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Aurora de Aço
Jim cavezell


                     Prólogo.
                                                 
               Caçando Serpente

     O céu estava sobrecarregado e obscuro, avisando que uma forte tempestade estava por vir. Abaixo dele se estendia uma noite fria e sussurrante, os sons cada vez mais violentos dos chicotes do vento sobre as árvores da Vila Ensombreada.

   O trio caminhava atento, sem dizer, ou ao menos imitar a noite, sussurrar palavra, perscrutando o negrume da folhagem sobre suas cabeças. O som dos seus passos esmagando o interminável e farto tapete de folhas caídas, lembranças de tantos e tantos outonos passados, quase esquecidos, era surdo e abafado. Ali já penetravam profundo no mais íntimo do pequeno bosque, quando as árvores, de troncos grossos e formatos estranhos, se uniam fervorosamente, como se quisessem a todo custo evitar a entrada de qualquer luz no inteiro silencioso sob suas copas.

   Mas fosse como fosse, os lampiões de chamas vermelhas trazidas pelos homens agora baniam um pouco do escuro, flutuando fantasmagóricos conforme caminhavam. Pararam para observar melhor as árvores, parecendo tentar escutar ou perceber qualquer mudança no movimento das folhas contra o vento. Ficaram assim por alguns instantes, até serem despertos pelos sons dos passos rápidos do grande cachorro que irrompeu em sua direção, como uma mancha marrom pintada no negro, chegando para o alcance dos lampiões com a figura sombria de Ercut em seu encalço.

    - Então, encontrou algum sinal da coisa ? - perguntou-lhe Beirand, tirando os olhos do alto para encará-lo, como fizeram os outros dois, mas não com a mesma segurança, uma vez que era visível sua perturbação a tudo à sua volta.

   - Sim - disse Ercut, agora com o rosto levemente iluminado pelos lampiões, mas o bastante para deixar visível seus traços duros e ainda assim de uma beleza sutil, marcados por um semblante confiante, sem sombra de medo ou receio aparentes; mas o verde-claro e brilhante dos seus olhos continuava velado pela penumbra. - Não muito distante daqui as árvores se fecham completamente, de modo que sem qualquer tipo de luz não é possível caminhar sob elas, não com esse tempo - disse olhando vagamente para o céu, para depois continuar. - Bem, encontramos entre elas uma que nos chamou a atenção, pois seu tronco é extremamente grosso, e suas raízes se espalham numa confusão pelo chão, a metros e metros, o que sem dúvida também acontece com seus galhos, o que dá uma cama perfeita para o nosso inesperado visitante.

   - Mas vocês a viram, acharam a desgraçada? - disse um dos homens, cuspindo uma voz esganiçada através da barba negra e eriçada, apertando com vontade o cabo liso e longo de um machado enquanto o fazia. Chamavam-no na vila de Torontio, e junto ao outro eram os únicos dos seus moradores a se enfiarem mato adentro naquela caçada, em busca da terrível criatura que, como diziam, repentinamente se instalara no seu bosque, fazendo dele morada e da vila, sua comida.

   - Sim - disse Ercut, - sentimos sua inquietação com a aproximação dos lampiões. Mas não se moveu, ou se o fez foi com tamanha cautela que nem mesmo o seu Woriti aqui percebeu - disse referindo-se ao cachorro.

   - Claro que não se moveu - disse o que ainda não falara, quase gritando ao expressar sua raiva, que como o outro também trazia um longo machado de lenhador. Seu nariz grosso e tão grande que chegava a sombrear seu lábio superior lhe rendera o apelido de Orin Aquilino. - Tá com a barriga cheia, depois de ter se banqueteado com a nossa gente. Vamos, vamos pegá-la.

   - Temos que ser cuidadosos - disse Ercut, contendo o avanço do homem com um gesto das mãos. - Um passo errado e poderemos não ter outra oportunidade assim. E, a não ser que você queira trepar nas árvores atrás da criatura, é melhor que vá com calma, e espere torcendo para que o meio mais fácil dê certo.

   - E quanto a Accon? - disse Beirand, cujos olhos grandes e negros eram como brilhantes obsidianas incrustadas no rosto de ébano.
   - Está preparando o veneno - disse Ercut. - Mas não se preocupe, está num lugar seguro - se é que se pode dizer isso nessas circunstâncias - completou, para depois se mover e ser novamente engolido pelas sombras, já que era o único que não portava lampião.

   - Tão escuro que não se pode andar sob elas sem qualquer tipo de luz, e lá vai ele... - disse Beirand antes de o seguirem, com um tom de diversão na voz, deixando um meio-sorriso criar vida no canto da boca.

   Andaram por uns dez ou quinze minutos, tentando evitar ao máximo as fissuras criadas pelas raízes que serpenteavam à sua volta, até se depararem com a luz opaca do lampião de Accon, que por sua vez, para escapar aos chicotes do vento, se encontrava agachado sob um alto barranco de turfa fofa, sobre o qual crescia uma árvore tortuosa, de tronco dividido e galhos que em parte se debruçavam sobre o chão.

   De onde estava exalava um aroma pungente, que ao ser inalado causava certo conforto, quase uma dormência aos sentidos. Era semelhante ao cheiro de terra molhada, ou turfa fresca, como num daqueles dias de primavera em que o vento dança ameno junto ao sol e o céu enuviado derrama uma fina cortina de chuva, rápida e refrescante.

   Os homens chegaram para mais perto, quase se dividindo num círculo à sua volta. Então viram que o cheiro vinha de algumas ervas que o rapaz amassava contra uma runa entalhada em pedra, do tamanho da palma de uma mão.

   Num instante se levantou, erguendo-a com cuidado, e seguindo Ercut, agora à frente com o lampião, contornou o barranco e saiu para sob o teto negro de folhas, farfalhantes contra o vento. Os outros os seguiram, por pouco mais de cinco metros, quando se encontraram sob a grande árvore da qual Ercut lhes falara, onde, num ponto em que as folhas foram varridas, abrindo um espaço amplo, fora desenhado um grande círculo, do centro do qual partiam quatro linhas, retas a alcançar suas bordas.

   Os homens firmaram seus longos machados nas mãos, com assombro e medo aparentes nos olhos, nervosos e atentos enquanto fitavam os galhos acima.

   Havia ali uma forte tensão nas copas das árvores, que crescendo umas muito próximas das outras davam a impressão de haver apenas uma. Mas essa inquietação não era causada pelo vento, o que muito bem sabia o grupo. Galhos começaram a se quebrar, estalando num estrépido contínuo, enquanto uma chuva de folhas cinzentas tapeteava o chão.

   Accon voltou a se agachar sobre a runa, agora posicionando-a no centro do círculo, para depois tirar da pequena bolsa de couro que trazia junto ao corpo outras quatro, aparentemente iguais, mas com símbolos distintos, que distribuiu pelos limites das linhas, no que os outros se aproximaram.

   - É melhor se afastarem - disse ele vasculhando novamente a bolsa, de onde tirou um pequeno vaso de vidro, repleto de um líquido esverdeado, que mesmo no escuro fulgurava como fogo em brasa. Depois despejou seu conteúdo sobre as ervas, provocando no mesmo instante um som chiante, semelhante a quando se joga água num fogo bem alimentado. Logo em seguida o chiado deu lugar a uma chama de mesma cor e brilho do líquido, verde-esmeralda, agora fulgurando numa tênue cortina que subia faceira sobre a runa, a não mais que um metro da mesma.
   Sobre suas cabeças os estalidos dos galhos se quebrando aumentaram, como se todo o teto de copas fosse despencar a qualquer momento, o que fez Ercut agarrar sutilmente sua espada, que saindo do conforto da bainha espelhou com avidez o brilho da chama. Beirand, com os pesados pés firmes sobre o chão, depositou seu lampião a um canto sobre uma baixa elevação do terreno, deixando as duas mãos livres para segurar a grande marreta que pesava sobre suas costas largas, à qual fora adicionada uma lâmina em meia-lua, semelhante ao gume de um machado, fina e extremamente amolada.
   Quanto a Accon, ainda continuara agachado, com os olhos negros a captarem o verde da chama, que naquela hora, no escuro, era mais bela e poderosa do que em qualquer outra. Num instante tirou da bolsa um pequeno pacote, derramando o pó fino que ele guardava sobre a palma da mão, para depois se levantar e espalhá-lo pelas linhas do cí­rculo. Por último, antes de pular para fora como um gato assustado e juntar-se aos outros na sua observação nervosa das copas, que pareciam estar numa luta desenfreada umas com as outras, jogou o que restara sobre a chama, alimentando-a e fazendo-a tomar vida por toda a extensão do círculo.

   O aroma das ervas se intensificou, acre e agora carregado de uma forte acidez, que fazia as narinas arderem e os olhos lacrimejarem ao ser excessivamente inalado, espalhando-se e penetrando as árvores como o próprio vento.

   Os latidos de Woriti se juntaram à agonia das árvores, que a julgar pelo caminhar das coisas, logo estariam com os galhos nus, totalmente despidos de folhas, isso, é claro, se ao final de tudo aquilo ainda houvesse galhos, pois estes se rasgavam e chegavam ao chão com pancadas violentas, quando não ficavam dependuradas ameaçando que isso fosse acontecer.
   - Ai, ai, isso não é nada bom - disse Accon nervoso de espada em punho, depois que uma fina mas intensa cortina de chuva invadiu o espaço onde se encontravam, ameaçando sua esperança no círculo fluorescente.
   Não muito depois disso, o ranger de um dos galhos maiores se rasgando foi engolido pelo ronco do único trovão que se ouviria aquela noite, fazendo o grupo se dar conta disso apenas com a sua chegada repentina, mas não inesperada ao chão.

   Com ele veio uma criatura extremamente grande, semelhante a uma serpente, mas no lugar do que seriam as escamas parecia haver folhas, o que a atribuía, apesar da sua bestialidade, uma beleza primaveral, ou algo muito próximo disso, como se na sua existência houvesse o mesmo fulgor que se encontra numa árvore jovem, cujas raízes já se infiltram no chão tão profundamente que a permite ousar-se a desafiar o vento, mesmo quando este prece provir dos lábios de um Toten.

   Silvava e se contorcia, numa agonia que poderia ser de dor ou de raiva, mas o mais provável era que fosse de ambos. Era visível que o encantamento de Accon surtira efeito, não com a força ou intensidade que esperavam, a ponto de deixá-la fraca o bastante para não impor resistência a um ataque. Mas o que acontecia agora ia totalmente contra essa ideia. Procurando desesperadamente ficar longe do círculo em chamas, a criatura guinchava no espaço que se abria entre ele e os homens, que dispersos mas assegurando-se de se manterem próximos uns dos outros, a observavam atônitos e preparados para atacar, ou simplesmente se defender, já que eram, na sua tentativa suicida de mantê-la o maior tempo possível em contato com o aroma e o calor da chama, o único obstáculo para que se libertasse da agonia que a acometia.

   O primeiro ataque veio acompanhado de um grito agudo, daqueles que penetram tão fundo no ouvido que mesmo depois de se extinguirem dão a impressão nada aprazível de ainda estrem lá, tinindo como uma barra de ferro ao ser golpeada por outra. Com a bocarra aberta, a esticar e expelir por entre os dentes pontiagudos uma gosma grossa e esverdeada, avançou na direção de Accon e de um dos homens, aquele que tinha um bico de águia no lugar do nariz. Ambos se desviaram rapidamente, cambaleando para o mesmo lado e tendo um encontrão que levou Accon a rolar pelas folhas, agora molhadas pela chuva, que apesar de ter se intensificado ainda era em parte barrada pelas copas das árvores, o que a tornava, até então uma fraca ameaça para a chamas verdes.

   A queda de Accon fez com que a serpente retardasse seu avanço, rolando sobre o próprio corpo e desferindo outro bote contra ele antes mesmo que tivesse se levantado, dando tempo apenas para que rolasse e visse a figura sombria de Ercut deslizar à sua frente, agachado sob a cabeçorra da criatura e fazendo-a silvar ao toque profundo do aço da sua espada. Isso pareceu apenas enraivecê-la. Numa fração de segundos ergueu a cabeça e lançou-se para baixo com uma força tremenda, buscando Ercut. Mas quando este pulou para o lado, saindo da sua visão com uma cambalhota rápida, restou-lhe apenas o chão, com o qual se chocou, escavando-o com as narinas e a parte inferior da cabeça.

   Nesse meio-tempo, Beirand, que estivera próximo a Woriti e Torontio, com seu machado de lenhador inquieto nas mãos, ergueu sua pesada marreta por sobre as costas, concentrando todo o seu peso nesse movimento e derrubando-o com um berro sobre a cabeça da serpente, atingindo-a entre os olhos e as narinas, arrancando-lhe junto ao sangue rubro-enegrecido que minou da fissura que se abriu um guincho de dor, que se misturou aos sons do seu corpo em convulsão.

   Ercut, juntando-se a Accon e Orin Aquilino, correu para próximo da criatura, que levantou a cabeça meio entorpecida, agora chiando e babando no auge da raiva. Quando viu-se embaraçada pelo golpes lancinantes que se seguiram, ergueu-se muito acima do chão, como se fosse deitar sobre o corpo. Soltou um grito ensurdecedor, e nesse momento sua boca se abriu de tal modo que parecia que fosse se rasgar, com a gosma pegajosa a espalhar-se por toda a volta. Então lançou-se sobre os homens furiosa, até os fazer vacilar por um instante, quando, como o próprio vento, se desvencilhou dos ataques e saiu louca à direção contrária do círculo em chamas, onde mirou uma árvore de tronco tortuoso e sumiu ao embrenhar-se por seus galhos.

   Accon debruçou-se sobre Orin Aquilino, que na fuga da serpente tivera a má sorte de ser atropelado. Estava desfalecido, com sangue negro a lhe minar da boca. Uma das pernas estava seriamente fraturada, com o osso quase a pular para fora da carne. O machado de lenhador ainda estava sobre a a palma da mão, agora aberta e sem força para segurá-lo.
   - Como ele está? - perguntou Torontio atônito, com a voz falhando, tanto pelo cansaço da adrenalina quanto pelo medo de que Orin Aquilino estivesse morto. Mas logo esse temor passou, pois assim que Accon o tocou, o homem acordou num sobressalto, tonto e confuso, com a mesma reação que teria um bêbado ao ser despertado com uma rajada de água fria na cara. Mas quando procurou se firmar nos braços e levantar a cabeça, que àquela hora parecia pesar três vezes mais que o comum, sentiu a dor lancinante que vinha da perna, o que o fez fungar e resmungar por entre os dentes semicerrados o que todos julgaram se tratar de um palavrão.
   - Venham, ajudem-me aqui - disse Accon para os outros, enquanto procurava firmar a cabeça de Orin Aquilino sobre as mãos, - precisamos tirá-lo daqui e ir atrás da serpente antes que vá muito longe, ou se livre do efeito do encantamento, o que para nossa sorte ainda vai demorar um bocado.
   Os outros se aproximaram. Enquanto Beirand e Torontio soergueram o homem pelas costas e as coxas, Ercut tratou de levantar com demasiado cuidado as pernas, enquanto Accon sustentava a cabeça. E assim, como uma maca humana, trasportaram-no para um canto mais distante das chamas, onde o recostaram numa raiz grossa e meio tabular, com as pernas esticadas a repousarem sobre as folhas molhadas.
   Trouxeram os dois lampiões que ainda encontraram intactos e os puseram ali. Depois de deixarem o enfermo aos cuidados de Woriti e Torontio, que segurou o longo machado à frente do corpo com olhar atento, como uma velha sentinela, Arcon, Beirand e Ercut seguiram para perto do círculo em chamas.
   - Daqui a meia hora o círculo se apagará - disse Accon. - Se não formos agora atrás da criatura, é provável que não a encontremos mais, não hoje.
   - Mas o que faremos? - disse Beirand, como os outros iluminado pelas labaredas verdes - Encontrá-la agora vai ser praticamente impossível.
   - Teremos que usar a chama enquanto a temos - disse Accon. - É nossa única alternativa.
   - Espera ai, você não tá querendo atar fogo às arvores, está? - disse Ercut olhando-o intrigado, apesar de já saber que sua pergunta soava idiota, uma vez que a resposta era óbvia. Por isso prosseguiu, fazendo outra pergunta, à qual não tinha certeza da resposta, mas desconfiava - Então você está dizendo que teremos que nos meter galhos e folhas adentro até achar a coisa e queimá-la, simples assim?

   - Nós não, mas você sim - disse Accon com um olhar incisivo e um tanto travesso para o irmão, que o fitou de volta, cingindo os olhos e tremendo levemente a cabeça, numa expressão de quem diz: vai ter volta. - Ercut, você enxerga melhor do que qualquer um aqui no escuro - continuou ele enquanto apanhava um galho solto ali próximo, passando em uma das suas extremidades algo como uma pasta negra, explicando antes de enfiá-lo nas chamas: - Isso evitará que a chama o consuma rapidamente. E não se preocupe, a chuva não a deixará se alastrar - disse por fim, puxando o galho e o entregando fluorescente a Ercut, que o agarrou com um olhar contundente e disse, antes de se mover: - Esse trabalho tá ficando perigoso.
   Caminharam juntos até a árvore pela qual a serpente desaparecera. Beirand, Accon e Woriti, que viera se juntar a eles, ficaram-no observando fazer a mesma coisa. O tronco, por ser muito grosso e se debruçar quase até o chão, daí voltando a subir sutilmente até expandir seus muitos galhos, permitiu a Ercut escalá-lo quase de pé, agachando-se momentaneamente e precisando usar as mãos apenas quando alcançou os galhos.
   Assim que fora completamente engolido pela folhagem, o trio passou a segui-lo através do brilho da chama que levava, uma centelha verde-esmeralda que vez ou outra aparecia por entre as folhas cinzentas, como um vaga-lume bem nutrido. Mas após algum tempo ela desapareceu, junto com qualquer pista do paradeiro de Ercut.

   Continuaram andando às cegas, sem saber exatamente para qual direção seguir ou até aonde ir. Então decidiram parar, restando-lhes apenas esperar que as copas de repente se ascendessem num verde-esmeralda reluzente e belo de se ver, crepitando e rangendo lamuriosas sobre suas cabeças. Mas isso não aconteceu, mesmo depois de ter se passado um tempo longo, no qual ouvia-se apenas a chuva surrar as folhas, violentando-as com mais determinação e passando por elas mais facilmente.
   Nisso o círculo fluorescente já devia ter se esvaído, deixando Torontio e Orin Aquilino somente à companhia dos lampiões.

   O trio ainda permanecera parado, inerte a vasculhar o alto, mas tomado por uma inquietação que só parecia aumentar, o que fez uma sombra de apreensão surgir em seu íntimo. Então ouviram subitamente um estalido crescente de galhos se quebrando, que por alguns momentos se juntou ao tamborilar da chuva, até que um som mais forte e estridente, como o de uma árvore ou um pesado galho se rasgando e chegando ao chão com uma pancada abafada o silenciou.
   Apesar da impressão de ter soado muito perto, não souberam ao certo de qual direção viera, à exceção, talvez de Woriti, que vomitando latidos semelhantes a trovões saiu em disparada por entre os troncos, levando Accon e Beirand à sua perseguição, que teria se mostrado muito difícil, não fosse o fato de terem-no alcançado depois de contornarem apenas três árvores robustas que cresciam unidas a formar um impenetrável paredão de madeira, ao final do qual se depararam com outra árvore semelhante. Estava parcialmente destruída, com metade da copa e os galhos espremidos contra o chão, forçados a isso pelo peso do corpanzil da serpente, agora como um borrão cinzento a se contorcer descontrolada.
   Mas metade do seu dorso estava sendo esmagado por um tronco dos grandes, certamente o que causara o barulho que trouxera o trio até ali. Sibilava e babava, arquejando enquanto tentava, em vão se livrar do peso, com a cabeça movimentando-se sem parar, assim como o restante do corpo que rolava sobre a árvore.
   Beirand e Accon se aproximaram mais, empunhando suas armas firmemente, enquanto prescrutavam aflitos o cenário de destruição, tentando encontrar algum sinal de Ercut. Mas não importava o quanto procurassem ou olhassem, não o enxergavam em parte alguma.
   Woriti continuava a latir forte, agora dirigindo sua atenção para a árvore, o que também puxou a dos dois homens. Chegaram mais perto dela, investigando os galhos destroçados. Nesse momento a serpente passou a se debater mais furiosamente, o que fez sua cauda chocar-se com violência contra o tronco da árvore, chegando até mesmo à divisa dos galhos que ainda permaneciam em seu lugar, mas não completamente intactos.
   Accon, percebendo a súbita elevação de ódio, olhou à volta, à procura de Beirand, até ser guiado por seus berros monstruosos, que o levaram até onde se achava. O gigante negro destroçava a cabeça da serpente, fazendo a marreta voar ao alto como se não pesasse nada, para logo em seguida derrubá-la sem vacilo, numa sequência rápida de golpes.
   Antes que tivesse alguma reação, Accon ouviu a árvore rasgar-se mais, o que o fez virar-se para ela a tempo de ver parte do seu tronco sucumbir a pancadas da cauda da serpente. Quando isso aconteceu, Ercut, que parecera está preso em meio aos galhos fora lançado como uma peteca contra ele, o que o levou sem fala para o chão.
   Ficaram ambos caídos por uns instantes, Accon fungando e resmungando ainda meio sem fôlego sob o peso de Ercut, e este como pedra sobre ele, parecendo fazê-lo propositalmente, pois assim que saiu para o lado, ainda inebriado enquanto sentava, disse com uma voz carregada, como se tivesse as costelas quebradas, e com uns tapinhas no peito do irmão: - Agora estamos quites.
   Assim que conseguiu se levantar e recuperar as forças, Accon olhou para Ercut, que também forçou o corpo a lhe obedecer. Depois seguiram meio trôpegos até Beirand, que por sua vez agora estava sentado, com os braços descansando sobre as coxas. A marreta também descansava a seu lado, tingida do sangue da serpente.
   Accon e Ercut sentaram-se próximos dele. Ficaram se fitando sob a chuva, que ainda caía forte. Mas pouco da penumbra do bosque tinha-se ido embora. Agora a aurora se aproximava, mas ninguém arriscava a apostar no sol para aquele dia.
   Woriti, que estivera fora da sua visão até agora, também veio se juntar a eles. Olhou para o céu e o farejou, apesar de a chuva tornar isso quase impossível. Olhou-os incisivamente. Não disse palavra.
   Quando enfim se ergueram, se entreolharam de novo e Ercut disse:
   - Beirand, gostaria de acabar com o que começou?
   - Oh, não. Deixei o melhor pra você - disse o grandalhão sorrindo.
   Dito isso, Ercut foi apanhar a espada de Accon que estava onde haviam se chocado, já que a sua parecia ter se perdido. Foi até a serpente, agora com a pele esverdeada mais nítida sob a claridade que se instalava no bosque. Apesar de mortífera, chegava realmente a ser bela. Arrancou sua cabeça com três golpes, sem hesitação. Depois a ergueu e colocou numa sacola que Accon arrancara da bolsa. Jogou-a sobre o ombro e começou a refazer o caminho até onde fora montado o círculo de runas, com Woriti à sua frente. Accon e Beirand vieram atrás.
   - Então, o que houve lá em cima? - perguntou Beirand enquanto andavam. - O galho em chamas sumiu e não o vimos mais...
   - No final não deu tempo para usá-lo - disse Ercut. - Eu estive me esgueirando como podia pelos galhos, até topar com um que me pareceu menos rígido. Mas quando vi já estava sobre ele. Bastou um movimento da criatura para fazer tudo estremecer. Mal havia lhe acertado alguns golpes de espada quando senti os galhos se triturando à minha volta.
   - Ai, quando me dei conta, estava sendo arrastado por entre a folhagem, até a serpente de repente ceder sobre um galho e cair sobre aquela árvore, na qual fiquei dependurado, com a cabeça para baixo, até sentir uma pancada atrás da outra e me ver desabando junto ao que juguei ser na hora a árvore inteira.
   - Por último, senti-me ser levantado e acoitado junto aos destroços no chão. Não fosse o Accon, eu teria me arrebentado todo - disse insinuando um sorriso para o irmão, que de contrapartida disse: - Disponha.
   - Ainda não consigo imaginar o que uma criatura dessas estaria fazendo por aqui - disse Beirand após um momento de silêncio.
   - A Floresta da Neblina não fica muito longe daqui - disse Accon. - Talvez tenha se aventurado além dos seus limites mais do que devia numa caçada, o que cedo ou mais tarde a deixaria desordenada, fazendo-a se enfiar no primeiro arvoredo que aguentasse seu peso.
   - Mas é realmente intrigante.
   Quando chegaram ao círculo encontraram-no extinto, como era de se esperar. Foram ter com Torontio e Ori Aquilino, que ainda fungava de olhos semicerrados, com a perna agora protegida por uma atadura improvisada, sob a qual fora colocado um pedaço reto de madeira.
   - Então, como se saíram? - perguntou-lhes Torontio, tendo a melhor resposta que poderia esperar quando Ercut jogou a sacola aos seus pés. - Maldita seja! - disse numa gargalhada vigorosa. Orin Aquilino pareceu resmungar alguma coisa, mas ninguém entendeu. Todos acharam que estava contente.
   Tiveram que lhe preparar uma maca com os galhos caídos, o que no final mostrou-se melhor do que esperavam. Ninguém estava disposto a carregá-lo bosque afora nos braços, porque apesar de magro, pesava como chumbo. O nariz devia ter um pouco de culpa nisso.
   Accon voltou ao círculo e recolheu suas runas, voltando a guardá-las na bolsa. Quando finalmente deixaram o bosque, a claridade do dia já se espalhava pelo mundo, apesar de está momentaneamente velada pela chuva.
   Alcançar a vila lhes custara pouco mais de vinte minutos. A chuva chocava-se prateada contra as casas e casebres, construções em sua maioria de pequeno porte, erguidas com pedra e madeira. Uma quietude invernal cobria tudo, até ser varrida pelos berros eloquentes de Torontio, que quase pulando gritava 'acordem', 'acordem!' 'Abram suas portas'. 'Acordem!' 'Não têm mais o que temer'. 'Acordem!' Assim continuou gritando até as portas e janelas começarem a se abrir. Num primeiro momento eram apenas frestas pequenas, onde tímidos clarões de lampiões e lamparinas se esgueiravam para fora por meio de cabeças que apesar do medo deixavam a curiosidade falar mais alto. Mas num instante o receio e a apreensão pareceram ir embora. As portas se escancaram, assim como as janelas, e aqueles que não ficaram sobre elas prostrados saíram à rua, sem se importar com a chuva, levando pouco para entenderem o que estava acontecendo.
   Então inflamou-se uma alegria geral. Irrompeu-se uma falatório inquietante. A algazarra era ensurdecedora. Mas então Ercut segurou a sacola no ar, deixando a cabeçorra da serpente rolar para fora dela. Fez-se repentino silêncio. Os que estavam mais atrás se espremeram para observar. Os que continuavam nas portas e janelas levantaram-se nas pontas dos dedos.
   - Ai está sua prova - gritou Torontio. - O medo se foi.
Explodiu nova rajada de alegria, com uma chuvarada de palmas. Parecia que ninguém ali se dera conta do pobre Orin Aquilino, jazendo arfante e resmungando algo inteligível sobre sua maca. Era muito provável que agora estivesse xingando. Mas quando um garoto em overdose de riso o pisou por acidente, teve-se certeza que sim, ele xingava.
   Quando enfim trataram de dar a atenção e o cuidado devidos ao homem, Arcon, Ercut e Beirand foram conduzidos por Torontio para uma das poucas estalagens da Vila Ensombreada, onde se reuniram alguns outros homens. Ali lhes serviram vinho e algo que comer. Mas quando foram convidados para se acomodar e descansar, disseram rapidamente que não. Ansiavam em ir para casa.
Assim pegaram seu pagamento, uma quantidade generosa em moedas de prata, e puseram pé na estrada. A chuva ainda caía.


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