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Procuram-se amoladores IV
Pandora Agabo

Nos finais de semana, Bárbara tinha permissão para brincar até mais tarde se terminasse todos os seus deveres de casa. Ciente disso, ela escrevia qualquer coisa em seu caderno para poder sair de casa o quanto antes - pois a gritaria do lado de fora da sua casa deixava bastante claro que ela estava perdendo boa parte da brincadeira. Bárbara só não foi mais rápida por se distrair toda vez que uma onda de risadas infestava a rua e ela olhava em direção à janela, desejando, mais que tudo, estar com as crianças da rua.

Finalizada sua lição, Bárbara saiu correndo pela casa com o caderno em mãos, para mostrar a sua mãe que terminara sua obrigação.

— Que letra desleixada é essa, dona Bárbara?

— Ai mãe... - ela estava com as pernas inquietas, impaciente.

— Ta bom, pode ir. - antes que sua mãe conseguisse lhe devolver o caderno, Bárbara já havia corrido para fora de casa.

Os meninos, como de costume, haviam se organizado para jogar futebol. Os times já estavam montados e o que restava à Bárbara era assisti-los sozinha, porque a garotada estava ocupada com a partida que rolava.

Bárbara sempre foi a única menina da rua. A única que saía de casa, pelo menos. As outras garotas eram proibidas de saírem e "se sujarem" com aquele "bando de moleques". Bárbara nunca gostou de brincar em casa e não se importava de se misturar aos meninos, adequando-se as suas brincadeiras, o que significava que se ela tivesse que correr com toda sua força e se sujar na lama como os outros garotos, ela o faria sem o menor problema, mesmo que isso implicasse em fazer novos hematomas. Sua disposição para se adaptar, no entanto, também não significava que ela era bem aceita por eles.

Depois de 15 minutos assistindo pacientemente ao jogo que acontecia, um dos meninos pediu tempo e avisou que teria de voltar pra casa, porque sua mãe havia exigido que ele não demorasse muito.

— Ah Pedro! Agora o nosso time ta incompleto! - resmungou um dos seus companheiros.

Os olhos de Bárbara se encheram de brilho e ela se levantou, correndo até eles:

— Eu posso entrar no lugar do Pedro.

Os meninos preferiram ignorá-la e continuaram discutindo, tentando encontrar a solução de seu problema, como que se Bárbara - que seguia insistindo - não pudesse solucioná-lo.

— Eu posso entrar no lugar do Pedro!

Um deles a encarou com o nariz torcido e outro deles resmungou com o amigo, desaprovando completamente a ideia.

— Ei! Vocês me ouviram? - Bárbara gritou, cansada de ser tratada por invisível.

— A gente ouviu! - um dos mais velhos gritou de volta.

— Então eu posso?

— Não! - três deles responderam em coro.

— Por que não? - Bárbara cruzou os braços, indignada.

— Porque você é menina e não sabe jogar futebol, ué. - um deles, que nem mesmo era do time que Bárbara queria entrar, disse como que se a resposta fosse óbvia demais e nem mesmo precisasse ser dita.

— Claro que sei! - gritou ainda mais alto.

— Ah, sai daqui, Bárbara. - um dos meninos a empurrou.

Bastou que o primeiro o fizesse, para que de um em um fossem empurrando-a e tirando-a do meio dos meninos, porque eles ainda tinham um grande problema a resolver.

Assistindo àquela cena de longe, sentado em sua bicicleta, Butão pedalou para perto daquele grupo que excluía Bárbara e ficou intercalando, ora olhando para o grupo, ora olhando para Bárbara, que carregava um bico do tamanho do Everest no rosto.

— O que ta acontecendo? - perguntou como se fosse o guarda da rua e estivesse conferindo a ordem do local.

— Butão! - o que parecia ser capitão do time incompleto disse aliviado - Quer entrar no nosso time? O Pedro teve que ir pra casa e tamo com o time incompleto.

— Não, eu não quero jogar. Por que vocês não colocam a Bárbara no time de vocês? Ela joga bem.

Um sorriso envaidecido surgiu no rosto de Bárbara e ela começou a se aproximar do grupo, achando que agora sim ela teria uma chance, já que Butão sempre teve respeito naquela rua.

— Ah, para né? Ela é menina!

— O que tem? - disse sem entender o porquê de quererem excluí-la sob esse motivo, até porque ele mesmo nunca teve problemas em brincar com Bárbara.

— Meninas não jogam futebol. - outro deles respondeu.

— Eu jogo! - Bárbara protestou.

— Cala a boca, guria. - o mais estressadinho deles empurrou Bárbara com mais força que da última vez e a fez tropeçar no meio-fio, caindo de bunda na calçada.

— Ou! - Butão, desacreditado com o tratamento que sua amiga estava recebendo, largou a bicicleta no asfalto e voou no menino que a empurrou, derrubando-o no chão e montando nele, dando-lhe um monte de tapas e socos, fazendo-o gritar de dor e por socorro.

Os outros meninos ficaram gritando, sem saberem o que fazer para que Butão parasse, mas Butão não parecia ter o intuito de parar e mesmo com os joelhos ralando no asfalto quente enquanto estava em cima do garoto, ele seguia batendo no menino, como que se ele tivesse cometido um grande crime.

Bárbara estava chocada demais com tudo aquilo e até mesmo se esqueceu de que ela havia sido o motivo da briga, correndo em direção à casa mais próxima e pedindo a ajuda de algum adulto, que, pelo amor de Deus, parasse a briga.

Foi somente com a chegada de um dos pais dos meninos que a briga foi interrompida, segurando Butão pela camiseta e impedindo-o de voltar a bater no garotinho, que estava todo ralado e sujo, chorando como um bebê no chão.

— Quem é a menina aqui agora? - Butão gritava alucinado, debatendo-se nos braços do salvador do dia, que assistia a tudo aquilo assustado.

— Calma, garoto! - o pai tentava falar de um jeito que acalmasse Butão.

— Vai lá! Corre pra mamãezinha! Corre! - Butão seguia gritando para o menino que só conseguiu se levantar com a ajuda dos amigos - Vai! Corre! Aproveita enquanto eu não posso correr atrás de você e terminar de quebrar a sua cara!

— Ei! - o pai não estava gostando nada da atitude daquela suposta criança e o sacudiu, virando-o em sua direção - Nada disso, garoto! Ninguém aqui tem o direito de bater em ninguém, ta me ouvindo?! - gritou com ele.

— Então avisa aquele idiota que não se deve empurra garotas! - desafiador, Butão gritou com aquele adulto de igual para igual.

Não esperando por uma justificativa tão "nobre", o homem soltou Butão e olhou para Bárbara, que o havia chamado.

— É verdade que aquele menino te empurrou?

Timidamente, Bárbara afirmou com a cabeça.

— Bom, nesse caso... - mas ele olhou novamente para Butão, que respirava tão profundamente, que seu peito subia e descia com bastante evidência - Mas não é assim que se resolve as coisas, garoto. Tenho certeza que não foi essa a educação que seus pais te deram.

— Eu não tenho pai. - Butão mentiu apenas para deixá-lo sem graça ou, no mínimo, comovido.

Não querendo deixar a peteca cair, por mais que tenha sido surpreendido, o homem manteve a firmeza na sua voz.

— Não importa, porque garanto que quem quer que tenha te educado, não te educou pra isso. Vamos, onde você mora?

Butão cruzou os braços e não o respondeu.

— Olha, não é tão difícil descobrir onde que as pessoas moram nessa rua. Você só vai adiar a minha conversa com a sua mãe, mas não vai impedir.

Emburrado, Butão agachou-se para pegar sua bicicleta e foi andando em direção a sua casa, sendo acompanhado pelo adulto-herói.

Ainda assustada com tudo o que acontecera, Bárbara não tinha certeza se estava lisonjeada pela defesa de Butão ou com medo da capacidade de seu amigo de ferir outra pessoa.


Este texto é administrado por: Sabrina Queiroz
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