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Quando a Lua Virou Sol
Maria

Hoje o dia amanheceu neblinado.
Choveu muito à noite.
Via pela janela a chuva cair, dentro e fora da alma.
Sinto medo.
Medo do amanhã.
Compreendi.
Fiquei no passado.
Mas fiquei aqui também.
Até quando não sei.
Preciso falar ainda.
Como sempre.
Ouvir, temo que nunca mais ouvirei.
Meu coração viajou nas noites e horas calmas do dia, pelo passado.
E lembrou de um amigo, alguém que se consternou com a "dor de sua alma" e ofereceu um ombro.
Mas fez muito mais do que isso.
É o rio Amazonas que corre manso para o mar, recebendo seus afluentes enquanto canta o pássaro triste.
E como disse o rio "rasguei o jornal para ler os poetas tolos e os tolos que amam os poetas".
Um rio profeta que cantou o amanhã "as árvores velhas já deram frutos", "a menina que chora merece uma oportunidade".
Era eu ali.
Achei até bem pouco tempo, acreditei, que era a árvore sendo desfolhada ou a menina que chora, mas entendi que já sou a árvore velha.
Por isso preparei minha morte.
Árvores velhas morrem com o tempo.
Elas ficam porque acham que por algum motivo não compreendido, não explícito, alguém ainda precisa de mais um pouco de sua sombra, como refrigério para o corpo cansado, antes de prosseguir na caminhada do caminho do leite...
E a velha árvore chora triste e só.
Sabe que vai morrer porque o sol vai morrer.
Se o sol morre a natureza morre.
Então sabe que vai morrer e seu pó se misturar à terra.
Virará cinza, pó.
É disso que ela é formada e por isso ao pó voltará e o vento soprará o pó e o depositará nos outeiros e nos lugares mais esmos da terra.
Só servirá para ser pisada pelas novas árvores que nascem e pelos passos dos donos do jardim que ali caminham à contemplar as novas flores, as novas árvores que nasceram quando a lua virou sol.


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