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Próxima conquista: CONVERSAR
Tânia Du Bois


     Conversar é, sem dúvida, um exercício sem rótulos e com liberdade no sentido amplo da palavra. É falar sobre coisas que fazem parte do universo de alguém que recria o mundo ao suprir a “necessidade” de determinado tipo de expressão. Neste sentido, exige investimento de tempo e atenção; e o tempo é sempre o dono da possível dinâmica da conversação.
     A conversa tem por característica a forma simples de expressar a opinião sobre determinado assunto, desde que a verdade esteja exposta junto com o conhecimento. Leandro Gomes de Barros diz, “Se eu conversasse com Deus / Iria lhe perguntar: /... Quem foi temperar o choro / E acabou salgando o pranto?”
     Observo que as pessoas reclamam não ter mais tempo para conversar. As famílias não conseguem mais se encontrar nas refeições, onde havia diálogo para saber como foi o dia de cada um; as novidades, dúvidas e o apoio entre as partes. Vamos combinar: que saudades dos encontros acolhedores, até dos discursos vazios e das discussões sobre determinado assunto. Além de divertido, na maioria das vezes, podíamos mascarar o nervosismo e até a tensão, como em Carlos Drummond de Andrade, “... Há sempre / uma família na conversa //... A conversa o restaura e faz eterno”.
     Nos dias de hoje é impossível abraçar tudo; na verdade, é difícil conciliar profissão com família, porque vivemos no “drama” do que chamo “tempo”. A flexibilidade dos horários nem sempre é uma opção, por que não escolhemos onde e como a podemos encaixar na rotina o quanto e quando queremos ou podemos conversar com os amigos.
     A conversa descortina corações, como mostram os poetas: Filomena, em Conversa com Deus; Welson Santos, em Conversa entre o amor e a amizade; Sidónio Muralha, em Conversa de Tatus; Zé Laurentino, em Conversa de Passageiro e Basilina Pereira, em Conversa com o Mar.
     Sonhamos com a liberdade que até esquecemos como evitar as armadilhas, como por exemplo, quando é para conversar, ficamos calados; quando é para ouvir, conversamos. Isso ocorre em palestras, teatro, cinema e saraus poéticos. É intrigante, pois são momentos únicos e o tanto de conversas paralelas é assustador, parecendo Conversa de Hospício, “Conversemos então, mas sobre o quê? / O não e o nada, puxa vida! / Nada mais simples de dizer, do que sim por eles; / Contudo; / Sem mais para dizer, afirmo...” ou Conversa sem Fim, de Silvania Amaral, “... Meu lugar não sei onde fica / Onde estou? / Somente a certeza que não é aí. // Conversa sem meio / Nem fim / Arco-íris sem cor...”.
     O essencial é preservar o momento em que a vontade causa sensação diferente, como quando a criança quer falar e o adulto não a escuta, então ela em dose extra de necessidade, grita: quero falar! HSerpa reflete, “Sem televisão / chama para uma conversa / Acende a nossa chama / Sem nos cegar...”. Particularmente no mundo cuja rotina exige tempo, que muitas vezes, perdemos em deslocamentos, é vital “multiplicar as horas” para mantermos o diálogo, como em Cláudia Liz, “Vem tomar um café comigo? / Nessa tarde ensolarada / Pra podermos conversar / Relembrar a adolescência / Nossos contos aventuras / Que faz bem ao coração...”.
     Preservar momentos para conversar é importante, já que os interesses e os desejos do outro são fundamentais para vivermos em sociedade e, juntos, definirmos o rumo na vida. O diálogo entre amigos flui e colore a vida, onde as histórias e os resultados são apreciados por todos e, assim, esquecemos a ideia de que é preciso passar horas olhando através da vidraça; T.S.Eliot em Conversa Galante divaga conversando com a Lua.
     Somos responsáveis pela condução da conversa e, muitas vezes, expressamos termos, tempos e palavras erradas, deslocadas do contexto, dificultando o poder de dialogar e de entender o rumo da conversação.
     Conversar é dialogar ao entender o seu objetivo; o rumo que ela segue deve prender a nossa atenção. Mas, é necessário se policiar no que iremos dizer, pois a palavra - (mal)dita - que fere, também pode unir e transformar a vida das pessoas.
     Quantas vezes, numa discussão, alguém chega perto e diz: “calma, é conversando que a gente se entende” e, como dizem os poetas, “um relacionamento feliz é uma conversa longa que sempre parece curta demais”. Quantas vezes, depois do encontro, na despedida, ouvimos, “a gente vai conversando”.
     Então, questiono: quantos tipos de conversa encontramos pelo caminho? Conversa afinada, afiada, fiada, rimada, pessoal, sentimental, temperada, virtual, banal, de bar e tantas outras; para Zaymond Zarondy, “A poesia é uma forma de conversar com o mundo e com as pessoas. // Vamos conversar então?”
     Conversar é arte ou manifestação filosófica? Se através do diálogo podemos dar e receber atenção dos amigos com argumento para desenvolver ou esclarecer um assunto; por razões diferentes, as pessoas procuram a felicidade ao conversar com alguém para fugir da solidão e do estresse, como refletido no livro Prá início de Conversa, poesias de Zaymond Zarondy.
     Conversar é a conquista que estimula a alcançar o desejado e que faz nos sentirmos especialmente bem, ao desfrutarmos da companhia e das coisas simples, como lidar com a opinião oposta.
     


Biografia:
Pedagoga. Articulista e cronista. Textos publicados em sites e blogs.Participante e colaboradora do Projeto Passo Fundo. Autora dos livros: Amantes nas Entrelinhas, O Exercício das Vozes, Autópsia do Invisível, Comércio de Ilusões, O Eco dos Objetos - cabides da memória , Arte em Movimento, Vidas Desamarradas, Entrelaços,Eles em Diferentes Dias e A Linguagem da Diferença.
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