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Pode ser que você não veja não,
mas está ali, na mesa posta para o café,
dançando na ponta dos pés nos olhos do teu cão,
na sinuosidade convicta do corpo de tua mulher,
face a face no teu espelho riscado,
nas costas do elefante,
no órfão desamparado...
Pode ser que perceba uma coisa qualquer,
uma coceira, uma sofreguidão,
mancha na límpida prata da colher,
desenho esquisito no chão...
Ou que passes a vida sem a mínima percepção,
indo e vindo do trabalho para a letargia,
da letargia para a sempre mesma operação,
hipnose sem cura, que te sonambuliza,
te guia, fauno solitário na imensidão...
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