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Sobre a felicidade
Flora Fernweh

A felicidade é antes de tudo, uma angústia.
Uma angústia porque a busca incessante por um estado de espírito que concretize todas as idealizações se revela um fanatismo intransponível daqueles que não compreendem as oscilações naturais da vida, com seus cumes e seus vales.
Onde encontrar a felicidade? Ou melhor ainda, o que é ser feliz?
Ser feliz é ter sucesso, saúde e amigos. Mas ser feliz também é poder apreciar o sopro do vento nas folhas de uma árvore e o azul límpido do céu em um passeio no parque.
Felicidade é a esperança do reencontro com todo tipo de aspiração lançada.
O caminho até o suposto tesouro da felicidade é menos uma aventura que um sacrifício. Primeiro por não existirem mapas certos, posto que a felicidade é desprovida de qualquer norma ou direção, sendo ela a própria bússola. E segundo, porque o caminho a se percorrer expõe uma intensa necessidade de se despir da noção ingênua que é própria dela, e a partir de então, repensar o que é ser um sujeito feliz, para além de deter o material abstrato do qual a felicidade é feita.
É fácil viver sob as luzes de felicidades de fachada, em doce aparência. Difícil é suportar as frustrações na sombra da verdadeira felicidade. Viver em eudaimonia é um privilégio para poucos, é encontrar o bem-estar e o equilíbrio na plenitude moral das contradições humanas que edificam o ser pensante e desejante.
Duro é ousar mover pedras e montanhas nutrindo a ilusão de chegar a algum lugar, quando o valor da experiência e o conhecimento adquirido na trajetória, são a fortuna do homem sábio e disposto a desconstruir a imaginativa e infeliz ideia de felicidade um dia proposta, e brutalmente ditada por aqueles que em sua fatalidade, lutaram por justificar sua desventura.
Me pergunto qual teria sido o destino da poesia se a felicidade imperasse e as tristezas em ímpeto, fossem eliminadas do mundo. Todo terreno da criação humana entraria em colapso, visto que a melancolia e o abatimento são pilares universalmente compartilhados, pelos meandros da sensibilidade primitiva, que não se extinguirá com promessas de um gozo alegre e iluminado.
Só nos é permitida a felicidade, porque sofremos. E com o sofrimento, nos regozijamos por rememorar passionalmente a condição a qual estamos presos, e assim, nos sentimos conectados àquilo que somos em essência, que vem à tona em uma sensação longínqua de felicidade.
A morte, o amor não correspondido, a tragédia, a dor, a miséria são só algumas de tantas provações que conhecemos em vida. Mas não basta fincar os pés em solo pessimista, ser feliz passa pelo crivo da aceitação sobre a realidade. E a poesia, a arte, a literatura e a música definitivamente não pertencem a essa gente que digere, mas sim aos e inconformados e aos orgulhosos de sua infelicidade, que sem dúvida, são os mais felizes.


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
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