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Ato de existir, ato de resistir
Marilia Betarello Ramalho

Talvez o ato de escrever seja o mais nobre dos atos de expressar sentimentos e de transformá-lo em arte. Em uma conversa ou em uma música, não os fazem de maneira tão apropriada ao sujeito. Em uma conversa, por exemplo, um tom informal não conseguiria transpor tanta poesia. Também, hodiernamente, as pessoas não estejam tão dispostas ao lirismo da vida, desnorteadas com imbróglios contemporâneos. Mas, enfim, não é meu intuito o julgamento. Já na música, outra categoria, também há expressão, mas não são todos que a fazem. Por isso, considero o ato de escrever extrema resistência e de nobreza singela. Apenas um papel, lápis ou caneta, e uma infinidade de possibilidades. Talvez eu até seja um pouco obsoleta em preferir escrever em folha de papel, porquanto, assim, sinto mais intimista à minha escrita e mais verdadeira. Todavia, não vem ao caso, novamente, o julgamento, cada pessoa considera o suporte mais adequado para redigir. Toda forma de escrita é válida, assim como o amor, pois a escrita é um ato de amar – e resistir.

Penso o quanto estive afastada de algo tão próximo – uma caneta e um papel, um devaneio ou uma epifania – por pensar no que seria prático e numeral da vida. Abandonei o caráter lúdico e optando pelo...lúcido? Nada lúcido, na verdade, mera falta de percepção do verdadeiro sentido de estarmos vivos, cegueira coletiva. Enxergo, dessa forma, como um reencontro com meu “eu”. Creio que mais pessoas o deviam.

É uma sandice pensar que a produtividade está ligada apenas ao econômico e que o ato de escrever, nesse momento terreno, esteja atrasando-nos ou fazendo-nos “perder tempo”, o qual poderíamos estar gerando números e resultados capitais. Sempre em detrimento do “eu”. Quantas vezes entristecemo-nos, choramos, porém, tivemos que levantar e fingir contentamento. O semblante mente, assim como aquela antiquada pergunta “você está bem?” e sua resposta mecânica “sim, tudo bem”, para não contranger-nos ou constranger outrem. Inverdades escancaradas e contadas absolutamente todos os dias. Sabemos, com honestidade, ninguém se importa tanto assim com o outro. Você chorou? Ninguém se importa, é fato. Somente seguimos adiante e ciclo se repetindo, dia após dia. Pior ainda, mentindo para nós mesmos. Porém, se fizermos o contrário, veja quantos julgamentos de desatino receberíamos.

E é nesse sentido que retomo minha relação íntima com o ato de escrever, pois o papel e a caneta não te julgarão. Estarão lá prontos para compreendê-lo. Bem real é que quem os abandonou foram nós, pois sempre estiveram dispostos. Esse eu lírico, que ora consigo diferenciar com meu “eu real” e ora não, deve trazer reflexões, quase como um confessionário a um cônego, pois a escrita é o ato mais democrático e sublime de transformar sentimentos em arte, distinto leitor. Ela não precisa de pompas ou enfeites, nobre por si só. Apenas o propósito e a poesia.

Bem, por ora, devo ausentar-me pois o ofício chama-me... e não posso mais “perder tempo”.

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