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Disparates na sapataria
Cláudio Thomás Bornstein


Resolvi levar minhas sandálias na sapataria aqui do bairro. As sandálias só tem vinte anos, quem sabe, duram mais vinte?

A loja, bonita demais para uma sapataria, pertence a um casal de portugueses. Ele também foi sapateiro, mas, economizando, tostão por tostão, amealhou uma bela fortuna, investiu, comprou um monte de apartamentozinho, aproveitando as ocasiões que se apresentavam, alugou, juntou mais uns trocados, e, hoje, não é um homem rico, mas tem uma vida confortável para si, para a esposa e para o casal de filhos. Hoje ele é um homem elegante, garboso, veste-se bem, sempre cheiroso e perfumado, sapatos bem engraxados e brilhantes, e, pouco aparece na sapataria. Quem toca os negócios, hoje, é a esposa e os filhos. Colocaram lá um velhinho, seu Zé, muito simpático, ótimo sapateiro, profissional de mão cheia, que entende do riscado.

Cheguei lá com as minhas sandálias e quem me atendeu foi a esposa do português, uma senhora austera, olhar severo e inquisidor, cabelos puxados para trás formando um coque.

Pedi para falar com o seu Zé, porque, esqueci da falar, eu vou lá por causa dele. É que eu sou um sujeito muito metido, metido a entender de tudo, mesmo de conserto de sapatos. E o seu Zé é um sujeito paciente, de boa índole, tolerante e bem educado. Coloca na boca um sorriso irônico, nos olhos um olhar incrédulo, e escuta as instruções sem me interromper, até o final. Depois diz, “tá bom”, ele, é claro, vai fazer o conserto lá do jeito dele, mas eu fico na ilusão de estar dando as ordens, o que para mim é importante e fundamental, e assim, ficamos felizes, ele e eu.

Depois do “tá bom”, ele deu o preço, eu perguntei se ele queria adiantado, ele só disse “é bom, né”, eu paguei e, por mim, teria saído da loja se não fosse a esposa do português, vamos chamar de Dona Maria, que não arredava o pé, olho atento, ouvido aguçado, sem perder um detalhe da conversa.

Dona Maria pegou um papel, e pediu endereço e telefone. Depois pediu o nome. “Cláudio”, eu disse. “O que?”, foi a resposta.

“Cláudio”, não é um nome tão incomum assim, mas talvez ela estivesse mais acostumada com “Manuel e Joaquim”, ou talvez, estivesse um pouco surda, ou então tinha tido más experiências com este nome, eu sei que ela não me entendeu, apesar de eu ter repetido algumas vezes.

Meio exasperado e perdendo a paciência eu disse: “Cláudio, o marido da Cláudia Cardinale”.

Me desculpem, eu sei que é um absurdo. Se eu queria me associar a um personagem tão ilustre e conhecido, precisava ter casado com ela? Além do mais, quem garante que o marido de uma Cláudia tem que chamar Cláudio? Qual é a lógica disto tudo?

Faço um pausa, para ajuntar um detalhe fundamental. Eu não estava sozinho do lado de cá do balcão. Minha mulher estava junto. Aproveitando uma saída para almoçar, tínhamos resolvido passar na sapataria.

Falei em lógica, mas a lógica não importava para Dona Maria. Ela estava mais preocupada com a moral. Olhar severo, olhou para minha mulher: “A senhora é a esposa dele?” Minha mulher assentiu. “A senhora se chama Cláudia Cardinale?”

Minha mulher sorriu, complacente: “A Cláudia Cardinale já morreu!”

Para ver se eu consertava a gafe e me redimia dos meus pecados, despertando se não simpatia, pelo menos um pouco de compaixão, acrescentei com um olhar de tristeza: “A senhora vê, eu sou viúvo!”

Pronto! Foi a “deixa” para Dona Maria contar a história. Respirou fundo e começou: “É como eu disse lá em Portugal. Estávamos, eu e meu marido, numa daquelas incontáveis comemorações. Vocês sabem como são os homens portugueses, um monte de gabolas, contando vantagens, bebendo e se prosando, só no carteado. Primeiro falam do dinheiro, depois das conquistas e no fim, falam das mulheres. Foi quando eu me levantei e olhando fundo nos olhos das senhoras à volta disse: “Vocês são um monte de viúvas de marido vivo”. Foi um escândalo”.

No vácuo que se formou eu tentei remediar, mas só piorei a situação: “Viúvos, somos todos nós. Ninguém tem compromisso com ninguém.”

Dona Maria olhou para mim incrédula, olhou para minha mulher e voltou a olhar para mim. “E tudo brincadeira”, eu disse, em mais uma tentativa para reparar o mal.

Ela balançou a cabeça: “É brincadeira, mas no meio de tanta brincadeira, vai um tanto de verdade.”

Seu Zé, num canto, ria muito, divertindo-se com a situação. Pronto, estava vingado por ter tido que escutar calado aquele monte de instruções disparatadas.


Biografia:
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