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DORES CRUZADAS
A NOITE DA ANGÚSTIA
Paulo Valença

Resumo:
O adolescente que presencia o pai viciado em bebida e vai em busca de dinheiro através da venda da droga; O operário que chega ao trabalho e recebe a notícia da demissão; O diretor da mesma Companhia que vai ao encontro da bela funcionária, que teme também ser dispensada. Cenas que se cruzam, durante a noite.

1
O pai bebendo. Alto, magro, a cabeça grisalha, a barba apontando, os pés calçados em sandálias de correias amarelas... A imagem da decadência. O copo na mão, a dose reforçada. A voz diferente, grossa:
- Como é Tonho tu vais votar em quem?
O barraqueiro sem fitá-lo, cabisbaixo, resume-se:
- Em ninguém.
- Mas...
Aí o barraqueiro erguendo o rosto gordo, negro, lustroso pelo suor:
- Jerônimo vamos parar com essa conversa chata de política?
O pai sem m ais nada dizer, tomando a bebida de um gole rápido.   
À tarde morrendo. Um ou outro veículo passando. O morcego voando em círculos...
Ele se afasta, com o coração pesado. Os olhos embaçados pelas lágrimas do que sente, amarga. Seus passos dirigem-no ao campo de futebol próximo. Ah, precisa ajudar o pai desempregado. Seja do jeito que for. Assim como se encontram é que não podem continuar. Se tivesse uma profissão, ou mesmo soubesse fazer algo! Sente-se inferior. Pequeno. Um inadaptado à realidade, mas...
Os conhecidos curtindo a “pelada”. Os gritos de empolgação. Os assovios. Os xingamentos. Sentado, recuado, sob o umbuzeiro, acompanha a partida.
- Bora Negrinho, passa a bola.
- Porra cara. Você só faz mandar!
- Deixa de frescura Negrinho, passa a bola.
A mata preservada pelo meio-ambiente, em volta ao campo. As árvores recebendo as primeiras trevas da noite despontando. O vento circulando agradável, tudo agasalhando. O morcego (será o mesmo?) novamente voando em círculos, adentrando na mata, perdendo-se. O pai na barraca de Tonho. O rosto amarelecido. A cabeleira mais alva. Os gestos lentos. O vício...
- Tenho que fazer qualquer coisa pra conseguir a “grana.” Qualquer coisa!
Ergue-se e resoluto, ruma à escadaria à esquerda, que o conduzirá ao alto, onde mora o Luizão, distribuidor de drogas. Pedir-lhe-á a “mercadoria” para vender. Sim, faturará uns “trocados”, mesmo se expondo ao risco de ser pego e amargurar as conseqüências. Decidido, sobe os degraus. Em volta as casas se iluminam, os postes se acendem, uma criança chora, um rádio toca “A Ave Maria” e a noite desponta.
A figura esguia conclui a subida e avista a residência branca do traficante. Murada. O portão largo ao centro. Avizinha-se e pressiona a “cigarra” anunciando-se.
Espera.

2
- Até amanhã Dalva.
A mulher branca, gorda na cadeira de rodas responde:
- Até. Vai em paz, Davi.
O homem cruza a sala, o terraço, o jardim (tão mal-tratado!), abre o portãozinho e desce a rua estreita, inclinada.
A noite já é senhora do lugar. As moradias acesas. Gente nas portas e janelas. Um cão latindo nas proximidades. Alguém emitindo palavrões. Tudo isso é a alma do morro. Vence os degraus estreitos. O morcego (será de fato o mesmo?) voando em ziguezague. Por que há tantos morcegos por aqui? Deve ser por causa dessa mata próxima. A barraca de Tonho, com Jerônimo ao lado, debruçado sobre o balcãozinho que se comunica com a mesma. O copo na mão. Calado. Provavelmente já embriagado. Um sujeito ainda novo, podendo reagir, voltar a dirigir o táxi, se reentregar à luta honesta de batalhador... A cachaça acaba mesmo com qualquer um.
- Boa noite, Seu Davi.
A voz mais grossa, sob o efeito do álcool, reconhecendo-o.
Sem se voltar responde, evitando parar, livrando-se da conversa que o atrasará em seu trabalho:
- Boa noite!
Apressa-se. Que exemplo esse homem dá ao filho adolescente, aquele branquinho, de cabelos com rabo-de-cavalo? Mas, assim é a vida. Cada um com seu destino, método de encarar o mundo. E não será ele, Davi, um simples operário quem consertará tudo isso!
- E nem pretendo.
Sorri e distancia-se na rua de poucos veículos e calçadas com o passar dos moradores na rotina noturna de sempre.
Dobra a esquina e avista o prédio branco, murado, com a porta estreita ao centro, por onde entra e sai os funcionários da indústria. Então escuta a sirene anunciando o começo do novo turno e, receando chegar atrasado, mais se apressa.
Ao lado da porta está o portão largo que se abre, permitindo a passagem do automóvel preto, de vidros fumê, que esconde quem o conduz e que, dobrando a direita, vai em frente, na avenida pouco transitada.
Davi segura o cartão e pondo-o no relógio-de-ponto carimba-o.
Por trás do birô o funcionário-atendente então com a voz trêmula lhe anuncia:
- Colega, teu cartão tá “arriado”. Compareça ao Departamento-pessoal.
- Mas...
Perplexo encara o outro forte, morenão, de rosto fechado, sentindo de repente o peso da cruel realidade.
- Lamento ter de lhe avisar...
- Sei. Entendo.
Devagar desce os degraus que se comunica com o pátio largo e, cortando-o adentra na seção. E agora, o que será de sua vida e da mulher enferma, naquela cadeira-de-rodas?
Empurra a porta envidraçada e dirige-se ao birô defronte, para falar com o chefe do setor.
- Senta Davi.
Atendendo, espera. A testa fria pelo repentino suor nervoso. Os dedos das mãos sem sangue. O coração aos pulos.
- Infelizmente a Companhia está passando por uma crise séria...
Cabisbaixo limita-se a ouvir. Sentindo o desejo repentino de...

3
O que é o poder do dinheiro. Poderia já “coroa”, gordo, calvo, amulatado, conseguir a “gata” com quem está saindo, transando adoidado?
- Claro que não.
Resume-se em voz baixa. Contudo, é um dos diretores da poderosa indústria de embalagens, tem seu excelente ordenado, seu status e... Aí está a verdade. Consegue o que deseja em se satisfazer sexualmente com as “gatinhas”.
O carro preto avança. Macio. Confortável. Será que ela já está lhe esperando?
- Escuta Graciete, quando você “largar”, a gente se encontra no local de costume.
O sorriso de covinhas. Os olhos negros, cintilantes. O gesto feminino de sacudir os cabelos longos de lado. E a voz cantada, sexy:
- Tudo bem. Na praça, como sempre.
O sorriso de ambos em aquiescência e agora... Ali está a jovem esperando-o na parada abrigo dos ônibus.
Estaciona. A porta se abre e ela apressada adentra.
- Esperou muito?
- Que nada! Cheguei ainda agorinha.
Ele então acelera o carro, como se evitasse ser reconhecido por olhos indiscretos.
- Raul, eu soube que haverá um “corte” enorme de funcionários da indústria...
Mantendo a atenção no vidro sobre a direção ele responde:
- Vai ter sim demissões. Mas, não se preocupe: sua função será garantida. Fique “fria”.
- Ah, tudo bem.
Aí ela sente a mão curta, pesada correndo-lhe a coxa morena, esguia, aveludada, no prenúncio do que lhe serão os próximos momentos de amor. Até quando assim?
O carro entra no Bairro do Espinheiro. O restaurante chique. A bebida. E depois o motel, no ritual das sextas-feiras.
- Estás tão pensativa...
- Nada não. Besteiras minha.
Ela responde e sente a mão correndo, subindo, enquanto nos olhos do homem há o brilho estranho da luxúria.



Biografia:
Paulo Valença é autor paraibano premiado nacionalmente com seus livros de contos e romances; Pertence a várias Instituições Literárias; Consta de diversos sites; Vive em Recife/PE.
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