Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
A história até a História
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
Nesse artigo eu debato sobre História e escolas historiográficas.

O filósofo grego Aristóteles foi enfático em dizer que a poesia era mais relevante que a História, pois aquela é mais universal que essa. De modo concreto, a disciplina a que o pensador está falando não é a mesma da Era Contemporânea. Podemos remontar a sua cientifização ao século XIX, quando diversas correntes e teorias surgem. Se o século XVIII foi o “Século da Filosofia”, o seguinte será o “Século da História”.
     Quando Leopold von Ranke lançou suas teses sobre a escrita da História, ele tentava evadir de uma história filosófica, ou seja, uma história sem um método corpori-ficado (REIS, 1996). Embora não tenha ido muito longe da esfera filosófica, Ranke co-locou a História não apenas como narração de eventos, mas como método e processo ideográfico, buscando o singular no tempo e espaço. O objetivismo entra em cena.
     Isso implicava em grandes problemas, seria possível o historiador estar isento de sua subjetividade? O método historiográfico-erudito é infalível? O método rankeano é um axioma. As fontes, embora estejam bem definidas em seu papel, são limitadas. Ran-ke se propõe a historiografar a política, a história dos grandes homens. A guerra, a di-plomacia e os registros oficiais são os cânones dessa história.
     O hegelianismo e o positivismo são compreensões metafísicas da realidade his-tórica. Ambas atribuem uma lei universalizante e determinada dos eventos. Nem mesmo o materialismo histórico foi capaz de romper com essa cadeia. Pois mesmo no socialismo científico, a sociedade segue uma marcha etapista. O homem é determinado pelas suas condições materiais, embora faça a sua história, está é condicionada pela sua época.
     No final do século XIX, quando a questão do nacionalismo ganha forma, a His-tória adquire um papel novo: legitimar o Estado e criar um passado em comum (BOURDÈ & MARTIN, 1983). A França é a que mais se apropria desse ideal. A Escola Metódica surge na esteira de Ranke. A política ganha ainda mais destaque. Os eventos vão formando um povo, e o povo uma nação.
     No século seguinte, nos “frementos anos 20”, dois historiadores de uma univer-sidade periférica estabelecem uma crítica aos metódicos como Ch. Seignobos e Ch. Langlois. Para Marc Bloch e Lucien Febvre, apenas a narração ipsi literis dos documen-tos oficiais não seriam suficientes para compreender a história humana. Era necessário um esforço epistemológico maior nesse sentido.
     A História desce um degrau nas estruturas. Passa da política para as questões socioeconômicas e das mentalidades. As fontes se alargam, bem como seu método de crítica interna e externa. A revista Les Annales surge (BURKE, 1992). Uma das maiores contribuições dessa escola historiográfica foi a interdisciplinaridade com outras ciências e campos do saber como a linguística, a geologia, a antropologia, a sociologia e outras.
     Embora não haja consenso entre os historiadores da Historiografia, podemos dividir a história dos Annales em primeira geração, a de Bloch & Febvre; a segunda geração, a de Braudel; e por fim, a terceira geração, também conhecida como Nova His-tória, que se ampara nos aspectos da cultura para a sua escrita (PESAVENTO, 2012). Isso não significa que não houvesse outras tendências demarcando território, como o neomarxismo inglês de E. P. Thompson. A ciência adquiriu novos métodos, novos temas e campos de atuação profissional.
     Para além das críticas, podemos destacar os seguintes avanços: a História do Tempo Presente, o ressurgimento da narrativa, a História Oral, todo registro humano no tempo e no espaço como fonte historiográfica, a percepção do tempo braudeliano, a interdisciplinaridade etc. Com esses recursos o historiador poderá fazer uma história total. Não no sentido de algo definitivo, mas no sentido da mais ampla percepção da historicidade, cobrindo o máximo de elementos possíveis dos eventos e fatos históricos.


Referências bibliográficas

BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. As escolas históricas. Portugal: Publicações Europa América, 1983.
BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929-1989: A revolução francesa da historiogra-fia. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1992.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. 3. ed. Belo Horizonte: Au-têntica, 2012.
REIS, José Carlos. A História, Entre a Filosofia e a Ciência. São Paulo: Editora Ática, 1996.
ROCHA, Everardo. O que é mito. Editora Brasiliense, 1996.
SÁEZ, Oscar Calávia. A variação mítica como reflexão. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, vol. 45, nº 1, p. 07 – 36, 2002.
VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? Ensaio sobre a imaginação cons-tituinte. São Paulo: Brasiliense, 1984.


Biografia:
Caliel Alves nasceu em Araçás/BA. Desde jovem se aventurou no mundo dos quadrinhos e mangás. Adora animes e coleciona quadrinhos nacionais de autores independentes. Começou escrevendo poemas e crônicas no Ensino Médio. Já escreveu contos, noveletas, resenhas e artigos publicados em plataformas na internet e em algumas revistas literárias. Desde 2019 vem participando de várias antologias como Leyendas mexicanas (Dark Books) e Insólito (Cavalo Café). Publicou o livro de poemas Poesias crocantes em e-book na Amazon.
Número de vezes que este texto foi lido: 656


Outros títulos do mesmo autor

Resenhas Quando o caçador vira a sua própria presa Caliel Alves dos Santos
Resenhas Só nos sobraram os espinhos Caliel Alves dos Santos
Resenhas Caçando demónios por aí Caliel Alves dos Santos
Resenhas Caçadores de emoções... e aventuras Caliel Alves dos Santos
Resenhas Oxente, tá aí um mangá que eu queria ler! Caliel Alves dos Santos
Artigos Conceitos e discursos sobre a auto inscrição africana Caliel Alves dos Santos
Artigos Precisamos falar sobre o Felipe Neto Caliel Alves dos Santos
Releases Financiamento coletivo – 10º símbolo Caliel Alves dos Santos
Resenhas Duas asas pra te proteger Caliel Alves dos Santos
Poesias Sátiras unebianas Caliel Alves dos Santos

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 105.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2020
 
  Textos mais lidos
The crow - The Wiki World - The Crow 68388 Visitas
A Arte De Se Apaixonar - André Henrique Silva 55711 Visitas
PÃO E CIRCO - Tércio Sthal 44409 Visitas
Minha namorada - Jose Andrade de Souza 44133 Visitas
Reencontro - Jose Andrade de Souza 43754 Visitas
IHV (IAHU) e ISV (IASHUA) - Gileno Correia dos Santos 42784 Visitas
Amor e Perdão - Amilton Maciel Monteiro 42119 Visitas
haicai - rodrigo ribeiro 41353 Visitas
OS ANIMAIS E A SABEDORIA POPULAR - Orlando Batista dos Santos 41291 Visitas
Amores! - 39788 Visitas

Páginas: Próxima Última