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A Última Vez que o Tempo Parou
Amar de novo pode custar tudo — até aquilo
Anderson Del Duque Jorge

Resumo:
Após a morte de Daniel em um trágico acidente às 03:17, Clara passa a viver apenas como sombra de si mesma, presa a um amor que nunca conseguiu superar. Anos depois, ao retornar à antiga casa dele, encontra um relógio parado exatamente no momento de sua morte. Quando o relógio misteriosamente volta a funcionar, algo impossível acontece: Daniel retorna, vivo, como se o tempo nunca tivesse avançado para ele. No entanto, essa segunda chance vem com um preço cruel — a cada instante ao lado dele, Clara começa a perder partes de si mesma, suas memórias e sua própria identidade. Dividida entre reviver o grande amor de sua vida e preservar quem ainda é, Clara descobre que aquele retorno não é um milagre, mas uma consequência de sua incapacidade de deixá-lo partir. Diante da escolha mais dolorosa de todas, ela entende que amar verdadeiramente nem sempre é segurar — às vezes, é permitir o fim. Ao decidir quebrar o ciclo, Clara se despede de Daniel pela última vez, libertando ambos. É uma história intensa sobre amor, luto e desapego, que revela que nem todo reencontro é uma dádiva — e que algumas despedidas são a forma mais profunda de amor.

A ÚLTIMA VEZ QUE O TEMPO PAROU
Por Anderson Del Duque
Quando Clara encontrou o relógio, ele já não marcava as horas.
Estava parado às 03:17.
Os ponteiros imóveis, como se tivessem desistido de continuar. Como se o tempo, por algum motivo desconhecido, tivesse decidido parar exatamente ali — e nunca mais seguir.
Ela o encontrou dentro de uma caixa antiga, escondida no fundo do armário da casa que acabara de herdar. A casa de Daniel.
O homem que ela amou.
O homem que ela perdeu.
E o homem que ela nunca conseguiu esquecer.
Clara não voltou ali por saudade.
Voltou porque não havia mais para onde fugir.
A casa permanecia intacta, como um corpo preservado no instante da morte. O cheiro da madeira, o ranger do chão, a luz entrando pelas janelas como se ainda esperasse alguém atravessar a sala.
Ela fechou a porta atrás de si e, por um segundo, teve a sensação absurda de que, se virasse o rosto, ele estaria ali.
Esperando.
Sorrindo.
Vivo.
Mas o amor não ressuscita corpos.
Só memórias.
E às vezes, nem isso é suficiente para manter alguém inteiro.
Clara passou os dedos pelo relógio quebrado.
03:17.
Ela sabia exatamente o que aquele horário significava.
Era o momento em que tudo acabou.
E também o momento que nunca deixou de existir dentro dela.
Eles se conheceram em um acidente.
Não desses que aparecem nos jornais.
Mas daqueles silenciosos, cotidianos, que mudam destinos sem testemunhas.
Clara estava atravessando a rua distraída, a mente perdida em problemas que pareciam grandes demais para caber dentro dela. Daniel freou o carro a centímetros de seu corpo.
Os olhos se encontraram.
E, por um instante, o mundo suspendeu a respiração.
— Você está bem? — ele perguntou.
Clara não respondeu de imediato.
Porque havia algo estranho naquele olhar.
Algo familiar.
Como se ela o reconhecesse de um lugar onde nunca esteve.
— Estou — disse, finalmente.
Mas não estava.
E nunca mais estaria da mesma forma depois daquele encontro.
O amor entre Clara e Daniel não foi construído.
Foi inevitável.
Eles não escolheram se apaixonar.
Aconteceu como uma queda.
Rápida, vertiginosa e impossível de evitar.
Daniel tinha uma maneira de enxergar o mundo que desarmava Clara. Ele via beleza nas falhas, sentido no caos, poesia nas coisas que ninguém mais percebia.
— O tempo não é o que a gente vive — ele dizia — é o que a gente sente.
Clara ria dessas frases.
Mas, no fundo, sabia que ele estava certo.
Porque, ao lado dele, os dias não passavam.
Eles aconteciam.
E isso era raro.
Perigoso.
Irrecuperável.
Eles viveram como se o mundo fosse acabar.
E, de certa forma, acabou.
Naquela madrugada.
03:17.
O telefone tocou como um presságio.
Clara atendeu com o coração já em queda livre.
Do outro lado, uma voz desconhecida.
Fria.
Médica.
Irreversível.
Daniel.
Acidente.
Grave.
Hospital.
Ela não lembra como chegou lá.
Só lembra do silêncio.
Do corredor longo demais.
Da luz branca que parecia apagar tudo.
E do médico que não precisou dizer muito.
Porque Clara entendeu antes das palavras.
O mundo não acaba com barulho.
Ele termina em um detalhe.
Em um gesto.
Em um olhar que não volta.
Daniel morreu às 03:17.
E, naquele instante, o tempo parou.
Anos se passaram.
Ou pelo menos o mundo insistiu em dizer que sim.
Clara seguiu vivendo.
Mas viver é uma palavra generosa demais para o que ela fazia.
Ela existia.
Respirava.
Passava pelos dias como quem atravessa um lugar desconhecido sem deixar rastros.
Nada permanecia.
Nada importava.
Até agora.
Até o relógio.
03:17.
Ela girou a pequena coroa lateral.
Tentou fazer os ponteiros se moverem.
Nada.
Como se o tempo ali dentro tivesse sido selado.
Como se mexer naquilo fosse uma espécie de violação.
Clara levou o relógio ao ouvido.
Silêncio.
Mas então…
Um som.
Quase imperceptível.
Um tique.
Depois outro.
E, de repente…
O relógio voltou a funcionar.
03:18.
Clara deixou o objeto cair no chão.
O ar desapareceu dos pulmões.
Algo estava errado.
Muito errado.
Porque, no instante seguinte, ela ouviu um som que não existia há anos.
A porta da frente se abrindo.
Passos.
Respiração.
E uma voz.
— Clara?
Ela não se virou.
Não podia.
Porque algumas esperanças são perigosas demais para serem encaradas de frente.
— Clara… sou eu.
As lágrimas vieram antes da coragem.
E quando ela finalmente se virou…
O impossível estava ali.
Daniel.
Intacto.
Vivo.
Como se o tempo nunca tivesse tocado nele.
O amor, quando desafiado pelo impossível, deixa de ser abrigo.
Se torna escolha.
Clara descobriu, aos poucos, que o tempo não havia sido restaurado.
Havia sido quebrado.
Daniel não era uma continuação.
Era um retorno.
Preso entre o último segundo da vida e algo que não deveria existir.
Ele não envelhecia.
Não mudava.
Não avançava.
Era um eco.
Uma repetição.
Um milagre imperfeito.
E o preço… era invisível.
A cada dia que Clara passava com ele, algo nela desaparecia.
Memórias.
Detalhes.
Partes inteiras de quem ela era.
Amar Daniel novamente significava esquecê-lo pela primeira vez.
— Se você ficar… eu vou deixar de existir — ela disse, numa noite em que o mundo parecia prestes a desmoronar novamente.
Daniel a olhou como quem já sabia.
— Eu nunca fui feito para ficar — respondeu.
— Então por que voltou?
Ele sorriu, com a mesma tristeza de antes.
— Porque você não conseguiu me deixar ir.
E ali estava a verdade.
O amor de Clara tinha sido tão intenso, tão absoluto… que recusou o fim.
Mas tudo que não termina corretamente…
apodrece.
Na última noite, o relógio voltou a marcar 03:17.
Clara o segurou com mãos trêmulas.
Daniel estava diante dela.
Mais real do que nunca.
Mais distante do que sempre.
— Se eu fizer isso… você vai embora? — ela perguntou.
— Eu vou descansar — ele respondeu.
— E eu?
Daniel se aproximou.
Encostou a testa na dela.
— Você vai voltar a viver.
Clara fechou os olhos.
Porque amar, às vezes, não é segurar.
É soltar.
Ela girou o relógio.
Os ponteiros resistiram.
Depois cederam.
03:18.
Daniel desapareceu.
Sem dor.
Sem som.
Como um suspiro que se dissolve no ar.
Meses depois, Clara voltou à vida.
Não completamente.
Mas o suficiente.
O relógio agora funciona como qualquer outro.
Sem mistérios.
Sem milagres.
Sem retornos.
E, ainda assim…
Toda noite, às 03:17, ela acorda.
Não por dor.
Mas por memória.
Porque alguns amores não pertencem ao tempo.
Pertencem ao que permanece depois dele.
E isso…
isso ninguém pode apagar.


Biografia:
Anderson Del Duque Jorge, é um produtor de conteúdo audiovisual ativista e jornalista , nasceu em Sumaré no dia 28 de julho de 1978 na cidade de Sumaré SP, filho de Abadia Salete Piedade Del Duque Jorge (cozinheira) e de Felismino custódio Jorge (servente de obras) tem em seus trabalhos filmes como O TAXIDERMISTA
Número de vezes que este texto foi lido: 198


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