteu. No fundo, com fita adesiva, estava preso um envelope marrom.
A aba do envelope estava apenas enfiada para dentro, não
colada. Aproximou o envelope do nariz; não fora tratado
com fumaça para detectar impressões digitais. Starling usou uma pinça para abri-lo e retirar o conteúdo. Havia
cinco fotografias de Polaroid no envelope e Starling tirouas uma a uma. As fotos eram de um homem e uma mulher copulando, mas não apareciam os rostos. Duas das
fotos tinham sido tiradas pela mulher, duas pelo homem e
uma parecia ter sido tirada com o tripé posto em cima da
mesinha-de-cabeceira.
Era difícil julgar a escala numa fotografia, mas com
aqueles espetaculares 65 quilos num corpo grande, a mulher devia ser Catherine Martin e o homem usava o que
parecia ser um anel de marfim trabalhado em seu pênis. A
granulação da fotografia não era bastante boa para revelar
os detalhes do anel. O homem sofrera uma operação de
apendicectomia. Starling colocou cada uma das fotos num


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envelope de sanduíche e depois as reuniu em seu próprio
envelope marrom. Devolveu a gaveta à caixa de jóias.
— As jóias boas estão na minha bolsa — disse uma
voz atrás dela. — Penso que nada foi roubado.
Starling viu-a pelo espelho. A senadora Ruth Martin
estava na porta do quarto. Parecia esgotada.
Starling virou-se.
— Alô, senadora Martin. Gostara de deitar-se para
descansar? Estou quase terminando.
Mesmo exausta, a senadora Martin tinha um bocado de presença. Debaixo da sua aparência bem-cuidada
Starling via uma lutadora.
— Quem é você, por favor? Pensei que a polícia tivesse terminado por aqui.
— Sou Clarice Starling, do FBI. A senhora falou
com o Dr. Lecter, senadora Martin?
— Ele me deu um nome. — A senadora Martin acendeu um cigarro e examinou Starling dos pés à cabeça.
— Vamos ver o que isso vale. E o que foi que a senhora
encontrou na caixa de jóias, policial Starling? Tem algum
valor?
— Alguns documentos que poderemos verificar
dentro de alguns minutos — foi o melhor que Starling
pôde responder.
— Na caixa de jóias da minha filha? Deixe-me vêlos.
Starling ouviu vozes no quarto ao lado e teve a esperança de alguma interrupção.
— O Sr. Copley está com a senhora, o agente especial em Memphis do...
— Não, não está, e você não me deu uma resposta.
Não se ofenda, policial Starling, mas quero ver o que tirou


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da caixa de jóias da minha filha. — Virou a cabeça e chamou, sobre o ombro: Paul, Paul, quer vir aqui? Policial
Starling, a senhora talvez conheça o Sr. Krendler do Ministério da Justiça. Paul, esta é a moça que Jack Crawford
mandou falar com Lecter.
A meia calva de Krendler estava queimada de sol;
aos 40 anos, era um tipo elegante.
— Sr. Krendler, sei quem o senhor é. Alô! — saudou Starling.
Divisão Criminal do Ministério da Justiça, ligação
com o congresso, quebrador de galhos, pelo menos Assistente do Promotor Geral. Jesus Cristo, tende piedade de
mim!
— A policial Starling encontrou qualquer coisa na
caixa de jóias de minha filha e a pôs em seu envelope.
Penso que é melhor examinarmos do que se trata, não
acha?
— Policial... — começou Krendler.
— Posso falar com o senhor, Sr. Krendler?
— Por certo que pode. Mais tarde. — E estendeu a
mão.
O rosto de Starling ardia. Ela sabia que a senadora
Martin estava descontrolada, mas nunca perdoaria Krendler pela dúvida que viu em seu rosto. Nunca.
— Eis aí o que quer — disse Starling, e entregoulhe o envelope.
Krendler olhou para a primeira das fotos e já tinha
fechado a envelope quando a senadora Martin o tirou de
suas mãos.
Foi doloroso vê-la examinar as fotos. Quando acabou, aproximou-se da janela e ficou com o rosto voltado


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para o céu encoberto, os olhos fechados. Parecia velha à
luz do dia e sua mão tremia quando tentou fumar.
— Senadora, eu... — ensaiou Krendler.
— A polícia vasculhou este quarto — disse a senadora Martin. — Estou certa de que encontraram estas fotos e tiveram senso bastante para pô-las de volta e calar a
boca.
— Não, eles não as acharam — exclamou
Starling. A mulher estava magoada, mas que diabo!
— Senadora Martin, precisamos saber quem é esse
homem, entenda isso. Se for o namorado dela, muito
bem. Eu posso descobrir em cinco minutos. Ninguém
precisa ver essas fotos e Catherine nunca precisará saber
que as vimos.
— Eu me encarrego disso. — A senadora Martin
pôs o envelope na sua bolsa e Krendler não a impediu.
— Senadora: a senhora tirou as jóias do repolho de
borracha na geladeira? — perguntou Starling.
O assistente da senadora Martin, Brian Gossage,
enfiou a cabeça na porta.
— Desculpe-me, senadora, eles acabaram de montar o terminal. Nós poderemos vê-los pesquisando o nome de William Rubin no FBI.
— Vá para lá, senadora Martin — aconselhou
Krendler. Sigo-a em um segundo.
Ruth Martin saiu do quarto sem responder à pergunta de Starling.
Starling teve a oportunidade de examinar Krendler
enquanto ele se ocupava em fechar a porta do quarto. Sua
roupa era um triunfo de arte da costura masculina e ele
não estava armado. O brilho desaparecera da metade infe-


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rior dos saltos dos sapatos de tanto andar sobre tapetes de
pêlo alto, e suas bordas eram bicudas.
Ele ficou por um momento com a mão na maçaneta da porta, a cabeça arriada.
— Bela pesquisa, a que você fez — admoestou, fitando-a.
Starling não podia deixar-se amesquinhar dessa
forma. Encarou-o nos olhos, firme.
— Treinam o pessoal para buscas minuciosas em
Quântico — reforçou Krendler.
— Não preparam ladrões.
— Eu sei disso.
— Custo a acreditar que saiba mesmo.
— Bem, esqueça!
— Vamos prosseguir investigando as fotos e o repolho de borracha, está de acordo? — perguntou ela.
— Sim.
— E que história é essa do nome William Rubin,
Sr. Krendler?
— Lecter diz que é o nome de Buffalo Bill. Aqui
está nossa transmissão para o departamento de identificação e para o CNIC, (Centro Nacional de Informações sobre Crimes). Dê uma olhada. — Entregou-lhe uma transcrição da entrevista de Lecter com a senadora Martin, cópia meio confusa devido à impressão com uma matriz
pontilhada.
— Algum comentário? — perguntou, assim que
Starling acabou de ler.
— Não há nada aqui que ele jamais tenha que engolir de volta — comentou Starling. — ele diz que é um
homem branco chamado Billy Rubin, que teve um antraz.
Ninguém poderia pegá-lo numa mentira, aconteça o que


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acontecer. Na pior das hipóteses, ele se teria enganado.
Espero que seja verdade, mas ele pode estar se divertindo
com a senadora, Sr. Krendler. Ele é perfeitamente capaz
disso. O senhor alguma vez... o viu?
Krendler sacudiu a cabeça negativamente e deu
uma fungada pelo nariz.
— Ao que consta, o Dr. Lecter matou nove pessoas. Não tem nenhuma chance. Ele podaria ressuscitar os
mortos e não o poriam em liberdade. Então, tudo o que
lhe resta é divertir-se. Por isso é que nós o vínhamos explorando...
— Sei como vocês o estavam trabalhando. Ouvi a
fita gravada de Chilton. Não digo que era errado, mas agora acabou. A Ciência do Comportamento pode continuar
investigando o que você desencavou — o ângulo transexual — para ver se vale algo. E você voltará para a escola
em Quântico amanhã.
— Essa não!
— Eu descobri algo mais.
A folha de papel colorido ficara em cima da cama,
despercebida. Apanhou-a e entregou-a a Krendler.
— O que é isto?
— Parece uma folha cheia de Plutos.
Ela o fez ficar ainda mais curioso. Ele agitou os dedos, exigindo a informação.
— Estou bastante segura de que é ácido de mataborrão. LSD. Talvez da metade da década de 70 ou antes.
Agora é uma curiosidade. Valerá a pena descobrir onde ela
o conseguiu. Devemos testá-lo para estar seguros.
— Você poderá levá-lo de volta para Washington e
entregá-lo ao laboratório. Você vai partir dentro de alguns
minutos.


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— Se o senhor não quiser esperar poderemos testar
agora com um aparelho de campo. Se a polícia tiver o kit
padrão de identificação de narcóticos, é o tese J, leva dois
segundos, e poderemos...
— De volta para Washington, de volta para a escola — exigiu ele, abrindo a porta.
— O Sr. Crawford instruiu-me...
— Suas instruções agora são o que estou lhe dizendo. Você não está mais sob as ordens de Jack Crawford.
Vai ficar sob a mesma supervisão que qualquer estagiário
de agora em diante e sua obrigação vai ser cumprida em
Quântico, está me entendendo? Há um avião às duas e
vinte. Embarcará nele.
— Sr. Krendler, o Dr. Lecter falou comigo depois
de haver-se recusado a falar com a polícia de Baltimore.
Ele poderá fazer isso de novo. O Sr. Crawford acredita...
Krendler fechou de novo a porta, agora com mais
violência do que antes.
— Policial Starling, não tenho que dar-lhe explicações, mas escute-me. A Ciência do Comportamento é um
serviço de aconselhamento, sempre foi e voltará a sê-lo.
Jack Crawford deveria, de qualquer maneira, estar de licença por doença em pessoa da família. Me surpreende
que tenha sido tão eficiente, nessas circunstâncias. Ele assumiu um risco tolo agindo assim, escondendo tudo da
senadora Martin e acabou queimando o rabo. Com a folha
de serviços que tem, tão perto da aposentadoria, nem ela
poderá prejudicá-lo muito. Portanto eu não me preocuparia com a pensão dele, se fosse você.
Starling ficou um pouco perturbada.
— O senhor tem mais alguém que pegou três assassinos em série? O senhor conhece alguém que tenha


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apanhado um? O senhor não devia deixar a senadora cuidar disso, Sr. Krendler.
— Presumo que seja uma garota brilhante, ou
Crawford não se ocuparia com você, de modo que vou
dizer-lhe uma coisa: tome cuidado com essa sua língua ou
ela acabará colocando-a na turma das datilógrafas... Procure entender: a única razão pela qual você foi mandada para
Lecter a princípio foi para conseguir algumas notícias para
o seu diretor usar no Congresso. Coisas sem importância
sobre crimes, algo de novo sobre o Dr. Lecter, ele manuseia com essas coisas como quem distribui balas para crianças enquanto tenta fazer aprovar o orçamento do seu
serviço. Os congressistas engolem isso, jantam uma coisa
dessas. Você saiu da sua rota, policial Starling, e agora está
fora deste caso. Eu sei que você tem uma identificação
suplementar. Devolva-me.
— Eu preciso dessa ID para portar a arma no avião. Ela pertence a Quântico.
— Uma arma! Jesus Cristo! Entregue a ID tão logo
estiver de volta.
A senadora Martin, Gossage, um técnico e vários
policiais estavam reunidos em volta de um terminal de
vídeo com um modem ligado ao telefone. O NCIC mantinha por uma linha reservada um relato contínuo do progresso à medida que as informações do Dr. Lecter eram
processadas em Washington. Agora chegavam notícias
dos centros nacionais de controle de doenças em Atlanta:
o antraz devido a marfim de elefante é contraído quando
se aspira o pó do polimento de marfim africano, usualmente para a confecção de cabos de talheres decorativos.
Nos Estados Unidos é uma doença dos cuteleiros.


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Ao ouvir a palavra “cuteleiros” a senadora Martin
fechou os olhos, que estavam vermelhos e secos; ao mesmo tempo apertou o lenço Kleenex em sua mão.
O jovem miliciano que deixara Starling entrar no
apartamento vinha trazendo uma xícara de café para a senadora. Ainda mantinha o chapéu na cabeça.
Starling se danava mas não ia sair escondida. Parou
diante da senadora Martin e disse:
— Boa sorte, senadora. Espero que Catherine esteja bem.
A senadora Martin inclinou a cabeça sem olhar para
ela. Krendler apressou Starling, instando-a a sair.
— Eu não sabia que não lhe era permitido estar
aqui — disse o jovem miliciano quando ela saiu do quarto.
Krendler acompanhou-a até o lado de fora.
— Tenho muito respeito por Jack Crawford —
despediu-se ele. — Por favor, diga-lhe como todos nos
sentimos acerca... do problema de Bella, e tudo mais. Agora, de volta à escola e cuide de você, O.K.?
— Adeus, Sr. Krendler.
E então ela se viu sozinha no estacionamento, com
a desesperadora sensação de que nada compreendia deste
mundo.
Ficou observando um pombo que andava por baixo das casas rebocadas e dos barcos. O pombo pegou
uma casca de amendoim e largou-a de novo. O vento úmido arrepiou-lhe as penas.
Starling desejava poder falar com Crawford. Desperdício e estupidez levam-lhe a melhor — fora o que ele
dissera. Enfrente esta situação, isso a enrijecerá. Esse é o
teste mais duro — não deixar que a raiva e a frustração


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impeçam de pensar. Esta é a prova para saber se você pode comandar ou não.
Ela pouco ligava agora para o comando. Descobrira
que não valia uma merda, e não ligava porra nenhuma para a questão de ser a agente especial Starling. Não se as
coisas funcionavam daquela maneira.
Pensou na pobre da pequena gorda, triste e morta
que vira na mesa na Casa Funerária em Potter, West Virgínia. Fazia suas unhas brilharem como essa droga desses
barcos vermelhos de esquiar.
Qual era o nome dela? Kimberly.
Que eu me dane se esses merdas vão me ver chorar.
Jesus! Todo mundo se chama Kimberly, na classe
dela havia quatro. Três camaradas chamados Sean. Kimberly, com seu nome de novela de rádio, tentava arrumarse, fizera todos aqueles furos nas orelhas para se enfeitar,
tentando ficar bonita. E Buffalo Bill dera uma olhada para
seus peitos grandes e chatos, enfiara o cano de uma arma
entre eles, deixando uma estrela-do-mar em seu tórax.
Kimberly, sua triste e gorda irmã que depilava as pernas
com cera. Não era de espantar — julgando por suas pernas e braços, por seu rosto, a pele era seu melhor atributo.
Kimberly, você está em algum lugar, zangada? Não há nenhum senador procurando por ela. Não há aviões a jato
carregando homens loucos para toda parte. Loucos era
uma palavra que ninguém atribuiria a ela. Uma porção de
coisas jamais atribuiriam a ela... Homens loucos.
Starling consultou seu relógio. Tinha uma hora e
meia para o avião e havia ainda uma coisinha que ela podia fazer. Queria observar a cara do Dr. Lecter quando ele
dissesse “Billy Rubin”. Se pudesse encarar aqueles estra-


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nhos olhos por tempo bastante, se pudesse olhar para o
fundo onde as negras pupilas absorvem os raios, conseguiria ver algo útil.
Graças a Deus ainda tenho minha identificação.
Quando saiu do estacionamento, deixou no chão
um risco de borracha com três metros de comprimento.


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CAPÍTULO 35
Clarice Starling dirigia depressa no perigoso tráfego
de Memphis, levando duas lágrimas de raiva secas em seu
rosto. Sentia-se estranhamente aérea e livre agora. Uma
claridade que não era natural na sua visão advertia-a de
que estava inclinada a lutar, de forma que precisava tomar
cuidado consigo mesma.
Havia passado pelo velho foro mais cedo, quando
viera do aeroporto, e não teve dificuldades para encontrálo de novo.
As autoridades de Tennessee não estavam se arriscando com Hannibal Lecter. Pretendiam mantê-lo seguro
sem o sujeitar aos perigos da cadeia da cidade.
A resposta que encontraram foi a antiga corte de
justiça e prisão, uma estrutura maciça em estilo gótico,
construída com granito na época em que a mão-de-obra
era grátis. Era agora um edifício de escritórios estatais no
centro, de certa maneira super-restaurado nessa cidade
próspera e consciente da sua história.
Hoje ela parecia uma fortificação medieval cercada
pela polícia.
Uma mistura de carros de agentes da lei — patrulha
rodoviária, departamento de xerife do condado de Shelby.
Escritório de Investigações do Tennessee, e Departamento Correcional — atulhavam o estacionamento. Havia um
posto de polícia a atravessar antes que Starling pudesse
entrar no estacionamento com seu carro alugado.
O Dr. Lecter impunha um problema adicional de
segurança externa. Telefonemas ameaçadores continuavam a chegar desde que o noticiário da manhã divulgara


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sua localização; suas vítimas tinham muitos amigos e parentes que gostariam de vê-lo morto.
Starling torcia para que o agente do FBI não estivesse por ali. Ela não queria envolver Copley em dificuldades.
Viu a nuca de Chilton rodeada por um batalhão de
repórteres no gramado diante da escadaria principal. No
meio da multidão havia duas minicâmaras de TV. Starling
gostaria de ter qualquer coisa para cobrir a cabeça. Virou o
rosto para o outro lado quando se aproximou da entrada.
Um miliciano estadual estacionado em frente à porta examinou sua ID antes de deixá-la entrar no vestíbulo,
que parecia agora uma casa de guarda. Havia um policial
da cidade parado em frente ao único elevador da torre e
outro nas escadas. Milicianos estaduais, o pessoal que ia
render as unidades de patrulha estacionadas em torno do
prédio, liam o Commercial Appeal em poltronas onde o
público não podia vê-los.
Um sargento guarnecia a mesa do lado oposto ao
elevador. Sua placa dizia: TATE, C.L.
— Nada de imprensa — avisou ele quando viu
Starling.
— Não sou da imprensa — respondeu ela.
— Está com o pessoal do Promotor Público? —
perguntou o sargento, olhando para o cartão dela.
— Com o assistente do Promotor Público Krendler
— respondeu. — Acabo de deixá-lo.
O sargento fez que sim com a cabeça.
— Temos tido toda espécie de tiras do oeste do
Tennessee querendo dar uma olhada no Dr. Lecter. Não
se vê uma coisa como essa muito comumente, graças a
Deus. Você precisa falar com o Dr. Chilton antes de subir.


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— Falei com ele ao chegar — assegurou Starling.
— Estivemos trabalhando neste caso em Baltimore hoje
cedo. É aqui que eu me registro, sargento Tate?
O sargento correu a língua pelos dentes antes de
responder.
— Aí mesmo — disse ele. — Regras de detenção,
senhorita. Visitantes devem deixar as armas, policiais ou
não.
Starling anuiu com a cabeça. Despejou os cartuchos
de sua arma, o sargento satisfeito ao ver como ela a manejava. Entregou-a com a empunhadura para a frente e ele a
guardou em sua gaveta.
— Vernon, leve-a para cima. — Discou três números e pronunciou o nome dela no fone.
O elevador, que fora adicionado depois da década
de 20, gemeu até o andar do topo. Abria-se para um patamar de escadas e um curto corredor.
— Bem em frente do outro lado, madame — instruiu o miliciano.
Pintado no vidro fosco da porta lia-se: SOCIEDADE HISTÓRICA DO CONDADO DE SHELBY.
Quase todo o andar superior da torre consistia em
uma sala octogonal pintada de branco, com o piso e as
molduras de carvalho polido. Cheirava a cera e cola de
biblioteca. Com seus parcos móveis, a sala tinha o aspecto
severo de uma igreja congregacional. Possuía agora uma
aparência melhor do que quando fora o escritório do bailio.
Dois homens com o uniforme do Departamento
Correcional do Tennessee estavam de serviço. O menor
levantou-se de sua mesa quando Starling entrou. O mais
alto continuou sentado numa cadeira de dobrar no canto


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mais afastado da sala, de frente para a porta de uma cela.
Era o guarda-suicida.
— A senhora está autorizada a falar com o prisioneiro, madame? — perguntou o policial à mesa. Sua placa
dizia: PEMBRY, T.W., e na mesa viam-se um telefone,
dois bastões de motim e um Mace químico. Uma comprida haste com um laço de corda estava de pé no canto atrás
dele.
— Sim, estou — garantiu Starling. — Já o interroguei antes.
— Conhece as regras? Não ultrapasse a barreira.
— Certamente.
A única coisa colorida na sala era uma barreira de
tráfego da polícia, um cavalete com faixas brilhantes em
laranja e amarelo montado com luzes pisca-pisca amarelas,
agora desligadas. O cavalete estava no chão, a um metro e
meio da porta da cela. Num cabide próximo estavam as
coisas do doutor — a máscara de hóquei e algo que Starling nunca vira antes, um colete de galés de Kansas. Feito
de couro pesado, com algemas de dupla fechadura presas
no peito e fivelas nas costas, talvez seja o mais infalível
dispositivo de segurança do mundo. A máscara e o colete
preto suspenso pela gola no cabide de pé formavam uma
perturbadora composição de encontro à parede branca.
Starling pôde ver o Dr. Lecter quando se aproximou da cela. Ele estava lendo junto a uma pequena mesa
aparafusada no chão, de costas para a porta. Ele tinha um
certo número de livros e a cópia da pasta atualizada sobre
Buffalo Bill que ela lhe havia entregado em Baltimore. Um
pequeno gravador do tipo cassete estava acorrentado ao
pé da mesa. Tão estranho vê-lo fora do asilo.


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Starling tinha visto celas como essa antes, quando
criança. Eram pré-fabricadas por uma companhia de St.
Louis por volta do inicio do século e ninguém mais as
construíra melhor — uma gaiola modular de aço temperado que transforma qualquer quarto numa cela. O chão
era de chapas de aço e as paredes e o teto de barras de aço
forjadas a frio cercavam a cela por completo. Não havia
janelas, mas o recinto era totalmente branco e bem iluminado. Um leve biombo de papel ficava em frente ao toalete.
Essas barras brancas formavam costelas nas paredes. O Dr. Lecter tinha uma cabeça fina e escura.
Ele é um vison de cemitério. Vive numa gaiola de
costelas nas folhas secas de um coração.
Ela afastou aquela idéia da cabeça.
— Bom dia, Clarice — saudou ele sem se voltar.
Terminou de ler a página, marcou-a e rodou na cadeira
para encará-la, com os antebraços nas costas da cadeira e
o queixo apoiado neles. — Dumas conta-nos que juntar
um corvo à sopa no outono, quando o corvo está gordo
de tanto comer as frutinhas do zimbro, melhora muito a
cor e o gosto da beberagem. Você gostaria de um corvo
na sua sopa, Clarice?
— Andei pensando que o senhor desejaria seus desenhos, as coisas que estavam na sua cela, até conseguir
sua janela com uma vista.
— Como você é atenciosa. O Dr. Chilton está eufórico porque você e Jack Crawford foram afastados do
caso. Ou será que eles a mandaram para um último esforço de engambelar-me?


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O policial que estava no posto suicida tinha ido falar com o policial Pembry. Starling torcia para que não
pudessem ouvi-los.
— Eles não me mandaram. Eu vim por conta própria.
— As pessoas vão dizer que temos um romance.
Você não quer perguntar sobre Billy Rubin, Clarice?
— Dr. Lecter, sem... de qualquer forma... pôr em
dúvida o que o senhor disse à senadora Martin, o senhor
me aconselharia a prosseguir na sua idéia acerca...
— Pôr em dúvida... Adorei. Eu não aconselharia
você de forma alguma. Você tentou enganar-me, Clarice.
Você pensa que estou brincando com essa gente?
— Acho que o senhor estava me dizendo a verdade.
— É uma pena que vocês tenham tentado me enganar, não é? — A cabeça do Dr. Lecter mergulhou em
seus braços até que somente seus olhos eram visíveis. —
E é uma pena que Catherine Martin jamais verá de novo a
luz do sol. O sol é um colchão de fogo onde o Deus dela
morreu, Clarice.
— É uma pena também que o senhor tenha agora
que ser um alcoviteiro e lamber algumas lágrimas quando
pode... — disse Starling. — É uma pena não termos acabado o que estávamos conversando. Sua idéia de uma imago, de sua estrutura, tinha uma espécie de... elegância
da qual é difícil livrar-se. Agora é como uma ruína, a metade de um arco ainda em pé.
— A metade de um arco não fica em pé. E por falarem arcos, eles ainda vão deixar você patrulhar, Clarice?
Tiraram seu distintivo?
— Não.


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— O que é isso embaixo da sua jaqueta, um relógio
de vigia como o do papai?
— Não, é um carregador rápido.
— Quer dizer que anda armada?
— Ando.
— Então você deveria alargar seu casaco. Você
costura?
— Sim.
— Foi você quem fez esse costume?
— Não, Dr. Lecter: o senhor descobre tudo. O senhor não pode ter falado intimamente com esse Billy Rubin e sair da entrevista sabendo tão pouco sobre ele.
— Você acha que não?
— Se o senhor o conheceu, então sabe tudo. Mas
hoje o senhor pareceu lembrar apenas de um detalhe. Que
ele teve um antraz devido a marfim de elefante. O senhor
deveria tê-los visto pularem quando Atlanta informou que
é uma doença de cuteleiros. Eles engoliram, exatamente
como o senhor sabia que iriam fazer. O senhor deveria ter
alugado uma suíte no Peabody para esse fim. Dr. Lecter,
se o senhor o conheceu, sabe mais a respeito dele. Penso
que o senhor não se encontrou com ele, só Raspail contou-lhe a seu respeito. Coisa de segunda mão não venderia
tão bem para a senadora Martin, não é?
Starling olhou por sobre o ombro para os milicianos. Um deles mostrava ao outro algo na revista Guns &
Ammo.
— O senhor tinha algo mais para contar-me em
Baltimore, Dr. Lecter. Acredito que o que me disse era
válido. Diga-me o resto.
— Eu li os casos, Clarice; você leu? Tudo o que
precisa para encontrá-lo está ali, se você prestar atenção.


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Até Crawford o Inspetor Emérito deveria tê-lo descoberto. Incidentalmente, você leu o estupidificante discurso de
Crawford no ano passado na Academia Nacional de Polícia? Falando pomposamente sobre Marco Aurélio acerca
do dever, da honra e da fortaleza? Veremos que espécie de
estóico Crawford é quando Bella bater as botas. Ele copia
sua filosofia do Bartlett’s Familiar, segundo creio. Se ele
tivesse entendido Marco Aurélio, poderia resolver este
caso.
— Diga-me como.
— Quando você mostra essa estranha inteligência
contextual, eu perdôo sua geração por não saber ler, Clarice. O Imperador aconselha a simplicidade. Princípios primários. Sobre cada coisa particular pergunte: o que ela é
em si mesma, em sua própria constituição? Qual é sua natureza casual?
— Isso para mim nada significa.
— O que é que ele faz, o homem que você procura?
— Ele mata...
— Ah!... — fez Lecter vivamente, virando de lado
seu rosto por um momento, desgostoso pela cabeça dura
dela. — Isso é incidental. Qual é a primeira e a principal
coisa que ele faz, a que necessidade ele atende quando mata?
— Ódio, ressentimento social, frustração sexual...
— Não.
— O quê, então?
— Ele cobiça. Ele ambiciona, de fato, ser exatamente o que você é. É da natureza dele cobiçar. Como é
que nós começamos a ter ambições, Clarice? Nós procu-


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ramos as coisas para cobiçar? Faça um esforço para responder.
— Não. Nós apenas...
— Não. Precisamente isso. Nós começamos ambicionando aquilo que vemos diariamente. Você não sente
olhares correndo sobre você todos os dias, Clarice, em
encontros casuais? Dificilmente posso crer que você não
os sinta. E seus olhos não correm sobre coisas?
— Muito bem. Diga-me como...
— É a sua vez de dizer para mim, Clarice. Você
não tem mais férias na praia para me oferecer na Estação
de Febre Aftosa. Daqui para diante é estritamente na base
do quid pro quo. Tenho que ser cuidadoso tratando de
negócios com você, Clarice. Conte-me, Clarice.
— Contar-lhe o quê?
— As duas coisas que você me deve de antes. O
que aconteceu com você e o cavalo, e o que você faz com
sua raiva.
— Dr. Lecter, quando tivermos tempo eu...
— Nós não calculamos o tempo da mesma forma,
Clarice. Isto é todo o tempo que você jamais terá.
— Mais tarde. Escute, eu...
— Eu escutarei agora. Dois anos depois da morte
de seu pai, sua mãe mandou-a viver com sua prima e o
marido num rancho em Montava. Você tinha dez anos de
idade. Você descobriu que eles alimentavam cavalos para
vender a carne. Você fugiu com um cavalo que não podia
enxergar muito bem. E...?
— Era verão e a gente podia dormir ao relento.
Chegamos até Bozeman por uma estrada interior.
— O cavalo tinha um nome?


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— Provavelmente, mas eles não... você não liga para essas coisas quando está alimentando cavalos para carneá-los. Eu a chamava de Hannah, parecia-me um bom
nome.
— Você ia montada nela ou a puxava?
— Uma coisa e outra. Eu tinha que encostá-la numa cerca para poder montá-la.
— Você cavalgou e andou até Bozeman.
— Havia uma estrebaria, um rancho de cavalos,
uma espécie de academia de montaria nos arredores da
cidade. Tentei ver se queriam ficar com ela. Custava 20
dólares por semana no curral. Mais ainda se fosse para
uma cocheira. Logo descobriram que ela não podia enxergar. Eu disse O.K., eu a conduziria para dar umas voltas e
as crianças pequenas podiam montá-la enquanto os pais
estavam tomando lições de equitação. Eu poderia ficar
por ali e limpar as cocheiras. Um dos dois, o homem,
concordou com tudo o que eu dizia enquanto a mulher foi
chamar o xerife.
— O xerife era um policial, como seu pai.
— Isso não impediu que eu, a princípio, ficasse
com medo dele. Ele tinha o rosto vermelho, grande e redondo. Finalmente pagou 20 dólares para a estada minha
e do cavalo enquanto resolvi as coisas. Disse que não valia
a pena alugar uma cocheira enquanto o tempo estava
quente. Os jornais souberam da história. Houve um falatório. A mulher de meu primo concordou em deixar-me ir
embora. Acabei indo para a Casa Luterana em Bozeman.
— É um orfanato?
— Sim.
— E Hannah?


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— Ela foi para lá também. Um grande fazendeiro
luterano entrava com o feno. Eles já tinham um estábulo
no orfanato. Arávamos a horta com ela. No entanto, você
tinha que observar para onde ela ia. Atravessava as treliças
de ervilha e pisava em qualquer espécie de planta baixa
demais para ela senti-la contra suas pernas. E nós também
a puxávamos passeando com uma porção de criança num
carro.
— Ela morreu, entretanto.
— Bem, sim.
— Conte-me sobre isto.
— Foi no ano passado, segundo me escreveram para a escola Achavam que ela tinha 22 anos. Puxou o carro
cheio de criança até o último dia de sua vida e morreu
dormindo.
O Dr. Lecter pareceu desapontado.
— Que comovente! — zombou ele. — Seu pai adotivo em Montana fodeu você?
— Não.
— Ele tentou?
— Não.
— O que fez você fugir com o cavalo?
— Eles iam matá-la.
— Você sabia quando?
— Não exatamente. Ficava preocupada com isso
todo o tempo. Ela estava engordando muito.
— O que foi então que a fez tomar aquela decisão?
O que fez você decidir-se naquele dia em particular?
— Não sei.
— Penso que você sabe.
— Eu me preocupava todo o tempo.


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— O que fez você resolver-se, Clarice? Você partiu
a que horas?
— Cedo. Ainda estava escuro.
— Então alguma coisa acordou você. O que a acordou? Algum sonho? O que foi?
— Acordei e ouvi as ovelhas balindo. Acordei no
escuro e as ovelhas estavam balindo.
— Eles estavam matando as ovelhas novas?
— Sim.
— O que você fez?
— Eu nada podia fazer por elas. Era apenas uma...
— O que você fez com o cavalo?
— Vesti-me sem acender a luz e saí. Hannah estava
assustada. Todos os cavalos no curral estavam assustados
e indóceis. Soprei no nariz dela e ela sabia que era eu. Finalmente colocou o focinho em minha mão. As luzes estavam acesas no galpão e na coberta junto ao cercado das
ovelhas. Lâmpadas nuas projetavam grandes sombras. O
caminhão frigorífico viera e o motor roncava, funcionando. Eu levei-a para fora.
— Colocou-lhe uma sela?
— Não; não levei a sela deles. Apenas um cabresto
e uma guia.
— E quando você partiu no escuro, podia ouvir as
ovelhas onde as luzes estavam acesas?
— Não as ouvi mais. Eram apenas doze.
— Você ainda acorda algumas vezes, não? Acorda
no escuro com as ovelhas balindo?
— Às vezes.
— Você pensa que se pegasse Buffalo Bill, se conseguisse salvar Catherine, poderia fazer as ovelhas pararem de balir, você pensa que elas também seriam salvas e


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você não acordaria de novo no escuro para ouvir seus lamentos, Clarice?
— Sim... Não sei... Talvez...
— Obrigado, Clarice. — O Dr. Lecter parecia estranhamente em paz.
— Diga-me o nome dele, Dr. Lecter — pediu Starling.
— Dr. Chilton — disse subitamente Lecter —
,creio que vocês já se conhecem...
Por um momento Starling não compreendeu que
Chilton estava atrás dela. Então ele a segurou pelo cotovelo.
Ela soltou-se da mão dele. O policial Pembry e seu
colega grandalhão estavam com Chilton.
— Para o elevador — comandou Chilton. Seu rosto estava cheio de manchas vermelhas.
— Você sabe que o Dr. Chilton não tem diploma
de médico? — perguntou o Dr. Lecter. — Guarde isto na
sua mente para mais tarde...
— Vamos! — gritou Chilton.
— O senhor não é o encarregado aqui, Dr. Chilton
— protestou Starling.
O policial Pembry saiu de trás de Chilton.
— Não, madame, mas eu sou. Ele telefonou ao
meu chefe e ao seu também. Desculpe-me, mas tenho ordens para levá-la daqui. Portanto, venha comigo.
— Adeus, Clarice. Você me comunicará se as ovelhas algum dia deixarem de gemer?
— Sim.
Pembry estava pegando o braço dela. Era ir ou lutar.
— Sim — prometeu ela — , eu lhe avisarei.


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— É uma promessa?
— Sim.
— Então por que não terminar o arco? Leve sua
pasta sobre o caso com você, Clarice. Não preciso mais
dela. — Estendeu-lhe a pasta por entre as barras com o
braço esticado, o dedo indicador na lombada. Ela esticouse por cima da barreira e agarrou-a. Por um instante a
ponta do seu dedo tocou o do Dr. Lecter. Aquele toque
refletiu-se nos olhos dele.
— Obrigado, Clarice.
— Obrigada, Dr. Lecter.
E assim ficou ele na memória de Clarice. Flagrado
no instante em que não estava zombando. De pé em sua
cela branca, dobrado para a frente como um bailarino, as
mãos entrelaçadas à sua frente, a cabeça ligeiramente de
lado.
Ela passou por cima de um obstáculo no aeroporto
com velocidade bastante para bater com a cabeça de encontro ao teto do carro e teve que correr para alcançar o
avião que Krendler a mandara pegar.


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CAPÍTULO 36
Os policiais Pembry e Boyle eram homens experientes, trazidos especialmente da Prisão Estadual de Brushy Mountain para serem os guardas do Dr. Lecter.Calmos e corajosos, não achavam que seu serviço precisava ser-lhes explicado pelo Dr. Chilton.
Haviam chegado a Memphis antes de Lecter e examinado a cela minuciosamente. Quando o Dr. Lecter
foi trazido para o velho foro, examinaram-no da mesma
forma. Ele foi submetido a uma pesquisa do corpo por
um enfermeiro enquanto ainda estava imobilizado. Sua
roupa foi examinada cuidadosamente e um detector de
metal passado sobre as costuras.
Boyle e Pembry chegaram a um acordo com ele, falando em voz baixa e em tom educado junto a seus ouvidos enquanto era examinado.
— Dr. Lecter, poderemos dar-nos muito bem. Nós
o trataremos tão bem quanto o senhor nos tratar. Aja como um cavalheiro e o senhor será tratado a pão-de-ló.
Mas não pretendemos empregar luvas de pelica. Tente
morder e deixaremos sua boca sem um dente. Parece que
aqui estão lhe arranjando algo de bom. O senhor não deseja estragar tudo, não é?
O Dr. Lecter piscou os olhos para eles de um modo amável. Se estivesse inclinado a responder, não poderia
tê-lo feito impedido por um toco de madeira injetado entre seus molares enquanto o enfermeiro lhe enfiava uma
lanterna elétrica na boca e corria um dedo enluvado por
suas bochechas.


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O detector de metal deu um sinal ao passar por suas bochechas.
— O que é isso? — perguntou o enfermeiro —
Obturações — contestou Pembry. — Puxe os lábios dele
para trás. O senhor gastou bem os seus dentes de trás, não
foi, doutor?
— Tenho a impressão de que ele é um cara muito
acabado — confidenciou Boyle a Pembry depois que deixaram o Dr. Lecter seguro em sua cela. — Não irá causarnos dificuldades se não perder a calma.
A cela, embora segura e resistente, não dispunha de
um transportador deslizaste de comida. Na hora do almoço, na desagradável atmosfera que se seguiu à visita de
Starling, o Dr. Chilton incomodou todo mundo, obrigando Pembry e Boyle ao longo processo de imobilizarem o
Dr. Lecter na camisa-de-força e restrição das pernas. Ele
não ofereceu resistência, voltado de costas para as barras,
enquanto o Dr. Chilton fazia pose com a Mace antes de
abrirem a porta para lhe entregarem a bandeja de comida.
Chilton recusava-se a pronunciar os nomes de Boyle e Pembry, embora eles tivessem etiquetas citando-os, e
dirigia-se a eles indiscriminadamente como “você aí!”.
Da parte deles, depois que ouviram dizer que Chilton não era realmente um médico, Boyle observou a
Pembry que “ele era um porra duma espécie de mestreescola”.
Pembry tentou uma vez explicar a Chilton que a visita de Starling fora aprovada não por eles, mas pelo pessoal lá debaixo, mas verificou que, ante a raiva de Chilton,
aquele detalhe não tinha importância.
O Dr. Chilton esteve ausente no jantar e, com a
bem-humorada cooperação do Dr. Lecter, Boyle e Pem-


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bry usaram seu próprio método para introduzir a bandeja
dentro da cela. Funcionou muito bem, — Dr. Lecter, o
senhor não vai precisar usar seu disser jackei — disse
Pembry. — Vou pedir-lhe para sentar-se no chão e arrastar se para trás até que possa passar as mãos por entre as
barras com os braços estendidos. Assim mesmo. Cheguese um pouco mais para trás e endireite os braços mais um
pouco, com os cotovelos retos — Pembry colocou as algemas apertadas do lado de fora das barra: com uma barra
por entre os braços e uma barra transversal acima deles.
— Isso dói um pouquinho, não é? Sei que dói, mas elas
não vão ficar aí mais do que um minuto e poupa-nos um
bocado de dificuldade.
O Dr. Lecter não podia levantar-se, nem mesmo
acocorar-se e, com as pernas esticadas à frente sobre o
chão, não podia chutar.
Somente após o Dr. Lecter estar trancado, Pembry
veio à mesa a fim de pegar a chave. Pembry enfiou o bastão de motim no cinturão, colocou uma lata de Mace no
bolso e voltou para a cela.
— Abri Lecter. — Como sabem, estou tentando
facilitar as coisas.
— Todos nós estamos, irmão — confirmou Pembry.
O Dr. Lecter brincou com a comida enquanto escrevia, desenhava e fazia bonecos em sua prancheta com
uma caneta de ponta de feltro. Ele enfiou o cassete no
toca-fita preso à perna da mesa e fê-lo funcionar. Glenn
Gould tocava as Variações Goldberg ao piano. A bonita
música, acima dos problemas e da ocasião, enchia a cela
iluminada e a sala onde estavam os guardas.


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Para o Dr. Lecter, sentado quieto à sua mesa, o
tempo passava devagar e alongava-se como acontece
quando se está em ação. Para ele as notas da música se
separavam em movimentos sem perder a cadência. Mesmo as vibrações prateadas de Bach eram notas discretas
reverberando no aço que o rodeava. O Dr. Lecter levantou-se com uma expressão desligada e observou o guardanapo de papel deslizando de sua coxa para o chão. O
guardanapo ficou no ar certo tempo, roçou a perna da
mesa, abriu-se, planou de lado, deu uma parada e virou
antes de finalmente descansar no chão de aço. Ele não fez
nenhum esforço para apanhá-lo, mas deu uma caminhada
pela cela, passou para trás do biombo de papel e sentou-se
na privada, seu único lugar privativo. Escutando a música,
encostou-se de lado na pia, com o rosto na mão, os estranhos olhos castanhos meio cerrados. As Variações Goldberg interessavam-no estruturalmente. Aqui voltava de
novo a progressão do violoncelo depois da sarabanda repetida e repetida. Acompanhava com a cabeça, sua língua
movendo-se pelas pontas dos dentes. Toda a volta por
cima, toda a volta por baixo. Foi uma longa e interessante
viagem para sua língua, como uma boa caminhada pelos
Alpes.
Examinava agora as gengivas, correndo a língua na
cavidade entre a bochecha e a gengiva, movendo-a vagarosamente em volta como alguns homens fazem quando
estão ruminando. As gengivas eram mais frescas que a
língua. Na cavidade inferior era ainda mais fresco. Quando sua língua tocou um pequeno cilindro de metal, ela
parou.
Acima dos sons da música ele ouviu quando o elevador gemeu e roncou, começando a subir. Muitas notas


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musicais mais tarde, a porta do elevador abriu-se e uma
voz que ele não conhecia disse:
— Abra a porta enquanto Boyle entrava com a
bandeja. Quando a porta estava aferrolhada de novo, Boyle levou a chave de volta para a mesa antes de tirar as
algemas do Dr. Lecter. Em nenhum momento ele ficou
perto das barras com a chave enquanto o doutor esteve
solto na cela.
— Isso agora foi muito fácil, não foi? — perguntou
Pembry.
— Muito conveniente, policial, obrigado — agradeceu o Doutor.
— Vim buscar a bandeja.
O Dr. Lecter escutou quando o mais baixo dos
guardas veio para perto da cela. Pembry. Ele podia enxergar por uma fresta entre os painéis de sua tela. Pembry
estava junto às barras.
— Dr. Lecter, venha sentar-se no chão com as
mãos nas costas, como fizemos antes.
— Policial Pembry, incomodar-se-ia se me deixasse
termina o que estou fazendo aqui? Receio que a viagem
tenha perturba a minha digestão. — Levou muito tempo
para dizer isso.
— Muito bem — disse Pembry para alguém na sala. — Nó o chamaremos quando tivermos a bandeja.
— Posso dar uma olhada nele?
— Nós chamaremos você.
Ouviu-se de novo o ruído do elevador e depois
somente a música.
O Dr. Lecter tirou o tubinho da boca e enxugou-o
num pedaço de papel higiênico. Suas mãos estavam firmes, as palmas perfeitamente secas.


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Durante os anos de detenção, com sua inesgotável
curiosidade o Dr. Lecter tinha aprendido muitas das artes
secretas das prisões. Em todos os anos depois que atacara
brutalmente o enfermeiro em asilo de Baltimore, houvera
apenas dois lapsos na segurança em volta dele, ambos em
dias de folga de Barney. Certa vez um pesquisado psiquiátrico emprestou-lhe uma caneta esferográfica e depois esqueceu-se dela. Antes que o homem houvesse saído da
galeria, Dr. Lecter já havia quebrado a capa plástica da
caneta, jogando na privada e dando uma descarga. Guardou o tubo metálico para tinta nas costuras espiraladas do
seu colchão.
A única ponta afiada em sua cela no asilo era uma
aresta na cabeça de um parafuso que segurava seu beliche
na parede. Foi bastante. Durante dois meses, esfregando,
o Dr. Lecter cortou duas incisões paralelas com 6 milímetros de comprimento ao longo do tubo de seu lado aberto.
Então seccionou o tubo de tinta em dois pedaços a uns
três centímetros do lado aberto e jogou o lado maior com
a ponta no toalete. Barney não notou os cacos em seus
dedos resultado de muitas noites a esfregar.
Seis meses mais tarde um guarda deixou um grande
clipe de papel em alguns documentos mandados para o
Dr. Lecter por seu advogado. Três centímetros do clipe de
aço foram enfiados dentro do tubo e o resto jogado fora
na privada. O pequeno tubo, liso e curto, era fácil de esconder nas costuras das roupas, entre a bochecha e a gengiva, no reto.
Agora, atrás da sua cortina de papel, o Dr. Lecter
bateu com o pequeno tubo na unha do polegar até que o
arame saiu de dentro dele. O arame era uma ferramenta, e
essa era a parte difícil. O Dr. Lecter meteu o arame até o


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meio no pequeno tubo e com infinito cuidado usou como
uma alavanca para dobrar para baixo a tira de metal entre
as duas incisões. Às vezes elas quebram. Cuidadosamente,
com suas mãos poderosas ele dobrou o metal à medida
que saía. Agora. A frágil tira de metal formava um ângulo
reto com o tubo. Agora ele tinha uma chave para abrir
algemas.
O Dr. Lecter pés as mãos atrás das costas e passou
a chave de uma mão para a outra quinze vezes. Recolocou
a chave na boca enquanto lavava as mãos e as secava meticulosamente. A seguir, com a língua, escondeu a chave
entre os dedos da mão direita, sabendo que Pembry iria
olhar para sua estranha mão esquerda quando ela estivesse
atrás de suas costas.
— Estou pronto quando o senhor estiver, policial
Pembry — disse o Dr. Lecter. Sentou-se no chão da cela e
esticou os braços para trás, passando as mãos e os punhos
por entre as barras. — Obrigado por haver-me esperado.
— Parecia uma longa frase, mas era temperada pela música.
Agora ouvia Pembry atrás dele. O policial tocou-lhe
o pulso para ver se fora ensaboado. Repetiu a operação no
outro pulso. Pembry colocou-lhe as algemas bem apertadas. Voltou à mesa para pegar a chave da cela. Sobre os
sons do piano, o Dr. Lecter ouviu o ruído metálico do
chaveiro quando Pembry o tirou da gaveta. Agora ele voltava, caminhando por entre os acordes musicais, rompendo o ar que vibrava com as notas cristalinas. Desta vez
Boyle veio junto com ele. O Dr. Lecter podia escutar os
distúrbios que eles faziam nos ecos musicais.
Pembry verificou de novo as algemas. O Dr. Lecter
podia sentir o hálito do policial atrás dele. Agora Pembry


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abriu a fechadura da cela e escancarou a porta. Hoyle entrou. O Dr. Lecter virou a cabeça, a cela movimentandose por sua visão numa velocidade que parecia vagarosa
para ele, mas com detalhes maravilhosamente nítidos —
Boyle na mesa apanhando as coisas espalhadas do jantar
na bandeja, reunindo-as aborrecido com a desordem. O
toca-fita com seus rolos girando, o guardanapo no chão
ao lado das pernas aparafusadas da mesa. Através das barras, o Dr. Lecter via, com o canto dos olhos, a curva por
trás do joelho de Pembry, a ponta do bastão pendurado
em seu cinto quando ele estava do lado de fora segurando
a porta.
O Dr. Lecter encontrou o buraco da algema em seu
punho esquerdo, inseriu a chave e virou-a. Sentiu quando
a mola da algema soltou-se em seu pulso. Passou a chave
para a mão esquerda, achou o outro buraco, inseriu a chave e deu uma volta.
Boyle abaixou-se para pegar o guardanapo no chão.
Rápido como o bote de uma cobra, a algema fechou-se no
pulso de Boyle e quando ele voltou o olhar para Lecter, a
outra algema fechou-se em torno da perna fixa da mesa.
Agora de pé, o Dr. Lecter atirou se contra a porta enquanto Pembry tentava sair de trás dela e o ombro do Dr. Lecter forçava a porta de ferro em cima dele. Pembry tentava
pegar a Mace no cinto, mas seu braço estava prensado no
corpo pela porta. Lecter agarrou a ponta do bastão e levantou-a Com essa alavanca torcendo o cinto de Pembry
em volta dele, deu um golpe com o cotovelo e cravou os
dentes no seu rosto. Pembry tentou agarrar Lecter com as
mãos mas tinha o nariz e o lábio superior agarrados pelos
dentes que os dilaceravam. Lecter sacudia sua cabeça como faz um cão matando um rato e tirou o cassetete do


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motim do cinto de Pembry. Dentro da cela Boyle agora
berrava sentado no chão, tentando desesperadamente meter a mão no bolso para pegar as chaves da algema, atrapalhando-se, deixando-a caiu encontrando-a de novo. Lecter
bateu com o cassetete no estômago e na garganta de
Pembry, e este caiu de joelhos. Boyle enfiou a chave numa
das algemas, ao mesmo tempo em que berrava vendo Lecter se dirigir para ele. Lecter fez Boyle calar-se com um
jato de Mace e, enquanto ele se engasgava, quebrou-lhe o
braço estendido com dois golpes do bastão. Boyle tentou
enfiar-se embaixo da mesa, mas cego pelo gás Mace, engatinhou em sentido contrário e foi fácil, com cinco golpes
bem aplicados, calá-lo para sempre.
Pembry conseguira sentar-se e gritava. O Dr. Lecter
olhou para ele com seu sorriso mau e disse:
— Estou pronto se o senhor estiver...
Girando num curto arco, o bastão apanhou Pembry
em cheio na nuca e ele caiu espichado como um peixe,
liquidado com uma cacetada.
O pulso do Dr. Lecter, com o exercício, tinha subido a mais de 100, mas rapidamente voltou ao normal. Então parou a música e prestou atenção.
Foi até as escadas e prestou atenção de novo. Virou
dos avessos os bolsos de Pembry, tirou a chave da mesa e
abriu todas as gavetas. Na gaveta de baixo estavam as armas de serviço de Pembry e Boyle, um par de revólveres
38 especiais. Melhor do que isso: no bolso de Boyle encontrou uma faca.


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CAPÍTULO 37
O saguão estava cheio de policiais. Eram 6:30 e a
polícia nos postos de guarda do lado de fora tinha acabado de ser rendida em seu turno regular de duas horas. Os
homens que entravam no saguão vindos da noite fria esquentavam as mãos em vários aquecedores elétricos. Alguns deles tinham apostado dinheiro no jogo de basquete
do time da universidade e estavam ansiosos para saber
como ia o jogo.
O sargento Tate não permitia ouvir rádio alto no
saguão, mas um oficial tinha um walkman ligado ao ouvido. Ele anunciava o resultado da partida a intervalos, mas
não o suficiente para contentar os apostadores.
Ao todo havia quinze policiais armados no saguão,
mais dois homens da Correcional prontos para render
Pembry e Boyle às sete horas. O próprio sargento Tate
estava esperando para largar o serviço do turno de 11 às 7.
Todos os postos avisavam que tudo estava calmo.
Nenhum dos telefones malucos ameaçando Lecter tinha
dado qualquer resultado.
As 6:45 Tate ouviu o elevador começando a subir.
Observou quando o ponteiro de bronze por cima da porta
começou a rodar pelo mostrador e parou no 5.
Tate deu uma olhada pelo saguão e perguntou:
— Sweeney foi buscar a bandeja?
— Não, estou aqui, sargento. Incomoda-se de telefonar para ver se eles terminaram? Eu preciso ir andando.
O sargento Tate discou três números e escutou.
— O telefone está ocupado — disse. — Suba para
ver. — E voltou ao relatório que estava fazendo sobre o


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turno de 11 as 7. O patrulheiro Sweeney apertou o botão
do elevador, mas esse não veio.
— Pediu costeletas de carneiro esta noite, malpassadas — disse Sweeney. — O que você pensa que ele vai
pedir para o desjejum alguma porra de um bicho do zoológico? E quem você pensa que terá de procurá-la para
ele? Sweeney.
A seta de bronze acima da porta permanecia no 5.
Sweeney esperou mais um minuto.
— Que merda é essa? — exclamou.
Os tiros da 38 estouraram em algum lugar acima
deles, os e troados ecoando pelas escadas de pedra abaixo,
dois em seqüência rápida e depois um terceiro.
O sargento Tate, já de pé ao terceiro tiro, com o
microfone na mão gritou:
— Posto de Comando, foram disparados tiros lá
em cima na torre. Postos externos, fiquem alerta. Estamos
subindo.
Gritaria e balbúrdia no saguão.
Tate viu então a seta de bronze do elevador começando a se movimentar. Chegou ao 4.
— Parem aí! — gritou Tate acima da confusão. -—
Dobrei a guarda nos postos externos, a primeira esquadra
fica comigo. Ben e Howard, cubram a porra do elevador
se ele descer... — A agulha parou no 3.
— Primeira esquadra, comigo! Não passem por
uma porta sei verificá-la antes. Bobby, do lado de fora,
pegue uma espingarda os coletes blindados e traga-os para
cá.
A cabeça de Tate trabalhava febrilmente no primeiro lance de escadas. A cautela lutava com a terrível necessidade de ajudar os policiais lá em cima. Deus não permita


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que ele tenha se soltado ninguém está usando coletes
blindados. Porras da Correcional...
Supunha-se que os escritórios do segundo, terceiro
e quarto andares estivessem vazios e fechados. Podia-se
passar da torre para o edifício principal nesses andares,
atravessando os escritórios. No quinto andar não era possível.
Tate freqüentara a excelente escola da SWAT do
Tennessee sabia fazer as coisas. Seguiu na frente e levou
com ele os mais jovens. Rápida e cuidadosamente, galgaram as escadas dando cobertura uns aos outros de patamar em patamar.
— Se vocês derem as costas para uma porta antes
de verificá-la, eu lhes meto no rabo!
As portas que davam para o segundo andar estavam
escuras e fechadas.
Subiram agora para o terceiro, onde o curto corredor permanecia na penumbra. Um retângulo de luz vinha
da porta aberta do elevador. Tate esgueirou-se pela parede
oposta à do elevador aberto, mas neste não havia espelhos
que o ajudassem. Com duas libras de pressão num gatilho
de nove libras, ele olhou para dentro do carro. Vazio.
— Boyle! Pembry! Merda! — gritou para cima das
escadas. Deixou um homem de guarda no terceiro andar e
subiu.
O quarto andar estava inundado com a música de
piano que vinha de cima. A porta para os escritórios abriu-se com um empurrão. Além dos escritórios o feixe de
luz da comprida lanterna elétrica refletiu-se numa porta
escancarada que dava para o grande edifício escuro do
outro lado.


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— Boyle! Pembry! — Deixou dois homens no patamar. — Cubram a porta. Os coletes estão chegando.
Não mostrem seus rabos naquela porta.
Tate subiu os degraus de pedra em direção à música. Estava agora no topo da torre, o patamar do quinto
andar; a luz era baça no estreito corredor. Uma claridade
forte aparecia por trás do vidro opaco onde se lia: SOCIEDADE HISTÓRICA DO CONDADO DE SHELBY.
Abaixado, Tate atravessou a porta de vidro até o
lado oposto às dobradiças. Fez um sinal com a cabeça para Jacobs, torceu a maçaneta e empurrou com toda força,
de forma que a porta abriu-se com força suficiente para
estourar o vidro. Tate jogou-se rápido para dentro, atravessando as ombreiras da porta e cobrindo o quarto com
a mira do revólver.
Tate já vira muitas coisas. Acidentes sem conta, lutas, assassinatos. Durante seu tempo de serviço contara
seis policiais mortos, mas pensou que o que estava a seus
pés era a pior coisa que já vira acontecer a um policial. A
carne acima do colarinho do uniforme não se parecia mais
com um rosto. A frente e o alto da cabeça eram uma só
mancha de sangue recoberta de carne estraçalhada e um
olho único estava ao lado das narinas, a cavidade cheia de
sangue.
Jacobs passou por Tate, escorregando no chão ensangüentado e correu para dentro da cela. Inclinou-se sobre Boyle, ainda algemado à mesa. Boyle, com as tripas
em parte à mostra, o rosto cortado em pedaços parecia ter
explodido na tela, as paredes e o colcha cobertos de gotas
e listas de sangue.
Jacobs passou os dedos em seu pescoço:


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— Está morto — disse, colocando a voz mais alta
que os sons da música. — Sargento?
Tate, recuperado e com vergonha de um segundo
deslize, berrava no rádio:
— Posto de Comando: dois policiais abatidos. Repito: dois policiais abatidos. Prisioneiro desaparecido. Lecter desaparecido. Postos externos, observem as janelas, o
criminoso tirou os lençóis do leito, pode estar fazendo
uma corda. Confirme se ambulâncias estão a caminho.
— Pembry está morto, sargento? — Jacobs desligara a música.
Tate ajoelhou-se e quando foi tocar no pescoço para auscultar aquela coisa horrível no chão deu um gemido
e soprou uma bolha de sangue.
— Pembry está vivo. — Tate não desejava colocar
sua boca naquela porcaria ensangüentada. Sabia que teria
que fazê-lo se quisesse ajudar Pembry a respirar, sabia que
não devia mandar um dos patrulheiros fazer isso. Seria
melhor que Pembry morresse, mas ele o ajudaria a respirar. Havia um pulsar no coração, ele descobriu e havia
respiração. Era irregular e gorgolejante, mas aquilo estava
respirando. Aquela ruína estava respirando por si mesma.
O rádio de Tate deu uns estalidos. Um tenente patrulheiro instalara-se no estacionamento de fora, assumira
o comando e desejava notícias. Tate tinha que falar.
— Venha aqui, Murray — disse Tate a um jovem
patrulheiro — Fique com Pembry e segure-o para que
possa sentir as suas mão nele. Fale com ele.
— Qual é mesmo o nome dele, sargento? — Murray era novato — Pembry. Agora, fale com ele, porra! —
Tate voltou a falar no rádio: — Dois policiais atingidos,
Boyle está morto e Pembry gravemente ferido. Lecter de-


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sapareceu e está armado; ele pegou os revólveres deles. Os
cinturões e os coldres estão na mesa.
A voz do tenente não era clara devido às grossas
paredes.
— Pode confirmar que as escadarias estão limpas
para passar as padiolas?
— Sim, senhor. Chame o quarto andar antes que
eles passem. Tenho homens em todos os patamares.
— Roger, sargento. O Posto 8 aqui embaixo pensa
que viu algum movimento atrás das janelas do edifício
principal no quarta andar. Temos todas as saídas guarnecidas, ele não poderá sair. Mantenham suas posições nos
patamares. A SWAT está chegando. Vamos deixar a
SWAT expulsá-lo. Confirme.
— Compreendo. A jogada é da SWAT.
— O que é que ele tem?
— Duas armas e uma faca, tenente. Jacobs, veja se
há algum munição nos cinturões.
— Virei as cartucheiras — respondeu o patrulheiro.
— O de Pembry ainda está cheio, e o de Boyle também.
O porra desse merda não levou munição extra.
— Que espécie de munição é? — Trinta e oito
plus, JHP2.
Tate voltou para o rádio.
— Tenente, parece que ele tem dois 38 de seis tiros. Nós ouvimos três disparos, e as cartucheiras nos cinturões ainda estão cheias, de forma que ele só deve ter
nove cartuchos. Avise à SWAT que a munição é 38 plus
de camisa com ponta oca. Esse camarada tem predileção
pelo rosto.
2

acketed hollow point -encamisado com ponta oca. (N. do T.)


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Munição plus era especial, mas não penetraria a
blindagem de corpo da SWAT. Um tiro no rosto seria
provavelmente fatal, e num membro aleijaria.
— Os padioleiros estão chegando, Tate.
As ambulâncias chegaram com surpreendente rapidez, mas para Tate não pareceu rápido o bastante, ouvindo os gemidos daquela coisa miserável a seus pés. O jovem Murray estava tentando segurar aquele corpo que
gemia e se contorcia, tentando falar para reanimá-lo sem
olhar para ele, a dizer:
— Você está bem, Pembry, com boa aparência —
repetindo e repetindo as palavras no mesmo tom enjoado.
Tão logo viu os atendentes da ambulância no patamar, Tate gritou, como fizera durante a guerra:
— Padioleiros! Segurou Murray pelos ombros e afastou-o do caminho. Os atendentes da ambulância trabalharam depressa, com perícia, agarrando os punhos sujos
de sangue por baixo do cinto, enfiando-lhe na boca uma
sonda e desenrolando uma bandagem cirúrgica do tipo
que não adere para tentar restabelecer alguma pressão no
rosto e na cabeça ensangüentada. Um deles preparou um
pacote de plasma endovenoso, mas o outro, tomando a
pressão e o pulso do ferido, sacudiu a cabeça e disse:
— Vamos para baixo! Ouviam-se agora ordens pelo rádio.
— Tate, quero que esvazie os escritórios na torre e
os feche. Guarneça as portas do edifício principal. Depois
evacue os patamares. Estou mandando coletes blindados e
espingardas. Nós o pegaremos vivo se ele se entregar, mas
não vamos correr riscos maiores para preservar-lhe a vida.
Compreendeu?
— Entendi, tenente.


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— Eu só quero a SWAT e mais ninguém a não ser
a SWAT no edifício principal. Repita isso.
Tate repetiu a ordem.
Tate era um bom sargento e mostrou-o agora
quando ele e Jacobs se enfiaram em seus coletes pesadamente blindados e seguiram a maca que os padioleiros
carregaram escadas abaixo até a ambulância. Uma segunda
equipe seguia com Boyle. Os homens nos patamares ficaram com raiva quando viram passar as macas e Tate dirigiu-lhes uma palavra de prudência:
— Não deixem que a raiva venha a arriscar seu rabo!
Enquanto as sirenes gemiam do lado de fora, Tate,
auxiliado pelo veterano Jacobs, evacuou cuidadosamente
os escritórios e isolou a torre.
Uma corrente de ar frio varria o saguão no quarto
andar. Além da porta, nos vastos e sombrios espaços do
edifício principal, os telefones tocavam. Nos escuros escritórios em todo o edifício, as luzes dos telefones piscavam
como vaga-lumes e as campainhas não paravam de soar.
Corria a notícia de que o Dr. Lecter estava encurralado numa “barricada” no edifício, os repórteres do rádio
e da televisão insistiam, discando rápido com seus modems, tentando obter entrevistas ao vivo com o monstro.
Para evitar isso, a SWAT em geral desliga os telefones,
exceto um que é usado pelos negociadores. Mas aquele
edifício era grande demais, os escritórios em número exagerado.
Tate fechou e trancou as portas das salas cujos telefones retiriam. Seu peito e as costas estavam úmidos e coçavam devido ao colete rígido.


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— PC, aqui é Tate — anunciou ele tirando o rádio
do cinto — A torre está limpa. Over.
— Roger, Tate. O capitão quer que você vá para o
posto de comando.
— Dez-quatro. Saguão da torre: você está aí?
— Estou aqui, sargento.
— Sou eu no elevador. Estou levando-o para baixo.
— Entendi, sargento.
Jacobs e Tate estavam descendo no elevador para o
saguão quando uma gota de sangue caiu no ombro de Tate; outra pingos no seu sapato.
Olhou para o teto do elevador, tocou a mão em Jacobs, e com um sinal pediu-lhe silêncio.
O sangue pingava da fresta em volta do alçapão no
forro do carro. A viagem até o saguão parecia interminável. Tate e Jacob: saíram do elevador de costas, os revólveres apontados para o forre do elevador. Tate meteu a
mão no interior do carro e travou-o.
— Psiu! — fez Tate no saguão. E em voz baixa: —
Berry, Howard, ele está no teto do elevador. Mantenhamno sob cobertura.
Tate saiu. O furgão preto da SWAT estava no estacionamento. A SWAT sempre tinha um sortimento de
chaves de elevadores.
Foram alertados num momento; dois homens da
SWAT com armaduras negras e fones de ouvido subiram
as escadas até o terceiro andar. Com Tate no saguão, embaixo, havia mais dois, mantendo os rifles de assalto apontados para o forro do elevador.
Parecem grandes formigas guerreiras, pensou Tate.
O comandante da SWAT falou em seu aparelho:
— O.K., Johnny.


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No terceiro andar, acima do elevador, o homem da
SWAT virou a chave na fechadura da porta, que deslizou
e abriu-se. O poço estava escuro. Deitado de costas no
corredor, ele tirou uma granada de imobilizar do colete e
depositou-a no chão a seu lado.
— O.K. Vou dar uma olhada agora.
Tirou um espelho com o cabo muito comprido e
colocou-o na beirada do poço enquanto seu companheiro
ligava uma poderosa lanterna elétrica, apontando a luz
para dentro do poço.
— Eu o estou vendo. Está em cima do elevador.
Vejo uma arma do lado dele. Mas ele não se move.
Peterson ouviu uma pergunta no seu fone de ouvido:
— Você pode ver as mãos dele?
— Vejo uma das mãos, a outra está debaixo do
corpo. Ele tem os lençóis em volta do corpo.
— Fale com ele.
— PONHA SUAS MÃOS SOBRE A CABEÇA E
NÃO SE MOVAI — gritou Peterson poço abaixo. — Ele
não se moveu, tenente... — E após uma pausa: — Certo.
— SE NÃO PUSER JÁ AS MÃOS NA CABEÇA,
JOGAREI UMA GRANADA DE IMOBILIZAÇÃO
EM VOCÊ; DOU-LHE TRÊS SEGUNDOS — berrou
Peterson. Em seguida tirou do colete um dos calços de
borracha que todo homem da SWAT carrega. O.K., CAMARADAS, OBSERVEM DM — LÁ VAI A GRANADA. — Atirou o calço pela borda do poço e viu-o ricochetear no corpo. — Ele não se mexe, tenente.
— O.K., Johnny, vamos levantar o alçapão do elevador com uma vara. Você pode mantê-lo em sua mira?


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Peterson rolou até a borda do poço. Sua 45 pronta
para disparar, apontada diretamente para a figura imóvel.
— Sob a mira — anunciou ele.
Olhando para baixo ao longo do poço do elevador,
Peterson pode ver a réstia de luz aparecer quando os homens no saguão empurraram o alçapão com um croque da
SWAT. A figura imóvel estava em parte sobre o alçapão e
um dos braços moveu-se quando os homens empurraram
de baixo.
O dedo de Peterson aumentou um pouco a pressão
na segurança da Colt.
— O braço dele moveu-se, tenente, mas acho que
foi o alçapão que o empurrou.
— Roger. Abram todo o alçapão.
O alçapão abriu-se todo para trás e ficou encostado
na parede do poço. Peterson tinha dificuldade para enxergar contra a luz.
— Ele não se moveu. A mão dele não está segurando a arma.
A calma voz fez-se ouvir em seu fone:
— O.K., Johnny, agüente ai, vamos entrar no elevador. Observe com o espelho se há qualquer movimento.
Qualquer fogo partirá de nós. Positivo?
— Entendido.
No saguão, Tate observou quando eles entraram no
carro do elevador. Um atirador armado com um rifle e
capaz de perfurar couraça apontou a arma para o forro do
elevador. Um segundo homem subiu numa escada. Estava
armado com uma grande pistola automática e trazia uma
lanterna elétrica presa por baixo dela. O espelho e a pistola com a lanterna passaram pelo alçapão, depois a cabeça


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do homem e seus ombros. Ele passou para baixo um revólver 38.
— Este está morto — foi só o que disse.
Tate pensou imediatamente se a morte de Lecter
significava que Catherine ia morrer também, todas as informações perdidas quando as luzes se apagaram naquela
mente monstruosa.
Os homens agora puxavam o corpo, que descia de
cabeça para baixo através do alçapão. Foi cuidadosamente
arriado sobre muitas mãos, estranho enterro numa caixa
iluminada. O saguão logo se encheu de policiais correndo
para vê-lo.
Um guarda da Correcional adiantou-se, olhou para
o braço estendido do morto, cheio de tatuagens e disse:
— Mas este é Pembry!


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CAPÍTULO 38
Na traseira da ambulância com a sirene a toda altura, o jovem acadêmico se escorando contra o balanço, ligou o rádio para falar com seu supervisor na sala de emergências. Falou alto, por causa da sirene.
— Ele está em coma, mas os sinais vitais são bons.
A pressão está boa. Cento e trinta por noventa. Sim, noventa. Pulso, oitenta e cinco. Tem diversos cortes faciais
com as bordas levantadas, e um dos olhos fora da órbita.
Apliquei pressão no rosto e uma cânula está em posição.
Possivelmente levou um tiro na cabeça. Não dá para ter
certeza.
Atrás dele, na maca, os punhos cerrados e ensangüentados relaxam dentro da bandagem. A mão direita
desliza para fora e acha a fivela da tira que o prende na
maca em volta do peito.
— Estou com medo de colocar muita pressão na
cabeça; ele mostrou alguns movimentos convulsivos antes
de o colocarmos na maca. Sim, ele está na posição de Fowler.
Atrás do jovem a mão agarrou a bandagem cirúrgica e limpou os olhos com ela. O acadêmico ouviu um assobio na cânula, virou-se e viu uma cara ensangüentada
junto à dele, mas não o revólver que desceu com força e o
pegou atrás da orelha.
A ambulância diminuiu a marcha, provocando agitação no tráfego da estrada de seis pistas. Os motoristas
que vinham atrás, confusos e buzinando, hesitavam em
ultrapassar um veículo de emergência. Ouviram-se dois
tiros parecendo descargas de silencioso e a ambulância


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partia de novo, fazendo curvas nas pistas, endireitando e
encaminhando-se para a faixa da direita.
Apareceu a saída para o aeroporto. A ambulância
reduziu a marcha, várias luzes de emergência piscando, os
limpadores de pára brisas estranhamente funcionando, e
logo a sirene diminuiu de volume, aumentou de novo, depois diminuiu até ficar em silêncio; e as luzes que piscavam foram se apagando. A ambulância prosseguiu agora
tranqüila, enveredando para a saída do aeroporto internacional de Memphis, com seu belo edifício iluminado na
noite de inverno. Tomou a pista curva até os portões automáticos do enorme parqueamento. Uma mão ensangüentada projetou-se do carro para apanhar na máquina o
bilhete de entrada e a ambulância desapareceu no túnel
que levava ao estacionamento subterrâneo.


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CAPÍTULO 39
Normalmente, Clarice Starling teria curiosidade de
conhecer a casa de Crawford em Arlington, mas o boletim
de notícias no rádio do carro, descrevendo a fuga do Dr.
Lecter, tirou-lhe toda a vontade.
Com os lábios meio dormentes e os cabelos arrepiados, ela dirigia quase por instinto e chegou à bonita casa
tipo rancho da década de 50 sem olhá-la, apenas cismando
se as janelas encortinadas e com luzes acesas à esquerda
seriam as do quarto de Bella. A campainha soou-lhe estridente demais.
Crawford abriu a porta quando ela tocou pela segunda vez. Usava um cardigã folgado e estava falando
num telefone sem fio.
— Quero falar com Copley, em Memphis — dizia.
Fazendo-lhe um sinal para segui-lo, conduziu-a através da
casa, falando baixo ao telefone.
Na cozinha, uma enfermeira tirou um pequeno
frasco da geladeira e olhou-o contra a luz. Quando Crawford levantou as sobrancelhas para a enfermeira, ela sacudiu a cabeça dando a entender que não precisava dele.
Levou Starling para seu estúdio, descendo três degraus para o que claramente era uma garagem dupla convertida em escritório. Havia muito espaço ali, um sofá e
cadeiras, e na mesa atulhada de coisas um terminal de
computador brilhava com sua luz verde ao lado de um
astrolábio antigo. O carpete dava a impressão de ter sido
assentado sobre concreto. Crawford fez-lhe um sinal para
sentar-se.
Colocando uma mão sobre o telefone, falou:


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— Clarice, sei que a pergunta é tola, mas você passou qualquer coisa para Lecter em Memphis?
— Não.
— Nenhum objeto?
— Nada.
— Você lhe levou os desenhos e outros objetos da
antiga cela?
— Não os entreguei; ainda estão na minha bolsa.
Ele é que me entregou a pasta. Foi a única coisa que mudou de mãos entre nós dois.
Crawford acomodou o telefone embaixo do queixo.
— Copley, isso é uma deslavada fofoca. Quero que
você desmascare aquele filho da puta e faça isso agora
mesmo. Vá logo ao chefe, no Bureau de Investigações do
Tennessee. Providencie para que a linha direta seja informada do resto. Burroughs está nela. Sim.
Desligou o telefone e meteu-o no bolso do cardigã.
— Quer um café, Starling? Ou uma Coca?
— Que história é essa de passar coisas para o Dr.
Lecter?
— Chilton está dizendo que você deve ter dado a
Lecter alga que ele usou para destravar o fecho das algemas. Que você não a fez de propósito, diz ele, mas por
pura ignorância. — Às vezes os olhos de Crawford pareciam os de uma tartaruga irritada. Ficou observando a reação dela. — Chilton alguma vez passou uma cantada em
você, Starling? Será que é isso o que ele tem contra você?
— Talvez. Eu tomo café preto com açúcar, por favor.
Enquanto Crawford ia para a cozinha ela respirou
fundo e correu os olhos pelo aposento. Se você vive num
dormitório ou num quartel, é confortável sentir-se numa


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casa. Mesmo com todo o terremoto que a sacudia, a idéia
de que os Crawfords viviam naquela casa animou-a.
Crawford vinha voltando, cuidadosamente, ao descer os degraus com suas lentes bifocais. Trazia as xícaras.
Calçado de mocassins ele era um pouco mais baixo; quando Starling se ergueu para pegar o café, seus olhos estavam mais ou menos no mesmo nível. Ele cheirava a sabonete e tinha solto o cabelo grisalho.
— Copley me disse que ainda não encontraram a
ambulância. Os quartéis de polícia estão de olhos abertos
por todo o sul.
Starling sacudiu a cabeça.
— Eu não conheço nenhum detalhe. O boletim do
rádio disse apenas: o Dr. Lecter matou dois policiais e desapareceu.
— Dois policiais da Correcional. — Crawford digitou o computador para mostrar o texto da notícia na tela.
— Seus nomes eram Boyle e Pembry. Você tratou com
eles?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Bem... eles que me mandaram sair da torre. Mas
foram legais comigo. — Recordava Pembry saindo de trás
de Chilton, meio sem jeito mas decidido, demonstrando
sua cortesia. “Venha comigo agora”, dissera ele. Tinha
umas manchas de fígado ruim nas mãos e na testa. Agora
estava morto, pálido sob as suas manchas...
Súbito Starling teve que descansar seu café. Encheu
bem os pulmões e levantou a cabeça para o teto por um
momento.
— Como ele conseguiu?


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— Fugiu numa ambulância, me informou Copley.
Mais tarde lhe explico. Como se saiu você como ácido no
mata-borrão?
Obedecendo às ordens de Krendler, Starling tinha
passado parte da tarde e o início da noite submetendo as
folhas com os Plutos ao analisador científico.
— Por enquanto, nada certo. Eles estão tentando
os arquivos do DEA para uma comparação, mas o material tem dez anos de idade. A seção de documentos poderá
sair-se melhor com a gravura do que o DEA com o tóxico.
— Mas era ácido no mata-borrão.
— Era. Como foi que ele fez para fugir, Sr. Crawford?
— Você quer saber?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça.
— Então vou lhe contar. Eles levaram Lecter para
uma ambulância por engano. Pensaram que era Pembry,que ficara gravemente ferido.
— Ele vestia o uniforme de Pembry? De fato, eram
mais ou menos do mesmo tamanho.
— Ele pôs o uniforme de Pembry e parte do rosto
de Pembry em cima do dele. E mais ou menos meio quilo
da carne de Boyle também... Embrulhou o corpo de Pembry na coberta impermeável do colchão e nos lençóis da
cela para impedir que o sangue pingasse e jogou-o em cima do elevador. Vestiu o uniforme, preparou-se, deitou-se
no chão e disparou vários tiros para o teto a fim de provocar um estouro da boiada. Não sei o que fez com o revólver, talvez o escondesse na parte de trás de suas calças.
Chegou a ambulância, policiais armados por toda parte. A
equipe da ambulância veio rápida e fez o que costumam


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fazer sob fogo — enfiaram-lhe uma cânula na boca para
assegurar a respiração, passaram bandagem pela parte
mais afetada do rosto, criando pressão para estancara hemorragia, e levaram-no para fora. Fizeram seu serviço. A
ambulância nunca chegou ao hospital. A polícia ainda está
procurando. Não vejo nada bom com respeito a esses paramédicos. Copley diz que estão rodando as fitas do despachante das ambulâncias, houve várias chamadas. Eles
acham que o próprio Lecter chamou a ambulância antes
de disparar os tiros, de modo que não tivesse de ficar ali
por muito tempo. O Dr. Lecter gosta de se divertir...
Starling nunca percebera aquele tom de escárnio na
voz de Crawford. Como ela associava amargura com fraqueza, aquilo assustou-a.
— Essa fuga não significa que o Dr. Lecter estava
mentindo — disse Starling. — Sem dúvida ele mentiu para alguém: para nós ou para a senadora Martin, mas talvez
não estivesse mentindo para ambos. Ele apontou para a
senadora Martin o nome de Billy Rubin e alegou que isso
era tudo o que sabia. A mim, disse que foi alguém com
delírios de transexualidade. A última coisa que me disse
foi, mais ou menos: “Por que não completar o arco?” Ele
falava sobre seguir a teoria da mudança de sexo que...
— Eu sei, vi a sua súmula. Não podemos continuar
com isso enquanto as clínicas não nos fornecem os nomes. Alan Bloom está indo pessoalmente aos chefes de
departamentos. E eles dizem que estão procurando. Tenho que acreditar.
— Sr. Crawford, o senhor está tendo problemas?
— Estou sendo aconselhado a tirar uma licença para tratar de pessoa da família — respondeu Crawford. —
Há um novo grupo de trabalho saído do FBI, DEA e “e-


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lementos adicionais” do escritório do Promotor Público,
quer dizer, de Krendler.
— Quem é o chefe?
— Oficialmente, o assistente do diretor do FBI,
John Golby. Digamos que ele e eu estamos em íntima colaboração. John é um bom sujeito. Que tal falarmos sobre
você? Você está tendo problemas?
— Krendler me mandou entregar a ID e o revólver
e apresentar-me de volta à escola.
— Isso foi o que ele fez antes da sua visita a Lecter.
Esta tarde ele mandou uma bomba ao Escritório de Responsabilidade Profissional. Era um pedido “sem opinião
preconcebida” para que a Academia suspenda você e faça
uma reavaliação da sua aptidão para o serviço. É uma
merda duma retaliação. O instrutor-chefe de tiro, John
Brigham, viu o pedido na reunião do corpo docente em
Quântico há poucas horas. Ele protestou energicamente e
pendurou-se ao telefone para falar comigo.
— Qual é a gravidade disso?
— Você tem o direito de ser ouvida. Tornarei-me
fiador da sua aptidão e isso deverá ser o bastante. Contudo, se você passar mais tempo afastada, será definitivamente excluída, seja qual for o resultado da investigação.
Você sabe o que acontece quando uma pessoa é excluída?
— Claro. A pessoa é mandada para o escritório regional que a recrutou. Lá ela fica arquivando relatórios e
fazendo café até surgir vaga numa classe.
— Posso prometer-lhe uma vaga numa classe mais
tarde, mas não posso impedi-los de excluí-la se você continuar faltando.
— Então devo voltar para a escola e parar de trabalhar neste caso, ou...


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— É isso.
— O que deseja o senhor que eu faça?
— Sua tarefa era Lecter. Você a cumpriu. Não vou
pedir-lhe para ser excluída. Poderia custar-lhe meio ano,
talvez mais.
— E quanto a Catherine Martin?
— Bill já está com ela há quase 48 horas, serão 48
horas à meia noite. Se nós não o apanharmos, provavelmente vai fazer o serviço nela amanhã ou depois, se for
como no último caso.
— Lecter não é tudo o que tínhamos.
— Eles pegaram seis William Rubin até agora, todos com antecedentes policiais de uma espécie ou outra.
Nenhum deles parece ser o procurado. Não há Billy Rubin na lista de assinantes de jornais sobre insetos. O Sindicato dos Cuteleiros tem conhecimento de cinco casos de
antraz de marfim nos últimos dez anos. Ainda temos uns
dois homens para verificar. O que mais? Klaus ainda não
foi identificado... até agora. A Interpol acusa um edital de
procura de um marinheiro norueguês fugitivo, um certo
“Klaus Bjetland”, ou como quer que se pronuncie... A
Noruega está procurando o registro dental dele para enviar. Se obtivermos qualquer coisa das clínicas, e você tiver
tempo, você ainda poderá ajudar. Olhe, Starling...
— Sim, Sr. Crawford?
— Volte para a escola.
— Se o senhor não queria que eu o procurasse, não
devia ter me levado àquela casa funerária, Sr. Crawford.
— Não — assentiu Crawford — , suponho que
não. Mas nesse caso não teríamos encontrado o inseto.
Não entregue sua arma de fogo, Starling. Quântico é bem


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seguro, mas você deve anda armada sempre que sair da
sua base e até que Lecter seja preso ou morto.
— E quanto ao senhor? Ele o odeia. Sei, porque ele
repete muito isso.
— Muita gente me odeia, Starling, numa porção de
cadeias. Mais tarde ele poderá pensar em cuidar do assunto, mas por enquanto está ocupado demais. É doce permanecer em liberdade, e ele não deve estar disposto a
desperdiçar seu tempo doutra forma. E este meu lugar é
mais seguro do que parece.
O telefone no bolso de Crawford zumbiu. O que
ficava na mesa também fez um ruído e uma lâmpada acendeu. Crawford escutou durante alguns minutos, disse
“O.K “ e desligou.
— Encontraram a ambulância na garagem subterrânea do aeroporto de Memphis — informou ele, balançando a cabeça. — Nada de bom. A equipe estava na parte de trás: ambos mortos. Crawford tirou os óculos e procurou um lenço nos bolsos para limpá-los. — Starling, o
Smithsonian telefonou para Burroughs procurando você.
Aquele camarada, Pilcher. Eles estão muito próximos de
terminar com o inseto. Quero que você escreva um pequeno 302 sobre o assunto e o assine para o arquivo permanente. Você encontrou esse inseto e seguiu a pista, e eu
quero que o arquivo o registre. Está disposta a isso?
Starling estava mais cansada do que nunca.
— Por certo — respondeu.
— Deixe seu carro na garagem. Jeff irá levar você
para Quântico quando terminar.
Antes descer os degraus ela voltou o rosto para a
janela iluminada e com cortinas onde a enfermeira estava
de plantão e depois olhou para Crawford.


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— Estou pensando no senhor e na sua mulher, Sr.
Crawford.
— Obrigado, Starling — agradeceu ele.


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CAPÍTULO 40
— Sim, oficial Starling, o Dr. Pilcher disse que a
encontraria no Zoológico de Insetos. Vou levá-la até lá —
anunciou o guarda.
Para chegar ao Zoológico de Insetos vindo do lado
da Constituition Avenue era preciso pegar o elevador um
nível acima do grande elefante empalhado e cruzar um
vasto andar dedicado ao estudo do homem.
Primeiro havia filas de caveiras, que aumentavam e
se espalhavam, representando a explosão da população
humana desde os tempos de Cristo.
Starling e o guarda moviam-se num panorama habitado por figuras ilustrando a origem humana e sua variação. Aqui estavam as exposições de rituais — tatuagens,
pés ligados, modificação dos dentes, cirurgia peruana,
mumificação.
— A senhora alguma vez viu Wilhelm von Ellenbogen? — indagou o guarda dirigindo a luz de sua lanterna para uma caixa.
— Acredito que não — respondeu Starling sem
diminuir o passo.
— A senhora deveria vir aqui quando as luzes estão
acesas e dar uma olhada nele. Foi enterrado em Filadélfia
no século XVIII e virou sabão quando a água do subsolo
o atingiu.
O Zoológico dos Insetos, uma grande sala, estava
na penumbra, barulhento com os sons produzidos pelos
insetos em sua movimentação. Gaiolas e gaiolas de insetos
vivos povoam a sala. Crianças gostam particularmente
deste zoológico e freqüentam-no durante todo o dia. À


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noite, sozinhos, os insetos ficam mais ativos. Algumas das
caixas eram iluminadas com luz encarnada e os sinais das
saída de incêndio brilhavam com um vermelho forte na
sala semi-escurecida.
— Dr. Pilcher? — chamou o guarda da porta.
— Aqui — disse Pilcher, levantando uma canetalanterna como se fosse um farol.
— Depois o senhor levará esta senhora para fora?
— Sim, obrigado, guarda.
Starling tirou sua pequena caneta-lanterna da bolsa
e descobri que o interruptor estava ligado e as pilhas esgotadas. O acesso de raiva que sentiu fê-la lembrar-se do seu
cansaço e que devia se controlar.
— Alô, policial Starling.
— Como vai, Dr. Pilcher?
— Que tal “professor Pilcher”
— O senhor é professor?
— Não, mas também não estou doutor. O que eu
estou é contente de vê-la. Quer dar uma olhada em alguns
insetos?
— Claro. Onde está o Dr. Roden?
— Ele fez um grande progresso nas últimas duas
noites estudando as cerdas do inseto e finalmente teve que
descansar. Você viu o bicho antes de começarmos com
ele?
— Não.
— Era só uma coisa úmida, nada mais.
— Mas vocês o estudaram e identificaram.
— Sim, ainda há pouco. — Ele parou numa gaiola
de tela. Primeiro deixe-me mostrar-lhe uma mariposa como aquela que você trouxe na segunda-feira. Esta não é
exatamente a mesma que a sua, mas é da mesma família,


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uma corujinha. — O feixe da lanterna elétrica descobriu a
grande e brilhante mariposa azul pousado num pequeno
galho, suas asas dobradas. Pilcher soprou em cima dela e
instantaneamente a cara zangada de uma coruja aparece
quando a mariposa abriu a parte interna de suas asas para
eles, a manchas dos olhos nas asas brilhando como a última coisa que um rato vê. — Esta é Caligo beltrao, bastante comum. Mas com aquele exemplar de Klaus nós entramos no terreno de algumas mariposa grandes. Venha
comigo.
No fim da sala havia uma caixa recuada dentro de
um nicho com um corrimão à sua frente. A caixa estava
fora do alcance da mãos de crianças e coberta com um
pano. Um pequeno umidificador zumbia ao lado dela.
— Nós a mantemos atrás de um vidro para proteger os dedo; das pessoas, ela pode atacar. Ela também
gosta de umidade e o vidro mantém a umidade interna. —
Pilcher levantou a gaiola cuidadosamente por suas alças
para trazê-la à frente do nicho. Tirou a coberta e acendeu
uma pequena lâmpada por cima da gaiola. — Esta é chamada Mariposa da Caveira — disse ele. — O arbusto onde ela está pousada é uma dulcamara temos esperança de
que ela ponha ovos.
A mariposa era maravilhosa e terrível de ver, com
suas enormes asas marrom-escuras dobradas como um
manto. Nas suas costas cobertas de cerdas via-se a assinatura que instilou medo nos homens desde quando deram
com ela, subitamente, em seus felizes jardins. A abóbada
de um crânio, um crânio que é ao mesmo tempo um rosto, olhando com olhos profundos, os malares, o arco zigomático caprichosamente traçado ao lado dos olhos.


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— Acherontia styx — ensinou Pilcher. — É o nome de dois rios do inferno. Seu homem, ele transporta
sempre os cadáveres através do rio, não foi isso que eu li?
— Sim — disse Starling. — Ela é rara?
— Nesta parte do mundo, é. Por aqui não há nenhuma como ela na natureza.
— De onde é que ela vem? — Starling encostou o
rosto perto do teto da gaiola. Sua respiração agitou as cerdas nas costas da mariposa. Starling recuou quando ela
emitiu um som e bateu furiosamente as asas. Pôde sentir o
fraco ventinho que ela produziu.
— Da Malásia. Há também um tipo europeu, chamado atropos, mas esta e aquela que estava na garganta de
Maus são da Malásia.
— Então alguém a criou.
Pilcher fez que sim com a cabeça.
— Claro — achou melhor dizer, quando viu que
Starling não estava olhando para ele. -Teve que ser enviada da Malásia como um ovo, mais provavelmente como
uma pupa. Ninguém jamais conseguiu fazê-las desovar no
cativeiro. Elas acasalam, mas não põem ovos. O difícil é
achar a lagarta na floresta; encontrada, não é difícil de criar.
— Você disse que elas podem atacar.
— Sua probóscide é rígida e afiada, e ela pode grudar no seu dedo se você facilitar. É uma arma inusitada, e
o álcool não afeta os exemplares conservados. Isso nos
ajudou a diminuir o campo de pesquisa e permitiu identificá-la rapidamente. — Súbito, Pilcher pareceu ficar embaraçado, como se tivesse dito uma impropriedade. — Elas
também são valentes — apressou-se a acrescentar. — Atacam colméias e sugam o mel de Bogart. Certa vez está-


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vamos coletando insetos em Sabah, Bornéu, e elas apareceram atraídas pela luz do alojamento dos jovens. Era apavorante ouvi-las, e nós...
— De onde veio esta?
— De uma troca com o governo da Malásia. Não
sei pelo que a trocamos. Foi engraçado: lá estávamos nós
no escuro, esperando com aquele balde de cianureto,
quando...
— Que espécie de manifesto alfandegário veio com
esta? Vocês têm registros dessas coisas? É preciso conseguir uma licença de exportação da Malásia? Quem teria
isso?
— Você está muito apressada. Veja: registrei tudo o
que temos e os lugares onde colocar anúncios se você deseja fazer essa espécie de importação. Vamos, eu a conduzo para fora.
Cruzaram o vasto espaço em silêncio. A luz do elevador, pôde ver que Pilcher estava tão cansado quanto ela.
— Você ficou acordado trabalhando nisso — observou ela. Foi bom tê-lo feito. Eu não quis ser brusca,
apenas...
— Espero que o apanhem. E que você se livre desse encargo em breve — desejou ele. — Eu listei algumas
drogas que ele pode estar comprando, se cuida de espécimes moles... Policial Starling, eu gostaria de conhecê-la
melhor.
— Talvez eu lhe telefone quando puder.
— Definitivamente deve fazer isso, sem falta. Eu
apreciaria assegurou Pilcher.
O elevador fechou-se e Pilcher e Starling desapareceram. O andar dedicado ao homem estava em silêncio e


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nenhuma figura humana se movia — nem os tatuados,
nem as múmias, nem os pés ligados se mexiam.
As luzes de incêndio brilhavam, rubras, no Zoológico de Insetos, refletidos em mil olhos ativos. O umidificador zumbia. Debaixo da sua coberta, na gaiola negra, a
Mariposa da Caveira desceu do galho de dulcamara. Cruzou pelo piso da gaiola, as asas arrastando-se como uma
pelerine, e descobriu um fragmento de favo de mel no seu
prato. Agarrando o favo com as poderosas patas dianteiras, desenrolou sua afiada probóscide e enfiou-a na tampa
de cera de uma célula do favo. Ficou quieta, sugando, enquanto à volta dela os cricris e os movimentos dos insetos
recomeçaram, e com eles iam surgindo pequenas novas
vidas e mortes.


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CAPÍTULO 41
Catherine Baker Martin jaz naquelas trevas horrorosas. As trevas acumulam-se por trás de suas pálpebras;
nos agitados momentos de sono, ela sonha que as trevas a
penetram. As trevas vêm, insidiosas, invadem seu nariz e
seus ouvidos, os dedos úmidos das trevas tocam cada uma
das aberturas de seu corpo. Põe a mão em frente à boca e
ao nariz, põe a outra em cima da vagina, aperta as nádegas, vira um dos ouvidos contra o colchão e sacrifica o
outro para a entrada das trevas. Junto com as trevas vem
um som e ela acorda num pulo. O som familiar e ativo de
uma máquina de costura. De velocidade variável. Vagarosa, depois rápida.
Lá em cima, no porão, as luzes estavam acesas —
ela podia ver um fraco disco de luz amarela onde, muito
alto, o pequeno alçapão que dava para o poço estava aberto. A poodle latiu algumas vezes e a voz extraterrena falou
com ela, meio abafada.
Costurando. Era uma coisa muito errada costurar
naquele lugar. A costura é algo que demanda luz. O ensolarado quarto de costura na casa de Catherine quando criança trazia uma lembrança tão bem-vinda à sua mente... A
governanta, a querida Bea Love na máquina... seu gatinho
brincando com as cortinas que esvoaçam.
Aquela voz lá em cima, discutindo com o cão, fez
toda a memória fugir.
— Queridinha, não pegue nisso. Você se está com
um alfinete e então o que vamos fazer? Estou quase terminando. Sim, belezinha. Você ganha um Chew-wy quan-


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do nós acabarmos... você ganha um Chew-wy, dudi-dudidu...
Catherine não sabia há quanto tempo estava cativa.
Lembrava que se havia lavado duas vezes — da última vez
ela ficara de pé, bem iluminada, desejando que ele visse
seu corpo, sem estar certa de que, por trás da luz que a
cegava, ele olhava para baixo. Nua, Catherine Baker era
um espetáculo, um mulheraço visto de qualquer ângulo, e
ela sabia disso. Queria que ele a visse. Queria sair do poço.
Perto o bastante para trepar é perto o bastante para lutar
— dissera para si mesma repetidas vezes enquanto se lavava. Ela recebia muito pouca coisa para comer e sabia
que era melhor lutar enquanto tivesse forças. Sabia que ia
lutar com ele; e sabia que era capaz disso. Seria melhor
foder com ele primeiro, foder tantas vezes quantas ele pudesse agüentar até esgotá-lo? Sabia que se pudesse enrolar
suas pernas em torno do pescoço, o mandaria para o inferno em um segundo e meio. Será que terei forças para
fazer isso? Claro que tenho! Não ouvira, porém, nenhum
som lá de cima quando acabou de se lavar e vestiu a malha
limpa. Não houve resposta ao seu oferecimento quando o
balde do banho subiu, balançando em sua frágil Gordinha,
e foi substituído pelo balde de toalete.
Agora, horas mais tarde, continuava esperando, ouvindo a máquina de costura. Não o chamou aos gritos.
Depois de algum tempo, talvez umas mil respirações, escutou quando ele subiu as escadas a falar com o cão, dizendo qualquer coisa como “... o desjejum, quando eu
voltar”. Deixou o porão com a luz acesa. Às vezes ele fazia isso.


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Arranhar de unhas e pisadas na cozinha, no andar
de cima. O cão choramingando. Imaginou que seu raptor
saia da casa. Às vezes ele saía por longo tempo.
Continuou a contar as respirações. A pequena cadela continuava a se mover pela cozinha, ganindo, arrastando algo no chão, batendo com esse algo no soalho, talvez
sua tigela de comida. A seguir arranhava e arranhava o
chão. E novos latidos, latidos pequenos, curtos e agudos,
agora não tão claros como fora quando o animal estava
bem acima dela, na cozinha. Porque a poodle já não estava
na cozinha, Tinha aberto a porta com o focinho e estava
no porão caçando camundongos, como fizera da vez anterior quando o homem saíra.
No escuro, Catherine Martin apalpou embaixo do
seu cobertor. Encontrou o pedaço de osso de galinha e
cheirou-o. Era duro resistir e não comer os pequenos restos de carne e pele que havia nele. Colocou-o na boca para
aquecer. A seguir de pé, um pouco tonta, na escuridão.
Além dela, no poço de paredes verticais, não havia mais
nada a não ser o cobertor, o macacão que usava, o balde
de plástico para toalete e aquela frágil Gordinha que se
estendia para o alto em direção à pálida luz amarela.
Pensava nisso durante cada intervalo em que conseguia pensar. Catherine esticou-se quanto pôde e agarrou
a Gordinha. Era melhor dar um arranco ou puxar com
calma? Pensara nisso milhares de vezes enquanto contava
a respiração. Melhor puxar com firmeza.
A corda de algodão esticou mais do que esperava.
Segurou-a de novo o mais alto que pôde, movendo o braço de um lado para o outro na esperança de que a cordinha estivesse roçando bem alto, na tampa de madeira do
buraco lá em cima. Continuou a sacudi-la até seu braço


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doer. Puxou: a corda agora não se alongava mais, não tinha mais o que ceder. Por favor, queira partir-se bem alto!... Ouviu um estalido e a cordinha caiu, dando uma
porção de voltas em cima do seu rosto.
Acocorada no chão, com a Gordinha sobre a cabeça e os ombros, sem luz bastante da fresta lá em cima para
ver quanto da corda havia em cima dela. Não devo embaraçá-la. Com todo cuidado, arrumou a cordinha no chão,
medindo-a com o antebraço. Contou quatorze antebraços.
A cordinha se rompera na beirada do poço.
Amarrou o osso de galinha e seus restos de carne
firmemente com a corda onde esta se prendia à asa do
balde.
Agora vinha a parte mais difícil.
Trabalhe cuidadosamente. Ela estava num estado
de espírito que chamada de “tempo ruim”. Era como tomar conta de si mesma num pequeno barco durante
“tempo ruim”.
Amarrou a outra ponta da cordinha em seu pulso,
apertando o nó com os dentes.
Afastou-se da cordinha tanto quanto possível. Segurando o balde pela alça, ela rodou com o braço todo
estendido e jogou-o para cima, em direção ao fraco disco
de luz. O balde de plástico não acertou no alçapão aberto,
bateu no lado inferior da tampa do poço e caiu, acertando-a no rosto e no ombro. A cachorrinha latiu mais alto.
Arrumou novamente a corda com todo o cuidado e
jogou o balde de novo, e de novo. No terceiro arremesso,
o balde atingiu seu dedo quebrado e ela teve que encostarse na parede inclinada e respirar fundo até a dor passar. O
arremesso número quatro voltou a bater nela, mas no de
número cinco o balde não voltou. Ficara preso em algum


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lugar sobre a tampa de madeira do poço, ao lado do alçapão aberto. A que distância da abertura? Fique firme agora! Puxou devagarinho. Sacudiu a cordinha para ouvir a
alça do balde bater contra a madeira lá em cima.
O animal latiu mais alto.
Não devia puxar o balde até a abertura, mas devia
puxá-lo até perto. Foi o que fez.
A cadelinha estava num quarto do porão ao lado,
solta entre espelhos e manequins. Cheirava os fiapos e as
aparas embaixo da máquina de costura. Encostou o nariz
no grande armário negro. A seguir olhou para o lado do
porão de onde vinham sons. Deu uma corridinha até o
lado escuro, latiu e correu de volta para onde estava antes.
Agora ouviu uma voz que ecoava fracamente pelo
porão:
— Preciosa!
A cachorrinha latiu e deu uns pulinhos; seu corpo
balofo tremia ao latir.
Ouviu-se um som estalado, como de um beijo.
O cão olhou para o piso da cozinha acima, mas não
era de lá que viera o som.
A seguir um barulho como se alguém estivesse comendo.
— Venha cá, Preciosa. Venha cá, belezinha!
Nas pontas dos pés, com as orelhas levantadas, o
cão invadiu a parte escura.
De novo o ruído de alguém comendo.
— Venha cá, belezinha, venha cá, Preciosa.
A poodle podia sentir o cheiro do osso de galinha
amarrada na alça do balde. Arranhou com as unhas ao
lado da parede do poço e ganiu.
O barulho de alguém comendo continuava.


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O pequeno animal pulou sobre a tampa do poço. O
cheiro partia dali, entre o balde e a abertura do alçapão. A
cadelinha latiu para o balde e ganiu, indecisa. O osso de
galinha moveu-se um pouquinho.
O cão agachou-se com o nariz entre as patas dianteiras, sua cauda no ar se agitando furiosamente. Latiu duas vezes e atirou-se em cima do osso agarrando-o com os
dentes. O balde estava parecendo querer afastar aquele
resto de alimento. O animal rosnou para o balde e segurou
firme o osso, passando sobre a alça, os dentes bem cravados. De repente o balde derrubou a poodle, empurrou-a
ela lutou para ficar de pé, tornou a cair, agarrou-se ao balde; uma da patas traseiras e seu quarto posterior caíram no
buraco, suas unhas arranharam nervosamente a madeira.
O balde escorregou, meteu se no buraco junto com o
quarto traseiro da poodle e ela livrou-se enquanto o balde
escorregava pela borda e mergulhava na escuridão, levando o osso de galinha. O cão ficou latindo zangado, seus
latidos que reverberavam pelo poço abaixo. Logo parou
de latir e volto a cabeça para um som que só ele podia ouvir. Pulou de cima do poço e disparou escada acima ganindo de alegria quando ouviu porta se abrir.
As lágrimas de Catherine Baker Martin correram
quentes pelo seu rosto e deslizaram pelo seu macacão,
molhando-o, seu calor umedecendo-lhe os seios — e então ela acreditou que certamente iria morrer.


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CAPÍTULO 42
Crawford estava sozinho no sei estúdio, com as
mãos enfiada profundamente nos bolsos. Ficara ali doze
horas seguidas, cozinhando uma idéia. Depois mando um
telex para o Departamento de Veículos a Motor da Califórnia requisitando uma pista sobre o motor Nome que o
Dr. Lecter dissera que Raspail tinha comprado na Califórnia, aquele que usara diante o seu romance com Klaus.
Crawford pediu ao DMV pai checar multas de trânsito
aplicadas a quaisquer outros motorista donos do carro
além de Benjamin Raspail.
A seguir sentou-se no sofá com uma prancheta e
elaborou provocante anúncio pessoal para ser publicado
nos principais diária
Moça apetitosa, corpo de Vênus, 21 anos de idade,
modelo, procura homem que aprecie qualidade e quantidade. Modelo de roupas íntimas e cosméticos, você já
me viu em anúncios de revistas, agora eu gostaria de ver
você. Mande retratos com a primeira carta.
Crawford pensou por um momento, e tirou “corpo
de Vênus substituindo-o por corpo espetacular”.
A cabeça pendeu-lhe e ele deu uma cochilada. A tela verde d terminal do computador fazia pequenos quadrados nas lentes de sei óculos. Agora havia um movimento na tela, as linhas subindo movimentando-se nas
lentes de Crawford. Em seu sono ele sacudiu a cabeça
como se a imagem lhe fizesse cócegas.
A mensagem era a seguinte:
POLÍCIA DE MEMPHIS RECUPEROU DOIS
ITENS AO EXAMINAR CELA DE LECTER:


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(I) — CHAVE DE ALGEMAS IMPROVISADA
FEITA DE TUBO INTERNO DE CANETA ESFEROGRÁFICA; INCISÕES CORTADAS POR ABRASÃO. BALTIMORE SOLICITADA A VERIFICAR
CELA DO HOSPITAL PARA TRAÇOS DA MANUFATURA AUTH COPLEY, SAC MEMPHIS.
(2) — FOLHA DE PAPEL DEIXADA FLUTUANDO NA PRIVADA PELO FUGITIVO; ORIGINAL
A CAMINHO DO LAB. SEÇÃO DOCUMENTOS
WASHINGTON; GRÁFICO DO ESCRITO SEGUE;
GRÁFICO MANDADO TAMBÉM PARA LANGLEY,
ATTE BENSON — CRIPTOGRAFIA.
Quando o gráfico apareceu, subindo como uma
corsa que estivesse espiando pela borda de baixo da tela,
era o seguinte: C33H3e1 L T Og N4
O suave bipe duplo do terminal do computador
não acordou Crawford, mas três minutos depois o telefone o acordou. Era Jerry Burroughs na linha privativa do
Centro Nacional de Informações sobre Crimes.
— Já olhou a sua tela, Jack?
— Espere um momento — disse Crawford. —
Sim.
— O laboratório descobriu, Jack; o desenho que
Lecter deixou na privada. Os números entre as letras do
nome de Chilton, são de bioquímica: C,H,N,08 — é a
fórmula do pigmento que se encontra na bile humana
chamado bilirrubina. O laboratório informa que é o agente principal de coloração das fezes.
— Bolas!
— Você tinha razão sobre Lecter, Jack. Estava apenas se divertindo com eles. Sinto pena da senadora Martin. O laboratório diz que a bilirrubina é quase exatamente


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da cor do cabelo do Dr. Chilton. Humor de asilo de loucos, dizem eles... Você viu o Dr. Chilton no jornal das
seis?
— Não.
Marilyn Sutter viu-o no andar de cima. Chilton estava se proseando acerca de “A Procura de Billy Rubin”.
Depois foi jantas com um repórter da televisão. Era o que
ele estava fazendo quando Lecter resolveu dar uma voltinha. Que supra-sumo de cretino!
— Lecter disse a Starling: “tenha em mente” que
Chilton não é formado em medicina — explicou Crawford.
— Sim, vi isso no sumário dela. Acho que Chilton
tentou transar com ela, é o que penso, e ela o mandou
cantar noutra freguesia, Ele pode ser burro, mas não é
cego... Como é que está a pequena?
— O.K., penso eu. Esgotada.
— Você acha que Lecter também a estava cantando?
— Talvez. Vamos ficar em cima do assunto. Não
sei o que os clínicos andam fazendo; fico pensando se não
deveria ter requisita do os registros com uma ordem judicial. Odeio ter que depender deles. Amanhã pelo meio da
manhã, se não tivermos ouvido nada, vamos recorrer à via
judicial.
— Diga-me, Jack... você tem algumas pessoas aqui
fora que conhecem Lecter de vista, certo?
— Certo.
— Ele deve estar rindo em algum lugar.
— Talvez não por muito tempo — disse Crawford.


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CAPÍTULO 43
Dr. Hannibal Lecter estava no balcão de recepção
do elegante Marcus Hotel em St. Louis. Usava um chapéu
marrom e uma capa de chuva abotoada até o pescoço.
Uma atadura cirúrgica cobria-lhe o nariz e as faces.
Assinou no registro “Lloyd Wyman”, uma assinatura que ele havia praticado no carro de Wyman.
— Como vai pagar, Sr. Wyman?
— American Express. — O Dr. Lecter entregoulhe o cartão de crédito de Lloyd Wyman.
Música suave de piano vinha do saguão. No bar o
Dr. Lecter viu duas pessoas com ataduras a cobrir-lhes o
nariz. Um casal de meia-idade cruzou para os elevadores,
cantarolando uma melodia de Cole Porter. A mulher trazia
uma venda de gaze sobre um olho.
O atendente acabou de fazer a impressão do cartão
de crédito.
— O senhor deve saber, Sr. Wyman, que tem o direito de utilizar a garagem do hospital.
— Sim, obrigado — falou o Dr. Lecter. Ele já havia
estacionado o carro de Wyman na garagem, com Wyman
dentro do porta malas.
O porteiro que carregou as malas de Wyman para a
pequena suste recebeu como gratificação uma das notas
de cinco dólares de Wyman.
O Dr. Lecter pediu um drinque e um sanduíche e
depois relaxou-se com um demorado banho de chuveiro.
Após seu longo confinamento, a suíte lhe parecia
enorme. Ele se divertia andando de um lado para o outro,
da porta às janelas e vice-versa.


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Das janelas, podia ver, no lado oposto da rua, o Pavilhão Myro e Sadie Fleischer do St. Louis City Hospital,
que abrigava um dos mais avançados centros mundiais de
cirurgias craniofacial.
O rosto do Dr. Lecter era conhecido demais e ele
não tinha como usar um daqueles cirurgiões plásticos, mas
estava num lugar onde podia andar com uma atadura no
rosto sem chamar a menor atenção. Ele já tinha estado ali
antes, muitos anos atrás, quando fazia uma pesquisa psiquiátrica na soberba biblioteca cujo nome homenageava a
memória de Robert J. Brockman.
Era gostoso ter uma janela, várias delas. Ficou por
trás das janelas no escuro, vendo as luzes dos carros cruzando a MacArthu Bridge e saboreando seu drinque. Sentia-se agradavelmente fatiga do depois de dirigir cinco horas de Memphis até ali.
O único problema real da tarde ocorrera na garagem subterrânea do Aeroporto Internacional de Memphis.
Limpar-se com álcool, chumaço de algodão e água destilada na traseira da ambulância não fora nada conveniente.
Depois de se meter na roupa branca de um dos paramédicos, foi somente uma questão de surpreender um viajante
solitário na ala deserta do estacionamento de longo prazo
na imensa garagem. Cooperativamente, o homem inclinou-se para dentro da mala de seu carro a fim de apanhar
sua maleta de amostra: Ele nem viu o Dr. Lecter chegar
por trás.
O Dr. Lecter ficou cismando se a polícia acreditaria
que ele era suficientemente estúpido para partir de avião
daquele aeroporto. O único problema na viagem para St.
Louis foi descobrir os botões das luzes, o botão luz alta,
luz baixa, e o dos limpadores de pára-brisas no carro de


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fabricação estrangeira, pois o Dr. Lecter estava familiarizado com os controles ao lado do volante.
No próximo dia ele iria comprar as coisas de que
precisava: tintura para o cabelo, material para barbear-se,
uma lâmpada infra-vermelha e itens que lhe serviriam para
realizar algumas mudança imediatas na sua aparência.
Quando fosse conveniente, ele se movimentaria.
Não havia razão para apressar-se.


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CAPÍTULO 44
Ardelia Mapp estava em sua posição habitual: recostada na cama e com um livro. Ouvia uma estação noticiosa de rádio. Desligou o aparelho assim que Clarice Starling entrou. Olhando para aquele rosto abatido, prudentemente nada lhe perguntou além de:
— Quer tomar um chá?
Quando estudava, Mapp tinha uma beberagem que
preparava com folhas soltas diversas mandadas por sua
avó, à qual dava nome de “chá das pessoas inteligentes”.
Das duas pessoas mais inteligentes que Starling conhecia, uma era também a mais equilibrada e a outra era a
mais assustadora. Starling esperava que isso trouxesse um
certo equilíbrio entre seus conhecimentos.
— Sorte sua ter faltado a aula hoje — contou
Mapp. — Aquele maldito do Kim Won enterrou a gente
no chão. Não estou mentindo. Acredito que na Coréia
eles devem ter mais gravidade do que nós. Então eles vêm
para cá e se sentem leves, sabe? Arranjam trabalho ensinando PE, o que para eles não representa trabalho nenhum... John Brigham apareceu por aqui.
— Quando?
— À noite, ainda há pouco. Queria saber se você já
tinha voltado. Tinha o cabelo muito bem penteado. Andou pelo saguão como um calouro. Conversamos um
pouco. Disse que se você está atrasada, e nós precisamos
estudar em vez de praticar tiro durante os próximos dois
dias, ele abrirá o estande de tiro durante o fim de semana
e deixará que nos recuperemos. Eu disse que o avisaria. É
um bom sujeito.


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— Sim, é.
— Você sabia que ele quer que você participe contra o DEA e a Alfândega na próxima competição?
— Não sabia nada disso.
— Não a das mulheres. A mista. Próxima pergunta:
você sabe a matéria da Quarta Emenda para sexta-feira?
— Sei uma boa parte dela.
— O.K. O que é Chimel versus Califórnia?
— Investigações nas escolas secundárias.
— E o que quer dizer investigações nas escolas?
— Não sei.
— É o conceito de “alcance imediato”. Quem foi
Schneckloth?
— Bolas! Não tenho a menor idéia.
— Schneckloth versus Bustamonte.
— Tem a ver com razoável expectativa de privacidade?
— Bolas para você! Expectativa de privacidade é o
princípio de Katz. Schneckloth é consentimento para investigar. Estou vendo que temos de nos concentrar nos
livros, minha cara. Eu tenho as notas.
— Não esta noite.
— Não. Mas amanhã você irá acordar com a mente
fértil e ignorante e então começaremos a plantar para a
colheita de sexta-feira. Starling, Brigham disse — ele não
deveria contar isso, de forma que prometi reserva — que
você irá sair-se bem no inquérito. Ele pensa que daqui a
dois dias aquele pomposo filho da puta do Krendler já
não se lembrará mais de você. Suas notas são boas, vamos
digerir isso facilmente. — Mapp estudava o rosto cansado
de Starling. — Você fez o máximo que qualquer pessoa
poderia fazer por aquela pobre alma, Starling. Arriscou


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seu pescoço por ela e levou um chute no rabo por causa
dela, mas manteve a investigação funcionando. Você merece uma oportunidade para si mesma. Por que não vai
dormir? Estou me preparando para fazer a mesma coisa.
— Ardelia, obrigada.
E depois que as luzes foram apagadas.
— Starling?
— Sim?
— Quem você acha mais bonito, Brigham ou Hot
Bobby Lowrance?
— Isso é difícil de dizer.
— Brigham tem uma tatuagem no ombro, pude vêla através da sua camisa. O que está escrito nela?
— Não faço a menor idéia.
— Você me dirá assim que descobrir?
— Provavelmente não.
— Eu lhe contei sobre as cuecas de Hot Bobby
com a cobra?
— Você apenas as viu pela janela quando ele estava
levantando pesos.
— Foi a Gracie que contou isso a você? A boca
daquela pequena vai...
Starling já estava dormindo.


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CAPÍTULO 45
Um pouco antes das três da manhã, Crawford, que
estava cochilando ao lado da mulher, acordou. Houve
uma alteração no respirar de Bella, que se mexera em sua
cama. Ele sentou-se e segurou-lhe a mão.
— Bella?
Ela inspirou profundamente, depois expeliu o ar
dos pulmões. Seus olhos estavam abertos pela primeira
vez em dias. Crawford encostou o rosto no dela, mas não
acreditava que ela pudesse vê-lo.
— Bella, eu te amo, querida — ele disse, para o caso de ela poder ouvi-lo.
O medo espalhou-se no seu peito, circulando dentro dele como um morcego no interior de uma casa. Logo
ele se controlou.
Pensou em dar-lhe alguma coisa, qualquer coisa,
mas não que ria que ela sentisse que estava largando sua
mão.
Encostou o ouvido no seu peito. Percebeu uma batida leve, um palpitação, depois o coração parou. Nada
mais havia para ser sentido, apenas uma curiosa sensação
de frio. Por fim não sabia se som que ouvira existia no
peito dela ou só nos seus ouvidos.
— Deus te abençoe e te leve para Ele e para a tua
gente, — murmurou Crawford, palavras que ele desejava
fossem sinceras Ele puxou-a contra si, depois de sentar-se
de encontro à cabeceira da cama. Mantinha-a contra o peito enquanto o cérebro dela morria. Com o queixo, empurrou para trás o lenço que cobria o resto de seus cabelos.
Ele não chorou: já tinha chorado muito.


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Crawford vestiu nela sua melhor camisola, a que ela
mais gostava, e sentou-se durante algum tempo ao lado da
cama, segurando a mão da mulher contra seu rosto. Era
uma mão quadrada e habilidosa, marcada por uma vida
inteira a cuidar do jardim, agora marcada pelas picadas de
injeções nas veias.
Quando voltava do jardim, as mãos dela cheiravam
a tomilho.
“Pense naquilo como clara de ovo em seus dedos”,
as pequenas na escola tinham aconselhado Bella acerca de
sexo. Ela e Crawford tinham rido disso na cama, há muitos anos, anos depois, no ano passado. Não pense nisso,
pense nas coisas boas, nas coisas puras. Aquilo era a coisa
pura. Ela usava um chapeuzinho redondo e luvas brancas
e subia no elevador na primeira vez que ele assobiou um
dramático arranjo de Begin the Beguine. Quando estavam
sozinhos no quarto ela mexia com ele dizendo-lhe que
tinha os bolsos cheios de coisas de garoto.
Crawford experimentou ir para o outro quarto —
dali podia voltar-se quando quisesse e vê-la através da porta aberta, bem composta à luz quente do abajur da mesade-cabeceira. Estava esperando o corpo dela se tornar um
objeto cerimonial distante dele, apartado da pessoa que ele
tivera no leito e separado da companheira de sua vida que
agora retinha apenas na mente. Agora podia chamá-los
para virem buscá-la.
Suas mãos vazias tinham as palmas voltadas para a
frente ao lado do corpo, e ele estava à janela olhando o
vazio nascente. Não que estivesse esperando a madrugada;
o nascente era apenas o lado para onde a janela abria.


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CAPÍTULO 46
— Está pronta, Preciosa?
Jame Gumb estava encostado na cabeceira da cama,
muito confortavelmente, a cachorrinha enroscada e quentinha em cima do seu estômago.
O Sr. Gumb acabara de escovar seus cabelos e tinha uma toalha enrolada na cabeça. Procurou entre as cobertas, encontrou o controle remoto do videocassete e
apertou o botão de ligar.
Compusera seu programa de duas partes em videoteipe copiadas num só cassete. Assistia-o todos os dias
quando estava realizando preparações vitais e sempre o
via imediatamente antes de colher uma pele.
O primeiro teipe era de um filme arranhado da
Movietone News, um filme natural em preto-e-branco, de
1948. Eram as quartas de final da competição para Miss
Sacramento, um episódio preliminar no longo caminho
para o concurso de Miss América em Atlantic City.
Essa era a competição em roupa de banho e todas
as pequenas portavam flores quando vinham em fila até a
escada e subiam no palco.
A poodle do Sr. Gumb já passara por aquilo muitas
vezes e fechou os olhos ao ouvir a música, sabendo que
iria ser apertada.
As concorrentes tinham uma aparência muito “Segunda Guerra Mundial”. Vestiam maiôs Rose Marie Reid
e algumas tinham belos rostos. As pernas de várias delas
também eram bem torneadas, mas faltava-lhes tônus muscular e pareciam dobrar-se um pouco nos joelhos.
Gumb apertou a poodle.


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— Queridinha, aí vem ela, aí-vem-ela, aí-vem-ela!
E lá vinha ela, aproximando-se da escada na sua
roupa de banho branca, com um sorriso radiante para o
jovem que as recebia. Depois subiu a escada rapidamente
com seus sapatos de salto alto, a câmara seguindo a parte
de trás de suas coxas: Mamãe, aquela era Mamãe.
O Sr. Gumb não precisou tocar no controle remoto, ele tinha feito tudo quando copiara o original. De trás
para diante, lá vinha ela de costas, tomava de volta seu
sorriso ao jovem, andava de costas pelo corredor, agora
para a frente de novo, e para trás e para a frente, e para
trás e para a frente.
Quando ela sorria para o jovem, Gumb sorria também.
Havia mais uma foto dela num grupo, mas sempre
aparecia borrada quando ele imobilizava a imagem. Era
melhor deixar correr com velocidade e vê-la num relâmpago. Mamãe com as outras pequenas, congratulando-se
com as vencedoras.
A parte seguinte ele havia copiado de uma televisão
a cabo num motel em Chicago — tivera que sair às pressas e comprar um gravador de videoteipe, ficando mais
uma noite para copiá-lo. Era o tipo de filme que passam
em canais baratos de televisão a cabo tarde da noite, como
painel de fundo para anúncios de sexo que aparecem impressos na tela. As tiras são feitas de filmes sucatados, imorais e inócuos das décadas de 40 e 50, quando havia
voleibol em campos de nudistas, e partes menos explícitas
de filmes de sexo da década de 30, em que os atores masculinos usavam narizes postiços e ainda representavam de
meias. O som era qualquer música. Agora era The Look
of Love, totalmente fora de tempo com ação agitada.


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Não havia nada que o Sr. Gumb pudesse fazer com
os anúncios que invadiam a tela; tinha que se conformar
com eles.
Aqui está ela, uma piscina externa, na Califórnia, a
julgar pela folhagem. Boa mobília de piscina, tudo muito
estilo 50. Nadando nuas, várias mas pequenas graciosas.
Algumas delas poderiam ter aparecido em filmes classe B.
Ligeiras e aos pulinhos saíam da piscina e corriam, muito
mais rápido do que a música, até a escada de um escorregador, subiam, e lá vinham elas — upa! Os seios subindo
quando mergulhavam na água rindo-se, as pernas esticadas e abertas, tchimbum!
Aí vinha Mamãe. Aí vinha ela, trepando na borda
da piscina atrás da pequena que tinha o cabelo crespo. Seu
rosto está parcialmente coberto por um anúncio da Sinderella, uma butique de artigos de sexo, mas agora via-se
quando ia em direção à escada, toda lustrosa e úmida, os
seios maravilhosos, muito elegante, e depois com uma
cicatriz de cesariana pelo escorregador abaixo. Upa! Tão
bonita, e mesmo que o Sr. Gumb não pudesse ver o rosto
dela, o Sr. Gumb sabia em seu íntimo que era Mamãe,
filmada depois da última vez na sua vida em que ele a viu
na realidade. Exceto em sua mente, é claro.
A cena mudava para um anúncio de ajuda marital e
abruptamente terminava.
A poodle cerrou os olhos dois segundos antes que
o Sr. Gumb a apertasse com força.
— Oh, Preciosa, venha aqui com a Mamãe. A Mamãe vai ficar tão bonita!
Muito a fazer, muito a fazer, muito a fazer para aprontar-me para amanhã.


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Ele nunca podia ouvi-la da cozinha mesmo no mais
alto tom de voz, graças a Deus, mas podia ouvi-la nas escadas quando se dirigia para o porão. Tivera a esperança
de que ela estivesse quieta e dormindo. O cão embaixo do
seu braço rosnava para os sons que vinham do poço.
— Você foi mais bem educada do que isso — admoestou ele com a cabeça enterrada no pêlo atrás da cabeça da cachorrinha.
Atingia-se o quarto da masmorra passando por uma
porta à esquerda da parte inferior da escada. Ele não deu
sequer uma olhada, nem ouviu as palavras que vinham do
poço — no que lhe interessava, elas não tinham a mínima
semelhança com o inglês.
O Sr. Gumb entrou à direita, na oficina, pôs o animal no chão e acendeu as luzes. Algumas mariposas esvoaçaram, pousando na tela de arame que cobria as lâmpadas do teto.
O Sr. Gumb era meticuloso na oficina. Sempre misturava suas soluções frescas em aço inoxidável, jamais em
alumínio.
Aprendera a fazer tudo com muita antecedência.
Trabalhando, ele se admoestava:
— Você tem que ser organizado, você tem que ser
precioso, você tem que ser expedito, porque os problemas
são formidáveis.
A pele humana é pesada — 16 a 18 % do peso corporal — e escorregadia. Uma pele inteira é difícil de manusear e fácil de deixar cair quando ainda está úmida. O
tempo também é importante; as peles começam a encolher logo depois de retiradas, mais notavelmente a de jovens adultos, cuja pele, para começar, é a mais compacta.


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Junte-se a isso o fato de a pele não ser perfeitamente elástica, mesmo nos jovens. Se for esticada, nunca mais
recupera suas proporções originais. Costure alguma coisa
perfeitamente lisa, depois puxe-a com força demais sobre
um manequim de alfaiate e ela enruga e se torce. Ficar
sentado na máquina até ter os olhos vermelhos de tanto
tentar não irá endireitá-la. Além disso existem linhas de
clivagem, e é melhor você saber onde ficam. A pele não se
estica na mesma proporção em todas as direções sem que
as massas de colágeno se deformem e as fibras se rasguem; puxe na direção errada e terá uma marca de distensão.
Material fresco é impossível trabalhar. Muitas experiências foram dedicadas a isso, acompanhadas de muitas
decepções, até o Sr. Gumb acertar.
Afinal ele descobriu que os métodos antigos eram
os melhores. Seu processo era o seguinte: primeiro, encharcava seu material aos aquários, em extratos vegetais
desenvolvidos pelos nativos da América — substâncias
totalmente naturais que não contêm nenhuma quantidade
de sais minerais. A seguir usava o método que produziu a
incomparável pele de gamo, do Novo Mundo, macia como manteiga — o clássico curtume com miolos. Os nativos da América ditavam que cada animal possui miolos
suficientes para curtir seu próprio couro. O Sr. Gumb sabia que isso não era verdade e há muito tempo deixara de
tentá-lo, mesmo com o primata de maior cérebro. Agora
tinha um congelador de miolos de boi, de modo que nunca ficava desprevenido.
Os problemas de processar o material, ele dominava; a prática o tornara quase perfeito.


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Restavam difíceis problemas estruturais, mas ele estava especialmente bem qualificado para resolvê-los também.
A sala de trabalho abria-se para um corredor do porão que dava para um banheiro fora de uso onde o Sr.
Gumb depositava o equipamento de içar e um relógio de
pé; dai passava-se ao estúdio e o grande depósito negro
que ficava adiante.
Abriu a porta do estúdio, que estava brilhantemente
iluminado com refletores e tubos de luz fosforescente,
corrigidos para a luz do dia, presos às vigas do teto. Os
manequins ficavam de pé num piso elevado de carvalho.
Todos estavam parcialmente vestidos, alguns em couro,
outros em moldes de musselina para roupas de couro. Os
oito manequins duplicavam nas duas paredes espelhadas
bons espelhos de vidro plano, não azulejos. Uma mesa de
maquilagem com cosméticos, várias fôrmas de perucas, e
perucas. Este era o mais brilhante dos estúdios, todo
branco e de carvalho louro.
Os manequins expunham trabalhos comerciais em
progresso, na maior parte dramáticos blusões Armani em
fino couro negro cabretta, todos com franzidos em rolos,
os ombros e peitorais pontilhados.
A terceira parede era ocupada por uma grande mesa
de trabalho, duas máquinas de costura comerciais, duas
fôrmas de costureira e um manequim de alfaiate com o
formato do torso do próprio Jame Gumb.
De encontro à quarta parede, dominando esse quarto claro, havia um grande armário negro de laca chinesa
que chegava quase até o teto de 2,50 metros de altura. Era
uma antigüidade e seus desenhos se haviam apagado; algumas pequenas escamas douradas permaneciam onde


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houvera um dragão, seu olho branco ainda visível aberto,
e ali estava a língua vermelha de outro dragão cujo corpo
também se desgastara. A laca por baixo dele ainda era visível, embora estivesse estilhaçada.
O armário, imenso e muito fundo, nada tinha a ver
com o trabalho comercial. Ele continha as fôrmas e os
cabides das Coisas Especiais e suas portas ficavam fechadas.
A cadelinha lambeu um pouco da água da sua tigela
no canto e veio deitar-se entre os pés de um manequim,
com os olhos postos no Sr. Gumb.
Ele estivera trabalhando numa jaqueta de couro.
Tinha que terminá-la — queria liquidar tudo, mas estava
no momento com uma febre criativa e seu modelo de
musselina ainda não o satisfazia.
O Sr. Gumb progredira na arte de costureiro muito
além do que o Departamento Correcional da Califórnia
lhe ensinara na sua juventude, mas ainda encontrava um
verdadeiro desafio. Mesmo trabalhar com o delicado couro cabretta não prepara ninguém para um trabalho realmente especializado.
Ele tinha dois modelos de musselina que pareciam
coletes brancos, um exatamente do seu tamanho e outro
que medira quando Catherine Baker Martin ainda estava
inconsciente. Quando pôs o menor no seu manequim de
alfaiate os problemas tornaram-se aparentes. Ela era uma
moça grande e maravilhosamente proporcionada, mas não
tão grande quanto o Sr. Gumb e realmente não tão larga
nas espáduas.
O ideal dele era um traje sem costuras, o que não
era possível. Estava decidido, no entanto, que a frente do
busto fosse absolutamente sem costuras e sem defeitos.


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Isto significava que todas as correções da figura tinham
que ser feitas nas costas. Muito difícil. Ele já descartara
um modelo de musselina e começara de novo. Dando judiciosas puxadas, poderia dar um jeito com duas pences
embaixo dos braços, não pregas francesas, mas pregas verticais, com as pontas para baixo. Duas pregas na cintura,
logo do lado dos rins. Ele estava acostumado a trabalhar
com apenas uma pequena folga para a costura.
Suas considerações, além dos aspectos visuais, incluíam os tácteis; não era concebível que uma pessoa atraente não fosse abraçada...
O Sr. Gumb espalhou levemente talco em suas
mãos e abraçou o manequim do próprio corpo num abraço natural e confortável.
— Dê-me um beijo — disse, em tom de brincadeira para o vazio onde deveria estar a cabeça. — Não você,
sua boba! — ralhou para a cachorrinha quando ela levantou as orelhas.
Gumb acariciou as costas do manequim envolvendo-o com os seus braços. A seguir caminhou para trás dele a fim de verificar as marcas do talco. Ninguém gosta de
sentir uma costura. Num abraço, entretanto, as mãos ultrapassam o centro das costas. Estamos acostumados
também, raciocinou ele, à linha do centro da espinha. Não
é tão incômodo como uma assimetria em nosso corpo.
Costuras nos ombros, porém, estavam definitivamente
fora de questão. Um apêndice central no topo era a solução, seu ápice um pouco acima do centro das omoplatas.
Ele podia, com a mesma costura, prender a forte barbatana inserida no forro para fornecer apoio. Painéis de lycra
embaixo das plaquetas em ambos os lados — tinha que se
lembrar de comprar lycra — e um fecho de velcro por


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baixo da plaqueta na direita. Pensava naqueles maravilhosos vestidos de Charles James nos quais as costuras eram
deslocadas para ficarem perfeitamente planas.
A pence nas costas seria coberta por seu cabelo, ou
melhor, pelo cabelo que ele em breve teria.
O Sr. Gumb tirou o modelo de musselina do manequim e começou a trabalhar.
A máquina de costura era antiga e de bela construção, uma máquina de pé, toda enfeitada, que fora convertida para eletricidade talvez há uns quarenta anos. No braço da máquina estava pintado com tinta de ouro o dístico
“Eu Nunca Me Canso, Eu Sirvo”. O pedal continuava em
operação e Gumb dava partida na máquina com ele para
cada série de pontos. Para uma costura fina, preferia trabalhar com os pés descalços, movendo o pedal delicadamente com o pé gordo, agarrando sua parte frontal com
os artelhos de unhas pintadas para evitar excesso de pontos. Por um momento só se ouviam os sons da máquina,
o ressonar do cão e os assobios dos canos de vapor no
porão quente.
Quando acabou de costurar as pences no modelo
de musselina, experimentou-o em frente aos espelhos. A
cadelinha observava do seu canto com a cabeça virada.
Precisava folgar um pouco embaixo das axilas. Restavam alguns pequenos problemas de assentamento. Exceto por isso, estava muito bonito. Simples, leve, folgado.
Ele podia imaginar-se subindo os degraus da escada de
um escorregador tão rápido quanto quisesse.
O Sr. Gumb ajeitou as luzes e suas perucas para obter algum efeitos dramáticos, e experimentou um maravilhoso colar de conchas apertado sobre a linha do pescoço.


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Seria deslumbrante quando usasse um vestido décolleté ou
um pijama de anfitriã por cima do novo tórax.
Era tão tentador começar logo com aquilo, realmente começar a trabalhar, mas seus olhos estavam cansados. Ele queria que sua mãos estivessem absolutamente
firmes, também, e não estava preparado para o barulho.
Pacientemente, retirou os pontos e esticou as peças sobre
a mesa. Um modelo perfeito para fazer o corte da pele.
— Amanhã, Preciosa! — disse à cadelinha quando
tirou os miolos do congelador para descongelarem. —
Vamos fazê-lo amanhãããã como a primeira coisa. A Mamãe vai ficar tão bonita!


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CAPÍTULO 47
Starling dormiu direto durante cinco horas e acordou no meio da noite, assustada e com medo do sonho.
Mordeu o canto do lençol e apertou as palmas das mãos
contra. Os ouvidos, conferindo se estava realmente acordada e longe daquilo. Silêncio e nada de gemidos das ovelhas. Quando teve certeza de estar acordada, seu coração
passou a bater mais devagar, mas seus pés não pareciam
quietos por baixo das cobertas. Num momento sua cabeça
ia começar a disparar, ela sabia.
Foi um alívio quando um acesso de pura raiva, em
vez de medo, se apossou dela.
— Bolas — disse ela, e pés um pé no ar fora das
cobertas.
Durante aquele longo dia, quedo fora desacatada
por Chilton, insultada pela senadora Martin, desamparada
e repreendida por Krendler, escarnecida pelo Dr. Lecter,
cuja sangrenta fuga a revoltara, e afastada do serviço por
Jack Crawford, uma coisa a ferira mais profundamente: ter
sido chamada de ladra.
A senadora Martin sofrera uma provação extrema e
estava nauseada de ver policiais remexendo nas coisas de
sua filha. Ela não tivera a intenção.
Mesmo assim, a pecha ardia em Starling como uma
agulha de fogo.
Quando ainda era criança, Starling fora ensinada
que roubar era a mais baixa, a mais desprezível ação, depois de estupro e assassinato por dinheiro. Alguma espécies de assassinatos eram preferíveis ao roubo.


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Como adolescente, nas instituições onde havia
poucos prêmios e muita fome, aprendera a odiar o ladrão.
Deitada no escuro encarava outra razão pela qual a
suspeita da senadora Martin tanto a incomodara.
Starling sabia o que o malicioso Dr. Lecter diria, e
seria verdade: receava que a senadora Martin tivesse visto
nela algo grosseiro, algo barato, algo que lembrava uma
ladra à qual a senadora tivera que reagir. Aquela cadela
Vanderbilt...
O Dr. Lecter se divertiria destacando que o ressentimento de classe, a raiva escondida que vem com o leite
materno, era também um fator importante. Starling não
reconhecia qualquer vantagem em nenhuma Martin quanto a educação, inteligência, disposição e, certamente, aparência física — mas mesmo assim aquela revolta queimava
e ela sabia disso Starling era membro isolado de uma tribo
aguerrida sem genealogia formal a não ser o quadro de
honra e o registro penal. Desalojada da Escócia, expulsa
da Irlanda pela fome, uma porção deles se inclinava para
profissões perigosas. Muita gente da raça de Starling tinha
acabado dessa maneira, jogada no fundo de estreitos buracos ou caída de cima de muros com um tiro no pé, ou
partira ainda para a glória com um desafinado toque de
silêncio quando todo mundo desejava ir para casa. Poucas
poderão ter sido lembradas pelos oficiais à noite, no cassino do regimento com algumas lágrimas, da mesma forma
que um homem que tomou alguns drinques se lembra de
um bom cão de caça. Nomes desbotados numa Bíblia.
Que Starling lembrasse, ninguém da sua família fora
muito inteligente, exceto talvez uma tia-avó que escrevia
maravilhosamente em seu diário até que apanhou uma
“febre cerebral”.


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Entretanto, nenhum deles roubava.
O importante na América era a escola, não é mesmo? — e os Starlings acreditavam nisso. Um dos tios de
Starling mandou gravar em sua lápide tumular seu diploma de ginásio.
Starling vivera em escolas, suas armas eram os exames competitivos, durante todos os anos em que não
havia nenhum outro lugar para ela.
Sabia que era capaz de se recuperar disso. Poderia
ser o que sempre fora, desde que aprendera como as coisas funcionavam: ela podia ficar próximo aos de sua classe, aprovada, incluída, escolhida, jamais dispensada.
Era uma questão de dar duro e ser cuidadosa. Suas
notas seriam boas. O coreano não poderia matá-la de exercícios. O nome dela seria gravado na grande placa no
saguão no Quadro dos Destaques, por seu extraordinário
desempenho no estande de tiro.
Dentro de quatro semanas seria uma agente especial no Escritório Federal de Investigações.
Teria que se cuidar daquele porra do Krendler para
o resto da sua vida?
Na presença da senadora, ele desejara lavar suas
mãos em relação a ela. Cada vez que Starling pensava nisso ficava queimada. Ele não tinha certeza de que iria encontrar provas no envelope. Isso era chocante. Agora, relembrando Krendler, ela o via calçando sapatos da Marinha, como o prefeito, patrão de seu pai, quando viera apanhar o relógio de vigia.
Pior do que isso: em sua mente Jack Crawford parecia ter diminuído. O homem estava sujeito a uma pressão que ninguém deveria ser obrigado a suportar. Ele a
mandara investigar o carro de Raspail sem nenhum apoio


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ou prova de autoridade. O.K., ela pedira para ir nesses
termos — o resultado fora um feliz acaso. Mas Crawford
deveria saber que haveria dificuldades quando a senadora
Martin a visse em Memphis; teria havido dificuldades
mesmo que ela não tivesse encontrado as fotos da trepada
de Catherine.
Catherine Baker Martin estava na mesma escuridão
que ela.
Starling esquecera-se disso por um momento enquanto pensava nos seus próprios interesses.
Imagens dos últimos dias puniam Starling pelo lapso, apareciam-lhe em cores fortes, cor demais, cor chocante, a cor que salta das trevas quando à noite um raio cai.
Agora, o que a assombrava era Kimberly. A gorda e
morta Kimberly, que furava as orelhas tentando ficar mais
bonita e economizava para depilar as pernas com cera.
Kimberly, cujo cabelo se fora. Kimberly, sua irmã. Starling
não achava que Catherine Baker Martin tivesse tempo para pensar em Kimberly. Elas agora eram irmãs por baixo
da pele. Kimberly, estirada numa casa funerária cheia de
caipiras milicianos estaduais.
Starling não podia mais ver aquilo. Tentou voltar
seu rosto para o lado como um nadador se vira para respirar.
Todas as vítimas de Buffalo Bill eram mulheres, sua
obsessão eram mulheres, ele vivia para caçar mulheres.
Nenhuma mulher o estava caçando em tempo integral.
Nenhuma investigadora examinara cada um de seus crimes.
Starling cismava se Crawford teria peito para usá-la
como técnica quando ele tivesse que examinar Catherine


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Martin. Bill iria “cuidar dela” amanhã, era a previsão de
Crawford. Cuidar dela, cuidar dela, cuidar dela.
— Que se foda tudo! — gritou Starling em voz alta
ao pôr os pés no chão.
— Você está aí corrompendo um débil mental, não
está, Starling? — perguntou Ardelia Mapp. — Meteu-o
aqui no quarto enquanto eu dormia e agora está lhe dando
instruções... Não pense que não a ouvi.
— Desculpe, Ardelia, eu não...
— Você tem que ser muito mais clara com eles do
que está sendo, Starling. Não pode dizer apenas o que você disse. Corromper débeis mentais é exatamente como
jornalismo, você tem que dizer-lhes O quê, Quando, Onde e Como. Eu penso que o Porquê se torna evidente à
medida que você prossegue.
— Você tem alguma roupa para lavar?
— Entendi você perguntar se tenho alguma roupa
para lavar?
— Sim, acho que vou lavar uma trouxa. O que é
que você tem?
— Apenas dois macacões de ginástica pendurados
atrás da porta.
— O.K. Feche os olhos, vou acender a luz apenas
por um segundo.
Não foram as notas sobre a Quarta Emenda para
seu exame próximo que ela empilhou em cima do cesto de
roupa suja e arrastou pelo corredor até a lavanderia.
Levou a pasta de Buffalo Bill, uma pilha de 10 centímetros de inferno e sofrimento numa capa parda impressa com tinta da cor de sangue. Junto com ela estava
uma cópia de teleprinter de seu relatório sobre a Mariposa
da Caveira.


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Teria que devolver a pasta no dia seguinte e se desejava que essa cópia ficasse completa, mais cedo ou mais
tarde precisaria incluir seu relatório. No quarto quente da
lavanderia, ouvindo o confortante chacoalhar da máquina,
tirou as cintas de borracha que mantinham juntas as folhas
na pasta. Dispôs os papéis na prateleira de dobrar a roupa
e tentou anexar seu relatório sem ver nenhuma das fotos,
sem pensar que novas fotos poderiam ser adicionadas em
breve. O mapa estava na parte de cima, o que era bom.
Mas havia algo escrito à mão no mapa.
A elegante caligrafia do Dr. Lecter atravessava os
Grandes Lagos e rezava:
— Clarice, este espalhar de lugares ao azar parece
exagerado para você? Ele não parece desesperadamente ao
azar? Ao azar além de qualquer conveniência possível?
Não sugere a você as elaborações de um mal mentiroso?
Dr. Hannibal Lecter
P. S. — Não perca seu tempo virando todas as folhas; não há mais nada.
Starling levou 20 minutos virando as páginas para
certificar-se de que não havia mais nada.
Depois chamou a linha privada pelo telefone público no corredor e leu a mensagem para Burroughs. Ficou
pensando a que horas Burroughs dormia...
— Tenho que dizer-lhe uma coisa, Starling: o mercado das informações de Lecter anda muito por baixo —
avisou Burroughs. Jack telefonou a você acerca de Billy
Rubin?
— Não.
Encostou-se na parede com os olhos fechados enquanto ele descrevia a brincadeira de Lecter.


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— Estou confuso — disse ele afinal. — Jack diz
que eles vão prosseguir com as clínicas de mudança de
sexo, mas com que pressa? Se você olhar nas informações
do computador a forma como as entradas vindas são indexadas, verá que todas as informações sobre Lecter, as
suas e as que vieram de Memphis, têm prefixos especiais.
O que veio de Baltimore, o que veio de Memphis, ou ambos, tudo pode ser descartado apertando um botão. Penso
que o Departamento de Justiça deseja apertar o botão para
tudo. Tenho aqui um memorando sugerindo que o inseto
na garganta de Klaus era — vejamos... “puro lixo”.
— Apesar de tudo, transmita isso ao Sr. Crawford
— pediu Starling.
— Muito bem, vou colocar isto na tela dele, mas
nós não o estamos incomodando. Você também não sabe
Bella morreu há pouco.
— Oh! — murmurou Starling.
— Escute, tenho algo auspicioso: nossos camaradas
em Baltimore deram uma busca na cela de Lecter, no asilo. Aquele atendente, Barney, ajudou. Encontraram aparas
de latão da cabeça de um parafuso do beliche de Lecter,
que o ajudou a fazer sua chave para as algemas. Fique firme, garota. Você vai sair-se de tudo muito bem, cheirando
a rosas.
— Obrigada, Sr. Burroughs. Boa noite.
Cheirando a rosas. Colocando Vick VapoRub debaixo de suas narinas.
A luz do amanhecer chegava ao último dia da vida
de Catherine Martin.
— O que quereria dizer o Dr. Lecter?
Não se podia adivinhar o que o Dr. Lecter sabia.
Quando ela lhe entregara a pasta, esperava que ele fosse


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gostar das fotos e que fosse usar a pasta como um auxílio
enquanto lhe revelava o que já sabia sobre Buffalo Bill.
Talvez estivesse sempre mentindo, como mentira
para a senadora Martin. Talvez não soubesse ou nada
compreendesse sobre Buffalo Bill.
Ele vê muito claramente — certamente devassa
meus pensamentos. É difícil aceitar que alguém nos possa
compreender sem nos querer bem. Na idade de Starling
isso não acontecera muito com ela.
“Desesperadamente ao azar — dissera o Dr. Lecter.
Starling e Crawford e todo mundo examinaram o
mapa com seus pontinhos marcando os locais dos raptos
e onde os corpos foram jogados. Parecera a Starling uma
constelação negra com uma data ao lado de cada estrela e
ela sabia que a Ciência do Comportamento tentara uma
vez acrescentar signos do zodíaco ao mapa sem resultado.
Se o Dr. Lecter estava lendo para divertir-se, por
que iria brincar com o mapa? Podia vê-lo folheando o relatório, divertindo-se com o estilo em prosa de alguns de
seus colaboradores.
Não havia um sistema entre os raptos e a disposição dos corpos, nenhum relacionamento de conveniência,
nenhuma coordenação no tempo com quaisquer convenções conhecidas, qualquer enxurrada de invasões domiciliares, roubos de roupas estendidas nas cordas, ou de outros crimes orientados por fetiches.
Na sala da lavanderia, com a máquina de secar rodando, Starling corria os dedos pelo mapa. Aqui um rapto,
ali o abandono de um corpo. Aqui um segundo rapto, ali
o abandono de outro corpo. Aqui o terceiro e... Mas essas


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datas estão invertidas ou, diabo, o segundo corpo foi descoberto primeiro.
O fato foi registrado, sem destaque, em tinta borrada ao lado da locação no mapa. O corpo da segunda mulher raptada foi encontrado primeiro, flutuando no rio
Wabash, no centro de Lafayette, Indiana, logo abaixo da
Interstate 65.
A primeira jovem mulher de que se deu falta foi
raptada de Belvedere, Ohio, próximo a Columbus e encontrada muito mais tarde no rio Blackwater, em Missouri, nos arredores de Lone Jack. O corpo fora afundado
com pesos. Nenhum dos outros foi afundado com pesos.
O corpo da primeira vitima foi atirado n’água numa
área deserta. O segundo foi jogado num rio a montante de
uma cidade, onde sua rápida descoberta seria certa.
Por quê?
O primeiro caso dele ficou bem escondido, o segundo, não.
Por quê?
O que quer dizer “desesperadamente ao azar”?
O primeiro, em primeiro lugar. O que disse o Dr.
Lecter sobre “primeiro”? Afinal, o que quer dizer qualquer
coisa que o Dr. Lecter disse?
Starling olhou para as notas que ela havia escrito no
avião vindo de Memphis.
O Dr. Lecter disse que havia bastante na pasta para
localizar o assassino. “Simplicidade” — acrescentara ele.
O que quer dizer “primeiro”, onde era primeiro? Aqui:
“Primeiros princípios” eram importantes. “Primeiros
princípios” soava como um palavreado pomposo quando
ele o disse.


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O que faz ele, Clarice? Qual é a primeira e principal
coisa que ele faz, a que necessidade ele atende matando?
Ele ambiciona. Como a gente começa a ambicionar? Começamos ambicionando aquilo que vemos todos os dias.
Era mais fácil pensar sobre as afirmações do Dr.
Lecter quando ela não estava sentindo os olhos dele em
cima da sua pele. Era mais fácil aqui no núcleo seguro de
Quântico.
Se começamos a ambicionar desejando aquilo que
vemos diariamente, Buffalo Bill se surpreenderia quando
matou a primeira? Teria pegado alguém que vivia por perto dele? Fora por isso que escondera bem o primeiro corpo e relaxara no segundo? Ele raptou a segunda longe de
sua casa e jogou-a onde ela seria achada facilmente porque
desejava estabelecer desde logo a crença de que os locais
dos raptos eram aleatórios?
Quando Starling pensou nas vítimas, Kimberly
Emberg veio-lhe primeiro à mente porque ela vira Kimberly morta e, de certa forma, assumira o papel de Kimberly.
Agora ali estava a primeira. Fredrica Bimmel, 22
anos, Belvedere, Ohio. Havia duas fotos. Na foto do seu
álbum de formatura ela parecia grande e simples, com
uma bonita cabeleira pesada e uma boa cútis. Na segunda
foto, tirada na morgue de Kansas City, já nem parecia
humana.
Starling chamou Burroughs pela segunda vez. Ele
agora parecia um pouco rouco, mas escutou-a.
— Então o que é que você quer dizer, Starling?
— Talvez ele viva em Belvedere, Ohio, onde a primeira vítima vivia. Talvez ele a visse todos os dias, a matou, de certa forma, instintivamente. Talvez só quisesse


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oferecer-lhe uma garrafa de SevenUp e conversar sobre o
coro da igreja. Por isso ele caprichou em esconder o corpo
e depois agarrou uma outra, longe de casa. Ele não escondeu esta muito bem, de forma que ela fosse encontrada
em primeiro lugar e a atenção se dirigisse para longe dele.
Você sabe quanta atenção uma pessoa desaparecida desperta; fala-se muito dela até que o corpo é encontrado.
— Starling, a atenção é maior quando a trilha é
fresca, as pessoas se lembram melhor, as testemunhas...
— É isso o que estou dizendo. Ele sabe disso.
— Por exemplo: você não poderá dar um espirro
sem atingir um tira na cidade daquela última: Kimberly
Emberg, de Detroit. Um bocado de interesse em Kimberly Emberg de repente, desde que a pequena Martin desapareceu. De repente todo mundo está fazendo um esforço
danado no caso dela. Você nunca me ouviu dizer isso, não
esqueça...
— Quer apresentar essa idéia, acerca da primeira
cidade, ao Sr. Crawford?
— Certamente, que diabo, eu a ponho na linha reservada para todo mundo. Não estou dizendo que é uma
má idéia, Starling, mas a cidade foi vasculhada de cabo a
rabo tão logo a mulher — como é mesmo o nome dela?
Bimmel, não é? — foi identificada. O escritório de Columbus ocupou-se de Belvedere e da mesma forma o fizeram uma porção de tiras locais. Você encontrará isso tudo
na pasta. Você não irá despertar muito interesse em Belvedere ou em qualquer outra teoria do Dr. Lecter esta
manhã.
— Tudo o que ele...


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— Starling: estamos mandando um presente para a
UNICEF em memória de Bella. Você deveria juntar-se a
nós; ponho seu nome no cartão?
— Certamente. Obrigada, Sr. Burroughs.
Starling tirou as roupas da secadora. A quente lavanderia era agradável e tinha um cheirinho gostoso. Ela
agarrou a roupa morna de encontro ao colo.
A mãe dela com uma braçada de roupas.
Hoje é o último dia da vida de Catherine.
O corvo preto e branco roubava do carro. Ela não
podia estar do lado de fora para enxotá-lo e ao mesmo
tempo também no quarto.
Hoje é o último dia da vida de Catherine.
O pai dela usava um sinal de braço em vez das luzes de direção quando fazia a curva com sua caminhonete
na entrada da garagem. Brincando no pátio, ela pensava
que com seu grande braço ele mostrava à caminhonete
onde ela devia virar, mandava que ela virasse.
Quando Starling decidiu o que iria fazer, derramou
algumas lágrimas e encostou o rosto na roupa lavada e
morna.


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CAPÍTULO 48
Crawford saiu da casa funerária e correu os olhos
para cima e para baixo na rua à procura de Jeff com o carro. Em vez dele viu Clarice Starling esperando debaixo do
toldo, vestida de escuro, parecendo muito real naquela luz.
— Mande-me — disse ela.
Crawford acabara de escolher o caixão de sua mulher e levava num saco de papel um par de seus sapatos
que trouxera por engano. Procurou recobrar o domínio
sobre si mesmo.
— Perdoe-me — disse Starling. — Eu não teria
vindo agora se houvesse outra oportunidade. Mande-me.
Crawford enfiou as mãos com força nos bolsos, entortou o pescoço no colarinho até ouvir um estalido. Os
olhos deles brilhavam, talvez pressentindo perigo.
— Mandar você para onde?
— O senhor me mandou procurar uma pista de
Catherine Martin, deixe-me procurar outras. Tudo o que
nos resta a descobrir é como é que ele caça. Como ele as
descobre, como as seleciona. Eu sou tão boa quanto qualquer outra pessoa que o senhor tenha entre os tiras, melhor em algumas coisas. As vítimas são todas mulheres e
não há mulheres trabalhando neste caso. Eu posso entrar
no quarto de uma mulher e descobrir três vezes mais a
respeito dela do que um homem seria capaz, e o senhor
sabe que isto é um fato. Mande-me.
— Você está pronta para aceitar uma repetição do
curso?
— Estou.
— Seis meses de sua vida, provavelmente.


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Ela permaneceu calada.
Crawford bateu com o bico do sapato na grama.
Olhou para ela, para a distância insondável de seus olhos.
Ela tinha tutano, como Bella.
— Com quem você começaria?
— Com a primeira. Fredrica Bimmel, de Belvedere,
Ohio.
— Não com Kimberly Emberg, aquela que você
viu?
— Ele não começou com ela. — Deveria mencionar Lecter? Não. Descobriria isso em seu relatório, na linha reservada.
— Emberg seria a escolha emocional, não é verdade, Starling? Sua viagem terá que ser reembolsada. Você
tem algum dinheiro? Os bancos não abrirão antes de uma
hora.
— Tenho algum saldo em meu cartão Visa.
Crawford procurou nos bolsos; deu-lhe 300 dólares
em dinheiro e um cheque pessoal.
— Vá, Starling. Apenas a primeira. Comunique tudo à linha reservada e me telefone.
Starling levantou a mão para ele. Não tocou em seu
rosto nem em sua mão, não parecia haver nenhum lugar
onde pudesse tocá-lo; então voltou-se e correu para o carro.
Crawford bateu no bolso quando ela partiu. Tinhalhe dado o último centavo que levava consigo.
— Minha garota precisa de um novo par de sapatos
— disse ele. — Minha garota não precisa mais de sapatos... — Chorava em plena calçada, as lágrimas rolando
pelo rosto, ele, um chefe de seção do FBI, que ridículo...


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Do carro, Jeff viu o rosto do chefe brilhando e recuou para uma ruela onde Crawford não podia vê-lo; saiu
do carro, acendeu um cigarro e pô-se a fumá-lo furiosamente. Como um presente para Crawford, ficaria por ali
disfarçando até que Crawford secasse as lágrimas, se aliviasse e justificasse o carão que iria lhe passar.


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CAPÍTULO 49
Da beirada do poço ele lhe daria vários tiros abaixo
da espinha. Quando ela perdesse os sentidos, poderia fazer o resto com clorofórmio.
Era isso. Agora iria lá para cima e tiraria as roupas.
Acordaria Preciosa, assistiria a seu vídeo com ela e então
iria trabalhar no úmido porão, nu como no dia em que
nascera.
Sentiu-se meio eufórico ao subir as escadas. Rapidamente tirou a roupa e enfiou-se no robe. Ligou o videocassete.
— Preciosa, vem cá, Preciosa. Vai ser um dia muito
trabalhoso. Vem cá queridinha. — Teria que trancá-la lá
em cima no quarto de dormir enquanto se ocupava com a
parte mais ruidosa no porão. Ela odiava barulho e ficava
tremendamente nervosa. Para mantê-la ocupada trouxeralhe uma caixa cheia de Cheweez. — Preciosa! — A cachorrinha não veio, e ele a chamou pelo corredor. — Preciosa! — e depois na cozinha, depois no porão. — Preciosa! — Quando chamou já perto da masmorra, ouviu uma
resposta.
— Ela está aqui em baixo comigo, seu filho da puta! — disse Catherine Martin.
O Sr. Gumb sentiu um arrepio correr-lhe pelo corpo, temendo por Preciosa. Logo a raiva de novo o dominou e, com os punhos de encontro às têmporas, ele comprimiu a testa contra o umbral da porta e tentou controlar-se. Um som que era metade vômito e metade gemido
escapou de seus lábios e a cachorrinha respondeu com um
fraco latido.


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Ele foi até a oficina e apanhou a pistola.
A cordinha que segurava o balde sanitário estava
rompida. Ele ainda não tinha certeza de como ela o teria
feito. Na última vez observara a cordinha partida, mas acreditara que ela a havia rompido numa absurda tentativa
para sair de dentro do poço. Antes dela, outras haviam
tentado escapar, fazendo toda espécie de tolices imagináveis.
Inclinou-se sobre a abertura, a voz cuidadosamente
controlada:
— Preciosa, você está bem? Responda!
Catherine deu um beliscão na traseira do animal. A
cachorrinha rosnou e pegou-lhe com uma mordida no
braço.
— Que tal isso? — disse Catherine.
Parecia bem pouco natural ao Sr. Gumb falar com
Catherine dessa forma, mas ele dominou seu desgosto.
— Vou arriar um cesto. Ponha a cachorrinha nele.
— Mande para baixo um telefone ou eu quebro o
pescoço dela. Não quero fazer mal a você. Não quero fazer mal a este cãozinho. Mas me dê o telefone.
Gumb levantou a pistola. Catherine viu quando o
cano passou pela luz. Agachou-se, segurando o cão em
cima dela, equilibrando o entre ela e a arma. Ouviu-o engatilhar a pistola.
— Se você atirar, seu filho da puta sujo, é melhor
que me mate na hora ou eu quebro a porra do pescoço
dela, juro por Deus!
Ela colocou o cão embaixo do braço, pôs a mão em
volta do seu focinho e levantou-lhe a cabeça.
— Saia dai, seu filho da puta! — O cãozinho gemeu. A arma foi recolhida.


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Catherine afastou o cabelo da testa molhada com a
mão livre — Eu não quero insultá-lo — disse ela. — Mas
baixe um telefone aqui para mim. Quero um telefone ligado. Você pode cair fora; não estou ligando a mínima para
você, faça de conta que nunca o vi. Cuidarei bem de Preciosa.
— Não.
— Verei que não lhe falte nada. Pense no bemestar dela, não apenas em seu próprio. Se você der um tiro
aqui para baixo ela no mínimo ficará surda. Tudo o que
quero é um telefone ligado. Arranje uma extensão longa,
arranje cinco ou seis extensões e mande-as. Elas já vêm
com conexões nos extremos. Mas desça um telefone aqui.
Eu mando o cão para você por via aérea para qualquer
lugar. Minha família tem cães, minha mãe adora cães. Você pode fugir não estou ligando para o que você faça.
— Você não vai receber mais água, a que recebeu
foi a última.
— O cão também não receberá água e eu não vou
dar-lhe nenhuma da que ainda tenho na garrafa. Desculpeme dizer-lhe, mas penso que ela quebrou a perna.
— Isso era mentira. O cãozinho junto com o balde
e a isca tinham caído em cima de Catherine, só ela sofrera
uns arranhões no rosto causados pelas unhas do animal.
Não podia arriar a cadelinha no chão ou ele veria que não
mancava. — Ela está sofrendo, a perna está torta e Preciosa tenta lambê-la. Tenho pena dela. Devo levá-la a um
veterinário.
O gemido de raiva e de angústia do Sr. Gumb fez o
cão ganir.


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— Você acha que ela está sentindo dor? — perguntou o Sr. Gumb. — Você não faz idéia do que é dor.
Se você a machuca: mergulho-a em água fervente.
Quando o ouviu subindo as escadas, Catherine
Martin sentou se, sacudida por uma grande tremedeira nas
pernas e nos braços Ela não podia segurar o cão, não podia segurar a garrafa d’água não podia segurar nada.
Quando a cachorrinha pulou no seu colo, ela a agarrou, grata pelo seu calor.


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CAPÍTULO 50
Por cima da água barrenta e grossa boiavam penas
de aves, penas crespas que tinham sido sopradas das gaiolas, carregadas pelas lufadas do vento que fazia arrepiar a
superfície do rio.
As casas na Rua Fell, a Rua de Fredrica Bimmel, eram chamada de “à beira do rio” nos cartazes desgastados
pelo tempo das imobiliárias porque seus quintais terminavam num braço de rio, uma parte represada do rio Licking, em Belvedere, Ohio, uma cidade de 112.000 habitantes do Cinturão da Ferrugem, a leste de Columbus.
Era uma vizinhança dilapidada de casas grandes e
velhas. Algumas haviam sido compradas por preços módicos por jovens casais e renovadas com o melhor esmalte
da Sears, fazendo com que as demais casas parecessem
ainda piores. A casa dos Bimmels não fora renovada.
Clarice Starling ficou por um momento no quintal
de Fredrica, olhando para as penas dentro d’água, com as
mãos bem enterradas nos bolsos de seu impermeável. Havia uns restos de neve meio derretida entre os arbustos,
azul por baixo do azul do céu nesse suave dia de inverno.
Atrás dela Starling podia ouvir o pai de Fredrica
martelando as gaiolas, uma fileira de gaiolas de pombos
que partiam da margem da água e chegavam quase até a
casa. Ela ainda não vira o Sr. Bimmel. Os vizinhos disseram-lhe, com os rostos amarrados, que ele estava em casa.
Starling estava tendo alguma dificuldade consigo
mesma. No momento da noite anterior em que ela decidira deixar a Academia para caçar Buffalo Bill, uma porção
de ruídos estranhos haviam cessado. Ela sentia um silên-


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cio novo e puro apaziguando sua mente. Num lugar estranho, agora, ela se achava tola e pretensiosa.
Os pequenos aborrecimentos da manhã não a haviam afetado: nem o odor esquisito no avião para Columbus, nem a confusão e mau atendimento no balcão de aluguel de carros. Ela tinha instado com o funcionário para
se apressar, mas não se zangara.
Starling havia pagado um alto preço para ter essa
oportunidade e pretendia usá-la da melhor maneira. O
prazo dela poderia esgotar-se a qualquer momento se
Crawford perdesse sua autoridade e eles lhe retirassem as
credenciais.
Devia apressar-se, mas ficar se preocupando com a
agonia de Catherine nesse dia crucial seria desperdiçá-lo
inteiramente. Pensar nela em tempo real, sendo “processada” nesse momento como Kimberly Emberg e Fredrica
Bimmel tinham sido “processadas”, impediria qualquer
outro pensamento.
A brisa cessou e a água ficou mortalmente parada.
Perto de seus pés uma pena arrepiada girava com a tensão
da superfície. Firme, Catherinel Starling prensou a língua
entre os dentes. Se ele lhe desse um tiro, esperava que o
fizesse com competência.
Ensina-nos a cuidar e a descuidar.
Ensina-nos a permanecer firmes.
Ela voltou-se para a fileira inclinada de gaiolas e seguiu um ca. ninho de tábuas colocadas sobre a lama em
direção ao barulho dai marteladas. Havia centenas de
pombos, de todos os tamanhos e cores; alguns tinham
pernas longas e cobertas de penugem, outros pa. reviam
arrogantes com seu peito avultado. Olhos brilhantes, a:
cabeças projetando-se quando andavam, as aves abriam


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suas asa: sob o pálido sol e arrulhavam, agradáveis, quando Starling passava por elas.
Gustav Bimmel, o pai de Fredrica, era um homem
alto, espadaúdo e de quadris largos; tinha os olhos de um
azul aguado, ma estavam avermelhados. Um boné de malha caia-lhe sobre as sobrancelhas. Ele estava construindo
outra gaiola sobre cavaletes, na frente de sua oficina. Starling sentiu cheiro de vodca na sua respiração enquanto ele
examinava, com os olhos apertados, sua identidade.
— Não tenho nada para lhe dizer — falou ele. —
A polícia voltou aqui anteontem à noite. Recapitularam
meu depoimento e o leram para mim. “Isso está certo?
Isso está certo?” Eu lhes disse: “Claro que sim, se não estivesse certo eu não o diria dessa maneira, ora essa..., —
Eu estou tentando descobrir onde... onde o raptor teria
conhecido Fredrica, onde ela poderia ter chamado a atenção dele, Sr. Bimmel, e o que o levara a raptá-la.
— Ela foi de ônibus a Columbus para ver um emprego numa loja de lá. A polícia disse que Fredrica foi entrevistada normalmente, mas ela nunca voltou para casa.
Não sabemos onde mais ela foi naquele dia. O FBI tem os
canhotos do seu cartão Master Charge, mas naquele dia
ela não o usou. Você já sabe disso tudo, não sabe?
— Sobre o cartão de crédito, sim. O senhor guardou as coisas de Fredrica, Sr. Bimmel? Elas estão aqui?
— O quarto dela fica na parte superior da casa.
— Posso vê-lo?
Ele demorou um pouco para se decidir a largar o
martelo:
— Muito bem! Venha comigo.


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CAPÍTULO 51
O escritório de Jack Crawford no quartel-general
do FBI, em Washington, era pintado num cinza triste, mas
tinha grandes janelas.
Crawford estava de pé diante de uma dessas janelas
com sua prancheta voltada para a luz, examinando uma
lista com péssima impressão pontilhada de uma máquina
que ele já dissera que deveria ser jogada no lixo.
Viera para ali diretamente da casa funerária e trabalhara toda a manhã, apertando os noruegueses para apressarem seus registros dentais do marinheiro desaparecido
chamado Klaus, insistindo com o pessoal de San Diego
para investigarem as relações intimas de Benjamin Raspail
no conservatório onde ele ensinara, e cobrando da Alfândega o que deveria estar apurando sobre importação de
insetos vivos.
Cinco minutos depois da chegada de Crawford, o
assistente do diretor do FBI, John Golby, à testa do novo
grupo de trabalho cooperativo, enfiou a cabeça no escritório por um momento para dizer:
— Jack, estamos todos pensando em você; todo
mundo aprecia o fato de você ter vindo trabalhar. O serviço de funeral já foi acertado?
— O velório é amanhã à noite e o serviço fúnebre
às onze horas de sábado.
Golby balançou a cabeça
— Vamos fazer uma doação em memória dela à
UNICEF, sob a forma de um fundo. Você deseja que se
chame Phyllis ou Bella? Daremos ao fundo o nome que
você quiser.


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— Bella, John. Será o Fundo Bella.
— Posso fazer mais alguma coisa por você, Jack?
Crawford sacudiu a cabeça negativamente.
— Estou trabalhando e só quero continuar a trabalhar.
— Muito bem — aprovou Golby. Ficou algum
tempo em silêncio. Depois: — Frederick Chilton pediu
custódia e proteção federal.
— Interessante. John, alguém em Baltimore falou
com Everett Yow, o advogado de Raspail? Já o mencionei
a você; ele pode ter alguma informação sobre os amigos
de Raspail.
— Sim, estão tratando disso esta manhã. Acabei de
mandar um memorando sobre o assunto a Burroughs. O
diretor está colocando Lecter na lista dos “mais procurados”. Jack, se você precisar de alguma coisa... — Golby
ergueu as sobrancelhas, acenou com a mão e recuou para
fora da sala.
— Se você precisar de alguma coisa...
Crawford voltou-se de novo para as janelas. Ele tinha um belo panorama para olhar. Em frente ficava o antigo e suntuoso edifício dos Correios, onde fizera parte do
seu treinamento. A esquerda ficava o velho quartel-general
do FBI. Ao se formar, desfilara diante do escritório de J.
Edgard Hoover com os outros. Hoover, de pé numa pequena plataforma, apertou-lhes as mãos um por um. Essa
foi a única ocasião em que Crawford encontrara com o
homem. E no dia seguinte casou-se com Bella.
Eles se haviam encontrado em Livorno, na Itália.
Crawford estava no exército, ela no escritório da OTAN,
e então chamava-se Phyllis. Passeavam um dia pelo cais e
um barqueiro, do meio da água cintilante, chamou-a “Bel-


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la”. Depois disse ela sempre fora Bella. Ele só a chamava
de Phyllis quando tinham uma rusga.
Bella está morta, e isso deveria afetar o panorama
visto daquelas janelas. Não era justo que a vista permanecesse a mesma. Por que tivera ela que morrer? Jesus Cristo! Eu sabia que ia acontecer, mas dói muito!
O que dizem acerca de aposentadoria forçada aos
55 anos? Você se apaixona pelo FBI, mas ele não se apaixona por você. Ele já constatara isso.
Graças a Deus, Bella o salvara disso. Esperava que
ela estivesse agora em algum lugar, e que houvesse finalmente encontrado a paz. Gostaria que ela pudesse ver o
que se passava no seu coração.
O fone estava dando o sinal de chamada interescritórios.
— Sr. Crawford, é um Dr. Danielson, de...
— Está bem. — Acionou o botão. — Aqui é Jack
Crawford, doutor.
— Esta linha é segura, Sr. Crawford?
— Sim. Deste lado, é.
— O senhor não está gravando, está?
— Não, Dr. Danielson. Diga-me o que pretende.
— Quero tornar claro que isto não se relaciona
com uma pessoa que tenha sido tratada na Johns Hopkins.
— Entendido.
— Se disso resultar algum problema, desejo que o
senhor torne claro para o público que ele não é transexual,
que nada tem ver com esta instituição.
— Muito bem. O senhor está certo. Absolutamente. — Vamos seu filho da puta emproado, desembucha!
Crawford estava a ponto de explodir.


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— Ele derrubou o Dr. Purvis no chão.
— Quem, Dr. Danielson?
— Ele apelou para o programa há três anos sob o
nome de John Grant, de Harrisburg, Pensilvânia.
— Descreva-o.
— Caucasiano, 31 anos. Um metro e 83 centímetros, 86 quilos. Veio para ser testado e saiu-se muito bem
na escala de inteligência de Wechsler — muito normal — ,
mas os testes psicológico e as entrevistas foram outra história. De fato, o teste Casa-Árvore Pessoa e seu TAT checaram perfeitamente com a folha que o senhor me deu. O
senhor me fez entender que Alan Bloom era o autor daquela teoriazinha, mas o autor verdadeiro foi o Dr. Hannibal Lecter, não foi?
— Continue com Grant, doutor.
— O conselho iria rejeitá-lo de qualquer maneira,
mas na hora que nos reunimos para discutir a questão foi
encerrada porque as investigações sobre sua vida pregressa o condenaram.
— Condenaram-no como?
— É rotina checarmos a vida do requerente na polícia da sua cidade. A polícia de Harrisburg estava a procurá-lo por dois atentados contra homossexuais. O último
quase morreu. Ele nos dera o endereço que verificamos
ser de uma pensão na qual se hospeda de vez em quando.
A polícia apanhou lá as suas impressões digitais uma nota
de cartão de crédito pela compra de gasolina com o número da licença dele. O nome não era John Grant, como ele
nos informara. Cerca de uma semana mais tarde, despeitado, ele esperou diante do nosso prédio e atacou o Dr.
Purvis, jogando-o no chão.
— Qual é o nome dele, Dr. Danielson?


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— É melhor que eu soletre: J-A-M-E G-U-M-B.


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CAPÍTULO 52
A casa de Fredrica Bimmel tinha três andares, e era
lúgubre e coberta por placas de papelão asfaltado manchadas de ferrugem onde existiam goteiras. Mudas de olmos que haviam crescido nas calhas tinham resistido muito bem ao inverno. As janelas do lado norte estavam cobertas com folhas de plástico.
Numa pequena sala de estar, muito abafada devido
a um aquecedor de ambiente, uma mulher de meia-idade,
sentada sobre um tapete, brincava com uma criança.
— Minha mulher — apresentou Bimmel quando
passaram pela sala. — Nós nos casamos no Natal.
— Alô — fez Starling. A mulher sorriu vagamente
para ela.
No corredor voltou a fazer frio e por todo lado viam-se caixas empilhadas até a altura do peito, enchendo os
cômodos, com passagens entre elas; caixas de papelão
contendo cúpulas de abajures, latas de conservas, cestos
de piquenique, números atrasados do Reader’s Digest e do
National Geographic, velhas raquetes de tênis, roupa de
cama, uma caixa de alvos para arco e flecha, capas de assentos de carro num padrão dos anos 50. No ar, um intenso cheiro de urina de ratos.
— Vamos nos mudar muito em breve — comentou o Sr. Bimmel.
Os objetos perto das janelas estavam desbotados
pelo sol, as caixas pareciam empilhadas há anos, estufadas
pelo tempo, os tapetes desgastados e sem pêlos.
A luz do sol batia no corrimão quando Starling galgou as escadas atrás do pai de Fredrica. A roupa do ho-


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mem cheirava a mofo no ar frio. Ela podia ver a luz do sol
atravessando uma clarabóia no topo da escadaria. As caixas de papelão amontoadas no patamar estavam cobertas
de plástico.
O quarto de Fredrica era pequeno, e ficava debaixo
da beirada do telhado no terceiro andar.
— Você ainda precisa de mim?
— Mais tarde eu gostaria de conversar com o senhor, Sr. Bimmel. E a mãe de Fredrica? — A pasta dizia
“falecida”, mas não dizia quando.
— O que a senhora quer dizer com isso? Ela morreu quando Fredrica tinha 12 anos.
— Entendi.
— A senhora pensou que a mulher lá embaixo era a
mãe de Fredrica? Depois que eu lhe disse que estou casado apenas desde o Natal? Foi isso que a senhora pensou?
Acho que a lei está acostumada a lidar com uma classe
diferente de pessoas, minha senhora. Minha atual mulher
não chegou a conhecer Fredrica.
— Sr. Bimmel, o quarto está mais ou menos como
Fredrica o deixou?
A raiva abandonou-o tão rápido como havia se apossado dele.
— Sim — disse ele brandamente. — Nós o conservamos como estava. A roupa dela não servia para ninguém. Ligue o aquecedor, se desejar. Lembre-se de desligá-lo da tomada quando descer.
Ele não quis ver o quarto; deixou-a no patamar da
escada.
Starling ficou por um momento com a mão na fria
maçaneta de porcelana. Precisava organizar-se um pouco
antes de encher a cabeça com as coisas de Fredrica.


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O.K. A premissa é que Buffalo Bill matou primeiro
Fredrica, pós pesos nas suas pernas e escondeu-a bem,
num rio distante da sua casa. Escondeu-a melhor do que
às outras — ela foi a única que levou lastro para afundar
— porque ele queria que a seguinte fosse encontrada primeiro. Queria que a idéia de uma escolha ao azar, em cidades muito espalhadas, ficasse bem estabelecida antes
que Fredrica, de Belvedere, fosse encontrada. Era importante afastar a atenção de Belvedere. Porque ele vive aqui,
ou talvez em Columbus.
Ele começou com Fredrica porque ambicionava a
pele dela. Nós não começamos a ambicionar coisas imaginadas. A ambição é um pecado muito material. Começamos a ambicionar coisas tangíveis, começamos com o que
vemos talos os dias. Ele via Fredrica no curso de sua vida
cotidiano. Ele a via no curso da vida diária de Fredrica.
Qual era o curso da vida diária de Fredrica? Ora vejamos...
Starling abriu a porta. Aqui vivia ela, neste quarto
vazio cheirando a mofo. Na parede, um calendário do ano
anterior para sempre mostrando abril. Fredrica estava
morta havia dez meses.
Comida de gato, dura e negra, em um pires num
canto.
Starling, que era veterana decoradora e comprava
tecidos a metro em liquidações, ficou no centro do quarto
e foi olhando vagarosamente em volta. Fredrica tinha feito
um bom serviço com o que dispunha. Havia cortinas de
chintz florido. A julgar pelas costuras das bordas, ela havia
reciclado algumas colchas para fazer cortinas.
Na parede, um quadro de avisos com uma faixa
presa. Na faixa estava pintado com tinta brilhante: Banda


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do Ginásio de Belvede e um pôster da artista Madonna na
parte fronteira e outro de Deborah Harry e Blondie. Numa prateleira sobre a escrivaninha, Starling pôde ver um
rolo do claro papel auto-adesivo que Fredrica tinha usado
para cobrir as paredes do quarto. Não era um serviço perfeito de empapelamento, mas estava melhor do que o
primeiro esforço que ela mesma fizera, pensou Starling.
Numa casa comum, o quarto de Fredrica seria alegre; nessa casa sem encantos o quarto parecia um grito,
soava nele um eco de desespero.
Fredrica não expusera fotos dela no quarto.
Starling encontrou uma no anuário da escola, no
pequeno armário de livros. Clube de Canto Glee, Clube
do Lar, Clube de Costura, Clube da Terra — talvez os
pombos tivessem servido para sua ligação ao Clube da
Terra.
O anuário da escola de Fredrica tinha alguns autógrafos: “A uma grande companheira”, “A uma grande pequena”, “A minha colega de química” e “Lembra-se da
venda do bolo?”
Será que Fredrica trazia amigas aqui? Teria uma amiga bastante disposta para subir essas escadas cheias de
goteiras? Ao lado da porta havia um guarda-chuva.
Olhe para este retrato de Fredrica: ei-la aqui, na
primeira fila da banda. Fredrica é grande e gorda, mas o
uniforme dela assenta melhor que os das outras. Ela é
grande e tem uma bela pele. Seus traços irregulares se
combinam para compor um rosto agradável, mas ela não é
atraente pelos padrões convencionais.
Kimberly Emberg também não era o que se poderia chamar de bonita, não pelo julgamento irracional do


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curso secundário, e também não o eram algumas das outras.
Catherine Martin, entretanto, seria atrativa para
qualquer um: uma mulher jovem, grande e bonita, que
teria de lutar contra a gordura quando chegasse aos trinta
anos.
Lembre-se: ele não olha uma mulher como um
homem o faz. A atração convencional não conta para ele.
Elas têm apenas que ser mágicas e volumosas.
Starling cismava se ele pensava em mulheres como
“peles”, da mesma maneira que alguns cretinos as vêem
como “aparelhos para trepar” .
Teve consciência de sua própria mão traçando uma
avaliação da foto do anuário, adquiriu a noção de todo o
corpo dela, do espaço que ocupava, da sua aparência e
suas feições, seu efeito, seu poder, os seios dela sobre o
livro, a barriga firme contra ele, as pernas por baixo das
dele. Que parte da experiência dela era semelhara à de
Fredrica?
Starling olhou-se no espelho de corpo inteiro que
ficava na parede lateral e sentiu-se satisfeita por ser diferente de Fredrica. Mas ela sabia que a diferença era uma
matriz no seu pensamento. O que poderia impedi-la de
enxergar?
Como Fredrica desejava aparecer? Do que tinha
fome, onde ela a procurava saciar? O que tentava fazer
consigo mesma?
Ali estavam alguns planos de regimes para emagrecer, a Dieta do Suco de Frutas, a Dieta do Arroz, e um
plano amalucado segura do o qual você não deve comer e
beber na mesma ocasião.


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Grupos organizados de regime — será que Buffalo
Bill os vigiava para descobrir garotas volumosas? Difícil
verificar. Pelo arquivo Starling sabia que duas das vítimas
haviam pertencido a grupos de regime e que as listas de
sócios tinham sido checadas. Um agente do escritório de
Kansas City, o tradicional Bureau dos Gorduchos do FBI,
e alguns policiais obesos foram destacados para trabalhar
no Sinderella, no Centro de Regime e aderir aos Cuidadosos com o Peso e outros clubes para emagrecer nas cidades das vítimas. Ela não sabia se Catherine pertencia a um
grupo de regime. Dinheiro teria sido um problema para
Fredrica participar de um programa de regimes, Fredrica
tinha vários números de Big Beautiful Girl (Bela garota
Grande), uma revista para mulheres avantajadas. Aqui ela
recebia o conselho: “Venha para a cidade de Nova York,
onde poder: encontrar recém-chegados de partes do mundo onde seu tamanho é considerado digno de prêmio.”
Certo. Alternativamente: “Você poderia viajar para a Itália
ou Alemanha, onde não ficará sozinha depois do primeiro
dia.” Pode apostar... “Eis o que fazer se seus dedos dos
pés superam as pontas dos sapatos...” Jesus! Tudo o que
Fredrica precisava era encontrar Buffalo Bill, que considerava o tamanho dela “digno de prêmio”.
Como Fredrica se arranjava? Tinha alguma maquilagem, muitas coisas para a pele. Faz muito bem! Use esta
vantagem. Starling descobriu-se torcendo por Fredrica,
como se isso agora tivesse qual quer importância.
Possuía algumas jóias de fantasia numa caixa de
charutos Whiti Owl; ali estava também um broche redondo folheado a ouro que provavelmente pertencera à falecida sua mãe. Tentara cortar os dedos de algumas velhas


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luvas de renda para usá-las ao estilo Madonna, mas elas se
haviam esfiapado.
Tinha um toca-discos simples marca Decca, dos
anos 50, com um canivete preso ao braço da agulha com
tiras de borracha para fazer peso. Discos de liquidação.
Velhos temas de amor por Zamfir, Mestre da Flauta de
Pá.
Quando puxou a cordinha da lâmpada para iluminar o closet, Starling ficou surpresa com o guarda-roupa
de Fredrica. Ela possuía boas roupas, não muitas, mas o
bastante para a escola, o bastante para trabalhar num escritório relativamente formal ou mesmo numa loja elegante. Uma rápida inspeção das roupas e Starling viu por quê:
Fredrica fazia suas próprias roupas e fazia-as bem, as costuras tinham um belo acabamento e os apliques eram cuidadosamente adaptados. Pilhas de moldes encontravam-se
numa prateleira no fundo do closet; a maior parte deles
eram da Simplicity, mas havia alguns da Vogue que pareciam difíceis.
Ela provavelmente vestira o que tinha de melhor
para a entrevista do emprego. O que teria usado? Starling
deu uma olhada na sua pasta. Lá estava: vista pela última
vez usando um conjunto verde. Ora bolas, policial, que
diabos é um “conjunto verde”?
Fredrica sofria do calcanhar-de-aquiles de um guarda-roupa econômico — possuía poucos sapatos — e, com
seu peso, gastava muito os sapatos que tinha. Os mais folgados já eram ovais. Ela usava um produto para evitar o
mau cheiro nas sandálias. Os orifícios dos cordões estavam alargados nos seus sapatos de maior uso.
Talvez Fredrica fizesse um pouco de exercício —
tinha algumas malhas de tamanho grande.


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Eram feitas por Juno.
Catherine Martin também tinha algumas malhas para as pernas, destinadas a combater a gordura, feitas por
Juno.
Starling saiu do closet. Sentou-se ao pé da cama
com os braços cruzados e ficou olhando o closet iluminado.
Juno era uma marca comum, vendida em muitos
lugares que negociam especialmente tamanhos grandes,
mas sempre era uma pista sobre as roupas. Qualquer cidade de tamanho regular tem pelo menos uma loja especializada em roupas para pessoas gordas.
Será que Buffalo Bill vigiava tais lojas, escolhia uma
freguesa e a seguia?
Será que ia a essas lojas de roupas grandes, vestido
como mulher, para dar uma olhada? Toda loja para pessoas gordas tem travestis como clientes.
A idéia de Buffalo Bill tentando transformar-se sexualmente fora introduzida na investigação muito recentemente, desde que o Dr. Lecter expusera sua teoria a
Starling. E quanto às roupas dele?
Todas as suas vítimas deveriam fazer compras em
lojas de gente gorda — Catherine Martin vestiria um manequim 12, mas as outras não poderiam, e Catherine deve
ter feito compras numa loja dessas para adquirir suas
grandes malhas Juno.
Catherine poderia usar manequim 12; ela era a menor das vítimas, Fredrica, a primeira, era a maior. Por que
estaria Buffalo Bill se contentando com um tamanho menor ao escolher Catherine Martin? Ela possuía seios bastante volumosos, mas não era tão gorda assim. Teria ele
próprio perdido peso? Teria aderido recentemente a um


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grupo de regime? Kimberly Emberg ficava mais ou menos
numa média: grande, mas com uma cintura bem marcada...
Starling evitara especificamente lembrar-se de
Kimberly Emberg, mas agora sua memória tomou conta
dela por um segundo. Starling via Kimberly na mesa de
mármore em Potter. Buffalo Bill não ligara para suas pernas depiladas a cera, suas unhas tão pintadas com esmalte
brilhante; olhara para o peito chato de Kimberly, viu que
não lhe servia, pegou sua pistola e desenhou nele uma estrelado-mar.
A porta do quarto abriu-se alguns centímetros,
Starling sentiu o movimento em seu coração antes de saber o que era. Um gato entrou no quarto, um grande gato
cinzento com um olho dourado e o outro azul. Pulou em
cima da cama e esfregou-se nela. Procurando Fredrica.
Solidão. Grandes moças solitárias tentando satisfazer alguém.
A polícia eliminara clubes de corações solitários
desde cedo. Teria Buffalo Bill outro modo de tirar vantagem da solidão? Só a ambição nos torna mais vulneráveis
do que a solidão.
A solidão poderia ter permitido a Buffalo Bill uma
abertura com Fredrica, mas não com Catherine. Catherine
não era solitária.
Kimberly era solitária. Não comece a pensar nela.
Kimberly, obediente e relaxada depois de passado o rigor
mortis, sendo rolada na mesa do necrotério para que Starling pudesse tirar-lhe as impressões digitais. Pare com isto.
Não posso parar. Kimberly solitária, ansiosa para agradar,
teria alguma vez rolado obediente para alguém apenas para sentir o coração dele bater contra suas costas? Ela ima-


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ginava se Kimberly tinha sentido uma barba roçando suas
omoplatas.
Olhando para o closet iluminado, Starling lembrouse das gordas espáduas de Kimberly, os pedaços triangulares de pele faltando nos seus ombros.
Olhando para o interior do closet iluminado, Starling viu os moldes, estavam ali provavelmente os de agrado de Fredrica.
Ela viu Kimberly marcados nos riscos azuis de um
dele e uma idéia foi se desfazendo, circulou, e voltou perto
dessa vez para ela agarrá-la e ela entendeu: SÃO REMENDOS — ELE TIROU A PELE PARA FAZER
EMENDAS DE FORMA DA SUA CINTURA. O FILHO DA PUTA DO BUFFALO BILL É BEM TREINADO EM NÃO SE LIMITA A COMPRAR COISAS,
A VESTIR! ELE AA CONFECCIONA.
O que disse o Dr. Lecter? “Ele está confeccionando uma roupa feita de moças verdadeiras.” O que me disse ele? “Você costura, Clarice?” Claro que eu costuro!
Starling inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos por um segundo. A solução do problema é uma caçada; é um prazer selvagem e nascemos para caçar.
Ela vira um telefone ao entrar. Começou a descer a
escada para usá-lo, mas a Sra. Bimmel, com sua voz de
taquara rachada, já a estava chamando para atender ao aparelho.


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CAPÍTULO 53
A Sra. Bimmel passou o aparelho a Starling e pegou
o bebê que choramingava. Não saiu da sala.
— Clarice Starling.
— Aqui é Jerry Burroughs, Starling...
— Bom. Agora ouça, Jerry, cheguei à conclusão de
que Buffalo Bill sabe costurar. Ele cortou os triângulos...
um momento... Sra. Bimmel, posso pedir-lhe para levar o
bebê à cozinha? Estou precisando falar e ele atrapalha.
Obrigada. Jerry, ele sabe costurar. Ele tirou...
— Starling...
— Ele tirou aqueles triângulos de Kimberly Emberg para fazer remendos, remendos de costureira, você
sabe o que estou falando? Ele é um perito, não está fazendo apenas costura de homem das cavernas. A seção de
identificação pode pesquisar Criminosos Conhecidos para
localizar alfaiates, homens que fazem velas, cortinas, estofamentos — dê uma espiada em Marcas Distintivas à procura de “dente de alfaiate” na descrição dos dentes...
— Certo, certo, certo... Estou procurando fazer
uma ligação com a ID. Agora escute um pouco: eu talvez
tenha que deixar o telefone. Jack queria que eu lhe informasse. Obtivemos um nome e um lugar que não parecem
inviáveis. O Grupo de Resgate de Reféns já saiu voando
do campo Andrews. Jack está instruindo-os pelo rádio.
— Indo para onde?
— Calumet City, pertinho de Chicago. O nome do
sujeito é Jame, pronunciado como “narre”, mas um J, o
segundo nome é Gumb. É conhecido também como John
Grant, branco, 34 anos, 86 quilos, cabelos castanhos, o-


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lhos azuis. Jack recebeu uma dica da Johns Hopkins. A
coisa que você descobriu — sua informação de que ele
tem um perfil que seria diferente do de um transexual aguçou os ouvidos do pessoal na Johns Hopkins. Esse cara
solicitou uma mudança de sexo há três anos. Agrediu um
doutor quando o rejeitaram. A Hopkins tinha o falso nome Grant e um endereço fictício em Harrisburg, Pensilvânia. Os tiras encontraram um recibo de gasolina com sua
licença e partiram dai. Foi um monstrinho na Califórnia
como delinqüente juvenil — matou os avós e ficou internado na prisão psiquiátrica de Tulare por seis anos. O estado o pôs em liberdade há dezesseis anos, quando fecharam o asilo. Ele desapareceu um longo tempo. Gosta de
espancar bichas. Teve alguns incidentes em Harrisburg e
desapareceu de novo.
— Chicago, você disse. Como chegaram a Chicago?
— Pela alfândega. Eles tinham alguns papéis em
nome do suposto John Grant. Há uns dois anos a alfândega interceptou uma mala no aeroporto de Los Angeles
que fora embarcada do Suriname com pupas vivas — é
assim que se diz? De qualquer maneira, são insetos, mariposas. O destinatário era John Grant, aos cuidados de um
negócio em Calumet chamado — ouça isto — “Mr. Hide”. Artigos de couro. Talvez a loja de costura case com
isto; estou enviando o detalhe da costura para Chicago e
Calumet. Não há ainda nenhum endereço doméstico para
Grant ou Gumb. A loja foi fechada, mas estamos chegando perto.
— Têm fotos?
— Apenas as da instituição para delinqüentes juvenis do Departamento de Polícia de Sacramento. Elas não
adiantam muito ele tinha doze anos. Parecia-se com Bea-


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ver Cleaver. De qualquer maneira, a sala de comunicação
está enviando as fotos pelo fax.
— Posso ir até lá?
— Não. Jack disse que você ia pedir isso... Eles já
têm dois delegados mulheres de Chicago e uma enfermeira para cuidar de Martin se chegarem a ela. De qualquer
forma, você nunca chegaria a tempo, Starling.
— Que tal se ele se entrincheirar? Poderia ser preciso...
— Não vai haver nenhum impasse. A polícia o encontra e cai em cima dele. Crawford autorizou uma entrada explosiva. O problema especial com este cara, Starling,
é que ele já esteve num episódio com reféns antes. Em
seus homicídios juvenis, foi cercado numa situação de entrincheiramento em Sacramento, com sua avó como refém — ele já havia matado o avô — e a coisa foi horrorosa, deixe-me dizer-lhe. Ele foi com ela para fora, diante
dos tiras e havia até um pastor falando com ele. Como era
um garoto, ninguém atirou nele. O miserável estava atrás
da avó e furou-a nos rins. De nada adiantou a assistência
médica, nenhum aviso. Martin provavelmente já está morta, mas digamos que vamos ter sorte. Digamos que ele
teve uma porção de preocupações na cabeça, uma coisa
ou outra, e que ainda não se ocupou dela. Se nos vê chegar, ele a liquida na nossa cara. Só por despeito. Não lhe
custa nada, certo? Portanto, se eles o encontraram... bum!
— derruba-se a porta.
A sala estava quente demais e cheirava a urina de
bebê.
Burroughs ainda estava falando:
— Estamos procurando ambos os nomes nas listas
de assinantes das revistas de entomologia, na União dos


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Cuteleiros, entre os criminosos conhecidos, em todo lugar... Ninguém descansa enquanto isto não terminar. Você
está procurando os conhecidos de Bimmel, não é?
— É isso.
— A justiça diz que é um caso difícil de resolver se
não se apanha Gumb com a mão na massa. Nós precisamos dele com Martin, ou com alguma coisa que seja identificável — algo com unhas e dentes... Francamente. Não
preciso dizer a você que se ele já se desfez do corpo dela,
precisamos de testemunhas para apresentá-lo com uma
vitima antes desta. De qualquer maneira, poderemos usar
o que você encontrar sobre a Bimmel... Starling, eu pedi a
Deus que isto tivesse acontecido ontem e por outras razões além da garota Martin. Eles chutaram você de Quântico?
— Penso que sim. Admitiram alguém que estava
esperando a vez por uma exclusão... foi isto o que me disseram.
— Se nós o apanharmos em Chicago, você contribuiu muito para isso. Eles são uns cabeças-duras em
Quântico, como era de supor, mas deviam entender isso.
Espere um minuto.
Starling podia ouvir Burroughs gritando afastado
do telefone. Depois ele voltou.
— Bem... eles podem espalhar-se em Calumet City
em 40 a 45 minutos, dependendo do vento lá em cima. A
SWAT de Chicago tomará o lugar deles caso o encontrem
antes. A Companhia de Força e Luz de Calumet está fornecendo dois ou três endereços possíveis. Starling, procure qualquer coisa que eles possam usar por lá para fechar
o cerco. Se você vir algo sobre Calumet ou Chicago, chame logo.


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— Sem dúvida.
— Agora escute mais isto, e tenho que ir. Se acontecer, se o pegarmos em Calumet City, você se apresente
em Quântico às oito horas da matina, com seu impecável
uniforme. Jack vai ao conselho da escola com você. E
também vai o instrutor-chefe de tiro, Brigham. Não custa
nada pedir...
— Jerry, mais uma coisa: Fredrica Bimmel tinha algumas malhas de ginástica feitas por Juno, que é uma
marca de roupa para gente gorda. Catherine também tinha
algumas, se isso vale alguma coisa. Ele poderia vigiar lojas
de gente gorda para encontrar vítimas grandes. Talvez
possamos perguntar a Memphis, Akron e outros lugares.
— Entendi. Mantenha seu sorriso!
Starling saiu para o pátio cheio de detritos de Belvedere, Ohio, a mil quilômetros da ação que se desenrolava em Chicago. O ar frio no seu rasto era agradável. Ela
deu um soco no ar, torcendo pelo sucesso do Grupo de
Resgate de Reféns. Ao mesmo tempo sentiu um ligeiro
tremor no queixo e no rosto. Que diabo era isso? Que
diabo poderia fazer se tivesse encontrado alguma coisa?
Ah, teria chamado a cavalaria, o escritório de campo do
FBI em Cleveland, a SWAT de Columbus, e a polícia de
Belvedere também.
Salvar a jovem, salvar a filha da senadora, foda-se
Martin e as que poderiam vir depois dela — na verdade,
isso era o que interessava. Se conseguissem, todo mundo
estava certo.
Se, porém, não chegassem a tempo, se deparassem
com qualquer coisa horrorosa, queira Deus que pelo menos encontrem Buffalo... encontrem Jame Gumb ou Se-


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nhor Hide ou o que quer que se chame aquela maldita coisa.
No entanto, ter chegado tão perto, ter posto a mão
na sua anca, ter tido uma boa idéia com um dia de atraso e
acabar longe da captura e desligada da escola, tudo aquilo
cheirava a derrota. Starling há muito que suspeitava, e se
culpava por isso, que a sorte dos Starlings tinha azedado
há uns duzentos anos — que tudo o que os Starlings andavam fazendo era vagar às tontas, zangados e confusos
no meio das brumas dos tempos. Se você pudesse encontrar a pista do primeiro Starling ela conduziria a um círculo. Essa era a atitude clássica de um perdedor e ela se danaria se fosse aceitá-la.
Se o agarrassem graças ao perfil que ela arrancara
do Dr. Lecter, isso iria ajudá-la no Departamento de Justiça. Starling tinha que pensar um pouco a respeito; as esperanças de uma carreira para ela estavam tortas e evanescentes como as pernas de um fantasma.
O que quer que acontecesse, a idéia que lhe ocorrera do molde de costura fora tão boa quanto a melhor coisa
que ela jamais pensara. Havia muito a explorar aqui. Encontrara coragem na lembrança de sua mãe e também na
de seu pai. Conquistara e consolidara a confiança de
Crawford. Essas eram as coisas que ela tinha que guardar
em sua própria caixa de charutos White Owl.
O serviço dela, seu dever era pensar em Fredrica e
descobrir como Gumb se teria apossado dela. Um processo criminal contra Gumb necessitaria de todos os fatos.
Pense em Fredrica, enterrada aqui com toda sua
mocidade. Onde ela procuraria por uma saída? Os anseios
dela sintonizavam com os de Buffalo Bill? Isso os atraía
um para o outro? Pensamento horrível, o de que ele pu-


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desse tê-la compreendido com base em sua própria experiência, até simpatizado com ela, e mesmo assim se servido da sua pele.
Starling chegou até a margem da água.
Quase todo lugar tem um momento, um ângulo e
uma intensidade de luz em que o dia aparece com seu melhor aspecto. Quando você está enfiado em algum lugar,
descobre esse momento e anseia por ele. Aquele momento, no meio da tarde, era provavelmente a hora do rio Liclcing atrás da Fell Street. Será que era essa a hora da jovem Bimmel sonhar? O sol pálido, levantava vapor suficiente da água para disfarçar as velhas geladeiras e fogões
atirados nas margens cobertas de mato da água represada.
O vento de nordeste, do lado oposto à luz, empurrava
nuvens esfarrapadas em direção ao sol.
Um pedaço de cano branco, de PVC, emergia do
galpão do Sr. Bimmel em direção ao rio. O cano emitiu
um gorgolejo e uma breve descarga de água sanguinolenta
saiu do cano, sujando a neve antiga. Bimmel saiu para o
sol. Sua calça estava manchada de sangue e ele carregava
alguma coisa cinza e cor-de-rosa num saco plástico de
comida.
— Filhotes de pombo — disse ele, quando viu que
Starling o olhava. — Já os comeu alguma vez?
— Não — respondeu Starling, virando-se de novo
para a água. — Já comi pombos, mas caçados.
— Nunca terá que se preocupar com morder um
chumbinho com estes.
— Sr. Bimmel, Fredrica conhecia alguém de Caltunet City ou da área de Chicago?
O homem encolheu os ombros e sacudiu a cabeça.


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— Ela alguma vez esteve em Chicago, que o senhor
saiba?
— O que quer a senhora dizer com esse “que o senhor saiba”? Pensa que uma filha minha iria a Chicago
sem que eu soubesse? Ela não ia nem a Columbus sem o
meu conhecimento.
— Ela conhecia algum homem que costurasse, alfaiate, ou fabricante de velas?
— Ela costurava para todo mundo. Sabia costurar
como a mãe dela. Não sei de homem nenhum. Ela costurava para lojas, para senhoras, não sei para quem.
— Quem era a melhor amiga, dela, Sr. Bimmel?
Com quem se enturmava? — Não queria usar esse termo... Bom, ele não se queimou — está muito cansado.
— Ela não se reunia a turmas, como raparigas que
não prestam. Sempre tinha algum serviço a fazer. Deus
não a fez bonita, mas a fez ativa.
— Quem o senhor diria que era a melhor amiga dela?
— Stacy Hubka, penso eu, desde que eram pequenas. A mãe de Fredrica costumava dizer que Stacy andava
com Fredrica apenas para ter alguém que trabalhasse para
ela, mas não sei...
— Sabe onde eu poderia entrar em contato com ela?
— Stacy trabalhava na companhia de seguros. Penso que ainda trabalha. A Franklin Insurance.
Starling caminhou até seu carro pelo pátio esburacado, a cabeça baixa, mãos enterradas nos bolsos. O gato
de Fredrica observava-a da sua janela lá em cima.


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CAPÍTULO 54
As credenciais do FBI provocam uma resposta
mais rápida quanto mais para o oeste se vai. A ID de Starling, que poderia ter feito levantar uma aborrecida sobrancelha de um funcionário em Washington, mereceu a atenção total do patrão de Stacy Hubka na agência da Fkanklin
Insurance em Belvedere, Ohio. Ele próprio substituiu
Stacy no balcão e nos telefones e ofereceu a Starling a privacidade de seu cubículo para a entrevista.
Stacy Hubka tinha um rosto redondo e vivo e
1,56m de altura quando de sapatos com saltos. Usava os
cabelos em madeixas e fazia um movimento à Cher Bono
para retirá-lo da frente do rosto. Observou Starling dos
pés à cabeça num momento em que ela não estava olhando de frente para a jovem.
— Stacy... posso chamá-la de Stacy?
— Por certo.
— Gostaria que me dissesse, Stacy, como é que você pensa que aquilo pode ter acontecido a Fredrica Bimmel, onde é que esse homem pode ter encontrado Fredrica.
— O fato deixou-me assombrada. Ter a pele arrancada, isso não é uma coisa horrível? Você a viu? Dizem
que ela parecia um farrapo, como se alguém tivesse esvaziado um balão...
— Stacy, ela alguma vez mencionou uma pessoa de
Chicago ou de Calumet City?
Calumet City. O relógio na parede, acima da cabeça
de Stacy, preocupava Starling. Se o Grupo de Resgate de
Reféns devia chegar lá em quarenta minutos, eles estão a


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dez minutos de tocar com as rodas no chão. Será que eles
têm um endereço certo? Preste atenção ao seu serviço!
— Chicago? Não — assegurou Stacy. — Nós marchamos um dia em Chicago, na parada do Dia de Ação de
Graças.
— Quando?
— Quando estávamos no oitavo grau, há uns... nove anos. A banda foi lá e voltou no mesmo ônibus.
— O que você pensou, na última primavera, quando ela desapareceu?
— No início eu nem sabia disso.
— Mas lembra-se de onde você estava quando
soube que ela desaparecera? Quando recebeu a notícia? O
que você pensou então?
— Na primeira noite em que ela não veio, Skip e eu
fomos ao cinema e depois ao bar do Sr. Toad para um
drinque com Pam e os outros. Quando Pam Malavesi
chegou e disse que Fredrica tinha desaparecido, Skip achou que nem Houdini poderia fazer Fredrica desaparecer...! Então ele teve que explicar a todo mundo quem foi
Houdini, ele está sempre querendo mostrar que é um sabichão, e aí nós deixamos o assunto de lado. Eu pensei
que ela estaria apenas zangada com o pai. Viu a casa dela?
Não é o fim da picada? Quero dizer, onde quer que ela
esteja, deve ter ficado embaraçada de você ter visto a casa
dela. Você também não fugiria de casa?
— Você pensou que ela talvez houvesse fugido
com alguém; alguém veio à sua lembrança, mesmo que
fosse um palpite errado?
— Skip disse que ela talvez houvesse encontrado
algum camarada perseguidor de gordinhas. Mas não, ela
nunca teve ninguém desse tipo. Ela teve um namorado,


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mas essa é uma velha história. Ele fazia parte da banda no
décimo grau. Eu digo “namorado”, mas eles apenas conversavam e davam risadinhas como um par de meninas e
faziam juntos as suas tarefas. Ele era um maricão; usava
um desses pequenos bonés de pescadores gregos, conhece? Skip pensava que ele era, você sabe... bicha. Mexíamos
com ela por sair com uma bicha. Ele e a irmã dele morreram num acidente de automóvel, entretanto, e Fredrica
nunca mais teve ninguém.
— O que você pensou quando ela sumiu?
— Pam pensou que alguns membros da seita do
Dr. Moon tinham-na pegado; eu não sabia, mas ficava
com medo cada vez que pensava no caso. Nunca mais saí
à noite sem o Skip. Disse a ele: “Uh, uh, camarada, depois
do sol deitar, nós só saímos juntos.”
— Você alguma vez a ouviu mencionar o nome
Jame Gumb ou John Grant?
— Hummmm... não.
— Você acha que ela poderia ter um amigo que você não soubesse? Havia espaços de tempo, dias, em que
você deixava de vê-la?
— Não. Se ela tivesse um cara, eu saberia, acredite.
— Você pensa que seria possível, digamos, que ela
tivesse um amigo e não dissesse nada a respeito dele?
— Por que iria fazer isso?
— Talvez com medo de que vocês zombassem dela.
— Que zombássemos dela? Você está dizendo isso
por causa da outra vez? Do garoto efeminado na escola?
— Stacy ficou vermelha. — Não. De forma alguma iríamos feri-la. Eu só mencionei isso por acaso. Ela não...


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Nós, todo o mundo foi, vamos dizer, bom para ela, depois
que o garoto morreu.
— Você trabalhava com Fredrica, Stacy?
— Eu e ela e Pam Malavesi e Jaronda Askew, todas
nós trabalhávamos no Centro de Barganhas do Verão durante o ginásio. Então Pam e eu fomos à loja Richards
para ver se podíamos trabalhar lá; é uma casa de roupas
bonitas e eles empregaram a mim e depois a Pam. Então
Pam disse a Fredrica: “Apareça lá, eles precisam de outra
moça”, e ela apareceu. Mas a Sra. Burdine, a gerente comercial, disse: “Bem, Fredrica, precisamos de alguém
que... você sabe... as pessoas possam admirar, as pessoas
entrem na loja e pensem ‘Eu quero parecer-me com ela...’,
e você pode dar-lhes conselhos como elas ficariam com
este ou aquele vestido. Se você puder perder algum peso,
quero que venha de novo aqui e me procure” — disse ela.
— “Mas agora, se você quiser encarregar-se de algumas de
nossas alterações, experimentarei você nesse serviço, darei
uma palavra à Sra. Lippman.” — A Sra. Burdine falou
com aquela voz doce que tem, mas ela realmente é uma
peste; porém, a princípio eu não sabia disso.
— Então Fredrica passou a fazer consertos para a
loja Richards, onde você trabalhava?
— Aquilo feriu os sentimentos dela, é claro. A velha Sra. Lippman fazia alterações para todo mundo. Era a
dona do negócio e tinha mais trabalho do que podia aceitar, e assim Fredrica trabalhava para ela. Fazia as alterações para a velha Sra. Lippman, que costurava para todo
mundo. Depois que a Sra. Lippman se aposentou, a filha
não quis continuar no negócio, e Fredrica ficou com toda
a freguesia e continuou a costurar para todo mundo. Isto
era o que ela fazia. Encontrava-se comigo e com Pam e


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íamos para a casa de Pam jantar e ver The Young and the
Restless (Os jovens e os inquietos); ela trazia alguma coisa
para fazer e ficava trabalhando o tempo todo.
— Fredrica alguma vez trabalhou na loja tirando
medidas? Ela se encontrava com fregueses ou com os
vendedores atacadistas?
— Às vezes, não muito. Eu não trabalhava todos
os dias.
— A Sra. Burdine trabalhava todos os dias? Ela saberia?
— Sim; acredito que sim.
— Fredrica alguma vez mencionou ter costurado
para uma companhia chamada Mr. Hide em Chicago ou
em Calumet City, talvez fazendo forros para roupas de
couro?
— Não sei. A Sra. Lippman talvez tenha trabalhado
nisso.
— Você alguma vez viu a marca Mr. Hide? A loja
Richards, ou uma das butiques, trabalhava com essa marca?
— Não.
— Você sabe onde está a Sra. Lippman? Eu gostaria de falar com ela.
— Ela morreu. Foi para a Flórida quando se aposentou e morreu por lá, segundo contou Fredrica. Nunca
cheguei a conhecê-la; eu e Skip às vezes pegávamos Fredrica lá, quando ela tinha um monte de roupas para trazer.
Você poderia falar com a família dela. Eu escrevo o nome
para você.
Aquilo era extremamente cansativo, quando o que
Starling desejava eram as notícias de Calumet City. Os
quarenta minutos já se haviam esgotado. O Grupo de


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Resgate de Reféns já devia estar no chão. Ela mudou de
posição para não ter que olhar o relógio e continuou o
inquérito.
— Stacy, onde é que Fredrica comprava roupas,
onde comprou aquelas malhas Juno, tamanho grande para
ginástica?
— Ela fazia quase tudo sozinha. Acho que ela
comprou as malhas na Richards, você sabe, quando todo
mundo começou a usa-las realmente grandes, porque eram vestidas por cima de roupas mais apertadas. Uma
porção de lojas as vendiam. Ela tinha um desconto na Richards porque costurava para a loja.
— Ela alguma vez comprou numa loja especializada em tamanhos grandes?
— Nós íamos a todos os lugares para olhar, você
sabe como é, íamos à Personality Plus e ela procurava idéias, você sabe, modelos atraentes para moças de tamanho grande.
— Alguém chegou-se a vocês alguma vez e seguiuas dentro de uma dessas lojas de tamanho grande, ou Fredrica teria notado que alguém não tirava os olhos de cima
dela?
Stacy olhou para o teto por um momento e sacudiu
a cabeça.
— Stacy, travestis vinham alguma vez à Richards,
ou homens comprando roupas grandes de mulheres? Alguma vez você viu uma coisa assim?
— Não. Eu e Skip uma vez vimos alguns travestis
num bar em Columbus.
— Fredrica estava com vocês?
— Não, de forma alguma... Nós tínhamos ido, digamos... passar um fim de semana.


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— Você quer escrever os nomes dos lugares que
vendiam tamanhos grandes onde você foi com Fredrica?
Você acha que pode lembrar-se deles todos?
— Só aqui, ou também em Columbus?
— Aqui e em Columbus. E inclua a loja Richards.
Quero conversar com a Sra. Burdine.
— O.K. É um bom emprego ser agente do FBI,
não é?
— Eu acho que é.
— Você tem a chance de viajar etc.? Quero dizer,
para lugares melhores do que este...
— Às vezes, sim.
— Tem que ter uma boa aparência todos os dias,
não?
— Oh, claro. Você tem que tentar parecer uma
pessoa de negócios.
— Como é que se entra para isso, ser uma agente
do FBI?
— Primeiro você precisa cursar uma universidade,
Stacy.
— Sai muito caro, não?
— Sim, sai. Às vezes, no entanto, há bolsas de estudo e contribuições que ajudam. Gostaria que eu lhe
mandasse alguns prospectos?
— Sim. Eu estava exatamente pensando: Fredrica
ficou tão contente quando eu arranjei este emprego. Ela
realmente ficou feliz ela nunca teve um verdadeiro trabalho de escritório — e pensava que esse era um bom começo. Isto — arquivos de fichas e Barry Manilow no altofalante todo o dia -— ela pensava que era o máximo... O
que sabia ela da vida, pobre coitada...! — As lágrimas iam
aflorar aos olhos de Stacy Hubka. Ela arregalou-os e jogou


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a cabeça para trás para não ter que se maquilar novamente.
— Que tal fazer minha lista agora?
— É melhor fazê-la na minha mesa. Lá eu tenho
um processador de palavras e preciso do meu livro de endereços telefônicos etc. — Ela saiu com a cabeça inclinada
para trás, guiando-se pelo teto.
O telefone atraia Starling. No momento em que
Stacy Hubka saiu do cubículo, Starling chamou Washington a cobrar para saber das notícias.


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CAPÍTULO 55
Naquele momento, sobre a ponta sul do lago Michigan, um jato comercial de 24 passageiros deixou a aerovia de tráfego intenso e começou a longa curva de aproximação para Calumet City, Illinois.
Os doze homens do Grupo de Resgate de Reféns,
na parte dianteira do compartimento de passageiros, sentiram aquele “friozinho” no estômago. Ouviram-se alguns
bocejos de aliviar a tensão elaboradamente casuais aqui e
ali, ao longo do corredor.
O comandante do grupo, John Randall, retirou o
fone de cabeça e passou os olhos por suas notas antes de
levantar-se para falar. Acreditava que tinha o time de
SWAT mais bem treinado do mundo e talvez estivesse
certo. Alguns deles nunca tinham sido alvo de tiros reais,
mas, até onde as simulações e os testes podiam provar,
eram os melhores entre os melhores.
Randall passara muito tempo em corredores de avião e manteve com facilidade o equilíbrio durante a agitada
descida.
— Cavalheiros: nosso transporte em terra é cortesia
da Drug Enforcement Administration, também conhecida
como DEA. Eles têm um furgão de florista e uma caminhonete de encanador. Portanto, Vernon e Eddie, ponham suas proteções de mangas compridas contra balas e
roupa à paisana. Se entrarmos atirando granadas de tontear, lembrem-se de que vocês não têm, nos rostos, proteção contra explosão.
Vernon e Eddie, que deveriam fazer a aproximação
inicial, tinham que usar proteção balística por baixo das


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roupas civis. Os demais podiam ir com blindagem comum, à prova de fogo de rifles.
— Bobby, não se esqueça de pôr um de seus aparelhos manuais em cada furgão para o motorista, de modo
que a gente não se atrapalhe para conversar com esses caras do DEA — pediu Randall.
A DEA usava rádios UHF em seus reides, enquanto o FBI usava VHF; isso causara problemas anteriormente.
Eles estavam preparados para a maior parte das eventualidades, dia e noite: para escutar, tinham Wolf’s Ears e um VanSleek Farfoon, para ver dispunham de dispositivos para visão noturna. As armas com visores para a
noite pareciam instrumentos de banda de música em seus
avantajados estojos.
Aquilo iria ser uma operação cirúrgica precisa e as
armas refletiam tal condição.
O grupo enfiou suas mochilas de equipamento
quando os flapes do avião abaixaram.
Randall recebia notícias de Calumet em seu fone
portátil. Cobriu o microfone e falou de novo para o grupo:
— Camaradas, eles reduziram as possibilidades a
dois endereços. Ficamos com o melhor e a SWAT de Chicago atenderá o outro.
O campo de pouso era o Aeroporto Municipal de
Lansing, o mais próximo de Calumet no lado sudeste de
Chicago. O avião recebeu licença para pousar imediatamente. O piloto levou-o taxiando até parar com um cheiro
de borracha queimada ao lado de dois veículos com os
motores acionados no extremo do campo mais afastado
do terminal.


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Houve rápidas saudações ao lado do caminhão de
florista. O comandante do DEA entregou a Randall o que
parecia ser um amplo arranjo floral. Era uma marreta de
arrombar portas de seis quilos, com a cabeça enrolada em
papel metálico colorido, como um vaso, e a folhagem presa no cabo.
— Você talvez deseje entregar isto — disse ele. —
Bem-vindo a Chicago.


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CAPÍTULO 56
O Sr. Gumb prosseguiu em seu plano no meio da
tarde.
Com lágrimas perigosamente constantes nos olhos,
ele assistiu ao seu vídeo uma, duas, três vezes. Na pequena
tela Mamãe trepava no escorregador e tchimbum! Mergulhava na piscina, tchimbum! Mergulhava na piscina. As
lágrimas molhavam a visão de Jame Gumb como se ele
próprio estivesse na piscina.
Na sua cintura, um saco de água quente gorgolejava, como fazia o estômago da cachorrinha quando se acomodava no colo dele.
Não podia tolerar aquilo por mais tempo — aquela
coisa que, no porão, mantinha Preciosa prisioneira, ameaçando-a. Preciosa estava sofrendo, ele sabia. O que não
sabia era se conseguiria matar aquela coisa antes de ela
fatalmente machucar Preciosa, mas tinha que tentar. Imediatamente.
Tirou as roupas e vestiu o robe, ele sempre finalizava sua colheita nu e sujo de sangue como um recémnascido.
Do enorme armário de remédios, tirou a pomada
que usara em Preciosa quando fora arranhada pelo gato.
Pegou alguns Band-Aids pequenos e cotonetes, bem como a coleira de plástico “Elizabethan Collar” que o veterinário lhe dera para evitar que ela ficasse mexendo num
lugar machucado com os dentes. Ele tinha pedaços miúdos de madeira no porão que poderia empregar como talas na perna quebrada do animal e um tubo de Sting-Eez


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para aliviar-lhe as dores se aquela coisa estúpida a machucasse na sua agitação antes de morrer.
Um tiro cuidadoso na cabeça, e sacrificaria apenas
o cabelo.
Preciosa valia mais para ele do que aquela cabeleira.
Esse sacrifício era uma oferenda para a salvação da cachorrinha.
Desceu então devagar a escada para a cozinha. Tirou os chinelos e meteu-se pelos degraus escuros que desembocavam no porão, sempre junto à parede para evitar
que rangessem.
Não acendeu a luz. Embaixo da escada voltou-se
em direção à oficina, movimentando-se pelo tato na escuridão familiar, sentindo as irregularidades do chão debaixo
de seus pés.
Sua manga roçou por uma das gaiolas e ele ouviu o
cricri baixo e zangado de uma mariposa. Ali estava o armário. Encontrou a lanterna infravermelha e acavalou os
óculos no nariz. Agora o mundo tinha um tom verde. Parou um momento, escutando o agradável borbulhar dos
tanques, o quente chiado do vapor nos canos. Mestre da
escuridão, imperador das trevas.
Mariposas livres, no ar, traziam verdes traços de
fosforescência à sua visão. Suas asas adejando fracamente
afloravam seu rosto no ambiente sombrio.
Verificou a Python. Estava carregada com balas especiais de chumbo 38. Elas penetrariam no crânio e se
expandiriam provocando uma morte instantânea. Se a coisa estivesse de pé quando fosse o alvo, e se ele atirasse de
cima para baixo no alto da cabeça, a bala tinha menos
probabilidade do que uma carga de Magnum de sair pela
mandíbula inferior e rasgar o peito.


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Devagar, bem devagar, andou com os joelhos dobrados, os dedos dos pés com unhas pintadas tateando as
tábuas do chão. Em silêncio, cruzou o assoalho de terra
sobre a masmorra. Quieto agora, mas não devagar demais.
Não queria que seu cheiro chegasse até a cadelinha no
fundo do poço.
A parte superior da masmorra tinha um reflexo
verde, as pedras e a argamassa diferentes, o grão da madeira da cobertura claro na sua visão. Segurou a lanterna e
inclinou-se sobre a abertura. Lá estavam elas. A coisa
permanecia de lado, enrolada como um gigantesco camarão. Talvez dormindo. Preciosa se aconchegara de encontro ao seu corpo, certamente dormindo — oh! Por misericórdia, não morta!
A cabeça da mulher estava exposta. Um tiro no
pescoço era tentador — pouparia o cabelo. Mas arriscado
demais.
Gumb inclinou-se sobre a abertura, as lentes móveis de seus óculos voltadas para baixo. A Phyton tem
uma boa empunhadura, mais pesado no cano, maravilhosamente fácil de apontar. Devo segurá-la pelo feixe infravermelho. Alinhou as miras no lado da cabeça, exatamente
onde o cabelo estava úmido de encontro às têmporas.
Ruído ou cheiro — ele nunca soube — , Preciosa
levantou-se e ganiu, pulando para o alto na escuridão. Catherine Baker Martin dobrou-se em volta do cãozinho e
puxou a manta sobre as duas. Apenas vultos movendo-se
debaixo da manta, sem que ele pudesse dizer o que era
Catherine e o que era o cão. Olhando para baixo pela luz
infravermelha, sua percepção de profundidade ficava prejudicada. Não podia dizer que formas eram de Catherine.


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Contudo, tinha visto Preciosa pular. Compreendera
que a perna dela estava bem e imediatamente se certificou
de outra coisa: Catherine Baker Martin não iria machucar
o cão, não mais do que ele o faria. Oh, que doce alívio!
Diante dos sentimentos que compartilhavam, ele podia
atirar-lhe nas malditas pernas e quando ela se abaixasse
para segurá-las, estourar a porra dos seus miolos. Não tinha mais que tomar precaução.
Acendeu as luzes, todas as malditas luzes do porão,
e pegou o refletor que guardava no depósito. Sentia-se
controlado, estava raciocinando bem. A caminho da oficina lembrou-se de deixar correr um pouco d’água nas pias,
de forma que nada viesse a entupir os drenos.
Quando se dirigia apressado em direção à escada,
pronto para descer, carregando o refletor, a campainha da
porta da frente soou.
O som pareceu-lhe rouco, arrastado, e ele parou
para pensar o que seria. Não ouvia há anos, nem mesmo
sabia se ela ainda funcionava. Montada nas escadas, de
forma que pudesse ser ouvida tanto em cima como embaixo, ela agora soava, como se fosse um sino de metal
escuro coberto de poeira. Enquanto olhava para a campainha, ela tocou de novo e continuou a tocar, a poeira se
espalhando de cima dela. Alguém estava na frente da casa,
apertando o velho botão marcado SUPERINTENDENTE. Acabariam indo embora.
Ligou o refletor na tomada.
Eles não foram embora.
Lá embaixo, no porão, aquela coisa disse algo a que
ele não prestou atenção. A campainha continuava soando,
naquele seu tinir enrouquecido; alguém estava dependurado no botão.


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Era melhor voltar para cima e dar uma olhada. A
Phyton de cano comprido não cabia no bolso do seu robe;
descansou-a em cima do balcão da oficina.
Estava a meio caminho das escadas quando a campainha emudeceu. Aguardou alguns segundos, parado onde estava. Silêncio. Decidiu que, de qualquer modo, convinha olhar. Quando atravessava a cozinha, uma pancada
na porta traseira sobressaltou-o. Na despensa, próximo
àquela porta, havia uma espingarda que ele sabia estar carregada.
Com a porta do porão fechada para as escadas, ninguém iria ouvir a coisa por mais que berrasse lá embaixo,
por mais que gritasse — disso ele tinha certeza.
Nova batida. Ele abriu uma fresta da porta com a
correntinha de segurança presa no lugar.
— Tentei a porta da frente, mas ninguém atendeu
— justificou-se Clarice Starling. — Estou procurando a
família da Sra. Lippman. O senhor poderia ajudar-me?
— Eles não vivem mais aqui — disse o Sr. Gumb,
e imediatamente fechou a porta. Já se dirigia de novo para
a escada quando as batidas recomeçaram, desta vez mais
altas.
Voltou a abrir a porta, sempre sem soltar a corrente.
A jovem mulher exibiu-lhe um cartão de identidade
diante da fresta. O cartão dizia: Federal Bureau of Investigation.
— Desculpe-me, mas devo falar com o senhor.
Preciso encontrar a família da Sra. Lippman. Sei que ela
vivia aqui. Peço que o senhor me ajude, por favor.
— A Sra. Lippman está morta há anos. E, que eu
saiba, não deixou nenhum parente.


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— Que tal um advogado, um contador? Alguém
que possa ter guardado os registros do negócio dela? O
senhor conheceu a Sra. Lippman?
— Apenas ligeiramente. Qual é o problema?
— Estou investigando a morte de Fredrica Bimmel.
Quem é o senhor, por favor?
— Jack Gordon.
— O senhor conheceu Fredrica Bimmel quando ela
trabalhava para a Sra. Lippman?
— Não. Se era uma pessoa grande, muito gorda,
talvez eu a tenha visto, mas não estou certo. Olhe, não
quis ser indelicado, mas eu estava dormindo... A Sra.
Lippman tinha um advogado; pode ser que eu tenha o
cartão dele em algum lugar, vou ver. A senhora gostaria de
entrar? Estou gelando e meu gato vai fugir correndo por
aqui num instante. Passará como um raio antes que eu
possa detê-lo.
Dirigiu-se para uma escrivaninha de tampo de enrolar no canto mais afastado da cozinha, abriu a tampa e
procurou nos escaninhos. Starling entrou na casa e sacou
seu caderno de notas de dentro da bolsa.
— Que negócio horrível foi aquele! — comentou,
revistando a escrivaninha. — Tremo a cada vez que penso
nele. Estão próximos a apanhar alguém, que acha a senhora?
— Ainda não, mas estamos trabalhando nisso, Sr.
Gordon. O senhor ficou com a casa depois que a Sra.
Lippman faleceu?
— Fiquei. — Gumb debruçou-se sobre a mesa, as
costas voltadas para Starling. Abriu uma gaveta e examinou-a.


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— Ficaram por aqui alguns registros? Registros de
negócios?
— Não. Nada. O FBI tem alguma idéia? A polícia
daqui parece não saber de nada. Eles têm uma descrição,
impressões digitais?
De dentro de uma dobra do robe do Sr. Gumb escapou uma Mariposa Caveira. Agarrou-se ao tecido, nas
costas, mais ou menos à altura do coração, e abriu as asas.
Starling deixou cair o caderno de notas dentro da
bolsa.
É Gumb! Graças a Deus que meu casaco está aberto. Tenho que sair daqui e chegar a um telefone. Não. Ele
sabe que sou do FBI, se o perco de vista ele a mata. Furalhe os rins. Se o encontram, caem em cima dele. E um
telefone? Não vejo nenhum. Não por aqui. Pergunto-lhe
pelo telefone. Faço a ligação. Depois prendo-o. Faço-o
deitar-se de barriga para baixo, espero pelos tiras É isca.Vamos. Ele está se voltando.
— Aqui está o número.
Pego-o? Não.
— Obrigada. Sr. Gordon, mas o senhor tem um telefone que eu possa usar?
Quando ele pôs o cartão na mesa, a mariposa voou.
Saiu de trás dele, passou sobre a sua cabeça e pousou entre os dois, num armário sobre a pia.
Ele olhou para a mariposa. Ao ver que Starling não
afastava os olhos do seu rosto, percebeu tudo.
Seus olhares se encontraram e eles se revelaram
mutuamente.
Gumb inclinou a cabeça um pouco para o lado e
deu um sorriso, dizendo:
— Tenho um sem-fio na despensa. Vou apanhá-lo.


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Não! Aja agora! Ela correu a mão para o revólver,
um movimento suave que fizera milhares de vezes, e lá
estava onde devia estar, numa boa empunhadura com as
duas mãos, o mundo dela concentrado na frente da sua
mira e no centro do peito dele.
— Pare!
Ele fez um movimento com os lábios.
— Agora, devagar! Levante as mãos! Leve-o para
fora, mantenha a mesa entre vocês. Leve-o para a frente
da casa. De cara para o chão no meio da rua, e segure seu
distintivo exposto na mão.
— Sr. Gumb... Sr. Gumb, considere-se preso. Saia
andando devagar na minha frente, para a rua.
Em vez disso, ele saiu da cozinha. Se tentasse meter
a mão no bolso, ou levar a mão para trás, se ela tivesse
visto uma arma, poderia ter atirado. Mas ele se limitou a
sair.
Ouviu-o descer rapidamente as escadas do porão;
Starling contornou a mesa e dirigiu-se para a porta no alto
da escada. Ele desaparecera, a escadaria estava brilhantemente iluminada, mas vazia. Armadilha. Tornava-se um
alvo fácil naquela escadaria.
No porão ouviu-se um grito estridente e agudo
como um apito.
Ela não gostava da escada, nunca gostara de escadas. Clarice Starling, seja rápida no que fizer. Ou você faz
alguma coisa rápida ou não faz.
Catherine Martin gritou de novo, ele estava a matando! Starling desceu as escadas agarrada ao corrimão, o
braço com o revólver esticado, o chão lá embaixo aparecendo na frente da mira, o braço com a arma ficou giran-


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do junto com sua cabeça quando ela tentou cobrir as duas
portas, uma em frente à outra, ao pé da escadaria.
As luzes brilhando no porão, ela não podia atravessar uma porta sem dar as costas à outra. Faça-o rápido, vá
para a esquerda, na direção do grito. Ela entrou no quarto
da masmorra com seu piso de terra, passou correndo pela
porta, com os olhos mais arregalados que nunca. O único
lugar para se proteger era atrás do poço. Deslizou de lado
ao longo da parede, ambas as mãos na arma, os braços
esticados, uma pequena pressão no gatilho, deu a volta ao
poço e atrás dele não havia ninguém.
Um pequeno grito veio do poço, volátil como fumaça. Ganidos agora, um cachorro. Aproximou-se da abertura, chegou até a borda e espiou. Viu a moça, olhou
para baixo mais uma vez, e disse o que estava treinada para dizer, a fim de acalmar a refém:
— Sou do FBI, você está segura.
— Segura uma merda! Ele tem uma arma. TIREME DAQUI! TIRE-ME DAQUI!
— Catherine, você será salva. Cale a boca. Sabe
onde ele está agora?
— TIRE-ME DAQUI. NÃO ESTOU LIGANDO
UMA MERDA PARA ONDE ELE ESTÁ, TIRE-ME
DAQUI!
— Vou tirá-la. Mas cale-se. Ajude-me. Fique quieta,
de modo que eu possa escutar. Tente ver se pode calar
esse cachorro.
Entrincheirada atrás do poço, cobrindo a porta
com a arma o coração dela batia e sua respiração arfante
levantava poeira da pedra. Ela não podia deixar Catherine
Martin para buscar ajuda sem saber onde estava Gumb.
Deslocando-se até a porta, protegeu-se atrás do umbral.


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Podia enxergar até o pé da escada e parte da oficina mais
adiante.
Ou ela encontrava Gumb, ou se certificava de que
ele fugira ou levava Catherine com ela — essas eram as
escolhas.
Olhou rapidamente para o quarto da masmorra.
— Catherine, há uma escada por aqui?
— Não sei; acordei aqui dentro. Ele arriava o balde
com uma corda, para tudo.
Aparafusado numa coluna da parede, viu um guincho manual pequeno. Em seu tambor não havia cabo.
— Catherine, tenho que descobrir alguma coisa para tirar você dai. Você pode andar?
— Sim. Não me deixe!
— Tenho que sair do quarto apenas por um minuto.
— Sua cadela de merda, não me deixe sozinha aqui
embaixo, minha mãe vai estourar a porra dos seus miolos...
— Cale a boca, Catherine. Quero que você fique
quieta de forma que eu possa ouvir. Para salvar-se, fique
quieta, entendeu? Depois, em voz mais alta: — Outros
policiais estarão aqui dentro de minutos, portanto cale a
boca! Claro que não vamos deixá-la aí embaixo.
Precisava encontrar uma corda. Onde haveria uma?
Vá procurá-la.
Starling movimentou-se cruzando o vão da escada e
correndo até a porta da oficina. As portas são os piores
lugares. Entrou rápido, correu para um lado e outro ao
longo da parede mais próxima até ter se situado no quarto. Percebeu formas familiares nadando nos tanques de
vidro, por demais alerta para ficar espantada. Cruzou rapi-


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damente o quarto, passando pelos tanques, pelas pias, pela
gaiola onde algumas grandes mariposas voavam. Ignorouas.
Aproximou-se do outro corredor, inundado de luz.
A geladeira se ligando atrás dela fê-la virar-se rápida e agachada, o gatilho da Magnum armado. A seguir relaxou sua
pressão sobre ele. Prosseguiu até o corredor. Fora ensinada a espiar. Cabeça e revólver ao mesmo tempo, mas numa posição baixa. O corredor estava vazio. Viu o estúdio
violentamente iluminado no fim do corredor. Correu ligeira, arriscando-se a passar por uma porta fechada, até a
porta do estúdio. Estava todo pintado de branco e guarnecido de carvalho claro. O inferno é passar pela porta.
Certifique-se de que todo manequim é um manequim, e
todo reflexo no espelho é o reflexo de um manequim. O
único movimento nos espelhos deve ser o seu movimento.
O grande armário estava aberto e vazio. A porta
mais afastada abria-se para a escuridão — o porão por trás
dela. Nenhuma corda, nenhuma escada. Além do estúdio
não havia luzes. Fechou a porta que dava para a parte
sombria do porão, empurrou uma cadeira para baixo da
maçaneta e a escorou com uma máquina de costura. Se
pudesse estar segura de que Gumb não estava nessa parte
do porão, arriscaria subir por um momento, atrás de um
telefone.
Voltou ao corredor, à porta pela qual havia passado
antes, colocou-se no lado oposto às dobradiças e abriu-a
inteiramente com um só movimento. A porta bateu com
força na parede; não havia ninguém lá. Um velho banheiro
cheio de cordas, ganchos, laçadas. Resgatar Catherine ou
procurar o telefone? No fundo do poço Catherine não


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seria morta por acidente, mas se Starling fosse morta, Catherine morreria também. Levar Catherine com ela até o
telefone.
Starling achou melhor não ficar no banheiro muito
tempo. Ele poderia aparecer de repente e fuzilá-la. Olhou
para ambos os lados e avançou célere para apanhar a corda. Havia ali uma grande banheira, quase cheia com uma
argamassa dura, roxo-avermelhada. Uma mão e um pulso
saíam da argamassa, a mão escura e toda enrugada, com
unhas pintadas de cor-de-rosa. No pulso, um delicado relógio. Starling observou tudo num só relance: a corda, a
banheira, a mão, o relógio de pulso.
O avanço semelhante ao de um inseto do ponteiro
dos segundos foi a última coisa que ela viu antes que as
luzes se apagassem.
O coração bateu tão forte que sacudiu seu peito e
seus braços. A escuridão deixou-a tonta, precisava tocar
alguma coisa, a borda da banheira. O banheiro. Sair do
banheiro. Se ele encontrar a porta, vai varrer este quarto
de balas, e nada existia para servir de escudo. Oh, Jesus
Cristo, sair daqui! Sair daqui, agachada, para o corredor.
Todas as luzes estão apagadas? Todas elas. Ele deve tê-las
desligado na caixa de fusíveis, puxando a alavanca. Onde
seria! Onde seria a caixa de fusíveis? Próximo às escadas.
Em geral ficam perto das escadas. Se for assim, ele virá
daquele lado. Mas ele está entre mim e Catherine.
Catherine Martin está se lamentando de novo.
— Esperar aqui? Esperar para sempre? Talvez ele
tenha ido embora. Ele não pode ter certeza de que nenhum reforço está vindo. Sim, ele pode. Mas breve notarão a minha falta. Esta noite. As escadas ficam na direção
dos gritos. Resolva o problema agora.


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Starling moveu-se devagar, seu ombro apenas tocando na parede, tocando-a levemente demais para fazer
qualquer ruído, uma mão esticada para a frente, o revólver
próximo à cintura, próximo ao seu corpo no apertado corredor. Estou agora dentro da oficina Sinto o espaço abrirse. Um quarto aberto. Abaixou-se no quarto aberto, ambas as mãos no revólver. Você sabe exatamente onde c
arma está: está abaixo do nível dos olhos. Pare, escute. A
cabeça e o corpo e os braços virando em conjunto, como
a torre de um tanque. Pare, escute.
Na escuridão total, o chiado dos tubos de vapor, a
água pingando.
Em suas narinas, pesado, um cheiro de bode.
O lamento de Catherine.
De encontro à parede estava Gumb com seus óculos acavalados. Não havia perigo de que Starling esbarrasse nele — entre os dois estava a mesa com o equipamento. Ele varreu-a com sua luz infravermelha, para cima e
para baixo. Era magra demais, não tinha qualquer utilidade
para ele. Lembrou-se, no entanto, do seu cabelo, que observara na cozinha. Era espetacular e levaria apenas um
minuto. Podia arrancá-lo com facilidade. Colocá-lo em si
mesmo, debruçar-se sobre o poço e dizer àquela coisa:
— Surpresa!
Era divertido vê-la querendo esgueirar-se. Agora estava com o quadril deslizando ao lado das pias, andando
em direção aos gritos com o revólver diante do corpo.
Seria divertido caçá-la por um longo tempo — jamais caçara antes uma caça armada. Teria apreciado imensamente. Mas não havia tempo para isso. Que pena!
Um tiro no rosto seria um sucesso, a menos de 3
metros de distância. Agora.


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Ele engatilhou a Python e a ergueu. De repente a
figura ficou borrada e desapareceu da sua visão, que era
verde. A arma saltou da sua mão e o solo chocou-se violentamente com suas costas. Sua luz continuava acesa e ele
via o teto. Starling estava no chão, cega com os relâmpagos dos disparos, os ouvidos zunindo, ensurdecida pelo
espocar das armas. Trabalhava no chão enquanto nenhum
dos dois podia ouvir, descarregou os cartuchos vazios,
virou a arma, apalpou-a para ver se todos tinham sido expelidos. Apanhou o carregador rápido, sentiu-o na mão,
ajeitou-o, inseriu-o, fechou o cilindro do revólver. Deu,
quatro tiros: dois e mais dois. Gumb atirara uma vez. Ela
encontrou os dois cartuchos perfeitos que deixara cair.
Colocá-los onde? Na bolsa do carregador rápido. Permaneceu quieta. Devia mover-se antes que ele pudesse ouvir?
O som de uma arma sendo engatilhada é característico. Ela havia atirado contra o som, nada vendo além da
forte luminosidade no cano das armas. Tinha agora a esperança de que ele atirasse na direção errada e lhe oferecesse novo clarão para ela atirar. Sua audição estava voltando, os ouvidos ainda zumbiam, mas já podia ouvir.
Que som era aquele? Um assobio? Como uma chaleira, mas com interrupções. O que seria? Como uma respiração. Serei eu mesma? Não. Sua respiração era quente
de encontro ao chão e se refletia em seu rosto. Tome cuidado, não aspire poeira, não espirre.
Ouve-se a respiração. Parece uma ferida no peito
aspirando ar. Ele foi ferido no peito. Haviam ensinado a
ela como vedar uma ferida dessas, colocando algo em cima dela, uma capa de borracha, um saco plástico, qualquer
coisa impermeável ao ar, e depois amarrar com força. Reencher o pulmão. Ela então o havia acertado no peito. O


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que fazer agora? Esperar. Deixar que ele se esgote e sangre. Esperar.
O rosto de Starling ardia. Não tocou nele. Se estivesse sangrando, não queria que suas mãos ficassem escorregadias.
Os gritos do poço ecoaram de novo. Era Catherine,
implorando e chorando. Mas ela não podia responder a
Catherine. Não podia dizer nada nem mover-se.
A luz invisível de Gumb batia no teto. Tentou movê-la e não pôde, da mesma forma que não podia mover a
cabeça. Uma grande mariposa Luna da Malásia, passando
pertinho do teto, recebeu a radiação infravermelha, desceu
circulando e pousou sobre a lanterna. As sombras pulsantes das suas asas, enormes no teto, são visíveis apenas para
Gumb.
Acima da aspiração crepitando na escura, Starling
ouviu a voz sepulcral de Gumb, afogada:
— Como... se... sente... sendo... tão... bonita?
E depois outro som. Um gorgolejo, um estertor e o
assobio sumiu.
Starling conhecia também aquele som. Ela o ouvira
uma vez antes, no hospital, quando seu pai morrera.
Procurou a beirada da mesa e levantou-se. Tateando para acha seu caminho e seguindo a voz de Catherine,
encontrou a escada subiu por ela no escuro.
O tempo pareceu arrastar-se uma enormidade. Encontrou um vela na gaveta da cozinha. Com ela Starling
localizou a caixa de fusíveis ao pé da escada e estremeceu
quando as luzes voltaram. Para chegar até a caixa de fusíveis e apagar as luzes, ele deve ter saído do porão por outro caminho e voltado para baixo contornando por trás.


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Starling precisava estar certa de que ele já não vivia.
Espero até seus olhos se adaptarem bem à luz antes de
voltar à oficina, mesmo então o fez com muito cuidado.
Pôde ver-lhe os pés nus as pernas saindo debaixo da mesa
de trabalho. Manteve os olhos fixados na mão próxima à
arma até chutá-la para longe. Os olhos dele permaneciam
abertos. Contudo, estava morto, com um tiro no lado direito do peito, um sangue grosso escorrendo para baixo de
Gumb tinha vestido algumas roupas do armário, mas ela
não conseguiu olhar para ele por muito tempo.
Foi até a pia, colocou a Magnus na mesa e fez correr água sobre seus pulsos, lavando o rosto com as mãos.
Não havia sangue nelas. Mariposas se lançavam contra as
telas em torno das lâmpadas. Ela tem que rodear aquele
corpo inerte para pegar a Python.
Quando se aproximou do poço, gritou:
— Ele está morto, Catherine. Não pode mais fazerlhe mal. Vou até lá em cima e...
— Não! TIRE-ME DAQUI! TIRE-ME DAQUI!
TIRE-ME DAQUI!
— Preste atenção, ele está morto. Este é o revólver
dele. Lembra-se? Vou chamar a polícia e os bombeiros.
Tenho receio de içá-la sozinha, você poderia machucar-se.
Tão logo os tenha chamado, volto aqui e fico com você
esperando. O.K.? Tente fazer esse cachorro calar-se.
O.K.?
As turmas locais de televisão chegaram logo depois
do corpo de bombeiros e antes da polícia de Belvedere. O
capitão dos bombeiros, zangado com as luzes da TV, expulsou as equipes para cima, para fora do porão, enquanto
montava uma estrutura tubular para resgatar Catherine
Martin, não confiando no gancho do Sr. Gumb preso à


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viga do teto. Um bombeiro desceu ao poço e prendeu Catherine numa cadeira de salvamento. Catherine veio para
cima agarrando a cachorrinha e continuou com ela na ambulância.
Não permitem a presença de cães no hospital e não
deixaram a cachorrinha entrar. Um bombeiro que recebera instruções para largá-la no abrigo de animais, em vez
disso levou-a para casa.


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CAPÍTULO 57
Havia cerca de cinqüenta pessoas no Aeroporto
Nacional em Washington, aguardando o vôo corujão de
Columbus, Ohio. Quase todos esperavam parentes e pareciam sonolentos e mal-humorados, com as fraldas das
camisas para fora dos paletós.
Do meio do grupo, Ardelia Mapp teve a oportunidade de observar Starling quando ela saía do avião. Estava
abatida, com sombras escuras debaixo dos olhos. Alguns
grãos pretos de pólvora tinham aderido ao seu rosto. Starling avistou Mapp e se abraçaram.
— Hei, garotona! — disse Mapp. — Alguma bagagem?
Starling fez que não com a cabeça.
— Jeff está do lado de fora, no furgão. Vamos para
casa.
Jack Crawford também estava do lado de fora, seu
carro estacionado atrás do furgão no espaço das limusines.
Ele tinha ficado com os parentes de Bella a noite inteira.
— Eu... — começou ele. — Você sabe o que fez?
Você lavrou um tento, garota! — Tocou no rosto dela. —
O que é isso?
— Pólvora das armas. O doutor diz que sairá sozinha em um ou dois dias; é melhor do que ter de retirá-la.
Crawford deu-lhe um abraço e apertou-a de encontro a si por um momento, apenas por um momento, depois afastou-a e beijou a na testa.
— Você tem idéia do que fez? — repetiu. — Vá
para casa. Trate de dormir. E durma bem. Falo com você
amanhã.


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A nova caminhonete de vigilância era confortável,
projetada para longas vigílias. Starling e Mapp viajaram em
confortáveis cadeiras na parte traseira.
Sem Jack Crawford no furgão, Jeff dirigia um pouco mais depressa. Fizeram uma corrida rápida até Quântico.
Starling viajava com os olhos fechados. Depois de
alguns quilômetros, Mapp tocou-lhe o joelho. Mapp tinha
aberto duas pequenas garrafas de Coca-Cola. Entregou
uma a Starling e tirou de sua bolsa um frasco de um quarto de litro de Jack Daniels.
Cada uma delas tomou um gole de sua Coca e virou
na garrafa uma dose do sour mash. Em seguida enfiaram
o polegar no gargalo das garrafas e sacudiram-nas e, enfiando a garrafa na boca, beberam a mistura espumante.
— Ah, que bom! — apreciou Starling.
— Não derramem isso por aí — recomendou Jeff.
— Não se preocupe, Jeff — prometeu Mapp. Depois, em tom mais baixo para Starling: — Você devia ter
visto nosso amigo esperando por mim na porta da loja de
bebidas. Parecia estar cometendo um crime... — Quando
viu que o uísque começava a fazer efeito, quando Starling,
relaxada, afundou mais na cadeira, Mapp perguntou:
— Como está se sentindo agora, Starling?
— Ardelia, que me dane se sei ...
— Você não tem que voltar para lá, tem?
— Talvez um dia, na semana que vem, mas espero
que não seja necessário. O Promotor Público veio de Columbus para conversar com os tiras de Belvedere. Fiz um
depoimento que não acabava mais.
— Algumas boas notícias — disse Mapp. — A senadora Martin procurou você pelo telefone toda a noite e


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lá de Bethesda — você sabia que levaram Catherine para
Bethesda? Consta que ela está passando bem. Ele não a
machucou fisicamente. Quanto a um trauma emocional,
ainda nada sabem, vai ser preciso observá-la. Não se preocupe com a escola. Tanto Crawford quanto Brigham telefonaram. A audiência foi cancelada. Krendler mandou que
devolvessem seu memorando. Essa gente tem um coração
como um BB lubrificado — você não vai ter problema
algum. Não terá que fazer o exame de busca-e-captura
amanhã às oito horas, ficou para segunda-feira e logo a
seguir fará o teste PE. Recapitularemos a matéria durante
o fim de semana.
Acabaram com a pequena garrafa de uísque já perto
de Quântico e jogaram a prova do crime numa barrica que
estava ao lado da estrada.
— Aquele Pilcher. O doutor Pilcher, do Smithsonian, telefonou três vezes. Fez-me prometer que lhe diria
que ele telefonou.
— Ele não é doutor.
— Você pensa que poderá fazer algo por ele?
— Talvez. Ainda não sei.
— Ele parece ser muito divertido. Conclui mais ou
menos que ser engraçado é a melhor coisa que existe nos
homens. Quero dizer, exceto o dinheiro e a nossa básica
governabilidade...
— Sim, e bons modos também, você não pode excluir isso.
— Certo. Dê-me um filho da puta com bons modos e fico com ele.
Starling tomou um chuveiro e foi para a cama como se estivesse drogada.


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Mapp deixou sua luz de leitura acesa por algum
tempo, até que a respiração de Starling se tornou regular.
Starling se agitava dormindo, um músculo de seu rosto se
contraía, e uma vez seus olhos se abriram por completo.
Mapp acordou um pouco antes do nascer do sol
com a sensação que o quarto estava vazio e acendeu a luz.
Não viu Starling em sua cama. Mas não viu também os
sacos de roupa suja de ambas e então Mapp soube onde
poderia procurá-la.
Encontrou Starling na lavanderia, cochilando ao
vagaroso ronronar de uma máquina de lavar roupa, no ar
um cheiro de detergente, sabão e amaciante de tecido.
Starling era formada em psicologia e Mapp em leis —
contudo, era Mapp quem sabia que o ritmo da máquina de
lavar roupa semelhava batidas de coração e o marulho da
água era o som que um feto ouvia — nossa última memória de paz.


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CAPÍTULO 58
Jack Crawford acordou cedo no sofá de seu estúdio
e ouviu na casa o ressonar de seus parentes por parte da
falecida esposa. Num momento livre, antes que o peso do
dia caísse sobre ele, lembrou-se não da morte de Bella,
mas da última coisa que ela lhe dissera, seus olhos calmos
e claros:
— Como vai tudo aí fora?
Pegou a concha de grãos de Bella e, vestido no seu
robe, saiu e alimentou os pássaros, como prometera fazer.
Deixando uma nota para os afins que ainda dormiam, escapuliu da casa antes do sol nascer. Crawford sempre se
dera razoavelmente bem com os parentes de Bella, e eles o
ajudavam mantendo algum movimento na casa, mas sentiu-se contente por ir para Quântico.
Estava examinando o movimento de telex da noite
e observando as notícias da manhã na TV em seu escritório quando Starling encostou o nariz no vidro da porta.
Ele tirou alguns relatórios de cima de uma cadeira para
que ela sentasse e os dois ficaram ouvindo as notícias em
completo silêncio. E então apareceu na tela o que esperavam.
Viram a fachada do velho edifício de Jame Gumb
em Belvedere com sua fila de lojas vazias e vidraças opacas cobertas por pesadas grades. Starling quase não o reconheceu.
— Masmorra de Horrores — assim chamou-o o
redator de notícias.
Fotos confusas e movediças do poço e do porão,
máquinas de fotografar exibidas diante das câmaras de


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televisão, um bombeiro zangado mandando os fotógrafos
recuarem. Mariposas tontas devido às luzes da TV, voando de encontro a elas, um exemplar de costas no chão,
batendo as asas até um tremor final.
Catherine Martin recusando uma padiola e caminhando para a ambulância com o paletó de um policial a
protegê-la, um poodle metendo o focinho por entre as
lapelas.
Uma imagem em perfil de Starling caminhando apressada para um carro, a cabeça baixa, as mãos enfiadas
nos bolsos do impermeável.
O filme fora cortado para excluir as cenas mais
horríveis. Nas partes mais afastadas do porão as câmaras
puderam mostrar apenas as soleiras dos quartos pintados
de cal nos quais ficavam os quadros de Gumb. O número
de corpos que haviam estado naquele porão somava seis.
Por duas vezes Crawford ouviu quando Starling
soprou forte pelo nariz. Depois das notícias, um intervalo
comercial.
— Bom dia, Starling.
— Alô -— disse ela, como se só agora tivesse acabado de chegar.
— Durante a noite o Promotor Público de Columbus mandou-me pelo fax o seu depoimento. Você terá
que assinar algumas cópias para ele... Fiquei sabendo que
você foi da casa de Fredrica Bimmel para o emprego de
Stacy Hubka e depois procurou a Sra. Burdine na loja para
a qual Fredrica costurava, a Richard’s Fashion. E foi a Sra.
Burdine quem lhe deu o antigo endereço da Sra. Lippman,
aquele edifício que vimos.
Starling anuiu com a cabeça.


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— Stacy Hubka fora ao local algumas vezes para
apanhar Fredrica, mas quem dirigia era o namorado de
Stacy, e sua lembrança do endereço era vaga. A Sra. Burdine é que o tinha.
— A Sra. Burdine não mencionou que havia um
homem morando na casa da Sra. Lippman?
— Não.
As notícias da televisão apresentavam um filme do
Hospital Naval de Bethesda, o rosto da senadora Ruth
Martin enquadrado na janela de uma limusine.
— À noite passada Catherine recuperou seu juízo
normal. E dorme, agora que está sedada. Tivemos muita
sorte. Como já lhe disse, ela ficou em estado de choque,
mas perfeitamente lúcida, Sofreu alguns machucados e
tem um dedo quebrado. E também está desidratada. Muito obrigada a vocês. — Bateu nas costas do chofer, mandando-o seguir. — Obrigada. Claro, ela mencionou a poodle à noite passada. Não sei o que vamos fazer com ela,
já temos dois cachorros.
A reportagem terminou mencionando um especialista em stress que iria ver Catherine Martin naquele dia
para avaliar os possíveis danos emocionais.
Crawford desligou a TV.
— Como é que você está encarando as coisas, Starling?
— Ando meio sonada... O senhor também?
Crawford fez que sim com a cabeça e continuou a
falar:
— A senadora Martin esteve ao telefone a noite inteira. Ela quer ver você. Catherine também, tão logo receba alta.
— Bem, estou sempre em casa...


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— Krendler também quer vir até aqui. Pediu que
devolvêssemos o memorando dele.
— Pensando melhor... não é sempre que estou em
casa...
— Vou dar-lhe um conselho grátis. Use a senadora
Martin. Deixe-a expressar o quanto está agradecida, deixe
que ela o prove. E o mais depressa possível: gratidão é
uma coisa com vida curta... Você poderá precisar dela um
dia destes.
— Exatamente o que Ardelia disse.
— Sua companheira de quarto, a Mapp? O Superintendente da Academia disse que Mapp está decidida a
prepará-la para os exames de recuperação de segundafeira. Ela acaba de passar um ponto e meio à frente de seu
arqui-rival, Stringfellow, disse-me ele.
— Para o discurso de formatura?
— É uma dureza, esse Springfellow, e afirma que
Mapp não é páreo para ele.
— É melhor ele se preparar para uma surpresa...
Na confusão das coisas sobre a mesa de Crawford
estava a galinha origami que o Dr. Lecter tinha armado.
Crawford levou a cauda para cima e para baixo; a galinha
ficou mexendo com a cabeça.
— Lecter está sendo premiado: é o líder na lista dos
“mais procurados” — comentou Crawford. — Mesmo
assim, é capaz de ficar solto um bom tempo. Por falar nisso: você precisa adquirir alguns bons hábitos.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Ele agora anda ocupado — prosseguiu Crawford — , mas quando não estiver mais, vai querer divertirse. Precisamos ser claros num ponto: ele vai querer vin-


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gar-se de você, da mesma forma que fará com qualquer
outra pessoa, que suponha ter tentado enganá-lo.
— Não creio que ele jamais vá me ameaçar, seria
rude e ele não iria ser rude comigo. Mas pode ser que me
acerte assim que se aborrecer comigo.
— Repito que você deve adquirir bons hábitos...
Quando sair da Academia, mantenha sempre o berrador
consigo. Não aceite perguntas sobre seu paradeiro sem
uma identificação positiva. Vou por um sistema de acompanhamento e alerta no seu telefone, se você não se incomoda. Ele conservará sua privacidade, exceto quando
você apertar um botão.
— Não espero que ele me persiga, Sr. Crawford.
— De qualquer modo, você ouviu o que eu lhe disse.
— Ouvi. Ouvi muito bem.
— Leve este depoimento e examine-o. Acrescente
o que desejar. Abonaremos sua assinatura assim que tiver
terminado. Starling estou orgulhoso de você. Brigham
também está. E o Diretor também. — A declaração soou
formal, não como ele gostaria que soasse Acompanhou-a
até a porta do escritório. Ela foi se afastando pelo corredor deserto. Apesar da dor que o acabrunhava, consegui
fazer-lhe um aceno alegre.
— Starling: seu pai está vendo você.


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CAPÍTULO 59
Jame Gumb ficou nos noticiários durante semanas
depois de ter encontrado seu repouso final.
Os repórteres reconstruíram sua história, começando com os registros do condado de Sacramento.
Sua mãe estava grávida de um mês quando não
conseguiu classificar-se no concurso de Miss Sacramento
em 1948. O “Jame” na sua certidão de idade fora aparentemente um erro do funcionário do registro civil, que ninguém se preocupou em corrigir.
Não alcançando sucesso na carreira de atriz, a mãe
dele entrou num declive alcoólico; Gumb tinha dois anos
quando o condado de Los Angeles o colocou num lar de
adoção.
Pelo menos dois jornais especializados explicaram
que essa infeliz infância era a razão pela qual ele matava
mulheres no seu porão para tirar-lhes as peles. As palavras
louco e mau não apareceram em qualquer dos dois artigos.
O filme do concurso de beleza que Jame Gumb via
sempre quando adulto era verdadeiramente de sua mãe,
mas a mulher no filme da piscina não era ela, conforme
revelou uma comparação de medidas.
Os avós de Gumb retiraram-no de um lar adotivo
insatisfatório quando tinha dez anos e ele os matou dois
anos mais tarde.
A Escola de Reabilitação Vocacional de Tulare ensinou Gumb a ser alfaiate durante seus anos no Hospital
Psiquiátrico. Ele demonstrou decidida capacidade para a
profissão.


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O registro de empregos de Gumb é descontínuo e
incompleto. Os repórteres escreveram que ele servira em
pelo menos dois restaurantes e que trabalhara esporadicamente na indústria de roupas. Não foi provado que ele
matou durante esse período, mas Benjamin Raspail afirmou que sim.
Trabalhava na loja de curiosidades onde eram feitos
ornamentos com borboletas quando conheceu Raspail e
viveu à custa do músico por algum tempo. Foi nessa ocasião que Gumb ficou obcecado por mariposas e borboletas e por suas metamorfoses.
Depois que o músico o deixou, Gumb matou o novo amante de Raspail, Klaus, decapitou-o e esfolou-o parcialmente. Mais tarde encontrou com Raspail na Costa
Leste. Sempre atraído por rapazes maus, Raspail apresentou-o ao Dr. Lecter.
Isto foi provado quando, uma semana depois da
morte de Gumb, o FBI requisitou do parente mais próximo de Raspail os teipes das sessões de terapia do músico
com o Dr. Lecter.
Anos atrás, quando o Dr. Lecter foi declarado louco, os teipes das sessões de terapia foram entregues às famílias das vítimas para serem destruídos. Contudo, os briguentos parentes de Raspail guardaram os teipes, esperando poder usá-los para anular seu testamento. Haviam perdido o interesse em ouvir as fitas iniciais, que eram apenas
cansativas reminiscências escolares de Raspail. Após a cobertura pela imprensa do caso Jame Gumb, a família Raspail ouviu o resto. Quando os parentes telefonaram ao
advogado Everett Yow e o ameaçaram de usar os teipes
num novo ataque ao testamento de Raspail, Yow telefonou para Clarice Starling.


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Os teipes incluíam a sessão final, quando Lecter
matou Raspail. Mais importante ainda: revelam tudo quanto Raspail contara a Lecter sobre Jame Gumb.
Raspail disse a Lecter que Gumb era obcecado por
mariposas, que tinha esfolado pessoas, que matara Klaus,
que tinha um emprego na companhia de roupas de couro
Mr. Hide em Calumet City, mas estava extorquindo dinheiro de uma velha senhora em Belvedere, Ohio, que
fazia forros para as roupas de Mr. Hide S.A. Um dia
Gumb iria roubar tudo o que a velha senhora tinha, prognosticou Raspail.
— Quando Lecter soube que a primeira vítima era
de Belvedere e que fora esfolada, ele descobriu logo quem
o estava fazendo — disse Crawford a Starling enquanto
escutavam juntos o teipe. Ele teria entregue Gumb a você
e pareceria um gênio se Chilton não se tivesse metido.
— Lecter deu-me uma pista escrevendo na pasta do
arquivo que os locais onde apareciam as vitimas eram “ao
azar” demais observou Starling. — E em Memphis ele me
perguntou se eu costurava. O que queria ele, afinal?
— Apenas divertir-se — respondeu Crawford. —
Ele tem estado a se divertir por muito, muito tempo.
Não apareceu nenhuma fita sobre Jame Gumb, e
suas atividades após a morte de Raspail foram estabelecidas pouco a pouco através de correspondência sobre negócios, recibos de gasolina, entrevistas com donos de butiques.
Quando a Sra. Lippman morreu, numa viagem para
a Flórida com Gumb, ele herdou tudo: o velho edifício
com sua parte habitável, uma fileira de lojas vazias, um
vasto porão e boa quantidade de dinheiro. Deixou de trabalhar para Mr. Hide S.A., mas manteve um apartamento


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em Calumet City por algum tempo; e usava o endereço do
negócio para receber pacotes em nome de John Grant.
Tinha uns poucos clientes preferenciais e continuava a
viajar para butiques por todo o pais, como fazia para Mr.
Hide S.A., tomando medidas para roupas que confeccionava em Belvedere. Aproveitava suas viagens para procurar vítimas e para livrar-se delas depois de usá-las. O furgão marrom roncava horas a fio pelas estradas interestaduais com roupas de couro bem acabadas balançando em
cabides na parte traseira, por cima de sacos estofados com
borracha para corpos que viajavam no chão do veículo.
Tinha ainda a maravilhosa liberdade do porão. Espaço para trabalhar e para divertir-se. A principio eram
apenas jogos: perseguindo mulheres jovens através da
sombria prisão, criando divertidos quadros em quartos
afastados e cerrando-os, abrindo as portas unicamente
para jogar um pouco de cal.
Fredrica Bimmel começou a ajudar a Sra. Lippman
no último ano da vida da velha costureira. Fredrica fora
apanhar trabalho na casa da Sra. Lippman quando conheceu Jame Gumb. Fredrica não foi a primeira jovem mulher que ele matou, mas foi a primeira que matou por causa da pele.
As cartas de Fredrica Bimmel para Gumb foram
encontradas entre as coisas dele.
Starling mal conseguiu ler as cartas, por causa da vã
esperança nelas contidas, por causa da terrível necessidade
que percebia nelas, por causa das palavras carinhosas de
Gumb que ficavam implícitas nas respostas dela: “Meu
Muito Querido Amigo Secreto do Meu Coração, eu te
amo! Nunca pensei que viria a dizer isso, e o melhor de
tudo é dizê-lo de novo!”.


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Quando teria Gumb se revelado a ela? Teria Fredrica descoberto o porão? Como se alterara sua fisionomia
ao vê-lo mudar, por quanto tempo a mantivera viva?
Pior que tudo: Fredrica e Gumb foram realmente
amigos até o final; do fundo do poço ela escreveu-lhe uma
nota.
Os tablóides trocaram o apelido de Gumb para Mr.
Hide, e aborrecidos porque não haviam pensado no nome
por si mesmos, virtualmente recomeçaram com toda a
história.
Em segurança no interior de Quântico, Starling não
tinha que haver-se com a imprensa, mas os tablóides cuidaram dela.
O National Tattler comprou do Dr. Frederick Chilton os teipes da entrevista de Starling com o Dr. Hannibal
Lecter. O Tattler utilizou-se de suas conversas para a série
Noiva de Drácula, dando a entender que Starling fizera
cruas revelações sexuais ao Dr. Lecter em troca das suas
informações, e chegou a fazer uma oferta a Starling para
Velvet Talks: O Jornal de Sexo pelo Telefone.
A revista People publicou um artigo curto e agradável sobre Starling, usando fotografias do anuário da Universidade de Virginia e do Lar Luterano em Bozeman. A
melhor foto era a do cavalo, Hannah, em seus últimos
anos, puxando uma carroça cheia de crianças.
Starling cortou a foto de Hannah e a pôs na sua
carteira. Foi a única coisa que guardou.
Suas feridas estavam cicatrizando.


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CAPÍTULO 60
Ardelia Mapp era uma grande professora — podia
detectar uma pergunta para um teste numa conferência
mais depressa do que um leopardo pode enxergar sua presa —, mas não era boa corredora. Ela dizia a Starling que
ocorria porque ela estava muito sobrecarregada de fatos.
Ficara para trás de Starling na pista de cooper e só a
alcançou junto ao velho DC-6 que o FBI usava para simulações de seqüestros. Era domingo de manhã, ambas tinham estado agarradas aos livros por dois dias, e o pálido
sol era um prazer.
— Afinal, o que foi que Pilcher disse ao telefone?
— perguntou Mapp, encostando no trem de aterrissagem.
— Ele e a irmã têm um lugar na baía de Chesapeake.
— Sim, e daí?
— A irmã está lá com os cachorros e as crianças, e
talvez também com o marido dela.
— E daí?
— Eles ocupam uma das alas da casa, é um casarão
velho à beira d’água que herdaram da avó.
— Vamos ao assunto.
— Pilcher é dono da outra ala da casa. E nos convida para ir lá no próximo fim de semana. São muitos
quartos, ele assegura.
“Tantos quartos quantos se possa necessitar.” Acho
que foi isso que ele disse. A irmã ficou de telefonar e confirmar o convite.
— Não brinca... Eu não sabia que as pessoas ainda
faziam isso...


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— Ele diz que é bom cozinheiro. E a irmã confirma.
— Oh! Então ela já telefonou.
— Sim.
— Que tal lhe pareceu?
— O.K. Parecia que ela estava no outro lado da casa.
— O que você lhe respondeu?
— Respondi: “Sim, muito obrigada, muito obrigada”, foi o que eu respondi.
— Muito bem — disse Mapp. — Creio que será
bom. Vamos comer alguns siris. Pegar Pilcher e dar-lhe
umas beijocas no rosto, isso divertir-nos!
— Ele descreveu um belo cenário: nada de cerimônias, agasalhe-se bem e vá passear na praia, volte para casa
e à sua espera há um belo fogo de lareira, cães pulando
por cima de você com as patas cheias de areia.
— Muito poético, ai-ai! Grande patas sujas de areia.
Continue.
— É muita bondade da parte dele, considerando
que nunca ti vemos nem mesmo um encontro. Ele diz que
se dorme melhor com dois ou três cães dos grandes quando faz realmente frio. Diz que há cães suficientes para cada pessoa dispor de uns dois.
— Pilcher está preparando você para o velho golpe
do conforto e paz de espírito, você já percebeu isso, não?


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CAPÍTULO 61
Ao longo de um espesso tapete no corredor do
Marcus Hotel, o garçom de serviço nos quartos empurrava um carrinho.
Diante da suíte 91 ele parou e bateu suavemente na
porta com a mão enluvada. Inclinou a cabeça para o lado
e bateu de novo com mais força para ser ouvido acima da
música que soava no aposento — Bach, Invenções de duas e três partes, Glenn Gould ao piano.
— Entre.
O cavalheiro com a atadura em cima do nariz, vestido com um robe, escrevia em sua mesa.
— Ponha ao lado da janela. Posso olhar o vinho?
O garçom trouxe o vinho. O cavalheiro examinouo contra a luz da sua lâmpada de mesa e encostou no rosto a parte superior da garrafa.
-— Abra-a, mas deixe-a fora do gelo — disse, e autorizou uma generosa gorjeta embaixo da nota. — Não
vou prová-lo agora.
Não queria que o garçom lhe servisse o vinho para
provar achava o cheiro da pulseira do relógio do homem
desagradável.
O Dr. Lecter estava de excelente humor. Sua semana fora excelente. Sua aparência vinha melhorando e, tão
logo algumas pequenas manchas desaparecessem, poderia
tirar as ataduras e posar para as fotos de um passaporte.
O trabalho estava sendo feito por ele mesmo: pequenas injeções de silicone no nariz. A gelatina de silicone
não era um item que exigisse receita médica, mas a parte
injetável e a novocaína eram. Contornou essa dificuldade


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roubando uma receita numa movimentada farmácia próxima ao hospital. Apagou os garranchos do médico com
fluido de correção de datilógrafa e fez cópias fotostáticas
da receita em branco. A primeira receita que preencheu,
uma cópia da que roubara, foi devolvida à farmácia, de
modo que nada ficou faltando.
O efeito do nariz de silicone sobre os seus traços
não era agradável, e ele sabia que o silicone se deslocaria
se não tomasse cuidado, mas aquele serviço serviria até
que ele chegasse ao Rio.
Quando seus hobbies começaram a absorvê-lo —
muito antes da sua primeira prisão — o Dr. Lecter fizera
provisões para uma época em que poderia tornar-se um
fugitivo. Na parede de uma cabana de férias no rio Susquehanna escondera dinheiro e credenciais de outra identidade, incluindo um passaporte e os cosméticos que usara
para tirar as fotos para o passaporte. Este, já estava vencido, mas podia ser renovado rapidamente.
Preferindo ser guiado através da alfândega com
uma grande placa de turista sobre o peito, já se havia inscrito para um tour que tinha um nome horrível: “Esplendor da América do Sul”, que o levaria até o Rio.
Lembrou-se de que seria melhor assinar um cheque
do falecido Lloyd Wyman para pagar a conta do hotel e
ganhar uns cinco dias de folga enquanto o cheque era
processado no banco, em vez de mandar um débito da
American Express direto para o computador.
Nessa noite ele estava pondo em dia a correspondência, a qual teria que enviar através de um serviço de
reenvio em Londres.
Primeiro mandou a Barney uma generosa gratificação e uma nota de agradecimento por suas muitas gentile-


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zas no hospital-prisão. A seguir fez um bilhete para o Dr.
Chilton, que estava sob custódia federal, sugerindo que
iria fazer-lhe uma visita em futuro próximo. Depois dessa
visita, escreveu, faria sentido o hospital tatuar na testa do
Dr. Chilton instruções para alimentá-lo, a fim de economizar papel...
Por fim, serviu-se de um copo do excelente BatardMontrachet e endereçou uma carta a Clarice Starling:
Bem, Clarice, as ovelhas pararam de balir? Você ainda me deve uma informação, como bem sabe, e isso é o
que eu gostaria que você fizesse.
Um anúncio na edição nacional do Times e no International Herald Tribune no primeiro dia de qualquer
mês será ótimo. É melhor publicá-lo também no China
Mail.
Não ficarei surpreso se a resposta for sim e não.
Por enquanto as ovelhas vão ficar quietas. Mas, Clarice,
você se julga com toda a piedade das balanças da masmorra em Threave; você terá que aprender de novo e de novo,
o abençoado silêncio. Porque ele é o compromisso que
guia você, enxergar o compromisso, e o compromisso
jamais acabará, jamais.
Não faço planos de procurá-la, Clarice, o mundo fica mais interessante com você dentro dele. Certifique-se
de estender-me a mesma cortesia.
O Dr. Lecter encostou a caneta nos lábios, olhou
para o céu escuro da noite e sorriu.
Tenho janelas.
Órion agora está acima do horizonte e, próximo a
ele, Júpiter, mais brilhante do que jamais será de novo antes do ano 2000. (Não tenho a intenção de dizer-lhe que


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horas são e qual é a sua altura...) Mas espero que você
também possa vê-lo. Algumas de nossas estrelas são as
mesmas, Clarice.
Hannibal Lecter
Muito para leste, nas costas da baía de Chesapeake,
Órion estava alto na noite clara, por cima de uma casa antiga e grande e de um quarto onde o fogo fora abafado
para a noite, sua luz bruxuleante soprada pelo vento acima
da chaminé. No grande leito existem muitos cobertores e,
sobre eles e por baixo deles, vários cães grandes. Volumes
adicionais por baixo dos cobertores podem ser ou podem
não ser Noble Pilcher, é impossível determinar com a luz
ambiente. Mas o rosto sobre o travesseiro, rosado pela luz
da lareira, é certamente o de Clarice Starling, e ela dorme
profundamente, no silêncio das ovelhas.


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Em sua nota de condolências para Jack Crawford, o
Dr. Lecter faz uma citação de “The Fever” sem incomodar-se de dar o crédito a John Dorme.
A memória de Clarice Starling altera linhas de T.S.
Eliot em “Ash-Wednesday” para sua própria satisfação.
T.H.


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Digitalização/Revisão: Yuna

TOCA DIGITAL


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