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De pernas para o ar: experiência de quarentena
Morgana Bellazzi de Oliveira Carvalho

A mudança ocorreu no dia 19 de março. Saímos os 06, eu, meu marido, dois filhos adolescentes e meus sogros de 78 anos. Carros cheios, de comida, de remédios, de material de estudo, livros, ração para os cachorros, material de ginástica, e, principalmente, de apreensão pelo que aconteceria e algum otimismo de estarmos fazendo a coisa certa para nos protegermos, principalmente os idosos, ao nos mudarmos para a casa de praia em Salinas da Margarida, cidade do interior da Bahia, banhada pelo mar e localizada quase na esquina da foz do Rio Paraguaçu. Aí nos refugiaríamos durante a quarentena.

Primeiros cinco dias parecia que estávamos de férias, juntos, experimentando a casa de praia sem os vizinhos, porque o condomínio estava vazio, e a casa numa paz espaçosa sem a agitação dos convidados. Lista de coisas a fazer pronta, para a limpeza e arrumação da casa, livros para ler, filmes para assistir, processos para despachar, aulas de ginástica, dança, pilates, etc para experimentar pelo you tube ou outro aplicativo, piscina só nossa, banho de sol! Haja disposição, tava até faltando tempo no dia para dar conta.

Depois faltou luz um dia inteiro e quase voltamos para a Capital, em razão, menos do calor, e mais pelos mosquitos. Excessivos.... Aí o freezer pifou, e agora.... comidas feitas e congeladas.... perderíamos tudo em pouco tempo. Depois a luz voltou ao normal, mas faltou água, comigo justamente tomando banho.... assim não vai dar, pensei. Chamamos o encanador no dia seguinte e resolveu, era problema na bomba. Ufa. Tudo solucionado e o corona aumentando na Capital....

Aí veio o decreto do Prefeito de Salinas da Margarida fechando o comércio, proibindo a entrada de outras pessoas, e o mais aterrorizante: mandando os carros de placas de fora deixarem a cidade. Aí surgiram dúvidas: e se precisássemos sair não nos deixariam voltar, já que somos veranistas e não moradores .... será que virão aqui nos expulsar de nossa própria casa, porque nossos carros tem placa de Salvador .... esconde os carros, primeira ação, ninguém mais vai no centro da cidade dar mancada, segunda ação do plano estratégico de ficarmos isolados.

Reunião em família para deliberar se ficaríamos mesmo no refúgio-paraíso ou voltaríamos para a Capital infestada de corona....e se correr o bicho pega: como dar a vacina da gripe aos idosos.... Decidimos ir em frente e enfrentar a quarentena do corona saindo o mínimo possível. Garantiram na farmácia que dariam a vacina em casa. Promessa. Até agora nada.

Começaram as aulas virtuais dos adolescentes, tudo bem nisso, mas aí não sobrava mais tempo de me ajudarem nas coisas da casa (lavar banheiros, passar, cozinhar, varrer, aspirar, banho cachorros...). Fui ficando sozinha nessa história e aí com menos tempo de fazer os processos do Tribunal, as leituras do doutorado e ainda malhar.... Dei um ataque um dia, de tão cansada que estava.... quero minha auxiliar.... mas ela pode ter ou trazer corona.... que fazer....melhor não, se ficar o bicho come....

Eu estava ficando histérica. Devia ser por causa dessas notícias insistentes do noticiário da TV, zap e insta. Parei de ver. Não admiti que meu drama era querer fazer tudo da casa do meu jeito e rápido, com sabor e muita água sanitária e álcool líquido e em gel.... Passaram-se mais uns 2 dias.... Marido adoece, crise de cálculo renal. Levar para o pronto socorro de carro.... que medo.... e se a polícia nos abordasse, se nos seguissem e expulsassem.... não estávamos com os comprovantes de residência, nem do IPTU de Salinas em mãos.... como provar não sermos forasteiros contaminados....

Não tinha jeito, fomos. Depois paramos na farmácia para comprar remédios. Nada de polícia. Cuidei dele acumulando ainda mais trabalho e dedicação.

Aí 2 dias depois desse incidente, e após ter feito café, recolhido a mesa, lavado pratos, colocado roupa para bater na máquina, fui querer colocar o varal de roupa para tomar um sozinho, antes da caminhada matinal com os sogros e, de repente, tipufo!!!

Caí como uma jaca no chão. Dor incrível.... Não entendi bem, depois me dei conta, pisei em falso no batente quando ia estender a roupa: nova ida ao pronto socorro da cidade, que não tinha ortopedista, mas tinha raio X para comprovar a fratura e sua extensão: quebrei a base do quinto dedo do pé: resultado 3 semanas sem colocar o pé no chão....

E agora....

Pernas para o ar e muletas na mão para se o corona chegar aqui não entrar não! Agora ele morre é de muletada, porque passar pano no chão estou impossibilitada!


Biografia:
Advogada, Auditora de Contas Públicas do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, Professora de Direito Administrativo, Doutoranda em Direito pela Universidade de Coimbra.
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