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Problemas de Comunicação
Cláudio Thomás Bornstein

Seu Adolpho, com ph, é daqueles cidadãos da antiga, origem lusitana, que prima por dizer "não" a qualquer pergunta que lhe é dirigida. No início discuti muito. Depois aprendi que a melhor reação é o silêncio. No embaraço da pausa que surge, seu Adolpho, de mansinho, começa a tecer fios de "sim" na malha de "não" e o que acaba resultando é uma trama positiva, para satisfação minha e dele.

Tudo seu Adolpho sabe melhor, para tudo tem uma resposta, qualquer afirmação é logo contestada e a última palavra é sempre a dele. Fora disso, é ótima pessoa. Honesto, confiável, leal e, acima de tudo, um profissional competente. Seu Adolpho tem uma pequena serralheria na zona norte do Rio de Janeiro.

Precisando fazer uma porta para um armário da área de serviço, telefonei para seu Adolpho e, como de costume, na hora marcada ele apareceu. Fez um desenho em que anotou as medidas, deu algumas sugestões e ficou de me mandar o orçamento. No dia seguinte, me lembrei que eu tinha esquecido de especificar o lado de abertura da porta e resolvi telefonar. “Seu Adolpho, a porta deve abrir do lado esquerdo” disse eu e, para reforçar, acrescentei “isto é, a dobradiça deve ficar do lado direito”. “Mas é claro” prontamente contestou seu Adolpho “não poderia ser de outra maneira, visto que do lado direito tem uma parede.” Com a consciência culpada por tamanha obviedade resolvi, à guisa de desculpa, justificar: “mas o senhor podia ter esquecido...”. Tamanha falta de respeito seu Adolpho não podia perdoar de forma que partiu logo para o ataque. “Espera aí, você disse que a porta abre do lado esquerdo. Mas é para o lado direito.” Meio nervoso e receoso de algum mal entendido, retruquei: “Como, seu Adolpho? A dobradiça fica do lado direito, portanto a porta abre pela esquerda”. “A porta abre da esquerda para a direita, portanto, é para a direita que ela abre” foi o comentário de seu Adolpho ao que eu, na certeza de que nenhuma surpresa podia mais acontecer, já que tínhamos incluído tanto a esquerda quanto a direita na negociação, resolvi dar a conversa por encerrada.

Alguns dias mais tarde recebi o orçamento. Tudo estava perfeito com exceção de um pequeno detalhe. A porta tinha uma parte fixa e no nosso encontro eu tinha dito que ela devia ficar acima da porta. No orçamento vinha "parte fixa inferior".

Novo telefonema e novo comentário meu contestando o detalhe do orçamento. Fez-se um silêncio embaraçoso, mas seu Adolpho logo se recuperou. “Ora, isto é só uma questão de "semântica"!” Confesso que em lingüística eu ando meio enferrujado de forma que levei algum tempo para retrucar. Depois, me lembrei que certamente a questão não era de sintaxe e que, sim, tratava-se de um assunto sobre significado. Tentando recuperar o tempo perdido e com uma ponta de ironia, acrescentei: “Claro, seu Adolpho, a questão é de semântica. Por isso mesmo...”. Mas seu Adolpho nem estava mais aí e deu o comentário definitivo: “Além do mais, o que vale é o desenho que eu fiz. Lá está tudo direitinho. A parte fixa é a superior. O orçamento, ora, o orçamento...”

Cláudio Thomas Bornstein


Biografia:
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