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Eu matei Lampião
Lampião visita a Bahia, 1935
R. Durães-Barbosa

Resumo:
Este livro conta, de forma romanceada, os últimos anos do lendário cangaceiro Lampião. Neste trecho, vemos seu ataque a uma pequena cidade do sertão baiano. Este livro está disponível na Amazon.

Em 1935, Carinhanha era uma pequena e sonolenta cidade perdida no sertão da Bahia, localizada à margem esquerda do rio São Francisco. A maioria de seus habitantes morava na zona rural; o centro da cidade compunha-se pela Igreja Velha e a Prefeitura; a delegacia de polícia ficava perto da praça central. As principais autoridades da cidade eram o Prefeito, Coronel Simeão Martiniano, fazendeiro rico, homem justo e honrado; o padre espanhol Juan Alquevedo, homem de fé, justo e honrado; e o delegado de polícia, Paulo Henrique, homem honesto, justo e honrado.
Como Carinhanha era uma cidade tranquila, a segurança pública não demandava dificuldades para o delegado; para cuidar da cidade, ele era auxiliado apenas pelo policial Jonas Furtado. Com 40 anos, bonachão, gorducho, fiel cumpridor do seu dever, o delegado passava horas conversando com Jonas na delegacia, após terminarem a ronda pela cidade. Ele estava noivo da filha do Prefeito da cidade, Joana Martiniano; e, como todo apaixonado, não se cansava de mostrar o retrato dela para Jonas, suspirando:
— Joana Martiniano é linda como uma princesa, não é mesmo? Loira, de pele alva, olhos castanhos… sim, como eu a adoro!
Outra coisa que lhe dava muito orgulho era possuir um rifle americano Winchester modelo 1873 , que comprara nos Estados Unidos há dois anos. Ele cuidava da arma com muito carinho; além de bonita, ela era um símbolo de sua autoridade, pois bastava aparecer com o rifle, para que as brigas ocasionais entre os bêbados da cidade terminassem de imediato. Ressaltando a qualidade do rifle, ele sempre dizia a Jonas:
— Quando um cabra armado com um Winchester enfrenta um cabra armado com uma faca, o cabra com a faca morre!
E, embora naqueles tempos o nome de Lampião provocasse pânico e pavor em todo o sertão, Paulo Henrique não se preocupava com isso; afinal, a última notícia sobre o cangaceiro dizia que ele estava atacando cidades no interior do Piauí, e Carinhanha ficava bem distante dali. Ele preferia passar o tempo pensando em seu amor...sim, ele pensava, a sua felicidade tornar-se-ia realidade quando se casasse com Joana Martiniano….
Certo dia, após a ronda, ele estava preparando-se para encontrar com sua amada ( que estava visitando o pai na Prefeitura) quando viu pela janela uma multidão reunida na praça; isso atiçou-lhe a curiosidade:
     — Jonas, sabe por que tem tanta gente lá na praça?
     — Ah, seu delegado, trata-se apenas de um artista ambulante que está se apresentando lá. Chegou há cerca de meia hora.
     — É mesmo? Deixe-me dar uma olhada-disse o delegado, caminhando até a janela.
No centro da praça, um artista apresentava-se diante do público curioso: Serelepe era o nome dele, e estava vestido extravagantemente. Usava chapéu pequeno de vaqueiro, recheado de fitas e moedinhas; o rosto era pintado de branco, o que realçava as feições alegres; usava um brinco de madrepérola na orelha esquerda; um lenço de seda púrpura cobria o pescoço, e vestia uma camisa social púrpura coberta com motivos florais na cor amarela e verde; carregava um bornal amarelo; por fim, trajava uma calça curta e calçava alpercatas coloridas. Tocando um pandeiro de fita e cantando alegremente uma canção, ele rodopiava o corpo com a graça de um bailarino. Sua apresentação encantou o público, que lhe deu algumas moedas. Ele disse, comovido:
— Muito obrigado, meu povo. Como agradecimento por sua generosidade, vou cantar mais uma canção:

Olê, mulher rendera
Olê mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda
eu te ensino a namorá
Olê, mulher rendeira
Olê mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorá.
Lampião desceu a serra
Deu um baile no Cajazeiras
Botou as moças donzelas
Pra cantar mulher rendeira.
As moçá de Vila Bela
Não tem mais ocupação
Sé que fica na janela
Namorando Lampião.
Olê, mulher rendeira
Olê mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorar....
Olê, mulher rendeira
Olê mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorar…
Essa apresentação recebeu aplausos entusiásticos da multidão extasiada.
     — Sabe cantar bem esse cabra! - disse o delegado.
Ele retornou para sua mesa, pegou o chapéu e já estava saindo para se encontrar com a amada. Contudo, ele ouviu o barulho de uma arma disparando, seguido de muitos gritos. Ao correr para a janela, viu que as pessoas estavam fugindo da praça. O que teria acontecido? No meio daquela confusão, ele viu o artista empunhando uma pistola e atirando nas pessoas! O povo corria desesperado, fugindo dos disparos do cangaceiro Serelepe.
     — Lá vem a Galega, se prepare, minha gente! - ele dizia, rindo, enquanto se dirigia para o prédio da prefeitura, atirando em todos os que encontrava pelo caminho.
     — Mas que diabo é isso...? Vamos lá, Jonas! Pegue sua arma, depressa!
O delegado, armado com seu Winchester 73, e seu auxiliar já se preparavam para detê-lo, quando, repentinamente, uma carroça armada atravessou descontroladamente a rua; e nela, urrando selvagemente, Maria Bonita manobrava, com a ajuda de Cavalo do cão, uma metralhadora alemã Maschinengewehr 08. Os tiros implacavelmente atingiam homens, mulheres, idosos, jovens, crianças, cachorros, pássaros, flores, árvores, arbustos, paredes, portas, janelas, sonhos e esperanças...
O delegado se jogara instintivamente ao chão, quando ouviu as primeiras rajadas; infelizmente, Jonas não foi rápido o bastante, e tombou morto, crivado de balas.
     Ele se levantou depois da passagem da carroça infernal e saiu; havia uma confusão dos diabos na praça e nas ruas: dezenas de cadáveres e feridos jaziam sobre as ruas, enquanto os sobreviventes fugiam para todos os lados; carregando seu Winchester 73, o delegado correu desesperado, tentando alcançar a Prefeitura e assim salvar o Prefeito e Maria Joana; todavia, as ruas estavam cobertas por uma pesada camada de poeira, que lhe ardiam a vista, dificultando a sua caminhada.
Então, ao atravessar a praça, ele ouviu uma explosão. A Igreja velha havia sido dinamitada, e seus escombros lançaram uma nuvem de poeira pela cidade. Assustado, o delegado viu se aproximar um vulto, vindo do local da explosão.
O delegado esfregou os olhos, e lentamente percebeu que a sombra misteriosa que se aproximava dele tomava a forma de uma ameaça iminente.
O estranho tinha na cabeça um chapéu de couro, em formato de meia lua; ricamente adornado, o chapéu era ornamentado com três moedas de ouro e bordados de símbolos satânicos, como o Sigilo de Baphomet, e cruzes invertidas.
O rosto era oval e não demonstrava nenhuma emoção; seus negros cabelos longos eram untados de brilhantina. Ele usava óculos; estranhamente, seu olho direito brilhava com uma forte coloração vermelha. No pescoço, usava um fino lenço de seda francesa, na cor vermelha.
     Vestia uma camisa cinza, com três botões de ouro; duas cartucheiras cruzadas cobriam-lhe o peito.Na cintura, havia uma pistola no coldre. Trajava calças com perneiras de couro; nos pés, calçava alpercatas.
Em uma das mãos segurava, com o braço em posição de repouso, uma faca longa e ensanguentada; na outra, um saco contendo alguma coisa.
Não havia nenhuma dúvida, pensou o delegado, aquela figura extravagante era Virgulino - o Lampião!
Lampião caminhou tranquilamente em sua direção até certa distância e então parou, dizendo-lhe, em tom de deboche:
     — Que arma bonita que Vossa Senhoria tem!
O delegado apontou-lhe o rifle com confiança,ordenando-lhe que se rendesse, pois o cangaceiro estava na distância ideal para ser atingido letalmente pelo Winchester. Mas Lampião continuava a zombar dele:
     — Espere um pouco, amigo. Quero comprar sua arma, eis aqui o pagamento!
             Ele jogou o saco aos pés do delegado; ainda mantendo a mira em Lampião, o delegado abriu-o, percebendo que estava manchado de sangue;e dele retirou, chocado, a cabeça do padre Alquevedo. Ao ver essa cena macabra e ultrajante, o delegado enfureceu-se e apertou o gatilho, disparando várias vezes contra o corpo de Lampião.
      — Ah, ah, ah, ah! - riu sarcasticamente Lampião - O que é isso, homem? Não sabe atirar com essa belezura, não? Um homem que não sabe atirar é como um marido que não sabe satisfazer a esposa!
Paulo Henrique ficou assombrado. Como assim? Lampião ainda estava vivo? Será que errara todos os tiros, devido ao manto de poeira ou ao nervosismo? Não, não, tinha certeza de ter acertado pelo menos dois tiros fatais...
Enquanto pensava nisso, Lampião tranquilamente caminhou até ele, e levantando o facão, disse:
— Agora Vossa Senhoria me dará o troco.
Lampião enfiou-lhe profundamente no ventre a faca longa ensanguentada; o delegado caiu, agonizando.
Chico Boia, o cangaceiro novato, vira aquela cena bizarra e também não acreditou no que viu. Tinha quase certeza de que o Capitão Virgulino fora atingido várias vezes, mas não morreu. Então, seria mesmo verdade tudo aquilo que o povo sussurrava a respeito de Lampião... ?

Virgulino limpou a faca e dirigiu-se ao prédio da Prefeitura, onde se encontrou com Serelepe. O cangaceiro risonho havia atacado o prédio, assassinado os funcionários públicos lá presentes e tomado como reféns o prefeito e a filha dele. Com crueldade sádica, rindo, dera três coronhadas na cabeça do prefeito, e depois os levou até a entrada do edifício.
Lampião saudou cortesmente o aterrorizado prefeito:
     — Salve, senhor prefeito! Temos muito que conversar.
Naquele momento, a carroça armada retornou, cheia de bens saqueados das casas e armazéns da cidade. Maria Bonita desceu dela e beijou apaixonadamente seu amado Lampião.
Ela usava um chapéu de feltro azul, enfeitado por faixas coloridas; seu cabelo preto era curto, com penteado estilo Louise Brooks; no pescoço, usava um colar de pérolas sobre o lenço de seda azul ; trajava um vestido com mangas compridas, com decote na altura do joelho; os dedos de ambas as mãos,manchadas de sangue, eram cheios de anéis, e as unhas, sujas e descuidadas; carregava na cintura um fino e longo punhal afiadíssimo; seu rosto era coberto de pó de arroz; os olhos vazios de compaixão eram encimados por sobrancelhas pintadas de preto; e sua boca, pintada com batom vermelho - tudo isso a deixava com a aparência de uma velha e macabra boneca de porcelana. Maria Bonita fedia a suor e a perfume Chanel nº 5.
     — Eu não sou linda, meu amor?
     — Você é a mulher mais linda do sertão, minha querida!
     — Do sertão, não. Do mundo! Sou mais bela do que a rainha da França e as princesas da Inglaterra e da Itália juntas!
     — Ah, ah, ah, ah! riu a maioria dos cangaceiros, enquanto ela bailava diante deles.
Mas toda essa cena alegre terminou subitamente, quando ela encarou a filha do Prefeito. Furiosa com a beleza de Maria Joana, investiu raivosamente contra infeliz, desferindo-lhe muitos socos e pontapés, derrubando-a no chão.
     — Vagabunda! Maldita! Puta desgraçada!
     Continuando em seu frenesi de raiva, ela sacou o punhal e começou a cortar os cabelos de Joana e a riscar com a arma o rosto da infeliz.
O prefeito, estarrecido com todo esse espetáculo de horror, nada podia fazer, pois estava sob a mira do revólver de Lampião.
Finalmente, Maria Bonita cuspiu no rosto dela, deixando a vítima semi-inconsciente no chão. Cavalo do cão já se preparava para violentar a moça, quando Lampião fez-lhe um sinal para que parasse. Então, o líder dos cangaceiros voltou-se para o prefeito e disse-lhe calmamente:
     — O senhor queira desculpar minha mulher por esse incidente. É que ela não suporta ver mulher feia na frente. Sinceramente, acho que ela tem razão, pois mulher feia tem mais é que apanhar, por deixar o mundo mais triste com sua feiura!
     — Minha filha... minha cidade... - o prefeito, com a cabeça sangrando, debulhava-se em lágrimas.
     — Homem, não chora, não! Conforme-se, porque a vida é assim mesmo. Me ouça. Apesar do que houve, eu respeito o senhor, Coronel. Sempre respeitei gente rica; pobre não, eu não respeito mesmo, porque pobre é igual a barata: você mata uma, logo surgem outras dez para ocupar o lugar. Vamos, homem, está me ouvindo?
     — Sim… sim... , oh, meu Deus…
     — Ótimo. Veja bem, estou há três dias na Bahia e não gostei daqui, não.Toda esta terra fede porque está infestada de crioulos imundos! Já resolvi meus negócios aqui e nunca mais voltarei. A questão é que tem umas forças volantes me perseguindo; creio que elas chegarão na sua cidade amanhã. Tudo o que lhe peço, Coronel, é que o senhor use de sua influência e detenha essa tropa de macacos durante dois dias , enquanto eu atravesso o rio Real, que separa a Bahia de Sergipe. Faça isso, Coronel, e eu serei eternamente grato ao senhor. Vou ficar com a sua filha como refém até lá. Não se preocupe, não, o senhor tem a minha palavra de honra que eu vou libertá-la quando deixar a Bahia.
Abalado, o impotente coronel aceitou as condições de Lampião. O cangaceiro ordenou que Cavalo do cão amarrasse a moça na carroça; humilhada e agredida brutalmente, a pobre moça chorava sem parar. Os cangaceiros subiram na carroça e partiram.
A carroça afastava-se da cidade devagar, como se os condutores não se importassem com o rastro de destruição que haviam deixado para trás; acompanhando-a, a distância, vinha o prefeito; andando tropegamente, ele acompanhou a carroça até a saída da cidade; e, quando ela estava se distanciando dele, desaparecendo na estrada de terra, ele teve forças para gritar, desesperado:
     — Mas por que toda essa crueldade, Capitão Virgulino?
Lampião ergueu-se da carroça, virou-se e disse, triunfantemente:
     — Eu sou o demônio e vim aqui para fazer o trabalho dele!
Cinco dias depois, as tropas volantes que perseguiam os cangaceiros chegaram ao lugar onde ele havia dito que deixaria a filha do prefeito. Lá encontraram o corpo de Maria Joana, morta.


Biografia:
Sou um homem discreto, que aprecia filosofia e história.
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Romance O Príncipe de Shadizar R. Durães-Barbosa
Romance Eu matei Lampião R. Durães-Barbosa


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