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Se você quer ser agradável,
passe pela cerca do vizinho e a elogie,
fale das cores, da altura da cerca,
de como ela protege o vizinho
de vizinhos indesejáveis,
como impede o carteiro de entrar,
dos vendedores de bíblias,
como não deixa ver o que acontece,
fechada, armadura inconteste,
proteção contra e nada a favor,
espalhe sua opinião com bom humor...
Se não quiser ser agradável
e passar a ser belicoso,
bata na cerca de um modo vigoroso,
com as duas mãos e os pés também,
espere aparecer alguém,
evite um discurso polido e cheio de desvios,
diga-lhe que a madeira da cerca
pode servir para fazer fogo a quem tem frio,
que estamos cada vez mais separados,
cada um para o seu lado,
evitando trocar olhares,
faíscas celulares,
fale a ele das barricadas no leste europeu,
das barreiras entre palestinos e judeus,
cite Bertolt Brecht, a solidão de Kafka,
ou então, como faz um búfalo que ataca,
não diga nada,
avance sobre as prateleiras mentais,
faça com que derrubem as cercas entre quintais,
ou então, verse sobre com palavras,
escreva versos ou, então,
não diga nada...
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